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José Saramago

José Saramago
Xavana Celesnah

José Saramago: vida, obras e características de sua literatura

José Saramago: obras, livros, características e o Nobel de Literatura

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” É com esse convite que José Saramago inicia Ensaio sobre a Cegueira, um de seus livros mais conhecidos. Imagine que, de repente, uma cidade inteira deixasse de enxergar. Não seria uma escuridão comum, mas uma cegueira branca, semelhante a um mar de leite que apagasse os contornos do mundo.

Sem conseguir reconhecer ruas, rostos ou perigos, as pessoas dependeriam umas das outras até para realizar as tarefas mais simples. Quanto tempo levaria para as regras da convivência começarem a desmoronar? E, quando ninguém mais pudesse ver, quem ainda seria capaz de enxergar o outro?

Ao acompanhar personagens anônimos atingidos por uma epidemia inexplicável, o escritor português transforma uma situação impossível em uma reflexão sobre medo, poder, egoísmo, solidariedade e responsabilidade.

Nos romances de José Saramago, acontecimentos impossíveis servem como ponto de partida para pensar sobre problemas que fazem parte da vida real. Em A Jangada de Pedra, a Península Ibérica desprende-se da Europa; em As Intermitências da Morte, a morte deixa de cumprir sua função; e, em O Homem Duplicado, um professor encontra alguém exatamente igual a ele.

Mergulhar em sua obra é entrar em uma literatura profunda e inquietante, que nos obriga a olhar além das aparências e a refletir sobre quem somos, como tratamos o outro e que tipo de sociedade estamos construindo.

Quem é José Saramago?

Retrato em preto e branco de José Saramago usando óculos e terno
José Saramago, primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura.

José de Sousa Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, em Portugal, em uma família de camponeses sem terra. Ele deveria ter recebido o mesmo nome do pai, José de Sousa, mas o funcionário do Registro Civil acrescentou, por iniciativa própria, o sobrenome Saramago, alcunha pela qual a família paterna era conhecida na aldeia.

O termo designa uma planta que cresce espontaneamente nos campos e cujas folhas, em épocas de escassez, eram usadas na alimentação das famílias pobres.

Ainda pequeno, Saramago mudou-se com os pais para Lisboa. As dificuldades econômicas impediram que prosseguisse os estudos regulares: frequentou uma escola técnica e trabalhou como serralheiro mecânico antes de exercer diferentes atividades ligadas aos livros e à imprensa.

Foi funcionário público, tradutor, editor, crítico literário e jornalista. Aos 24 anos, publicou seu primeiro romance, Terra do Pecado, em 1947, mas essa estreia não lhe trouxe reconhecimento imediato.

Depois de um longo intervalo, Saramago encontrou sua voz literária mais característica somente após os 50 anos, quando passou a reunir experiência histórica, reflexão filosófica, atenção à linguagem e uma maneira muito própria de narrar.

Sua trajetória tornou-se, assim, um dos exemplos mais célebres de sucesso tardio e amadurecimento intelectual da literatura mundial: embora tenha começado a publicar ainda jovem, foi na maturidade que construiu as obras que o transformariam em um dos maiores escritores da língua portuguesa.

Sua vida foi atravessada pela ditadura do Estado Novo português, regime autoritário que durou até a Revolução dos Cravos, em 1974. Saramago foi militante do Partido Comunista Português e nunca escondeu suas posições políticas. Isso não significa, porém, que seus romances possam ser reduzidos a discursos partidários.

A literatura de José Saramago questiona diversas formas de poder: político, econômico, religioso, burocrático e até linguístico, sobretudo quando elas se apresentam como naturais e indiscutíveis.

Em 1992, a polêmica em torno do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo abalou a relação de José Saramago com o governo português. Um representante do governo impediu que o romance concorresse a um prêmio literário europeu, por considerar que a obra ofendia os católicos.

Saramago interpretou a decisão como um ato de censura e, no ano seguinte, mudou-se de Portugal para a ilha de Lanzarote, nas Canárias, acompanhado de sua esposa, a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Río, com quem era casado desde 1988. O escritor viveu na ilha até sua morte, em 18 de junho de 2010.

