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A IA fez de você um número?

A IA fez de você um número?

A promessa é velha e a gente já conhece a narrativa: a tecnologia veio para libertar o trabalhador do esforço mecânico e devolver o tempo livre à humanidade. Foi assim na Revolução Industrial com o surgimento do tear mecânico, quando o discurso oficial dizia que o trabalho braçal pesado finalmente terminaria. O resultado prático foi o oposto: jornadas extenuantes de 16 horas diárias dentro de fábricas insalubres. 

Décadas depois, o taylorismo sacou o cronômetro do bolso e prometeu a máxima eficiência ao calcular cada segundo de movimento do operário no chão de fábrica. Anos mais tarde, a informática e a economia de aplicativos chegaram prometendo autonomia e controle do próprio tempo, culminando na onda da uberização. 

Nenhuma dessas tecnologias foi a vilã por si só, porque o problema nunca foi a máquina em si, sempre foi o arranjo social, corporativo e trabalhista montado ao redor dela para extrair o máximo de produção no menor tempo possível.

Com a inteligência artificial generativa, o roteiro se repete quase passo a passo. A IA é apenas o capítulo mais recente dessa história de automação e controle. Ela não é uma força maligna que veio exterminar postos de trabalho por pura maldade, nem uma tecnologia milagrosa capaz de resolver os gargalos estruturais das empresas com um clique. 

Ao mesmo tempo que a IA pode aliviar rotinas, sobretudo quando se trata de um trabalho mais mecânico, ela também pode adoecer equipes inteiras. Tudo depende de como, para quê e a favor de quem ela é implementada. Ela pode assumir tarefas burocráticas e repetitivas que drenam a energia do dia a dia, ou ser transformada no chicote invisível que exige três vezes mais entregas no mesmo expediente. O problema não está no modelo de linguagem, mas sim na estrutura de trabalho predatória que se esconde confortavelmente atrás do discurso de inovação.

Enquanto o marketing corporativo adora inflar o peito em palestras para falar sobre “transformação digital” e “cultura da inovação”, a realidade no cotidiano do trabalho é bem menos futurista e muito mais massacrante. Você já deve ter reparado no meme que circula pelas redes sociais mostrando uma mesa de reunião onde a liderança só sabe repetir “IA, IA, IA” para qualquer desafio apresentado. A inteligência artificial virou a desculpa perfeita para empurrar uma conta que simplesmente não fecha. 

A firma enxuga o quadro de funcionários sob o pretexto de que a tecnologia agora dá conta do recado. As equipes ficam cada vez menores, mas a carga de trabalho e a cobrança por prazos curtos sobem em progressão. Na planilha do RH e do financeiro, pessoas continuam sendo vistas primariamente como custo – uma linha pesada de impostos e encargos que precisa ser minimizada a qualquer preço para garantir a margem de lucro. A IA surge, então, como o álibi dos sonhos: a justificativa bonita e moderna para demitir e acumular funções em quem fica.

O resultado prático dessa “eficiência” é o trabalhador acumulando a função que antes pertencia a duas ou três pessoas. A cobrança passa a ser pela entrega em massa, enquanto o funcionário ainda precisa arrumar tempo na rotina atropelada para checar e corrigir o conteúdo gerado pela máquina.

No livro O Privilégio da Servidão, o sociólogo Ricardo Antunes investiga a expansão do “infoproletariado”, e mostra como a tecnologia nas mãos do capital não elimina a exploração, mas cria uma máscara sob uma camada de sofisticação técnica. A profusão de dados e automações cria a ilusão de um ambiente de trabalho moderno e limpo, enquanto, na prática, aprofunda a precarização. A exigência para que todo mundo “se adapte” e “aprenda a usar os melhores prompts” nada mais é do que o motor corporativo empurrando o profissional diretamente para a estafa mental e o burnout.

Nos últimos tempos, no entanto, a euforia cega do mercado começou a bater de frente com a realidade dura dos fatos. Notícias e relatórios do setor de tecnologia revelam um movimento interessante: gigantes como Ford, IBM, Salesforce e a própria Meta vêm revendo decisões precipitadas, reorganizando suas estruturas e, em diversos casos, voltando a contratar profissionais. A promessa irresponsável de que a IA substituiria equipes inteiras de forma simples e barata esbarrou no limite real da ferramenta.

A explicação para esse recuo não tem nada de misteriosa, tá? A IA generativa consome um volume gigantesco de recursos financeiros e computacionais, tornando-se cara para manter em larga escala. Além disso, possui a tendência a alucinar e gerar respostas erradas com aparência de certeza. Quando as empresas tentaram automatizar processos analíticos, criativos e estratégicos sem a devida mediação humana, a qualidade do trabalho despencou. Erros graves começaram a custar caro para a reputação e para o caixa dessas corporações.

