Ano de 2026. Um dos maiores espetáculos da Terra bate à porta outra vez. Durante as próximas semanas, bilhões de pessoas vão sintonizar suas telas, caçar links de streaming que não travem, abrir dezenas de abas no navegador e inundar os grupos de WhatsApp com análises táticas improvisadas e memes instantâneos. A voz que narra o jogo e que antes vinha de uma única caixa de madeira na sala de estar, agora se fragmenta em milhões de telas de retina, fones de ouvido sem fio no metrô ou na caixa de som no boteco da esquina.
Acompanhamos todas essas mudanças cada vez mais perceptíveis, extrapolando a barreira quadrienal. Uma mudança que se dá em muitas instâncias, seja nos modos como hoje consumimos futebol, na esperança – antes muito mais próxima da certeza – de a seleção brasileira trazer o hexa para casa, ou nas maneiras como o esporte se relaciona com a sociedade, a cultura e a política. Afinal, na América Latina, o futebol nunca foi apenas um jogo. Ele é uma linguagem popular, espaço de disputa simbólica, instrumento de construção de identidades nacionais e, não raramente, palco para projetos de poder.
Para nós, o futebol nunca foi apenas uma questão de onze homens correndo atrás de uma bola de couro. Essa é a superfície romântica. Por baixo, corre um rio onde a identidade nacional e as paixões coletivas se misturam de um jeito que poucas manifestações humanas conseguem replicar. O futebol tem esse poder quase místico sobre nós porque ele aprendeu a falar a nossa língua através da tecnologia. E essa história começou bem antes da internet, no estalar da estática de um aparelho de rádio.
Voltemos no tempo. Pense no Brasil das primeiras décadas do século XX. Um país continental, fragmentado, cujas distâncias geográficas pareciam intransponíveis. O futebol já existia, claro, mas era uma experiência de presença física. Você precisava estar no estádio, respirando o cheiro do gramado úmido, para fazer parte daquilo. Quem estava de fora dependia das linhas impressas nos jornais apenas no dia seguinte.
Tudo muda quando o rádio entra nas casas brasileiras.
O rádio foi um pilar fundamental para a transformação do torcedor moderno. Foi a voz do locutor — esse personagem imenso, quase mitológico na nossa formação cultural — que transformou o esporte em uma experiência coletiva e simultânea. Aquele sujeito que aumentava o tom de voz, que esticava o som da palavra "gol" até faltar o ar no peito, estava criando um rito. Pela primeira vez, o operário no subúrbio do Rio de Janeiro e o comerciante no interior do Piauí experimentavam a mesma exaltação no mesmíssimo segundo.
Mais um passo atrás.
Em 1950, o Brasil se preparava para sediar a sua primeira Copa do Mundo. A atmosfera era de pura eletricidade. A lendária Rádio Nacional enviou seus microfones para cobrir, ao vivo, a chegada da delegação uruguaia ao solo brasileiro. Se você resgatar o áudio daquela transmissão — uma relíquia preciosa da nossa radiodifusão —, percebe que não era só jornalismo esportivo, mas um ritual de integração nacional em tempo real. O rádio funcionava ali como uma engrenagem ativa na construção de um sentimento coletivo, mostrando que o Brasil estava se conectando com o mundo e consigo mesmo através das ondas médias.
Essa capacidade de criar uma “comunidade imaginada”, contudo, é uma faca de dois gumes. Por ser um canal tão direto com o coração do povo, a radiodifusão e o futebol sempre foram alvos de desejo do poder. E é aqui que a nossa conversa toma um rumo mais denso, cruzando a fronteira dos regimes autoritários que marcaram a América Latina.
A história não é feita de compartimentos estanques e muito menos lineares. As ideias circulam, esbarram umas nas outras e se contaminam. No curso Futebol e Política: Democracia e Autoritarismo em Jogo, o jornalista Helcio Herbert Neto joga luz sobre como as transmissões em som e vídeo foram fundamentais tanto para expressões democráticas quanto para as manobras mais perversas de ditaduras militares no meio do século passado. O futebol, sob essa lente, afasta-se de qualquer maniqueísmo tolo: ele não é pura alienação, nem pura resistência, é um território em disputa.
Vejamos o Brasil em 1964. Apenas dezoito dias após o golpe militar que depôs o então presidente João Goulart, o país ainda tentava entender as novas regras de um jogo violento e sem juiz. Chega o Dia do Trabalhador, 1º de maio. Na transmissão oficial da Agência Nacional, entre os discursos que tentavam legitimar a nova ordem e acalmar os ânimos da população, o que a rádio veicula? Um boletim completo do jogo entre Flamengo e Santos. O Brasil ditatorial estava acabando de nascer, as liberdades individuais sendo sufocadas na penumbra, e o calendário do futebol seguia operando no automático, como uma cortina de fumaça sonora projetada para sugerir que a vida corria na mais perfeita normalidade.
Mas se o poder usa a bola para anestesiar, o avesso também é verdadeiro: o futebol pode ser o palco da transgressão mais absoluta.
Basta cruzarmos os Andes e olharmos para o Chile dos anos 1970. Augusto Pinochet comandava o país com mão de ferro, transformando estádios de futebol em campos de concentração e tortura. Nesse cenário de terror, surge a figura de Jorge Caszely, um dos maiores ídolos do futebol chileno, conhecido tanto pelos seus gols quanto pelas suas posições firmes de esquerda. Em uma cerimônia oficial antes da Copa de 1974, transmitida ao vivo pela televisão chilena, Caszely recusou-se a apertar a mão do ditador. Ele passou por Pinochet de braços cruzados, ignorando o general diante dos olhos de uma nação estupefata.
O preço dessa audácia foi cobrado. Sua mãe foi presa e brutalmente torturada pelo regime. O tempo passou, mas a memória não se apaga com decretos. Em 1988, quando o Chile finalmente teve a chance de votar no plebiscito que decidiria a continuidade da ditadura, aquela mesma senhora, mãe de Caszely, apareceu de cabelos brancos no horário eleitoral gratuito da “Campanha pelo No”*. Ao lado do filho jogador, ela narrou os horrores que viveu, desarmando a máquina de propaganda oficial com a força da verdade. O “Não” venceu, Pinochet caiu, e o futebol provou ser o lugar exato onde a história e a política acontecem, de forma visceral e pública.
Por isso, quando voltamos os olhos para este ano de 2026, com segundas telas e tablets acompanhando as transmissões em tempo real e a TV piscando em alta definição, precisamos recusar o olhar ingênuo. Mesmo sabendo que o ecossistema mudou drasticamente, que a voz do narrador agora disputa espaço com os algoritmos das redes sociais, com as casas de apostas que mercantilizaram cada escanteio, com a celebrização dos jogadores e a cultura exacerbada do consumo e da estética, além da fragmentação de uma audiência que pode ou não usufruir desse momento de experiência nacional, a emoção que o futebol gera ao povo brasileiro não precisa ser cega.
Torcer é um ato de comunhão, mas também é um espelho das nossas fraturas sociais. O futebol nos comove porque ele é o único drama cujo roteiro ninguém se atreve a escrever de véspera — e onde a vida real, com todas as suas dores e contradições políticas, insiste em invadir o campo.
Na próxima partida que você assistir, lembre-se que há muito mais em jogo do que os três pontos na tabela ou a taça que se leva pra casa.
* Para saber mais, assista o filme “No” (2012) de Pablo Larraín.


.webp)
