Filosofia

Discurso em Foucault: conceito, poder, verdade e como aplicar

Discurso em Foucault: conceito, poder, verdade e como aplicar

O conceito de discurso em Foucault não designa uma simples manifestação verbal, um texto redigido ou a expressão retórica de uma opinião pessoal. Para o filósofo francês (1926-1984), refere-se a uma prática material e histórica, regida por regras e que delimita institucionalmente o que pode ser dito, pensado e chancelado como verdadeiro em uma determinada época.

Longe de atuar como espelho neutro das coisas, o discurso constrói os próprios objetos sobre os quais atua, confere autoridade a quem fala e define o que deve ser empurrado para a margem.

Neste texto, vamos aprofundar as camadas analíticas sobre este tema.

Onde se situa o conceito de “discurso” na Obra de Foucault?

Nas obras A Arqueologia do Saber (1969) e A Ordem do Discurso (1970), Foucault retira a linguagem do isolamento gramatical. Falar não é representar uma realidade prévia.

Falar, a partir de um lugar social legitimado, é uma prática que distribui lugares de poder, molda condutas e organiza a governabilidade sobre corpos e populações.

Por isso, a compreensão do que é discurso em Foucault passa necessariamente por desmistificar a crença comum de que as palavras circulam de forma livre e transparente na sociedade.

Do laudo médico à modulação invisível dos algoritmos de busca e da inteligência artificial, perpassando textos legais e institucionais, o que se impõe como fato decorre de uma triagem discursiva rigorosa e datada no tempo e espaço.

Pessoa segurando uma balança dourada da Justiça
A tese da "legítima defesa da honra" exemplifica como o discurso atua materialmente nas estruturas de poder: mesmo sem previsão no Código Penal, sua validação em plenários do Tribunal do Júri e em sentenças judiciais deslocava o foco do crime para a conduta moral da mulher assassinada, legitimando a violência sob uma ordem patriarcal. A decisão do STF na ADPF 779 (2023), que declarou a tese inconstitucional, resultou de anos de resistência discursiva e incidência política de movimentos da sociedade civil para barrar essa narrativa e institucionalizar um entendimento técnico condizente com a dignidade e a proteção jurídica das mulheres. Demonstra-se, na prática, que a verdade jurídica é uma construção histórica forjada por disputas institucionais contínuas. (Fonte da imagem: Magnifik)

O que é discurso em Foucault?

No entendimento foucaultiano, o discurso é um conjunto de enunciados que provém de um mesmo sistema de formação histórica.

O filósofo afasta a concepção humanista de que o indivíduo seja a fonte autônoma dos sentidos que emite. O sujeito que fala ocupa uma função preexistente, delimitada pelas regras de seu tempo.

Como apontam Garré e Vieira (2021), a proposta de Foucault concebe o discurso "não enquanto aquilo que representa a realidade, mas o que, de outra forma, a fabrica", examinando as discursividades em suas condições de existência e em seus efeitos materiais concretos.

As palavras não encontram conceitos prontos para simplesmente lhes colar rótulos. Campos como a loucura, a delinquência e a sexualidade só ganham consistência objetiva quando um aparato discursivo e institucional recorta seus sintomas e circunscreve suas práticas.

No curso Trilha da Filosofia | 8ª Temporada, da Casa do Saber, o professor Oswaldo Giacóia Junior sintetiza essa perspectiva:

A obra de Foucault reconstitui de maneira histórica, genealógica e arqueológica os modos como o sujeito ingressa em jogos de verdade a partir de relações de poder; como os regimes de verdade são apoiados por tecnologias de poder e como tecnologias de poder induzem regimes de verdade em uma relação em que esses dois termos se exigem mutuamente.

Oswaldo Giacóia Junior

Ao demonstrar que as pessoas ingressam em jogos de verdade em vez de criá-los a partir de uma consciência pura, a filosofia foucaultiana explicita que toda produção teórica é circunstancial e historicamente condicionada.

