Artes, Literatura e História

Como criar o hábito da leitura de forma prazerosa

Como criar o hábito da leitura de forma prazerosa

Por que é tão difícil transformar a vontade de ler em uma prática prazerosa e constante? Entender como criar o hábito de leitura envolve ir além de metas e disciplina para considerar a curiosidade, a atenção e a relação pessoal que construímos com os livros.

Neste artigo, vamos refletir sobre como criar o hábito de leitura, por que tantos jovens deixam de ler, como escolher obras que despertem interesse, qual é o papel da releitura e por que a qualidade da experiência pode ser mais importante do que a quantidade de livros concluídos.

Mãos segurando um livro aberto sobre a grama
Livro aberto durante um momento de leitura ao ar livre. Fonte: Pexels

Criar o hábito de leitura costuma aparecer como uma meta em listas de objetivos pessoais, desafios de início de ano e promessas de desenvolvimento individual. A meta dos livros vem ao lado de aprender um novo idioma, praticar exercícios ou organizar melhor a rotina.

Ler mais livros parece representar uma versão ideal de quem gostaríamos de ser.

Ainda assim, basta observar a experiência de muitos adolescentes e jovens adultos para perceber que essa intenção raramente se transforma em uma prática duradoura.

Livros são comprados com entusiasmo, começam a ser lidos e, poucas semanas depois, voltam para a estante com um marcador de páginas que permanece no mesmo lugar durante meses.

Diante disso, criar o hábito da leitura torna-se um desafio e a dificuldade talvez não esteja na falta de disciplina, mas no costume de não incluir a leitura entre as atividades cotidianas.

A formação de um leitor depende da curiosidade, da atenção e da construção de uma relação afetiva com os livros. A leitura é uma experiência humana capaz de ampliar nossa percepção do mundo, indo muito além de uma mera habilidade que pode ser medida pela quantidade de páginas lidas.

Criar um hábito de leitura, nesse sentido, não significa transformar os livros em mais uma obrigação da rotina, mas sentir um prazer real e significativo no ato de ler.

O hábito de leitura não nasce da disciplina

Mulher idosa de óculos lendo um livro
A leitura pode acompanhar diferentes fases da vida e integrar a rotina cotidiana. Fonte: Pexels

Sempre que alguém procura maneiras de criar um novo hábito, a disciplina costuma aparecer como a resposta mais imediata.

Organizar horários, estabelecer metas e repetir um comportamento diariamente são estratégias úteis em muitas situações, mas a leitura apresenta uma característica que a distingue de outras práticas cotidianas: ela depende de uma forma de envolvimento que não pode ser produzida apenas pela repetição.

Um livro pode permanecer aberto durante meia hora diante de um leitor cuja atenção nunca chegou verdadeiramente ao texto.

Os olhos percorrem as páginas, mas o pensamento continua preso às notificações do celular, às preocupações da semana ou à ansiedade provocada pela sensação de que seria mais produtivo fazer outra coisa. O tempo dedicado à leitura existe, mas a experiência de leitura ainda não aconteceu.

Por que a repetição não basta para formar um leitor?

Essa diferença é importante porque modifica completamente a maneira como compreendemos o hábito. Em geral, imaginamos que um hábito é um comportamento que se torna automático depois de repetido muitas vezes.

A leitura, porém, dificilmente se reduz a um automatismo. Cada livro exige uma disposição diferente, apresenta um ritmo próprio e convida o leitor a estabelecer uma relação singular com seus personagens, conflitos e ideias.

Ler um romance de formação não é a mesma experiência que ler um livro de poesia, uma reportagem literária ou um ensaio filosófico. Mesmo dentro de um único gênero, nenhuma leitura acontece exatamente da mesma maneira, porque o leitor também muda constantemente.

As perguntas que fazemos aos quinze anos dificilmente são as mesmas que levamos para um livro aos vinte ou aos trinta.

É justamente por isso que reduzir o hábito de leitura à ideia de disciplina pode produzir um efeito frustrante. Quando a principal preocupação passa a ser cumprir uma meta: cinquenta páginas por dia, um livro por semana ou determinado número de obras ao longo do ano, a leitura começa a reproduzir a lógica da produtividade que já ocupa tantos outros aspectos da vida.

