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A infância não escolhe o mapa

A infância não escolhe o mapa

Antes de enxergar com nitidez, o bebê já ouve. Nas últimas semanas de gestação o sistema auditivo está praticamente pronto, e é por ele que o mundo entra primeiro: a voz da mãe, o ritmo do idioma que vai ser o dele, o barulho doméstico de uma casa em funcionamento. Recém-nascido, ele direciona a atenção na direção do que reconhece. A linguagem começa aí, muito antes da primeira palavra, como uma coleção de sons repetidos que devagar vão virando sentido.

Mas o que será que acontece quando o som de fundo é outro?

O UNICEF estima que cerca de 473 milhões de crianças vivam hoje em áreas afetadas por guerra ou violência armada. É uma em cada seis crianças do mundo, e é o maior contingente desde a Segunda Guerra. O relatório mais recente da ONU sobre crianças e conflitos armados verificou 38.558 violações graves ao longo de 2025 — mortes, mutilações, recrutamento, sequestros, ataques a escolas e hospitais. Perto de 70% das vítimas foram atingidas por armas explosivas. E, pela primeira vez, forças governamentais e grupos ligados a elas responderam por mais violações graves do que os grupos armados não estatais. O próprio documento faz questão de avisar que esses números são um recorte: em zona de conflito, boa parte do que acontece não chega a ser registrada.

Eu poderia seguir empilhando cifras. É o que se costuma fazer, e é exatamente aqui que eu queria parar, porque tem soado cada vez mais esquisito o modo como lemos dados assim, com a atenção morna de quem lê previsão do tempo. Não é falta de compaixão. É que 473 milhões não é um número que a nossa cabeça consiga habitar. Ninguém consegue dimensionar 473 milhões de crianças. Por isso, serei mais específica.

Em fevereiro deste ano, um ataque atingiu uma escola primária de meninas em Minab, no sul do Irã, com as salas em funcionamento. O UNICEF contabilizou 168 meninas mortas naquele prédio. Cada uma tinha um jeito de dormir, uma comida preferida, um apelido que só valia dentro de casa, um jeito especial de abraçar. O número serve para dimensionar, mas não serve para ver.

O Mês da Primeira Infância, instituído no Brasil pela Lei 14.617/2023, chama atenção para a faixa que vai do zero aos seis anos. É um recorte que pode parecer burocrático, mas está longe de ser. Nesses anos, o cérebro faz o que não vai fazer nunca mais: constrói a própria arquitetura. Mais de um milhão de conexões neurais por segundo nos primeiros tempos de vida, uma velocidade que depois desacelera para sempre. É o período em que o organismo decide, sem que ninguém escolha, que tipo de mundo ele deve esperar.

E é por isso que a exposição à violência opera de um jeito diferente nessa faixa de idade. Nem todo estresse faz mal, pelo contrário. Existe o estresse bom: a criança leva a picada da vacina, o coração dispara, o adulto acolhe, o corpo desacelera, e ela aprende que susto passa. Esse ciclo é formador.

O problema é quando o alarme não desliga. Quando o medo é intenso, prolongado e não encontra acolhimento, então o corpo permanece em estado de luta ou fuga, com cortisol e adrenalina em circulação constante. É o que se chama de estresse tóxico, e ele não fica só no humor: afeta memória, aprendizagem, regulação emocional, autoestima. O neurocientista Christoph Anacker, da Universidade Columbia, descreve o efeito: o trauma nessa fase altera as respostas ao medo e ao estresse e ensina o cérebro a ser mais suscetível ao estresse na vida adulta. A lição que a criança aprende sem aula é que o mundo é um lugar onde é preciso estar sempre pronto e em alerta.