Em 1998, José Saramago recebeu o Nobel de Literatura, tornando-se o primeiro autor de língua portuguesa a conquistar o prêmio. A distinção não foi concedida por um livro específico, mas reconheceu o conjunto de sua obra.

Na justificativa oficial, a Academia Sueca destacou as parábolas sustentadas pela “imaginação, compaixão e ironia” com as quais o escritor permite ao leitor compreender uma realidade difícil de apreender.

O reconhecimento ampliou mundialmente o alcance de seus livros, mas não interrompeu sua produção: mesmo consagrado, Saramago continuou escrevendo romances que questionam instituições e conduzem o leitor a enfrentar perguntas difíceis sobre a sociedade e a condição humana.

José Saramago segura a medalha e o diploma do Nobel de Literatura
José Saramago durante a cerimônia de entrega do Nobel de Literatura, realizada em 10 de dezembro de 1998, em Estocolmo, na Suécia.

Obras de José Saramago: fases e características de sua literatura

A trajetória de José Saramago foi construída aos poucos e passou por diferentes gêneros, como poesia, crônica, teatro e romance.

A partir do final da década de 1970, o escritor começou a desenvolver as principais características de sua literatura: frases longas, pontuação pouco convencional, influência da oralidade e uma voz narrativa que conversa diretamente com o leitor.

Esse estilo tornou sua escrita facilmente reconhecível e consolidou Saramago como um dos autores mais importantes da literatura portuguesa.

Em Levantado do Chão (1980), Saramago retrata a vida dos trabalhadores rurais do Alentejo e dá destaque a pessoas que geralmente permanecem fora dos livros de História.

Essa perspectiva também aparece em Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), romances que revisitam diferentes períodos da história portuguesa.

Em vez de apresentar o passado apenas por meio de reis, governantes e grandes acontecimentos, o escritor direciona o olhar para trabalhadores, mulheres, pobres e anônimos que participaram da construção da sociedade, mas foram frequentemente esquecidos pelos relatos oficiais.

Na década de 1990, os livros de José Saramago passaram a explorar situações mais universais, sem abandonar a crítica política e social. Em Ensaio sobre a Cegueira (1995), por exemplo, nem a cidade nem a maioria dos personagens recebem nomes, o que permite imaginar que aquela epidemia poderia acontecer em qualquer lugar.

Dessa maneira, o romance ultrapassa uma realidade específica e leva leitores de diferentes países a refletirem sobre o comportamento humano e sobre a fragilidade das sociedades que se consideram seguras, organizadas e civilizadas.

Principais livros de José Saramago

Capa amarela do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
Capa de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Os livros de José Saramago são diversos, mas compartilham o hábito de partir de uma hipótese inesperada. A partir dela, o escritor acompanha as consequências humanas, sociais e políticas do impossível.

Livros de José Saramago
Obra Ano Ponto de partida Questões centrais
Levantado do Chão 1980 A vida de gerações de trabalhadores do Alentejo Exploração, resistência, desigualdade e memória coletiva
Memorial do Convento 1982 A construção do Convento de Mafra e o sonho de uma máquina voadora Poder, trabalho, amor, imaginação e apagamento histórico
O Ano da Morte de Ricardo Reis 1984 Um heterônimo de Fernando Pessoa regressa a Lisboa Identidade, autoria, fascismo, passividade e História
A Jangada de Pedra 1986 A Península Ibérica se separa da Europa e começa a navegar Fronteiras, identidade ibérica, pertencimento e política
História do Cerco de Lisboa 1989 Um revisor acrescenta um “não” a um relato histórico Verdade, linguagem, autoria e possibilidades do passado
O Evangelho Segundo Jesus Cristo 1991 A narrativa bíblica é recriada sob uma perspectiva humana Culpa, liberdade, poder divino e responsabilidade
Ensaio sobre a Cegueira 1995 Uma epidemia de cegueira branca atinge uma cidade Civilização, violência, solidariedade, ética e visão
Todos os Nomes 1997 Um funcionário de cartório procura uma mulher desconhecida Burocracia, anonimato, desejo, existência e memória
A Caverna 2000 Uma família de oleiros perde espaço para um enorme centro comercial Consumo, trabalho, tecnologia, tradição e alienação
O Homem Duplicado 2002 Um professor encontra um homem fisicamente idêntico a ele Identidade, singularidade, medo e liberdade
Ensaio sobre a Lucidez 2004 A maioria dos eleitores vota em branco Democracia, repressão, cidadania e poder estatal
As Intermitências da Morte 2005 Em um país, ninguém mais morre Finitude, instituições, afeto e sentido da vida
Caim 2009 Um personagem bíblico percorre episódios do Antigo Testamento Justiça, autoridade, violência e interpretação religiosa