Em vez de perguntar o que determinada narrativa desperta em nós, passamos a perguntar quanto falta para terminá-la. Pouco a pouco, o livro deixa de ser um espaço de descoberta e se transforma em mais um item a ser riscado da lista de tarefas.

Nas reflexões desenvolvidas pelo historiador Dante Gallian na Casa do Saber, a literatura aparece como uma experiência capaz de interromper esse funcionamento automático da vida contemporânea.

Em vez de acelerar nosso pensamento, ela nos convida a desacelerar. Em vez de oferecer respostas rápidas, abre espaço para perguntas que exigem permanência.

Ao acompanhar um personagem durante centenas de páginas, somos convidados a habitar outro tempo, diferente daquele imposto pela sucessão contínua de estímulos digitais.

Ler exige aceitar que algumas passagens precisarão ser relidas, que certos livros vão provocar dúvidas e que nem toda experiência literária produzirá um entendimento imediato.

Ao contrário do consumo acelerado de informações, a literatura frequentemente nos convida a permanecer diante daquilo que ainda não compreendemos completamente. Aprender a sustentar perguntas também significa desenvolver uma relação menos apressada com o mundo e com as pessoas.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que tantas pessoas afirmam que "não conseguem criar o hábito de leitura", quando, na verdade, talvez nunca tenham encontrado um livro que despertasse sua curiosidade de forma suficientemente intensa.

O hábito não nasce apenas da repetição, ele nasce do desejo de continuar. É esse desejo que faz um leitor seguir adiante mesmo quando a narrativa se torna mais lenta, quando surgem passagens difíceis ou quando o cotidiano oferece inúmeras distrações.

A disciplina pode abrir espaço para a leitura, mas dificilmente consegue sustentá-la sozinha. O que permanece é a relação construída entre o leitor e o livro.

Por que tantos adolescentes deixam de ler?

Mulher sentada ao ar livre lendo um livro
O contato frequente com os livros contribui para consolidar o hábito da leitura. Fonte: Pexels

É comum ouvir adultos dizendo que os adolescentes perderam o interesse pelos livros porque passam tempo demais nas redes sociais. Embora essa explicação pareça convincente à primeira vista, ela simplifica um fenômeno muito mais complexo.

Os jovens nunca estiveram tão cercados por histórias quanto hoje. Séries, filmes, jogos, podcasts, quadrinhos, mangás, fanfics e diferentes formas de narrativa fazem parte do cotidiano de uma geração que cresceu consumindo ficção em múltiplas linguagens.

O problema, portanto, não é a ausência de interesse por histórias. O desafio está na maneira como os livros passaram a ocupar um lugar específico dentro dessa experiência.

Da descoberta infantil à leitura obrigatória

Durante a infância, a leitura costuma estar associada ao encantamento. Antes mesmo de aprender a ler, muitas crianças desenvolvem uma relação afetiva com os livros por meio da mediação de familiares, professores ou contadores de histórias.

Nesse momento, ninguém espera que elas identifiquem figuras de linguagem ou elaborem interpretações sofisticadas sobre o enredo. O livro é, antes de tudo, um espaço de imaginação.

As histórias despertam curiosidade, provocam medo, fazem rir e permitem experimentar mundos que ainda não conhecemos. A leitura nasce ligada ao prazer da descoberta.

Na adolescência, essa relação frequentemente sofre uma transformação. Os livros passam a integrar listas obrigatórias, avaliações escolares e exames vestibulares.

Ler deixa de significar apenas descobrir uma história para também responder questões, produzir resumos e demonstrar compreensão diante de critérios previamente estabelecidos.

Naturalmente, o estudo da literatura desempenha um papel importante na formação intelectual, mas ele pode gerar um efeito indesejado quando se torna praticamente a única forma de contato com os livros. Aos poucos, muitos estudantes passam a associar a leitura menos à curiosidade e mais à cobrança.

Essa mudança ajuda a explicar por que tantas pessoas afirmam que gostavam de ler quando eram crianças. Na maior parte dos casos, elas não perderam a capacidade de se interessar por narrativas.

O que mudou foi o contexto em que passaram a encontrá-las. Quando toda leitura parece servir apenas para uma prova ou para cumprir uma obrigação, torna-se difícil construir um vínculo espontâneo com os livros. A literatura deixa de ser percebida como um encontro e passa a ser tratada como uma tarefa.

