Filosofia

Sociedade do Cansaço: conceito de Byung-Chul Han explicado

Sociedade do Cansaço: conceito de Byung-Chul Han explicado

Você já sentiu que a cobrança para produzir mais nunca desaparece, mesmo quando ninguém está te cobrando? A sociedade do cansaço é o conceito criado pelo filósofo Byung-Chul Han para descrever uma época em que deixamos a lógica do dever e passamos a viver sob a lógica do desempenho, acreditando que podemos e devemos fazer sempre mais, o que nos leva à exaustão, ao burnout e à sensação constante de insuficiência.

Neste artigo, vamos entender detalhadamente o que é a sociedade do cansaço, como essa transformação ocorreu, por que ela afeta nossa saúde mental e que caminhos podem nos ajudar a sair desse ciclo de esgotamento.



O que é a Sociedade do Cansaço?

Sociedade do Cansaço é o termo cunhado por Byung-Chul Han, em seu livro de mesmo nome publicado pela primeira vez em 2010, para descrever a sociedade que opera segundo a lógica própria ao capitalismo tardio e o modo neoliberal de organização da sociedade.

Nessa sociedade, a forma dos sujeitos de estar no mundo é caracterizada por uma busca sem limites de afirmarem a si mesmos como protagonistas e como sujeitos livres, capazes de realizar tudo aquilo que se proponham a fazer – o que, porém, os leva a estarem sempre cansados, pois impõem a si mesmos estarem constantemente em atividade.

Por isso, a sociedade do cansaço também é chamada por Byung-Chul Han de sociedade do desempenho, ou seja, a sociedade onde os indivíduos têm por principal meta e sentido das suas vidas demonstrarem o maior desempenho possível em suas atividades, particularmente em seu trabalho, mas também em todas as esferas de sua vida.

Retrato do filósofo Byung-Chul Han em ambiente interno
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, autor do livro bestseller mundial Sociedade do Cansaço


Da sociedade disciplinar à sociedade do desempenho

Em seu livro Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han afirma que a sociedade do cansaço se desenvolve a partir da sociedade disciplinar, mas como uma transformação dessa, reconfigurando a forma com que o poder atua sobre os sujeitos.

A sociedade disciplinar é o modelo de sociedade descrito por Foucault, na qual sujeitos são submetidos a técnicas disciplinares para moldar seus corpos e subjetividades de modo a fazer deles “corpos dóceis”, ou seja, corpos que servem aos propósitos da sociedade industrial por serem produtivos.

Para Han, a sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade, porque controla os indivíduos ao estabelecer proibições e deveres, de modo que eles se comportem conforme o esperado.

Imagem inspirada no romance 1984 de George Orwell com referência a vigilância estatal

Para Han, o mundo fictício retratado por George Orwell em seu 1984 seria um retrato paradigmático do modo de funcionamento próprio à sociedade disciplinar: o controle rigoroso do indivíduo naquilo que ele faz e a vigilância externa constante.



A sociedade do desempenho ou a sociedade do cansaço, porém, controlaria os indivíduos não pela imposição de deveres, mas sim estimulando-os a serem pró-ativos, a buscarem dar o máximo de si e serem o mais produtivos possível, não por obrigação, mas sim como forma de realização pessoal.

O que levaria os indivíduos a serem produtivos nessa sociedade, então, não seria o “dever”, como um conjunto de obrigações que seriam impostas a eles, mas sim o “poder”, a ideia de que o quanto eles produzem seria uma expressão de sua capacidade como sujeitos e, portanto, o meio principal de se afirmarem, se destacarem e se realizarem como indivíduos.

Assim, se a sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade e do dever, na sociedade do desempenho, por sua vez, seria uma sociedade da positividade e do poder, onde se controla não estabelecendo proibições e limites para o indivíduo, mas sim estimulando-o a afirmar-se em seu próprio poder para agir e produzir.

Modelo de Sociedade Lógica do poder Verbo modal Forma de controle
Sociedade Disciplinar Negatividade (imposição de limites à ação) Dever Externa (autoridade externa que vigia e regula o comportamento dos indivíduos)
Sociedade do Desempenho Positividade (estímulo para ação sem limites e restrições) Poder Interna (autoimposição de fazer o máximo que puder e ter o melhor desempenho possível)


🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, Editora Vozes, 2015;

Da Afabilidade ao Inferno do Igual: Uma introdução crítica à filosofia de Byung-Chul Han, por Lucas Nascimento Machado, Revista Sísifo, n. 14, 2021.