A tabela acima funciona como um mapa inicial, não como uma ordem obrigatória de leitura. Quem se interessa por distopias e dilemas coletivos pode começar por Ensaio sobre a Cegueira.

Já os leitores que gostam de História podem escolher Memorial do Convento, romance estudado no ensino secundário de Portugal, equivalente ao ensino médio brasileiro, como uma das opções de leitura integral da obra de Saramago.

A presença do livro no currículo também aproxima literatura e patrimônio: todos os anos, muitos estudantes visitam o Palácio Nacional de Mafra para conhecer o cenário histórico que inspirou o romance e compreender melhor sua narrativa.

O que torna a escrita de José Saramago tão singular?

Um leitor que abre um romance de Saramago pela primeira vez pode estranhar os parágrafos longos, as falas misturadas à narração e a ausência de travessões ou aspas nos diálogos.

É comum ouvir que o autor “não usa pontuação”. A afirmação é incorreta. Há vírgulas e pontos em abundância; o que muda é a maneira como organizam a voz narrativa e as falas.

A professora Bruna Martiolli, doutoranda em Estudos de Cultura e Interartes pela Universidade do Porto e mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade do Minho, no curso Eça, Pessoa, Agustina e Saramago, reflete:

Você abre o livro junto comigo, olha aqui: temos muita pontuação. A questão é só que a gente não tem os diálogos preestabelecidos, porque nós estamos num mundo caótico. Como ser verossímil em um texto se eu quero mostrar ao leitor um mundo cego, um mundo de imagens paradas, de falta de força e de entonação?

Em muitos romances, o narrador introduz uma fala com uma vírgula e começa a resposta de outro personagem com letra maiúscula. O leitor identifica quem fala por meio do contexto, da mudança de tom e da própria sequência da conversa.

O diálogo não é isolado do restante da narrativa: vozes, pensamentos, comentários e acontecimentos correm no mesmo fluxo.

Essa escolha formal não é um descuido. Ela aproxima escrita e oralidade, exige participação ativa e impede que a leitura seja totalmente automática. Bruna Martiolli chama atenção para a relação entre forma e conteúdo:

Aqui a gente tem uma narrativa que vai acompanhar o drama dos personagens. Então não é que Saramago escreve sem pontuação ou que Saramago estava confuso. Saramago se esforçou muito para nos mostrar como estamos cegos.

Bruna Martiolli

Entre as principais características de José Saramago, podemos destacar:

  • períodos e parágrafos longos, conduzidos por vírgulas e por um ritmo próximo da fala;
  • diálogos integrados ao texto, geralmente sem travessões e sem aspas;
  • narrador participante, irônico e reflexivo;
  • uso de acontecimentos fantásticos tratados como parte do cotidiano;
  • personagens muitas vezes identificados por funções ou características, e não por nomes;
  • revisão crítica da História e atenção às pessoas apagadas dos relatos oficiais;
  • humor que convive com questões políticas, éticas e existenciais;
  • alegorias que não possuem uma única interpretação correta.

Ensaio sobre a Cegueira: o que acontece quando as certezas desabam?

Publicado em 1995, Ensaio sobre a Cegueira começa em um semáforo. Quando o sinal abre, um automóvel permanece parado. Seu motorista acaba de perder a visão, embora não veja tudo escuro: está mergulhado em uma claridade branca.

A cegueira se espalha rapidamente entre as pessoas que tiveram contato com ele, entre elas um médico oftalmologista e pacientes de seu consultório.