O escritor Jeferson Tenório tem defendido, em diferentes reflexões sobre literatura e formação do leitor, que ler é uma forma de entrar em contato com outras subjetividades.

Ao acompanhar personagens muito diferentes de nós, descobrimos que nossa maneira de experimentar o mundo não é a única possível. Esse exercício de alteridade amplia nossa percepção da realidade justamente porque nos obriga a abandonar, ainda que temporariamente, o centro da própria experiência.

Um romance não nos oferece apenas informações sobre outra época ou outro lugar. Ele modifica a maneira como percebemos conflitos, afetos, desigualdades e escolhas humanas.

Autonomia para escolher o que ler

Essa transformação costuma começar quando o leitor conquista autonomia para fazer suas próprias escolhas. Em algum momento, a leitura deixa de ser apenas aquilo que foi indicado pela escola ou pelos adultos e passa a refletir interesses pessoais.

Um jovem que encontra um romance porque se reconhece em determinado personagem, porque deseja compreender uma questão que o atravessa ou simplesmente porque ficou curioso diante de uma história inicia uma relação completamente diferente com os livros.

A formação do leitor amadurece justamente quando ele percebe que a literatura não existe apenas para ensinar alguma coisa, mas também para provocar perguntas que talvez nenhuma outra linguagem consiga formular da mesma maneira.

É por isso que criar o hábito de leitura exige mais do que insistir em técnicas de organização. Exige reconstruir a relação com os livros, devolvendo à leitura algo que muitas vezes se perde ao longo da vida escolar: a possibilidade de escolher, experimentar, abandonar um caminho e encontrar outro.

O leitor se forma quando compreende que ler não significa apenas concluir um livro, mas construir uma conversa com diferentes formas de compreender a experiência humana.

Ler por obrigação é diferente de ler por escolha

Mulher lendo um livro aberto sobre uma manta na grama
Um espaço confortável ao ar livre favorece momentos de concentração e leitura. Fonte: Pexels

A experiência de leitura muda profundamente conforme o motivo que nos leva a abrir um livro. À primeira vista, o objeto é o mesmo: as páginas, as palavras, a narrativa organizada em capítulos.

No entanto, a relação que se estabelece com o texto pode variar de maneira radical. Quando a leitura acontece por obrigação, seja por exigência acadêmica, seja por metas autoimpostas, o foco tende a se deslocar para fora da própria experiência.

O leitor lê para cumprir uma tarefa, e não necessariamente para se envolver com aquilo que está sendo narrado. Nesse cenário, o livro se transforma em um meio para atingir um fim: responder perguntas, produzir um resumo, concluir uma avaliação ou simplesmente terminar a leitura.

Essa lógica altera a forma como o texto é percebido. Em vez de acompanhar o desenvolvimento da narrativa, o leitor passa a procurar informações específicas, personagens principais, eventos centrais e possíveis interpretações consideradas corretas.

A leitura se aproxima de um exercício de decodificação, no qual o objetivo é extrair o máximo de conteúdo no menor tempo possível.

Embora esse tipo de abordagem possa ser útil em determinados contextos acadêmicos, ele dificilmente sustenta uma relação duradoura com a literatura. Isso porque o vínculo com o livro deixa de ser construído a partir da curiosidade e passa a ser guiado pela obrigação de desempenho.

O que muda quando a leitura é uma escolha?

Quando a leitura é escolhida, porém, a dinâmica se altera. Isso não significa que todos os livros se tornam imediatamente interessantes ou fáceis, mas que existe uma disposição diferente diante do texto.

O leitor aceita a possibilidade de não compreender tudo de imediato, de reler trechos, de avançar e recuar na narrativa sem a pressão de uma resposta final. A leitura passa a ser uma experiência em construção.

Há um deslocamento importante aqui: em vez de buscar apenas o que o texto quer dizer, o leitor começa a perceber o que o texto faz com ele, quais sensações desperta, quais lembranças mobiliza, quais perguntas coloca em movimento.

No curso A Literatura Brasileira Por Quem Faz, o escritor Jeferson Tenório, ao refletir sobre a literatura como espaço de formação subjetiva, sugere justamente essa abertura interpretativa. Ler, nesse sentido, é se colocar em contato com outras formas de vida, outras experiências e outras perspectivas de mundo.

Quando a leitura se torna escolha, ela passa a operar nesse território mais amplo, no qual o livro se torna um espaço de encontro. Esse encontro não é necessariamente confortável.