Resumo discurso em Foucault
  • Natureza prática: não é abstração gramatical; existe enquanto prática material em instituições.
  • Produtor de realidade: não reproduz as coisas com fidelidade; constrói os objetos de que fala.
  • Função transpessoal: antecede o indivíduo e estabelece quem tem autorização para intervir.
  • Vínculo com o poder: indissociável das relações de força; sustenta disputas políticas concretas.

Por que discurso não é fala, língua ou opinião?

No dicionário encontramos a língua: um sistema formal de signos e convenções gramaticais. Na conversa informal ou no post de rede social, exercemos a fala ou expomos uma opinião particular.

Para Michel Foucault, o discurso não é nenhuma dessas duas coisas.

A língua fornece os termos e a estrutura sintática necessária para que uma frase faça sentido. No entanto, o dicionário sozinho não explica por que certas afirmações ganham peso de “verdade indiscutível”, enquanto outras são tratadas como erro, delírio ou ignorância.

A opinião, por sua vez, parte do pressuposto de que o sujeito pensa com total autonomia e apenas exterioriza o que sente.

Foucault propõe uma nova lógica ao observar o discurso como uma prática material e histórica que já existe antes do falante. Ele determina previamente quem possui autoridade para tratar de determinado tema e quais critérios tornam uma fala socialmente aceita

Dimensão O que representa Onde opera Papel de quem fala
Língua Sistema formal de palavras e regras gramaticais. No código linguístico compartilhado. Subordina-se à gramática para ser compreendido.
Fala/Opinião Expressão particular e empírica da vontade. Na conversa cotidiana e no debate subjetivo. Acredita ser o criador autônomo do sentido da frase.
Discurso em Foucault Rede de regras históricas e institucionais. Em laudos, decisões, manuais e práticas sociais. Ocupa uma posição que confere (ou retira) validade ao que diz.

A distância entre a manifestação da fala e a autoridade discursiva fica nítida nas dinâmicas cotidianas.

Um indivíduo que sente fortes dores no peito pode descrever seus sintomas com riqueza de detalhes para conhecidos. Essa descrição permanece no campo da queixa particular ou da opinião leiga.

Se esses mesmos relatos forem acolhidos por um cardiologista e convertidos em termos técnicos, a fala torna-se um laudo médico, respalda intervenções cirúrgicas e tem validade jurídica para afastar o profissional de suas funções laborais.

A língua portuguesa utilizada por ambos é a mesma. O que mudou não foi o idioma nem a sinceridade de quem relatou a dor, mas o regime discursivo que credencia a palavra institucionalizada e destitui o relato comum de força decisória.

TRILHA DA FILOSOFIA | 8ª TEMPORADA - com Franklin Leopoldo e Silva e Oswaldo Giacoia Junior

Para compreender o pensamento de Michel Foucault em sua dimensão histórica, vale percorrer as oito temporadas da Trilha da Filosofia, uma jornada pelos maiores pensadores da história.

A 8ª temporada se dedica especialmente a Foucault, em diálogo com Hannah Arendt e Hans Jonas.

Conheça o curso

As quatro propriedades da função enunciativa

Para investigar o funcionamento dos discursos sem reduzi-los a construções puramente gramaticais, Foucault formula o conceito de enunciado em A Arqueologia do Saber (1969) .

O enunciado não equivale a uma frase (que depende de regras sintáticas), a uma proposição lógica (que exige a verificação de valor verdadeiro ou falso) ou a um simples ato de fala momentâneo. Trata-se de uma "função de existência", a engrenagem que possibilita a uma série de signos materiais aparecer com sentido e eficácia no interior de uma época.

Conforme Garré e Vieira (2021), a função enunciativa articula-se por meio de quatro propriedades centrais:

1) O referencial do enunciado

Não é o objeto concreto nem o assunto genérico. Refere-se às leis de possibilidade históricas que permitem à frase fazer sentido.

A palavra "burnout", por exemplo, não aponta apenas para o cansaço físico de alguém em um dia difícil. Ela só funciona porque existe um referencial contemporâneo consolidado que delimita o esgotamento profissional como um quadro de adoecimento reconhecido.