Isso muda o que significa a palavra “sobreviver”. Um cessar-fogo não desfaz um circuito. A criança que atravessa a guerra sem um arranhão pode carregá-la no corpo e na mente por muito tempo, em forma de ansiedade, depressão, dificuldade de aprender, ou mesmo de uma doença física. Mas é importante dizer com todas as letras que isso não é sentença: a mesma plasticidade que torna esses anos vulneráveis é a que também é capaz de os tornar recuperáveis. O cérebro que aprende medo depressa também aprende segurança depressa, desde que alguém apareça para ensiná-la.

O que separa o estresse tolerável do estresse tóxico não é o tamanho da adversidade, é a presença e o apoio. É nosso dever garantir um espaço seguro onde as crianças possam brincar e conviver, ensinar formas básicas de lidar com o luto e a separação e, sobretudo, apoiar os cuidadores. Cuidar de alguém em meio a uma guerra é extenuante. De uma criança, então, é ainda mais desafiador. Mas aliviar o estresse do adulto alivia o da criança, uma vez que a proteção passa por dentro do vínculo, não por cima dele.

Dito assim parece pouco, mas não é. Significa que a proteção à primeira infância, em contexto de conflito, tem nomes pouco fotogênicos: água, renda, atenção, alimento, um lugar para dormir, uma agente de saúde que consegue chegar à casa, saúde mental de adultos exaustos. Significa também que brincar não é o supérfluo que sobra depois que o essencial foi resolvido. Uma criança que brinca é uma criança cujo alarme desligou por alguns minutos. Portanto, brincar pode ser um dos indicadores mais honestos de que a proteção está funcionando.

É por isso que também precisamos rever os modos como aprendemos a defender essa causa. Todos os dias vemos e vivemos um jeito consagrado de falar em primeira infância, e ele é econômico: cada real aplicado nos primeiros anos volta multiplicado em produtividade, em saúde, rendimento, sucesso, em anos de escola. Se a criança vale pelo que vai render, ela precisa chegar lá para valer alguma coisa. E, em zona de conflito, muitas não chegam. Quando o valor de uma vida está no futuro que ela promete, a criança que morre aos seis anos não deixa saldo nenhum – o que é uma conclusão insuportável de pensar. Medir uma criança pelo adulto que ela será é a forma mais educada de dizer que ela ainda não é ninguém.

E daí vem o resto. A palavra adultização entrou no vocabulário brasileiro pela porta das redes sociais, mas ela descreve muito mais do que isso. Descreve a menina de sete anos que cuida dos irmãos porque a mãe passou a trabalhar dobrado depois que a casa caiu. O menino que aprendeu a traduzir para os pais o que dizia o homem armado na porta. A criança que sabe, sem que ninguém tenha explicado, que ao ouvir o primeiro estampido é para deitar no chão e ficar quieta. Nós olhamos para essas crianças e dizemos que elas são maduras para a idade, que são fortes, que são guerreiras. É um elogio, e é aí que mora o problema: ao elogiar, deixamos de enxergar que uma infância foi encurtada. Chamar de resiliência o que é sobrecarga e estresse é o jeito mais eficiente de nunca precisar fazer nada a respeito.

Só que a conta está correndo agora. Saúde mental na primeira infância não é pauta para depois que a emergência passar, porque é durante a emergência que o circuito está sendo montado. Ansiedade em criança pequena não é ensaio para a ansiedade adulta, é ansiedade, com o tamanho e o corpo que ela tem. E aquilo que devemos a essas crianças não é prepará-las para um mundo duro, pois elas já sabem que o mundo é duro, aprenderam antes de saber ler. O que devemos é a chance de serem gente: de ter medo sem ter que engolir, de chorar sem ser chamada de fraca, de depender de alguém sem culpa, de brincar sem precisar justificar por quê.

Toda criança aprende o mundo pelo que se repete perto dela. É o repetido que vira língua, que vira memória, que vira ideia do que a vida é. Nos perguntarmos o que queremos para o futuro dessas crianças é importante, mas nenhuma delas está esperando o cessar-fogo para começar a viver.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.