Muitas vezes, ele envolve desconforto, estranhamento ou identificação inesperada, elementos que dificilmente aparecem quando a leitura é reduzida a um exercício de resposta correta.

Por que alguns livros permanecem conosco?

Essa diferença também ajuda a compreender por que alguns livros permanecem conosco mesmo depois de terminados, enquanto outros desaparecem da memória pouco tempo depois da leitura.

Quando há envolvimento, o texto continua atuando de maneira indireta na forma como pensamos, lembramos e interpretamos situações cotidianas. A leitura escolhida não se encerra com a última página, ela se prolonga na maneira como reorganizamos nossa experiência do mundo e, dependendo do envolvimento social com determinada obra, ela pode se tornar um clássico.

A escritora espanhola Irene Vallejo, cita no seu livro O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo, um trecho escrito por J.M. Coetzee em “Qué es un clásico? , una conferencia” que fala sobre a sobrevivência histórica de certas obras:

O clássico é aquilo que sobrevive à pior barbárie, aquilo que sobrevive porque há gerações de pessoas que não podem permitir-se ignorá-lo e portanto, se agarram a ele a qualquer preço.

A atenção se tornou um dos maiores desafios da leitura

Mulher sentada no gramado lendo um livro vermelho
Leitora aproveita um ambiente tranquilo ao ar livre para se dedicar a um livro. Fonte: Pexels

Se o hábito de leitura não depende apenas da disciplina, isso se torna ainda mais evidente quando observamos o contexto contemporâneo em que os jovens estão inseridos.

Nunca houve tantas possibilidades de acesso a narrativas, informações e estímulos visuais como hoje. Ao mesmo tempo, também nunca foi tão difícil sustentar a atenção em uma única atividade por longos períodos.

Redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo curto reorganizaram profundamente a forma como nos relacionamos com o tempo e com o foco.

Essa mudança não significa que as novas tecnologias sejam incompatíveis com a leitura, mas que elas criam uma lógica de atenção diferente. Em muitos ambientes digitais, o funcionamento básico é o da interrupção constante: um conteúdo leva ao outro, um vídeo se segue ao próximo, uma notificação interrompe uma leitura, uma nova aba se abre antes mesmo de a anterior ser concluída.

Esse fluxo contínuo de estímulos produz uma sensação de movimento permanente, mas nem sempre de aprofundamento. A atenção se fragmenta em múltiplos pontos de dispersão.

A leitura exige outro ritmo de atenção

A leitura literária, por outro lado, exige uma temporalidade distinta. Um romance não se revela de forma imediata, e muitas vezes não oferece recompensas instantâneas.

Personagens precisam ser construídos ao longo de páginas, conflitos se desenvolvem gradualmente e certas ideias só fazem sentido quando vistas em perspectiva.

Isso exige do leitor uma disposição para permanecer, ainda que o ritmo não seja sempre estimulante. É nesse ponto que muitos encontram dificuldade: não porque não consigam ler, mas porque estão habituados a operar em outra velocidade.

Nas reflexões de Dante Gallian, a literatura aparece justamente como um espaço de resistência a essa aceleração. Ela não compete com o ritmo da informação imediata, mas oferece outra forma de experiência do tempo.

Ler um livro é, de certa forma, aceitar habitar uma duração que não é ditada pela urgência externa. Isso não significa desconexão do mundo contemporâneo, mas a possibilidade de experimentar uma relação mais lenta e reflexiva com a linguagem e com as ideias.

Reaprender a permanecer diante do texto

Esse deslocamento também ajuda a compreender por que muitas pessoas sentem dificuldade em retomar o hábito de ler depois de longos períodos sem contato com livros.

Não se trata apenas de voltar a ler, mas de reaprender uma forma de atenção que não é estimulada em outros ambientes.

Essa reaprendizagem não acontece de forma imediata. Ela se constrói aos poucos, à medida que o leitor encontra textos que conseguem sustentar seu interesse e, ao mesmo tempo, aceita o desafio de permanecer diante de narrativas mais longas e complexas, sem interromper constantemente sua atenção por notificações.

Como encontrar livros que dialoguem com você?

