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O Lugar Do Outro: O que aconteceu com a capacidade humana de dialogar?

O Lugar Do Outro: O que aconteceu com a capacidade humana de dialogar?

Basta uma opinião sobre um filme, um comentário sobre a escola dos filhos, um desabafo sobre o time de futebol ou uma avaliação econômica sobre um país. Em poucos minutos, alguém entende aquilo como provocação, e a conversa, que mal tinha começado, vira trincheira. Quem passa algum tempo nas redes conhece o roteiro: cada frase é lida pelo que supostamente esconde, nunca pelo que diz. A falta de interpretação de texto, a não abertura para ouvir o outro, a necessidade de falar a qualquer custo, e a urgência em acusar, são caminhos que têm prevalecido de modo avassalador nos últimos tempos. Mas, se engana quem pensa que isso é algo recente.

A explicação mais comum culpa a polarização, como se fosse um fenômeno meteorológico que desabou sobre nós. No entanto, a psicanálise sugere que o problema talvez esteja menos no conteúdo das discussões e mais no lugar que o outro passou a ocupar em nossa vida psíquica. É essa a aposta de Marcio Garrit em Ilusão coletiva: psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo (2026), um estudo sobre como plataformas e algoritmos fabricam novas formas de massa.

Freud já havia notado, em Psicologia das massas e análise do eu (1921), que na multidão o indivíduo se livra de censuras e se liga aos demais pela identificação com um líder ou um ideal comum. Garrit leva a observação adiante: “é preciso pensar o funcionamento das massas a partir de sua necessidade de viver uma ilusão e um erro” (p. 24). O que mudou em cem anos foi o endereço dessa ilusão. Hoje, “é possível fazer parte de uma massa sem estar fisicamente presente, sem conhecer os participantes”, o que gera “uma ausência de experiências corporais e uma presença excessiva por meios simbólicos de comunicação” (p. 25). A multidão passou a caber na palma da mão, e nunca se dispersa.

Para entender por que essa massa sem corpo converte divergência em agressão, vale voltar a uma ideia básica da psicanálise: é no atrito com aquilo que não somos que nos tornamos sujeitos. Para Garrit, “o outro não é simples extensão do eu, mas instância que frustra, interdita e impõe renúncia” (p. 26). Crescer é descobrir, com alguma dor, que o mundo não obedece ao nosso desejo, e é essa descoberta que abre espaço para reconhecer outras vontades. Se ela falha, a conta chega depois, muitas vezes transformada em ódio e julgamento.

Está aí o centro da questão. Quem precisa que o outro funcione como espelho não consegue ouvir uma discordância como opinião, porque ela racha a imagem que sustenta o próprio eu. O que se sente como ataque é, muitas vezes, a simples existência de uma diferença.

É fato que as plataformas digitais encontraram nessa fragilidade um modelo de negócio. Algoritmos de recomendação premiam o que gera reação, e poucas coisas engajam tanto quanto a raiva e o ódio. Garrit insiste que “o ambiente digital não é simplesmente um novo cenário para as massas; ele é um dispositivo ativo de reorganização de seus mecanismos psíquicos” (p. 91). Nas bolhas que esse dispositivo produz, “a conexão com o outro é substituída pela repetição narcísica de si, propiciando o isolamento, a alienação e o ódio” (p. 87). O feed se torna então um espelho que aprendeu a nos bajular, e tudo o que não devolve a nossa imagem chega como invasão.

Há um segundo mecanismo em jogo. Nas redes, a sensação de estar numa terra sem lei abre brechas profundas sobre a ideia de uma “liberdade de expressão”. Para Garrit, isso “fragiliza a função simbólica da interdição e favorece formas de relação em que a palavra se desprende de responsabilidade e de consequência” (p. 29). É por isso que muita gente se sente muito confortável em dizer na internet o que jamais teria coragem de dizer diante de alguém. A tela oferece uma espécie de álibi, pois permite falar sem testemunha, ferir sem encarar o ferido, desejar sem se responsabilizar pelo desejo. 

Carregamos uma longa memória de conflitos e violências, da escravidão às desigualdades que atravessam gerações. Ainda assim, fomos ensinados a silenciá-los sempre que necessário, sob o mito de uma suposta cordialidade. E o recalcado, ensina a psicanálise, sempre retorna. Nos últimos anos, um projeto político autoritário deu permissão pública para que essa raiva soterrada viesse à superfície, apontando novamente, para tudo o que é diferente. A isso se somou uma lógica fundamentalista, que transforma as crenças na certeza de pertencer a um grupo escolhido, especial e único. O problema é que quem se acredita dono da verdade absoluta não enxerga no outro um interlocutor, e sim um herege.