2) O sujeito do enunciado

Não é a pessoa biológica que escreve, mas um lugar institucional preexistente. Em uma decisão judicial, não é o indivíduo privado do magistrado que condena, mas a função de Estado que ele encarna. Sem essa investidura, o texto perde validade legal.

3) O domínio associado

Nenhum enunciado existe isolado no vácuo. Ele funciona conectado a uma rede contínua de outras formulações que o cercam, sustentam ou contestam.

Uma sentença jurídica só vigora conectada à Constituição, às súmulas dos tribunais e à doutrina consolidada.

4) A materialidade repetível

Demanda um suporte físico (papel, arquivo digital, protocolo) e sobrevive ao instante de sua pronúncia. Enquanto o ato da fala é efêmero, um diploma ou uma certidão conservam sua força probatória ao serem apresentados em diferentes instituições ao longo do tempo.

Dessa forma, o enunciado é a "modalidade de existência própria a esse conjunto de signos"; enquanto o discurso representa "um conjunto de enunciados que provém de um sistema de formação" (ambos - FOUCAULT, 1972, apud GARRÉ; VIEIRA).

Filtros de interdição e procedimentos de controle

Se em A Arqueologia do Saber Foucault investiga a engrenagem interna que permite ao enunciado existir, em A Ordem do Discurso (1970) a pergunta muda de escala:

Como as sociedades lidam com a força desestabilizadora das palavras depois que elas vêm à tona?

Foucault sustenta que toda sociedade estabelece barreiras rigorosas de contenção, seleção e redistribuição para mitigar os perigos do discurso e dominar seu acontecimento aleatório.

Esses mecanismos se dão em duas frentes complementares:

Procedimentos externos de exclusão

Atuam nas bordas da cultura, delimitando o que pode ser pronunciado e quem tem legitimidade social para falar:

  • A interdição da palavra: estabelece que não se pode dizer tudo; historicamente, a vigilância recai sobre a política, o sexo e a religião.
  • A segregação da loucura: trata a palavra divergente como delírio sem valor social ou a reduz a mero sintoma patológico a ser medicado.
  • A vontade de verdade: separa o verdadeiro do falso por meio de aparatos institucionais: "a vontade de verdade, como os outros sistemas de exclusão, apóia-se sobre um suporte institucional: é ao mesmo tempo reforçada e reconduzida por todo um compacto conjunto de práticas" (FOUCAULT, 1996 apud LEMOS; RODRIGUEZ; MONTEIRO, 2011).

Procedimentos internos de controle

Classificam e contêm a imprevisibilidade do pensamento a partir do próprio discurso:

  • O comentário: reinterpreta textos clássicos para limitar desvios e preservar sentidos oficiais.
  • O autor: reúne enunciados sob um mesmo nome para atribuir coerência e responsabilidade às formulações.
  • A organização das disciplinas: fixa métodos e conceitos para demarcar o que a academia aceita como ciência.

Síntese: os filtros internos e externos funcionam como uma triagem contínua que separa quem tem direito à voz de quem deve ser calado, domesticando as formulações aceitas para preservar a estabilidade da ordem social.

Circularidade entre discurso, poder e verdade

A contenção das palavras evidencia que a relação entre discurso e poder em Foucault ultrapassa a mera repressão estatal.

O poder moderno não atua somente quando silencia; ele é capilar, produtivo e fabrica campos de saber. Inclusive, Foucault rejeita a leitura estritamente negativa do poder:

É preciso parar de sempre descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele 'exclui', ele 'reprime', ele 'recalca', ele 'censura', ele 'abstrai', ele 'mascara', ele 'esconde'. De fato, o poder produz; ele produz; ele produz real; produz domínios de objeto e rituais de verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se podem ter dizem respeito a esta produção

(FOUCAULT, 1975 apud MACHADO, 2006, citado por LEMOS; RODRIGUEZ; MONTEIRO, 2011).

Nesse sentido, a aliança entre discurso e verdade funciona em dependência mútua com o poder: governos e instituições demandam discursos técnicos para chancelar decisões, enquanto as ciências exigem suporte institucional para serem aceitas como verdades.