Pessoas observando livros expostos sobre uma mesa em livraria
Leitores exploram diferentes títulos disponíveis entre mesas e estantes de uma livraria. Fonte: Pexels

Uma das maiores dificuldades para quem tenta desenvolver o hábito de leitura está na escolha dos livros. Muitas vezes, a primeira associação é recorrer a listas de obras consideradas importantes, clássicos obrigatórios ou recomendações genéricas encontradas na internet.

Embora essas indicações possam ser úteis, elas nem sempre levam em conta o momento específico de cada leitor. A relação com um livro não depende apenas de sua relevância cultural, mas também da disposição interna de quem o lê.

Nesse sentido, a formação de um leitor envolve também um processo de descoberta pessoal. Há livros que fazem sentido em determinados momentos da vida e outros que só serão compreendidos muito tempo depois.

Essa ideia aparece em diferentes reflexões do escritor Ítalo Calvino, especialmente quando ele sugere que certos livros nos acompanham ao longo do tempo, mesmo quando não estamos lendo ativamente. Eles permanecem como uma espécie de presença latente, que pode ser retomada em outro contexto e adquirir novos significados.

Encontrar livros que dialoguem com o leitor, portanto, não significa apenas escolher obras fáceis ou adequadas para iniciantes, mas experimentar diferentes caminhos até identificar aqueles que despertam algum tipo de curiosidade genuína.

Esse interesse pode surgir de formas variadas: uma história que parece familiar, um tema que provoca inquietação, um personagem que desperta identificação ou até mesmo uma linguagem que causa estranhamento.

O importante não é o ponto de partida em si, mas a abertura para reconhecer quando uma leitura estabelece algum tipo de conexão.

Leitura como desempenho Leitura como experiência
Foco em terminar o livro Foco no percurso da leitura
Busca por respostas corretas Abertura para interpretações
Tempo como cobrança Tempo como construção
Leitura fragmentada Leitura contínua
Resultado final Relação com o texto

Essa diferença ajuda a compreender por que o hábito de leitura não pode ser reduzido a uma técnica. Ele envolve uma construção gradual de repertório, de interesse e de disponibilidade para experimentar diferentes tipos de narrativa.

Em vez de pensar apenas em “ler mais”, talvez seja mais produtivo pensar em “ler de maneiras diferentes”, permitindo que o contato com os livros seja também um processo de descoberta sobre aquilo que desperta nossa atenção.

Existe prazer na leitura difícil?

Nem toda leitura que exige esforço deve ser evitada. Existe uma tendência contemporânea de associar prazer apenas ao que é imediato, fluido e facilmente compreensível, como se qualquer forma de dificuldade fosse um sinal de que o livro “não é para mim”.

No entanto, parte importante da formação de um leitor acontece justamente no contato com textos que não se entregam de forma automática. A literatura, em muitos casos, não se oferece como algo simples de absorver, mas como algo que pede tempo, retorno e disposição para permanecer diante do desconhecido.

Essa experiência não está restrita apenas aos chamados clássicos ou a obras consideradas complexas. Mesmo textos contemporâneos podem exigir do leitor uma atenção mais lenta, uma leitura mais pausada, ou a aceitação de que nem tudo será compreendido de imediato.

Em autores como Clarice Lispector ou Machado de Assis, por exemplo, o sentido não está apenas no enredo, mas na forma como a linguagem reorganiza o pensamento.

Ler esses autores não é apenas acompanhar uma história, mas entrar em contato com uma forma de escrever que exige outro tipo de escuta.

Nesse ponto, a dificuldade deixa de ser um obstáculo absoluto e passa a funcionar como parte da experiência. Há um tipo de prazer que não se baseia na facilidade, mas na descoberta gradual.

Quando o leitor retorna a um trecho, relê um parágrafo ou percebe algo que não havia notado antes, a leitura se transforma. É um ritmo diferente de compreensão.

Ler mais livros é realmente o objetivo?

A ideia de que criar o hábito de leitura significa necessariamente ler cada vez mais livros por ano é uma das mais difundidas, mas também uma das mais problemáticas.

Essa lógica transforma a leitura em uma métrica de desempenho, como se o valor da experiência pudesse ser medido pela quantidade de obras concluídas.

O valor do que permanece depois da leitura

No entanto, muitos leitores experientes relatam que certos livros permanecem com eles por muito mais tempo do que outros, independentemente da quantidade total lida.