Do poder disciplinar à psicopolítica

Segundo Han, com a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do cansaço, também a forma com que o poder atua sobre os indivíduos se transformou.

Se, na sociedade disciplinar, a forma de poder operante era o poder disciplinar, ou seja, o poder que busca moldar as ações e comportamentos dos indivíduos por meio da imposição de normas e deveres, na sociedade do desempenho, o poder se transformou em psicopolítica, ou seja, uma forma de poder que busca atuar diretamente na mente dos indivíduos, moldando as suas vontades.

Assim, segundo Han, o poder disciplinar, que era um poder negativo, buscava controlar sobretudo o comportamento externo dos indivíduos: garantir com que eles ajam da forma esperada pelo poder, independentemente de quais sejam as suas vontades ou desejos mais íntimos (daí, então, a imposição do dever).

Cena do filme Tempos Modernos com personagem preso a engrenagens industriais

O filme Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, ilustra perfeitamente bem o modo de trabalho na sociedade disciplinar: o sujeito é moldado para se comportar de modo previsível e disciplinado, reproduzindo sempre as mesmas atividades mecânicas e tendo seu comportamento vigiado e controlado por uma autoridade externa, a fim de garantir a sua produtividade.



O poder psicopolítico, contudo, que é um poder da positividade, controla não por meio da coerção externa, da imposição de deveres que regulam a ação do indivíduo, mas sim por meio da sedução e da manipulação da vontade do indivíduo, com o intuito de levá-lo a querer aquilo que o poder quer dele – ou seja, que seja produtivo.

Segundo Han, a psicopolítica é uma forma de poder muito mais eficaz do que o poder disciplinar, porque o poder disciplinar, por operar pela imposição de limites, também tem, ele próprio, um limite no quanto consegue fazer o indivíduo ser produtivo.

O poder psicopolítico, porém, não conhece esse limite, já que convence o indivíduo de que é pela sua produtividade que ele terá uma vida realizada e, assim, faz com que o indivíduo busque estar sendo sempre produtivo em tudo que faz, sem impor nenhum limite ao quanto, quando e onde deve produzir.

Cena do filme O Diabo Veste Prada com personagens em evento formal

Curiosamente, o filme O Diabo Veste Prada (2006) ilustra de maneira bastante adequada a relação do sujeito com o seu trabalho na sociedade do desempenho: o trabalho é visto como aquilo que deve estar no centro de sua vida, como aquilo a que você deve estar disposto a sacrificar todo o seu tempo, porque é isso que te permitirá alcançar a “grandeza”.



📚 Sugestão de Leitura:

Byung-Chul Han, Psicopolítica.Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Editora Áyiné, 2018.

Augusto Jobim do Amaral e Maurício dal Castel, Controle Psicopolítico e a Ascensão de Dados: uma análise a partir de Byung-Chul Han, Revista Sísifo, n. 14, 2021.

Do desempenho ao burnout: o paradoxo da sociedade do cansaço

Para Han, a busca por desempenho a todo o custo próprio à sociedade do cansaço resultaria em um paradoxo: o indivíduo, ao buscar ter o maior desempenho possível, é, em certo sentido, livre, pois ninguém o obriga a fazer isso, mas, ao mesmo tempo, explora a si mesmo, pois exige de si mesmo uma produção sem limites que, por fim, o leva ao ponto do colapso, resultando em patologias como burnout e depressão.

Por isso, o sujeito da sociedade do desempenho é um sujeito no qual liberdade e coação coincidiriam: é livre de coações externas, mas coage a si próprio a ser o mais produtivo possível, de modo que acaba sendo prejudicial a si próprio e o impede de se sentir efetivamente feliz e realizado, já que sempre sente que pode fazer mais do que já faz.

Por isso, nunca está satisfeito com o seu próprio desempenho, tendo sempre uma sensação de insuficiência.

Pintura de Sísifo carregando uma grande pedra montanha acima

Sísifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549. O sujeito da sociedade do desempenho seria como Sísifo em seu mito, em que, castigado pelos deuses, é obrigado a levar uma pedra para cima de uma montanha, apenas para que depois ela caia do seu pico e ele tenha de retomar o seu trabalho. Tal como Sísifo, o sujeito do desempenho não consegue pôr fim ao seu trabalho, sentindo sempre necessidade de dar continuidade a ele.



Excesso de positividade e suas manifestações

Por excesso de positividade, deve-se entender a característica própria à sociedade do cansaço segundo a qual não se imporia nenhum limite à atividade e à vontade do indivíduo que, assim, se projetariam sobre tudo e sobre todas as coisas.

