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O psicanalista Sigmund Freud foi fundamental na redefinição da melancolia no século XX. Em seu trabalho Luto e Melancolia (1917), Freud propôs que a melancolia não era simplesmente uma doença, mas sim uma forma patológica do luto. Em vez de superar a perda de um objeto amado, o sujeito melancólico se identifica com o objeto perdido, o que o impede de seguir em frente e o mantém preso a um sofrimento sem fim.
Neste artigo, exploramos o conceito de melancolia a partir da psicanálise, com destaque para as contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, além de suas diferenças em relação ao luto e à depressão.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
Freud E A Melancolia
Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, aborda a melancolia em sua obra "Luto e Melancolia" (1917). Para Freud, a melancolia não é apenas um estado de tristeza, mas uma condição psíquica profunda, distinta da depressão comum.
Ele identificou que, enquanto o luto é uma reação natural à perda de um objeto significativo, a melancolia está ligada a uma perda interna, mais complexa e inconsciente.
A pessoa melancólica, ao contrário do enlutado, não apenas sofre pela perda do objeto, mas também direciona uma parte significativa de seu sofrimento contra si mesma. Freud propôs que esse processo de autoagressão poderia ser interpretado como uma identificação do eu com o objeto perdido, o que gerava uma intensificação do sofrimento psíquico.
Além disso, Freud destacou a relação entre melancolia e a incapacidade do eu de elaborar e aceitar a perda. Ao contrário do luto, que permite um certo distanciamento emocional do objeto perdido, a melancolia está marcada por um vínculo persistente e patológico com esse objeto.
A pessoa melancólica não consegue desvincular-se da perda, o que impede a recuperação emocional e favorece a internalização de sentimentos de culpa e autocensura.
Esse conceito psicanalítico inovador ajudou a entender a melancolia de uma forma mais ampla, não apenas como um distúrbio afetivo, mas como uma dinâmica complexa entre o eu, os desejos inconscientes e a relação com os objetos de amor e perda.

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Lacan E A Melancolia
Para Lacan, a melancolia está intimamente ligada à relação do sujeito com o objeto "a", que representa o objeto causa do desejo. Ao contrário do processo de luto, onde o sujeito busca substituir o objeto perdido, o melancólico não busca esse reposicionamento, mas mantém uma relação com o objeto "a" de forma radicada e excessiva.
O melancólico se vê dominado por esse objeto que o transcende, mas que, ao mesmo tempo, se confunde com o próprio sujeito. A ausência desse objeto, que deveria ser um ponto de referência para a constituição do desejo, se transforma em uma presença opressiva que invade o melancólico, dificultando qualquer tentativa de restabelecer a ligação com o mundo exterior e, consequentemente, com o desejo.
Essa relação com o objeto ausente leva a uma imersão profunda no vazio, um estado tão intenso que, em casos extremos, pode conduzir à tentativa de aniquilação do próprio sujeito, como forma de escapar dessa ausência insuportável.
Na leitura de Lacan, a melancolia pode levar o sujeito a uma imersão profunda no vazio: algo essencial parece faltar, e essa ausência se torna tão presente e opressiva que a pessoa perde o contato com o desejo e com o mundo ao seu redor.
A melancolia e a psicopatologia: luto x melancolia
Uma das questões mais debatidas na psicanálise é a diferença entre luto e melancolia. Ambas as condições envolvem a perda de algo importante para o sujeito, mas enquanto o luto é um processo de adaptação a essa perda, a melancolia é caracterizada por uma falha nesse processo.
No luto, a pessoa pode se sentir triste, mas a dor da perda é acompanhada de uma progressiva aceitação e uma retomada da vida. Já a melancolia se caracteriza pela incapacidade do sujeito reconhecer o que perdeu ou o que realmente perdeu com a perda.
Em "Luto e Melancolia", Freud descreve a melancolia como uma espécie de luto não resolvido, no qual o sujeito se identifica com o objeto perdido a tal ponto que a perda se torna internalizada, como uma parte de si mesmo.