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Contudo, não podemos cair no erro de enxergar esse movimento de recontratação como uma grande vitória humanista ou um ato de contrição por parte das empresas. Nenhuma grande corporação acordou sensibilizada com a saúde mental da sua força de trabalho, deixemos claro isso. Elas voltaram a contratar unicamente porque a ferramenta falhou em entregar o resultado prometido no cálculo de custo-benefício.

E a forma como essa reestruturação acontece mantém a lógica da desigualdade. Recontrata-se a peso de ouro o engenheiro altamente qualificado e o especialista técnico para apagar os incêndios e supervisionar o sistema. Enquanto isso, o restante da equipe continua sofrendo com a precarização, desempenhando tarefas repetitivas de checagem e revisão do que o robô cospe na tela. O teste do mercado provou o óbvio: a IA é uma excelente ferramenta de suporte, mas não possui discernimento ético, repertório cultural, contexto e nem sensibilidade para ler as nuances de uma relação humana.

Se a ferramenta falha e não substitui o ser humano com a perfeição que o marketing vendia, por que o ambiente de trabalho continua cada vez mais sufocante? 

A resposta está na dimensão psíquica da gestão do medo.

O médico e psicanalista Christophe Dejours, criador da Psicodinâmica do Trabalho, ensina que o trabalho nunca é um ato neutro. Ele é um organizador central da saúde mental. O trabalho pode atuar como um poderoso operador de saúde quando oferece margem para autonomia, expressão da subjetividade, cooperação e reconhecimento. Por outro lado, ele se torna um vetor desenfreado de adoecimento quando reduz o indivíduo a um mero executor desprovido de escuta.

Na era da IA, o sofrimento ganha um contorno adicional. O profissional adoece tentando provar, todo santo dia, que ainda merece ter um crachá e estar na folha de pagamento. Instalou-se um temor nos escritórios e nas redes de trabalho remoto: a ideia fixa de que, se você não produzir no tempo e no volume que a liderança supõe que a IA alcança, você será imediatamente descartado. Para não parecer ultrapassado ou substituível, o trabalhador tenta competir diretamente com a velocidade de processamento do software, submetendo o próprio corpo e a mente a um ritmo desumano.

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Vale explicar que o problema nunca foi usar a inteligência artificial para resumir um relatório, montar um rascunho de ideias, buscar um título que melhor se adapte ou automatizar uma tarefa burocrática e chata. O problema é aceitar que a velocidade do processador seja estabelecida como a norma biológica para o trabalho de um ser humano.

A tecnologia não precisa ser demonizada, e o ludismo simplista de quebrar as máquinas não resolve os problemas do mercado de trabalho contemporâneo. A questão fundamental é de ordem política e ética: quem se beneficia com o ganho de produtividade gerado pela automação? 

Se a inteligência artificial reduz o tempo necessário para realizar uma tarefa que antes levava quatro horas para ser feita em uma, essas três horas economizadas deveriam retornar ao trabalhador em forma de descanso, criação, estudo e tempo livre. Se, em vez disso, a empresa utiliza essa economia para atolar o funcionário com mais dez demandas para cobrir a demissão do colega da mesa ao lado, a tecnologia não libertou ninguém. Ela apenas refinou e acelerou os métodos de exploração.

A verdade é que a IA veio para ficar e nenhuma empresa vai abrir mão do ganho de eficiência por bondade. A questão não é sonhar com um futuro onde a máquina trabalha e a gente descansa, mas entender o jogo como ele é: se a gente aceitar passivamente que o ritmo do software dite a nossa velocidade, a barra vai continuar subindo até todo mundo pifar. A IA não fez de você um número porque a tecnologia é má, mas porque, enquanto a única métrica de sucesso for o volume de entregas por hora, qualquer um de nós será perfeitamente substituível.

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Dica de Filme:

Cena do filme A Única Saída, com um homem segurando um vaso de planta acima da cabeça
Cartaz do filme A Única Saída de Park Chan-wook (2005).

A Única Saída (2025), dirigido por Park Chan-wook, é uma sátira ácida sobre a precarização e o desemprego na Coreia do Sul. A trama segue Man-Su, um homem de meia-idade que é demitido após 25 anos em uma fábrica de papel e, desesperado para sustentar sua família, toma medidas extremas para eliminar concorrentes por novas vagas.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.