O paradoxo da autoexploração

Segundo Han, o excesso de positividade próprio à sociedade do cansaço se manifestaria nela em muitos níveis.

O primeiro e mais evidente nível é o da autoexploração que o indivíduo realiza sobre si próprio, precisamente porque pensa que não deve haver nenhum limite para o seu desempenho e para sua produtividade, o que resulta no desenvolvimento de patologias como burnout e depressão.

Nesse contexto, segundo Han, a liberdade do indivíduo se inverte, paradoxalmente, em uma coação que ele exerce sobre si mesmo - o mesmo indivíduo é senhor e servo de si próprio, pois impõe a si mesmo um regime de trabalho e produtividade que o leva à exaustão.

Multitarefa e excesso de estímulos

Para além disso, porém, tal excesso de positividade pode ser visto, por exemplo, no comportamento multitarefa dos indivíduos, que buscam realizar várias atividades simultaneamente a fim de otimizarem o seu desempenho, o que, porém, tem por consequência não conseguirem se dedicar a nenhuma delas de modo mais profundo e significativo.

O excesso de positividade também se manifesta no excesso de estímulos a que estaríamos expostos nessa sociedade, com o fluxo incessante de informações e com a busca constante por estar sempre atualizado.

Esse excesso de estímulos teria por consequência a perda da capacidade de uma atenção profunda, contemplativa, necessária, segundo Han, para as verdadeiras realizações culturais da humanidade, como a arte e a filosofia.

🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Nascimento Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2018.

A arte como objeto de consumo imediato

Outra forma de manifestação do excesso de positividade em nossa sociedade estaria, segundo Han, na nossa relação com a arte.

Para Han, a estética da sociedade do cansaço seria uma estética do liso, ou seja, uma forma de compreender, fazer e se relacionar com a arte baseada na experiência do que é imediatamente agradável e do que não produz nenhuma resistência, estando, portanto, completamente disponível para o consumo.

A consequência do excesso de positividade para nossa relação com a arte, assim, é de mercantilizar inteiramente a experiência estética e tirar dela sua força transformadora, uma vez que, ao invés de sermos confrontados, nela, com algo que nos desafia e nos impele a nos confrontarmos com o outro, somos colocados, por meio da estética do liso, sempre apenas diante de um espelho de nós mesmos.

Escultura de cachorro em formato de balão metálico rosa de Jeff Koons

Para Han, o cachorro de balão de Jeff Koons é o exemplo perfeito de uma obra de arte produzida segundo os padrões da estética do liso: algo que só tem o propósito de produzir uma impressão imediatamente agradável, um “Uou” por parte do indivíduo, e ser uma obra na qual o indivíduo por fim, simplesmente espelha a si mesmo - no caso da escultura do cachorro de balão, literalmente!



🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, A Salvação do Belo. Tradução de Gabriel Philipson. Petrópolis: Editora Vozes, 2019.

Benito Eduardo Maeso e Izis Tomass. A Performance como antídoto à Estética do liso: Byung-Chul Han e Marilyn Arsem. Revista Sísifo, n. 14, 2021.

As relações amorosas e a perda do outro

O excesso de positividade também influenciaria o modo com que nos relacionamos uns com os outros, particularmente nas relações amorosas.

Segundo Han, na sociedade do cansaço/desempenho, nossa relação com o outro se torna pornográfica, ou seja, uma relação em que queremos que o outro esteja completamente exposto e disponível para nós e para nos dar prazer.

A essa forma de se relacionar romanticamente com o outro, Han contrapõe a relação erótica, ou seja, aquela em que o outro que seduz sempre permanece ainda, em algum nível, indisponível, e isso que produz o seu fascínio, a sua atração.

Cena do filme Anomalisa com homem e menina caminhando em corredor de hotel

O filme Anomalisa (2015), de Charlie Kaufman, retrata, segundo Han, a forma com que, na sociedade do desempenho, o Eu se torna incapaz de ver o outro, pois enxerga no outro apenas um reflexo de si mesmo, de suas próprias vontades e desejos, e, por isso, não é capaz de experimentar o outro como alguém singular, irredutível, que não se conforma às suas expectativas.



🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, A agonia do Eros. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, Editora Vozes

A infocracia, o consumo exacerbado de informação e a perda de conexão com a realidade

A vida em uma sociedade democrática também seria, segundo Byung-Chul Han, ameaçada pela positividade da sociedade do cansaço, particularmente na forma com que ela opera por meio das redes sociais, fazendo com que só nos relacionemos com informações que são consumidas imediatamente, afetando nossa capacidade de atenção.