Uma diferença chave entre os dois é que no luto, o objeto da perda é reconhecido conscientemente, enquanto na melancolia, o sujeito pode não saber exatamente o que perdeu, mas sente a ausência de algo fundamental. Essa ambivalência e confusão são centrais na experiência melancólica.
| Aspecto | Luto | Melancolia |
|---|---|---|
| Tipo de reação à perda | Reação natural à perda de um objeto significativo | Forma patológica do luto |
| Reconhecimento da perda | O objeto da perda é reconhecido conscientemente | O sujeito pode não saber exatamente o que perdeu |
| Relação com o objeto perdido | Há progressivo distanciamento emocional do objeto | Identificação do eu com o objeto perdido |
| Elaboração psíquica | Processo de aceitação e retomada da vida | Incapacidade de elaborar e aceitar a perda |
Enquanto no luto o objeto da perda é reconhecido conscientemente, na melancolia o sujeito pode não saber exatamente o que perdeu, embora sinta a ausência de algo fundamental.
A história da melancolia na psiquiatria
Cabe dizer que a melancolia não foi debatida apenas pela psicanálise. Na psiquiatria, o conceito de melancolia tem sido desenvolvido desde o século XIX. Autores como É. Esquirol, H. Dagonet e A. Foville demonstraram grande interesse pela condição, mas também expressaram certo ceticismo em relação ao seu tratamento.
Esquirol, por exemplo, preferia o termo "lipemania" (tristeza) para descrever essa condição, relegando a palavra "melancolia" ao domínio dos poetas e moralistas. Esse ceticismo refletia a dificuldade em classificar a melancolia como uma doença orgânica, já que ela se relaciona com a esfera psíquica e emocional.
Por outro lado, a psiquiatria alemã trouxe uma abordagem mais complexa, enfatizando o processo psicológico envolvido na melancolia. Durante o século XIX, psiquiatras alemães começaram a explorar o papel do psiquismo no desenvolvimento de condições como a melancolia, e sua relação com o eu e o inconsciente.
A melancolia é frequentemente confundida com a depressão, mas embora ambas compartilhem sintomas, a melancolia tem características distintas.
Ela é definida, na psiquiatria, como uma forma de transtorno afetivo, e pode ser mais intensa e duradoura que a depressão comum.
Historicamente, a melancolia foi tratada como uma condição mental separada da psicose maníaco-depressiva (PMD), mas com o tempo os especialistas passaram a revisitar essa categorização.
Embora frequentemente confundida com a depressão, a melancolia é definida na psiquiatria como uma forma de transtorno afetivo que pode ser mais intensa e duradoura do que a depressão comum.
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Perguntas frequentes sobre melancolia na psicanálise
O que é melancolia segundo Sigmund Freud?
Segundo Freud, em Luto e Melancolia (1917), a melancolia é uma forma patológica do luto, na qual o sujeito se identifica com o objeto perdido e permanece preso a um sofrimento persistente.
Qual a diferença entre luto e melancolia para Freud?
No luto, a perda é reconhecida conscientemente e há uma progressiva aceitação. Já na melancolia, o sujeito não consegue reconhecer claramente o que perdeu, identificando-se inconscientemente com o objeto perdido e internalizando a perda.
Como Jacques Lacan compreende a melancolia?
Para Lacan, a melancolia está ligada à relação do sujeito com o objeto a, entendido como objeto causa do desejo, que permanece de forma excessiva e opressiva, dificultando a retomada do vínculo com o mundo e com o desejo.
Melancolia é o mesmo que depressão?
Embora compartilhem sintomas, a melancolia e a depressão não são a mesma coisa. Na psiquiatria, a melancolia é definida como um transtorno afetivo que pode ser mais intenso e duradouro do que a depressão comum.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O Seminário 6 - O Desejo e Sua Interpretação (1958-1959). Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
ROUDINESCO, Elisabeth; Plon, Michel. Dicionário de Psicanálise, Rio de Janeiro: Zahar, 1998