Diante disso, nos deparamos com um apelo genérico pouco solidário: “precisamos ampliar nossa capacidade de diálogo”. Mas, veja: qualquer pedido generalista terá seus limites. Não há conversa possível com quem deseja a sua destruição, física ou simbólica, ainda que ela cobre um preço de quem a promove. Garrit discute sobre os sujeitos que consomem conteúdos “muitas vezes de forma cega e violenta, mergulhando em ideologias ou narrativas manipuladoras com consequências perigosas para si mesmos e para os outros” (p. 117), em um caminho no qual o outro deixa progressivamente de ser percebido como interlocutor e passa a ocupar o lugar de ameaça, inimigo ou obstáculo a ser eliminado. Nesses casos, o problema não é a ausência de diálogo, mas a corrosão das próprias condições que tornam o diálogo possível.

É preciso distinguir o conflito, que faz parte da vida democrática, daquilo que busca eliminar o próprio espaço de existência do outro. Há divergências que podem ser elaboradas pela palavra porque pressupõem a presença de sujeitos capazes de se reconhecer minimamente como interlocutores. Quando essa condição desaparece, pedir mais diálogo pode significar apenas deslocar para a vítima a responsabilidade por interromper uma violência que ela não produziu. Karl Popper chamou esse impasse de paradoxo da tolerância, em A sociedade aberta e seus inimigos (1945): uma sociedade que tolera sem limites os intolerantes, acaba destruída por eles.

E Garrit não oferece consolo fácil. Para ele, o ódio é também efeito das opressões da cultura, e não virá dela a solução: “o despertar da consciência, a responsabilização e a instrução do sujeito diante de suas ações parecem ser as únicas possibilidades para um futuro mais promissor” (p. 86). E, como “não é a internet em si que provoca essas mudanças, mas o uso que se faz dela como espaço de dominação” (p. 115), regular as plataformas se torna uma tarefa política. No plano individual, o trabalho começa pequeno: admitir que não é possível obrigar o outro a nos escutar, suportar a frustração que o outro impõe, se perguntar antes de reagir se aquilo é um ataque ou apenas uma diferença, e encontrar um limite para o desejo de devolver ao outro a violência que ele nos provoca.

Não se trata de ser tolerante com tudo, nem de responder à violência com silêncio. Trata-se de não entregar ao outro, nem ao algoritmo que amplifica o conflito, o comando sobre aquilo que fazemos com a nossa própria palavra.

Em O mal-estar na civilização (1930), Freud liga a agressividade humana à pulsão de morte, uma força que visa à destruição e não poupa nem quem a carrega. Isso explica um ódio capaz de seguir adiante mesmo quando se volta contra quem o sente. Diferente do ódio, é, inclusive, de bom tom que a gente se aproprie da raiva enquanto um mobilizador. Audre Lorde (1984) nos ajuda a pensar essa diferença ao tratar a raiva como uma resposta à experiência da opressão, capaz de produzir energia para nomear e enfrentar aquilo que a provoca. Mas reconhecer a legitimidade da raiva não significa legitimar qualquer ação que dela decorra. Entre sentir a raiva e transformar o outro em alvo existe uma distância ética fundamental.

Para Freud, o passo decisivo da civilização foi substituir a força de cada um pelo poder da comunidade. É nesse plano, e não na paciência de quem sofre o ódio, que a interdição enfraquecida pelas redes precisa ser restaurada. Isso passa por leis que não confundam ameaça com opinião, por instituições que cobrem de quem ataca e por plataformas que deixem de lucrar com a violência. Afinal, “não é a internet em si que provoca essas mudanças, mas o uso que se faz dela como espaço de dominação” (p. 115).

O ódio não recua diante da boa vontade ou da benevolência. O lugar do outro não se garante com diálogo a qualquer custo, mas com lei, com rede de apoio e com a recusa coletiva de tratar a existência de alguém como matéria de debate.

*Reflexão desenvolvida a partir da obra Ilusão coletiva: psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo (2026) de Marcio Garrit.


Referências:

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

GARRIT, Marcio. Ilusão Coletiva: Psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo / Marcio Garrit. – Campinas, SP: Editora Pangeia, 2026.

LORDE, Audre. The uses of anger: women responding to racism. In: LORDE, Audre. Sister outsider: essays and speeches. Berkeley: Crossing Press, 1984. p. 124–133.

POPPER, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos (1945). Tradução de Milton Amado. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 2 v.
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Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.