Segundo Han, a sociedade do cansaço se torna assim, uma infocracia, uma sociedade na qual a circulação de informação pelo mundo digital dita nossa vida em sociedade, levando cada um a ficar na sua própria bolha e prejudicando as faculdades humanas essenciais para a democracia, como a imaginação, a empatia e a racionalidade discursiva.

Imagem promocional do filme Idiocracia com fundo amarelo e referência à evolução humana

O filme Idiocracia (2006) retrata um futuro que, infelizmente, da perspectiva de Han, estaria muito próxima daquilo que a nossa sociedade, como sociedade do excesso de positividade e do consumo de informação, teria se tornado: uma sociedade que, por valorizar o consumo extremo, o marketing sem limites e levar à erosão de nossas capacidades cognitivas por meio do consumo exacerbado de informação, teria minado as condições para a existência de uma sociedade verdadeiramente democrática.



O consumo excessivo de informações também tem por consequência a perda da nossa relação com a realidade, já que não nos relacionamos mais com coisas dotadas de existência própria, mas apenas com informações fugidias que consumimos instantaneamente e que acabam se interpondo entre nós e o mundo.

Nesse contexto, vivemos em um mundo de pós-verdade, onde não nos relacionamos mais diretamente com a realidade, mas apenas com as informações que recebemos através das redes sociais e que tomamos como inquestionáveis, não importa o quanto elas estejam em flagrante conflito com a realidade.

Elenco do filme Não Olhe para Cima reunido em cena com expressão de tensão

Não olhe para cima (2021) é um filme que ilustra perfeitamente a perda da nossa conexão com a realidade de que Han fala, e que resultaria de nosso consumo desenfreado de informação nas redes: o mundo digital e as bolhas em que vivemos nele acabam adquirindo tanto mais proeminência diante do mundo real, que, mesmo observando diretamente um meteoro se aproximando da Terra, as pessoas preferem ignorá-lo e tratar as coisas como se não devêssemos nos preocupar com ele, criando até o slogan político: “Não olhe para cima”, ou seja, não olhe diretamente para a realidade, mas continue na sua bolha!



🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, Infocracia. Tradução de Gabriel Philipson. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.

Transparência, Big Data e Manipulação Digital

Ao mesmo tempo, a sociedade do cansaço se mostraria também como uma sociedade da transparência, isso é, uma sociedade na qual os indivíduos, por buscarem sempre se autoafirmarem perante os outros, expõem-se voluntariamente nas redes sociais e fornecem sem serem coagidos uma massa gigantesca de informações sobre si próprios, que permitem que eles sejam manipulados e controlados sem sequer perceber.

Assim, é no momento que pensam estarem sendo mais autênticos que, na verdade, mais estão se comportando como todos os outros e como o sistema espera que eles se comportem, permitindo o acúmulo de informações a seu respeito - o famoso “Big Data” que permitem prever e manipular o seu comportamento (por exemplo, por meio de anúncios direcionados).

🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, Sociedade da Transparência. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

Byung-Chul Han, A expulsão do outro. Tradução de Lucas Nascimento Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.

A supressão da dor

Outra consequência do excesso de positividade da sociedade do desempenho seria, para Han, a nossa incapacidade de lidar com a dor.

Para Han, a sociedade do desempenho é também uma sociedade paliativa, isso é, uma sociedade que busca suprimir a experiência da dor a todo custo, de modo que não tenhamos que nos confrontar com nada que nos tire de nossa “zona de conforto” ou que represente uma ameaça ao nosso modo de ser e de existir no mundo.

É por isso que a sociedade paliativa, segundo Han, é uma sociedade que eleva a saúde a valor absoluto e que prioriza a sobrevivência em lugar do bem-viver, que só é possível onde há uma abertura para experiências que são dolorosas, mas que também são necessárias para se sentir de fato vivo.

Capa do livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley com ilustração estilizada do planeta

Para Han, a ficção científica que mais teria se aproximado de descrever quais seriam os rumos que sociedade tomaria no futuro foi não 1984, de George Orwell, que ainda apresenta uma sociedade presa à lógica da sociedade disciplinar, mas sim o “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, que retrata uma sociedade onde se busca fazer todos os indivíduos felizes por meio da supressão da dor, particularmente por meio da ingestão da droga “soma”.



🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, Sociedade Paliativa. Tradução de Lucas Nascimento Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2021

Crise da narração e desaparecimento dos rituais

A sociedade do cansaço também é, para Han, uma sociedade em que o excesso de positividade leva à crise da narração, ou seja, à perda da capacidade de se construir narrativas que confiram sentido à nossa existência e que criem vínculos comunitários, e ao desaparecimento dos rituais, ou seja, de práticas de organização do tempo que conferem a ele estabilidade e permite a constituição de laços comunitários.

🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, O desaparecimento dos rituais. Tradução de Gabriel Philipson. Petrópolis, Editora Vozes, 2021.

Byung-Chul Han, A crise da narração. Tradução de Daniel Guilhermino. Petrópolis: Editora Vozes, 2023.

Para além da sociedade do cansaço

Para Han, a sociedade do cansaço é caracterizada por uma existência econômica, ou seja, por um modo de vida centrado na autoafirmação e autopreservação do sujeito, nutrido pela ilusão própria ao capitalismo de que “mais capital equivale a menos morte”.

Por mais que o diagnóstico de Han sobre a sociedade do desempenho seja bastante pessimista, isso não significa, porém, que não haveria nenhuma alternativa ao seu modo de vida, à existência econômica centrada em si mesma.

Haveria, segundo o filósofo, uma outra forma possível de estar no mundo, que ele chama, em muitas de suas obras, de Freundlichkeit - um termo que eu, como tradutor de algumas de suas obras em que ele fala mais sobre esse tema (como Filosofia do Zen Budismo), considerei um tanto desafiador de traduzir, mas que conclui, por uma série de razões que poderia ser melhor traduzido como “Afabilidade” ou “Amabilidade”.

A afabilidade seria o modo de estar no mundo no qual, muito antes de focarmos na nossa própria existência como sujeitos, focamos na nossa relação ao outro como elemento constitutivo e indispensável de nossa experiência, e, mais do que isso, como aquilo que nos permite ser verdadeiramente livres.

Cena do filme Dias Perfeitos com homem sentado ao ar livre em uniforme azul

Talvez, “Dias Perfeitos” (2025) seja o filme que melhor ilustre a forma de vida que um sujeito “afável”, segundo a concepção de Han, levaria: sem preocupar-se em subir na sua carreira, em ser produtivo, vivendo todos os dias de acordo com seus rituais cotidianos, com presença e uma atitude profundamente contemplativa diante da natureza e acolhedora diante do outro.



É só por meio dessa relação ao outro, segundo Han, que podemos efetivamente ser de forma plena em nossas vidas, pois nossa própria existência não se resume meramente à nossa individualidade, mas só pode ser plenamente cultivada e desenvolvida na relação com o outro.

Seria, portanto, na relação inteiramente aberta entregue ao outro, como na contemplação, no jogo, na religião ou, de modo geral, na inatividade que o ser humano seria de forma plena. Motivo pelo qual, para além do cansaço da sociedade do cansaço, Han vislumbra um outro cansaço possível, não o cansaço da exaustão que nos isola, mas o cansaço do jogo que nos permite simplesmente ser um com o outro.

Para Han, nessa outra forma de ser no mundo, o que importa é, justamente, ser, e não fazer – não buscar constantemente estar em atividade tendo em vista um ganho futuro, mas sim ser inteiramente no momento presente, sem ter de conferir a ele nenhum sentido ou utilidade fora de si próprio e fora da conexão que esse momento nos permite com tudo a nosso redor.

🔎 Para se aprofundar:

Byung-Chul Han, Filosofia do Zen Budismo. Tradução de Lucas Nascimento Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2019.

Byung-Chul Han, Louvor à Terra. Tradução de Lucas Nascimento Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.

Byung-Chul Han, Vita Contemplativa. Tradução de Lucas Nascimento Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2023.

💭 Para se aprofundar no pensamento de Byung-Chul Han:

Dossiê “A Filosofia de Byung-Chul Han - Fontes, Debates, Interlocutores”, Revista Sísifo, n. 14, 2021.

O Neoliberalês: um ensaio filosófico sobre o idioma do desempenho, de Artur Junior Santos Cardoso, Lucas Rocha Gonçalves e Victoria Antonieta Tapia Gutiérrez.

Artigo escrito por
Lucas Nascimento Machado
Doutor em filosofia pela FFLCH/USP e pesquisador de filosofia da Universidade de Verona. Ex-diretor e membro fundador da Associação Latino-Americana de Filosofia Intercultural. Foi professor de história da filosofia da UFRJ e professor de filosofia, sociologia, projeto de vida e alemão aplicado no Colégio Humboldt. Tradutor de algumas das obras de Byung-chul Han para o português.