Categoriza-se a vida para administrá-la.

A postura crítica perante as redes discursivas

Mapear as engrenagens do discurso não serve para alimentar um ceticismo estéril, mas para desnaturalizar as certezas impostas pelo presente.

Foucault combina a Arqueologia (que desenterra o solo histórico dos saberes) à Genealogia (que expõe as lutas materiais por trás do triunfo de certos dizeres), direcionando-nos a uma atitude crítica que reside na recusa de ser governado por imposições que se pretendem universais ou naturais.

FAQ - Perguntas frequentes sobre discurso em Foucault

O que é discurso em Foucault?

É uma regra invisível da sociedade que decide o que é considerado verdade ou mentira em cada época. Em vez de apenas dar nome às coisas que já existem no mundo, o discurso cria os próprios padrões, conceitos e comportamentos que as pessoas passam a seguir como normais.

O discurso é diferente da fala cotidiana?

A fala cotidiana é apenas a conversa comum ou a opinião particular de alguém. O discurso depende de autoridade - o que uma pessoa leiga diz é visto como desabafo, mas o que um médico ou juiz atesta em um documento oficial tem peso de fato e força para mudar a vida de alguém.

Qual a relação entre discurso e poder em Foucault?

Eles dependem um do outro para funcionar: quem está no poder precisa de discursos e relatórios técnicos para justificar suas decisões, enquanto os saberes e teorias só viram certezas indiscutíveis quando são bancados por instituições oficiais como hospitais, tribunais e governos.

Como a obra A Ordem do Discurso explica o controle social?

Mostra que a sociedade tem medo do perigo das palavras e cria barreiras contínuas, proibindo certos assuntos, tratando vozes divergentes como loucura ou erro e decide, por meio de faculdades e leis, quais ideias merecem circular e quais devem ser caladas.


Referências bibliográficas

GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Trilha da Filosofia | 8ª Temporada. São Paulo: Casa do Saber, 2024. 1 vídeo (online). Disponível em: https://casadosaber.com.br/. Acesso em: 3 set. 2026.

CARVALHO, Guilherme Paiva de; OLIVEIRA, Aryanne Sérgia Queiroz de. Discurso, poder e sexualidade em Foucault. Revista Dialectus: Revista de Filosofia, Fortaleza, n. 11, p. 118-133, 2017. DOI: 10.30611/2017n11id31003. Disponível em: https://www.periodicos.capes.gov.br/index.php/acervo/buscador.html?task=detalhes&source=digital&id=W2786473083. Acesso em: 3 set. 2026.

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Petrópolis: Vozes, 1972.

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

GARRÉ, Bárbara Hees; VIEIRA, Ana Gabriela da Silva. Mobilizando ferramentas conceituais da análise do discurso em Michel Foucault. Contrapontos, Itajaí, v. 21, n. 1, p. 25-38, 2021. DOI: 10.14210/contrapontos.v 21 n 1.p 25-38. Disponível em: https://periodicos.univali.br/index.php/rc/article/view/17649. Acesso em: 3 set. 2026.

LEMOS, Ana Heloisa da Costa; RODRIGUEZ, Daniel Arbaiza; MONTEIRO, Vinicius de Carvalho. Empregabilidade e sociedade disciplinar: uma análise do discurso do trabalho contemporâneo à luz de categorias foucaultianas. Organizações & Sociedade, Salvador, v. 18, n. 59, p. 643-662, dez. 2011. DOI: 10.1590/S1984-92302011000400002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/osoc/a/dcTf7vcqRVNf4zdp5DqKvKD/?lang=pt. Acesso em: 3 set. 2026.

Artigo escrito por
Tainá Voltas
Jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), especializada em produção de conteúdo digital e audiovisual. Entusiasta e apaixonada pelo universo da cultura, psicanálise e poesia. Também é bacharela em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com destaque para pesquisa nas áreas de "Filosofia do Direito" e "Leituras Marginais em Direito Penal e Violência de Gênero.