As autoridades interpretam o fenômeno como uma epidemia e colocam os primeiros cegos em quarentena em um antigo manicômio. Soldados vigiam o local, enquanto instruções gravadas prometem ordem.

A mulher do médico, única personagem que continua enxergando, finge ter cegado para acompanhar o marido. É por meio dela que os leitores observam o que ocorre no confinamento.

Os personagens não recebem nomes próprios. São o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta e o rapazinho estrábico.

A escolha produz inicialmente alguma confusão, mas também retira dos personagens identidades sociais rígidas. Eles podem representar muitas pessoas sem deixar de adquirir comportamentos e vínculos particulares.

O título chama a obra de “ensaio”, embora se trate de um romance. A palavra sugere experiência, tentativa e investigação. Saramago não apresenta uma tese científica sobre a humanidade; cria condições extremas e acompanha possibilidades.

O confinamento funciona como um microcosmo da sociedade: há regras, distribuição de recursos, disputa por espaços, formação de grupos e abuso de poder.

Bruna Martiolli relaciona esse cenário à pergunta sobre o que sustenta a civilização:

Como nós nos tornamos mais civilizados? Será que não é só uma camada muito fina das nossas crenças, do nosso cotidiano e da nossa sociedade que nos ilude de que estamos civilizados? Mesmo em um microcosmo em que tudo era dividido por igual, o ser humano dá um jeito de começar uma guerra.

Bruna Martiolli

O livro assusta não apenas porque mostra a queda da organização coletiva, mas porque sugere que a ordem anterior talvez já contivesse injustiças que preferíamos não enxergar.

Quando serviços e autoridades deixam de funcionar, o colapso não cria do nada o egoísmo e a desigualdade; ele os torna visíveis e permite que se ampliem.

A epidemia revela a fragilidade de uma sociedade que dependia de regras, mas nem sempre de responsabilidade pelo outro.

A cegueira é uma metáfora?

É possível interpretar a cegueira branca como uma alegoria da incapacidade de reconhecer os outros, as injustiças e a participação de cada pessoa na vida coletiva.

Mas uma boa alegoria não funciona como uma equação na qual um elemento possui um único significado. A cegueira pode envolver indiferença, medo, excesso de confiança, obediência, egoísmo e recusa em examinar a realidade.

A cor branca é importante. Em vez de simplesmente retirar imagens, essa cegueira cobre tudo com luz. Isso permite pensar que também podemos deixar de ver quando estamos cercados por excesso: excesso de informações, opiniões, imagens, certezas e estímulos. Ter acesso a muitos conteúdos não garante compreensão. Podemos olhar continuamente para telas e ainda assim ignorar a pessoa diante de nós.

A professora propõe uma mudança decisiva de pergunta ao comentar a mulher do médico:

A gente começa a se perguntar: como ela não cegou? Só que a pergunta que ela faz é muito diferente. Ela está interessada em entender como eles cegaram. Uma coisa é a gente questionar por que cegam; outra coisa é ela tentar entender como não enxergam uns aos outros.

Bruna Martiolli

Perguntar por que apenas ela enxerga transforma a personagem em exceção quase misteriosa. Perguntar como os demais cegaram dirige a atenção para processos, comportamentos e escolhas. Em outras palavras, o problema deixa de ser somente o destino de uma pessoa e passa a ser a construção coletiva da cegueira.

A mulher do médico possui uma vantagem evidente: ela vê. Poderia usá-la apenas em benefício próprio, mas transforma a visão em responsabilidade. Isso não faz dela uma heroína perfeita. Ela sente medo, cansaço e revolta. Sua força não está em permanecer pura diante do horror, mas em continuar reconhecendo a humanidade dos outros quando as estruturas coletivas fracassam.

Bruna Martiolli destaca essa abertura ética:

A única pessoa que enxerga ali, que teria algum tipo de vantagem, não usa essa vantagem. Uns se desesperam, mostram a sua brutalidade, a sua natureza e sensibilidade. Outros usam da caridade, usam da ajuda, tentam melhorar, mesmo em completo caos.