Isso acontece porque a leitura não se limita ao momento em que estamos com o livro aberto. Ela se prolonga na forma como certas ideias continuam reverberando, como personagens permanecem na memória e como determinadas frases retornam em diferentes contextos da vida cotidiana.

Um único livro pode produzir efeitos mais duradouros do que vários outros lidos rapidamente. Nesse sentido, a pergunta mais relevante talvez não seja “quantos livros você leu?”, mas “o que permaneceu dessas leituras?”.

Essa mudança de perspectiva altera profundamente o modo como o hábito de leitura é compreendido. Em vez de um acúmulo progressivo, ele passa a ser visto como um processo de construção de relações com diferentes textos ao longo do tempo. Anotações e releituras integram o processo de envolvimento com determinadas leituras.

Alguns livros são lidos rapidamente e esquecidos, outros são abandonados e retomados anos depois. Outros ainda permanecem em silêncio até que uma nova experiência de vida os torne novamente relevantes.

A releitura também forma leitores

Se existe um elemento frequentemente subestimado na formação de leitores, ele é a releitura. Em geral, a ideia de hábito de leitura está associada ao movimento de avanço constante: ler novos livros, descobrir novas histórias, ampliar o repertório. No entanto, retornar a um mesmo texto em momentos diferentes da vida pode ser uma das experiências mais transformadoras da leitura.

Isso acontece porque o leitor se modifica. Uma obra lida na adolescência pode parecer completamente diferente quando revisitada na vida adulta. Situações que antes passavam despercebidas ganham novos significados, personagens que pareciam distantes tornam-se mais compreensíveis, e certas passagens adquirem uma profundidade que não estava disponível na primeira leitura.

Esse deslocamento mostra que o sentido de um livro não está fixado de forma definitiva no texto, mas se constrói na relação entre obra e leitor. Em vez de um ciclo de consumo linear, a leitura passa a ser compreendida como um movimento espiralado, no qual retornos não significam repetição, mas transformação.

Como criar o hábito da leitura?

Se há um ponto central em toda essa discussão, ele talvez esteja na necessidade de deslocar a leitura da lógica da produtividade.

Criar hábito de leitura não significa transformar livros em metas, rankings ou indicadores de desempenho pessoal. Significa construir uma relação em que a leitura possa existir como experiência prazerosa, e não apenas como tarefa.

Isso não implica abandonar qualquer forma de organização ou constância, mas reconhecer que a leitura não se sustenta apenas por obrigação. Ela precisa de espaço para o interesse, para a curiosidade e até para a interrupção.

Há períodos em que a leitura flui com naturalidade e outros em que ela se afasta da rotina. Esses movimentos fazem parte da experiência e não devem ser interpretados como fracasso.

Nesse sentido, talvez a questão não seja “como criar hábito de leitura?”, mas “como manter viva a possibilidade de ler?”.

Essa mudança de pergunta altera o foco: em vez de controlar o comportamento, passa-se a observar a relação. O hábito, quando acontece, é consequência dessa relação e não seu ponto de partida.

Perguntas frequentes sobre como criar hábito de leitura

Como criar hábito de leitura?

O hábito de leitura se desenvolve a partir da construção de uma relação com os livros, baseada em curiosidade, identificação e disponibilidade. Ele não depende apenas de disciplina ou metas rígidas.

Por que é tão difícil manter a leitura?

A dificuldade está relacionada tanto ao excesso de estímulos do cotidiano quanto à forma como a leitura é vivida: quando associada apenas à obrigação, tende a perder espaço para outras atividades mais imediatas.

Como começar a ler mais?

Mais importante do que quantidade é encontrar livros que despertem interesse genuíno. A continuidade da leitura costuma surgir quando existe envolvimento com o que está sendo lido.

Abandonar um livro significa fracasso?

Não. Abandonar uma leitura pode significar apenas que aquele livro não dialoga com o momento atual do leitor. A relação com a literatura não precisa ser linear.

Como gostar de ler?

O gosto pela leitura se desenvolve ao longo do tempo, a partir de experiências positivas com livros que fazem sentido em diferentes fases da vida.

Artigo escrito por
Xavana Celesnah
Xavana Celesnah é jornalista e mestre em Artes Visuais. Apaixonada pelas expressões artísticas em todas as suas manifestações, viu no jornalismo cultural uma maneira de aprofundar o conhecimento nos temas que ama.