Bruna Martiolli

Por isso, classificar Saramago simplesmente como pessimista empobrece sua literatura. Seus romances desconfiam das instituições e da facilidade com que a violência se normaliza, mas preservam a possibilidade da ação humana. A esperança não aparece como promessa de que tudo terminará bem. Ela existe como escolha difícil: cuidar, dividir, perguntar, desobedecer à injustiça e recusar a indiferença.

Essa ambivalência impede a separação confortável entre pessoas boas e más. Em diferentes circunstâncias, um mesmo indivíduo pode agir com generosidade ou egoísmo. Como explica Bruna Martiolli:

Muitos leem a narrativa de Saramago como pessimista. Será que é mesmo? Ou será que não expõe exatamente a fragilidade do homem, o colapso daquilo que, na realidade, somos? Podemos ser cruéis e amáveis no mesmo segundo. Podemos ser frágeis e fortes no mesmo momento.

Bruna Martiolli

Ensaio sobre a Cegueira no cinema: o olhar de Fernando Meirelles

Cartaz do filme Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles
Cartaz de Ensaio sobre a Cegueira (2008), filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles.

Em 2008, o romance Ensaio sobre a Cegueira ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, cineasta conhecido internacionalmente por Cidade de Deus.

Com roteiro de Don McKellar, o filme, intitulado Blindness em inglês, reúne no elenco Julianne Moore, no papel da mulher do médico; Mark Ruffalo, como o médico; Alice Braga, como a rapariga dos óculos escuros; além de Danny Glover, Gael García Bernal, Yusuke Iseya e Yoshino Kimura.

Transformar o romance em filme apresentava um desafio curioso: como traduzir para uma arte baseada em imagens uma história sobre a perda da visão? A equipe não poderia simplesmente deixar a tela escura, pois a epidemia criada por Saramago é branca.

O diretor e o diretor de fotografia César Charlone recorreram a imagens muito claras, contrastes intensos, enquadramentos parciais, reflexos e momentos em que a visão parece encoberta. Assim, o espectador não apenas observa personagens cegos; em determinadas cenas, também perde referências e sente dificuldade para compreender o espaço.

O longa preserva elementos fundamentais do livro. A cidade continua sem nome definido, os personagens são identificados por descrições e a mulher do médico permanece como a única pessoa capaz de enxergar.

A produção foi filmada em locais de diferentes países, incluindo cidades do Brasil, do Canadá e do Uruguai. A combinação ajuda a criar um espaço urbano que parece familiar, mas não pertence claramente a uma única nação — uma solução coerente com o caráter universal da narrativa.

Cinema e literatura, entretanto, não contam histórias do mesmo modo. No livro, a voz do narrador comenta os acontecimentos, brinca com a linguagem e conduz o leitor por frases longas.

No filme, grande parte dessa experiência precisa ser construída por atuações, sons, montagem, luz e composição visual. Por isso, a adaptação não substitui a leitura. Ela oferece outra interpretação da obra e permite comparar como dois meios artísticos produzem desorientação, medo, proximidade e reflexão ética.

O filme abriu o Festival de Cannes de 2008 e tornou o universo do romance conhecido por um público ainda maior. Saramago inicialmente foi cuidadoso ao autorizar a adaptação, preocupado com a possibilidade de a história ser transformada apenas em espetáculo.

Depois de assistir ao resultado ao lado de Meirelles, demonstrou aprovação e emoção. Essa reação não encerra o debate sobre as escolhas do longa, mas mostra que o escritor reconheceu nele uma leitura legítima de sua criação.

José e Pilar: o escritor para além dos livros

Cartaz do documentário José e Pilar sobre José Saramago e Pilar del Río
Dirigido por Miguel Gonçalves Mendes, o documentário José e Pilar (2010) acompanha José Saramago e Pilar del Río entre a escrita, as viagens e a vida cotidiana.

Para quem deseja conhecer o homem por trás da obra, o documentário José e Pilar oferece um retrato próximo dos últimos anos de José Saramago. Lançado em 2010, o filme foi dirigido pelo português Miguel Gonçalves Mendes e acompanha o cotidiano do escritor e de Pilar del Río, jornalista e tradutora espanhola com quem ele se casou em 1988.

Mais do que organizar depoimentos sobre uma personalidade famosa, o documentário observa uma vida acontecendo.

Durante cerca de quatro anos, a câmera acompanhou o casal em Lanzarote e em viagens por diferentes países. Saramago aparece escrevendo A Viagem do Elefante, participando de eventos, encontrando leitores, enfrentando uma agenda cansativa e refletindo sobre literatura, política e passagem do tempo.

Pilar organiza compromissos, traduz textos e discursos, conversa, discorda e protege o espaço necessário para que a obra continue. Ela não surge apenas como “a esposa do escritor”, mas como interlocutora intelectual e participante decisiva de sua vida pública e literária.

O título coloca os dois nomes lado a lado porque a relação entre eles é o centro do filme. O documentário permite perceber que um livro, embora tenha um autor, não nasce completamente isolado do mundo.

Ao redor da escrita existem conversas, leituras, cuidados, deslocamentos, conflitos, tarefas e pessoas. Essa perspectiva humaniza Saramago sem tentar transformá-lo em personagem perfeito.

Também é possível aproximar o documentário de temas presentes nos romances. O escritor que questionou o apagamento dos indivíduos aparece cercado por leitores de muitos lugares.

O autor que escreveu sobre o tempo e a morte trabalha com urgência em um novo livro. E Pilar, como algumas personagens femininas de Saramago, demonstra iniciativa, lucidez e capacidade de transformar afeto em ação concreta.

José e Pilar não é uma aula biográfica tradicional. Seu valor está nos gestos, nas pausas e nas situações cotidianas que revelam como criação literária e existência se misturam.

Depois de conhecer o Nobel, as polêmicas e as posições políticas do autor, o espectador encontra um homem envelhecendo, trabalhando, viajando, fazendo humor e partilhando a vida.

Por que José Saramago continua atual?

José Saramago ocupa um lugar central na literatura mundial porque transformou o romance em um espaço de investigação profunda sobre a humanidade. Primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura, ele ultrapassou as fronteiras de Portugal ao criar histórias capazes de interrogar leitores de diferentes países e gerações.

Em vez de oferecer respostas prontas, seus livros examinam as contradições que sustentam a vida em sociedade: a convivência entre democracia e autoritarismo, progresso e desigualdade, conhecimento e indiferença.

Para Saramago, leis e instituições são importantes, mas não bastam para formar uma sociedade verdadeiramente humana. A civilização também depende de nossa capacidade de reconhecer a dignidade, a liberdade e a fragilidade do outro.

Essa reflexão aparece em romances construídos a partir de hipóteses extraordinárias. Em Ensaio sobre a Cegueira, uma epidemia revela que a perda mais grave não é a da visão, mas a incapacidade de perceber o sofrimento alheio.

Em A Caverna, um enorme centro comercial ameaça um modo de vida baseado no trabalho artesanal e mostra como o consumo pode transformar desejos, relações e identidades.

Ensaio sobre a Lucidez questiona os limites de uma democracia que reage com repressão quando os cidadãos votam de uma maneira inesperada.

Todos os Nomes acompanha um funcionário que tenta recuperar a história de uma mulher reduzida, pelo sistema burocrático, a uma simples ficha.

Essas obras não são previsões literais do futuro: permanecem atuais porque nos oferecem instrumentos para compreender um mundo cada vez mais conectado pela tecnologia, mas ainda marcado pela solidão, pela desigualdade e pelo apagamento das pessoas.

A grandeza de Saramago também está na complexidade com que ele representa o ser humano. Seus personagens não são completamente bons ou maus: diante de situações extremas, podem oscilar entre egoísmo e generosidade, obediência e resistência, medo e coragem.

Ao evitar julgamentos simples, o escritor leva o leitor a uma pergunta incômoda: como agiríamos se as regras que organizam nossa vida deixassem de funcionar?

Sua escrita singular, marcada por frases longas, diálogos integrados à narração e um ritmo próximo da oralidade, reforça esse desafio ao exigir uma leitura atenta e participativa.

Ler José Saramago é, portanto, mais do que conhecer um dos maiores nomes da literatura portuguesa: é entrar em contato com uma obra universal que nos obriga a examinar quem somos e que sociedade estamos construindo.

Perguntas frequentes

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