Para o Dia Mundial da Saúde Mental
Em 1930, Freud escreveu que a vida, tal como nos é dada, pesa demais: traz dores, decepções e tarefas impossíveis. Para suportá-la, dizia, não dispensamos paliativos — distrações poderosas, satisfações e substâncias que nos tornam insensíveis ao sofrimento. Quase um século depois, a observação nos parece fazer ainda mais sentido, diante o cenário de adoecimento psíquico e uso e abuso de substâncias.
Neste 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, essa questão tem peso especial no Brasil. A Federação Mundial de Saúde Mental amarrou a data deste ano a um chamado da Organização Mundial da Saúde pela desinstitucionalização do cuidado e pela escuta de experiências vividas, e 2026 reúne dois aniversários que contam histórias urgentes. A Lei 10.216, marco da Reforma Psiquiátrica, completou 25 anos e simboliza um momento decisivo sobre a desinstitucionalização. A Lei de Drogas chegou aos 20 anos com outro saldo: nasceu prometendo tratar o usuário como questão de saúde, mas, na década seguinte, a parcela de presos por crimes ligados a drogas mais que dobrou.
Drogas existem em praticamente todas as culturas de que se tem notícia. Em rituais, festas, remédios e lutos, o uso de drogas está presente no nosso cotidiano. O que a modernidade capitalista inventou não foi o uso, mas uma forma específica dele: a droga como mercadoria e o mal-estar como problema de cada um.
O Brasil conhece essa história desde a origem. Por séculos, o país enriqueceu exportando substâncias que alteram o ânimo — tabaco, aguardente, café —, e tabaco e cachaça serviram de moeda na compra de pessoas escravizadas na costa africana. Quando a Câmara do Rio de Janeiro proibiu o pito do pango, como era chamada a maconha, em 1830, previu multa para quem vendia e cadeia para quem usava, a começar, dizia o texto, pelos escravos. A fronteira entre a droga aceita e a droga proibida nunca foi traçada só pela farmacologia, mas também pela cor e pela classe de quem usa.
Marx escreveu sua frase mais famosa sobre o ópio poucos anos depois de a Inglaterra ir à guerra para obrigar a China a seguir comprando o ópio que comerciantes britânicos vendiam. Ao chamar a religião de “ópio do povo”, descreveu-a como suspiro da criatura oprimida: expressão da miséria real e, ao mesmo tempo, protesto contra ela. A imagem serve, quase sem ajustes, para a própria droga.
Lacan, por sua vez, falou de um discurso do capitalista, que promete ao sujeito um objeto capaz de tapar a falta que o constitui. E sabemos, poucas mercadorias cumprem essa promessa com tanta eficiência.
É aqui que os dois aniversários se encontram. Em História da Loucura, Foucault mostrou que, quando a Europa começou a confinar os loucos, no século 17, eles foram trancados ao lado de pessoas em situação de rua, desocupados e libertinos. O que os unia era a recusa ou a incapacidade de trabalhar, e o trabalho entrava nas casas de internamento como remédio moral.
A Reforma Psiquiátrica brasileira rompeu, em lei, com essa herança no caso da loucura. No caso das drogas, a herança apenas mudou de endereço: foi parar na prisão, que segue recebendo sobretudo jovens negros e pobres, e em instituições que repetem a velha receita de isolamento, disciplina e trabalho.
Sabemos que o sofrimento exige cuidado, e temos visto que o país oferece duas respostas que não se aproximam. De um lado, a rede nascida da Reforma Psiquiátrica, com a Rede de Atenção Psicossocial e, dentro dela, os CAPS especializados em álcool e outras drogas, as unidades de acolhimento e as equipes que atendem nas ruas, apostando na redução de danos. Cuidar da pessoa onde ela está, mesmo que ainda não queira ou não consiga parar, dando-lhe dignidade. De outro, as comunidades terapêuticas, em grande parte religiosas, que se expandiram com dinheiro do Estado oferecendo punição, isolamento e abstinência. Em 2025, o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura descreveu a laborterapia, um dos pilares desse modelo, como trabalho forçado e não pago. Foucault reconheceria a cena, certamente.
Longe de uma diferença apenas técnica, a abstinência imposta pelo isolamento trata o uso de drogas como falha de caráter e erro individual, a ser corrigida com disciplina, fé e trabalho, e devolve a pessoa, meses depois, ao mesmo lugar que a adoeceu. É compreensível que famílias exaustas, sem um CAPS por perto, batam nessas portas, e seu desespero merece respeito, não sermão.
Apesar disso, para muita gente, aceitar a internação é o jeito possível de conseguir um teto, um prato de comida, um banho. O que aparece como demanda por tratamento é, muitas vezes, demanda por condições de vida. A aposta da rede psicossocial vai na direção contrária à do isolamento: cuidar começa por devolver à pessoa um lugar no mundo — casa, vínculo, trabalho que não seja castigo.
Dito isso, o que uma sociedade precisa mudar para que menos gente precise de anestesia para continuar vivendo? Precisamos tratar o mundo que nos adoece. É preciso desmontar a engrenagem que lucra duas vezes, com a dor e com o remédio.
Significa, na prática, devolver às pessoas o tempo que o trabalho sem descanso confisca, garantir condições materiais para que a vida não seja reduzida à sobrevivência e romper com a ideia de que cada um deve administrar sozinho as consequências de um mundo que produz insegurança, precariedade e exaustão.
Somos convocados a ser livres justamente quando temos cada vez menos condições de escolher. Devemos administrar nosso tempo, nossa carreira, nosso corpo, nossos afetos e até nosso sofrimento como projetos individuais. Se não damos conta, o problema parece estar em nós. Falta disciplina, resiliência, comprometimento, terapia. Falta a estratégia certa para dormir, produzir, emagrecer, concentrar, relaxar e voltar ao trabalho no dia seguinte.
A promessa é de autonomia, mas a experiência, muitas vezes, é de responsabilização.
Nesse cenário, a droga pode aparecer não apenas como fuga do sofrimento, mas como uma tecnologia para permanecer funcionando apesar dele. Café para acordar, estimulantes para produzir, álcool para desligar, medicamentos para dormir, substâncias para aguentar a noite ou para atravessar o dia. O que muda de uma substância para outra, de um uso para outro, também depende de quem pode consumir, de quem pode prescrever e de quem pode ser considerado apenas um consumidor, e quem será tratado como um problema de polícia.
É por isso que falar em drogas exige falar também de trabalho, renda, moradia, racismo, violência, solidão e desigualdade. Não podemos defender a ideia de que o uso acontece num vazio social, muito menos apontar a pessoa que usa uma substância como vítima de suas circunstâncias. O sofrimento tem uma história e, muitas vezes, essa história não começa no indivíduo.
Uma política de cuidado que se limite a retirar abruptamente a substância sem transformar as condições de vida pode até produzir abstinência, mas não necessariamente produz saúde. Pode retirar a anestesia sem tocar naquilo que tornou a anestesia necessária.
O desafio, então, é maior do que escolher entre a droga e a abstinência. É construir condições para que a vida não precise ser suportada como uma coisa da qual precisamos nos anestesiar.
Uma sociedade organizada em torno da produtividade permanente precisa de pessoas capazes de ignorar os próprios limites. Uma sociedade organizada em torno da vida precisaria fazer o contrário: reconhecer o limite, garantir descanso, repartir o trabalho, proteger quem não consegue acompanhar o ritmo e permitir que ninguém precise transformar o próprio sofrimento em fracasso pessoal.
A sociedade do desempenho precisa de doping; uma sociedade que descansa, não.
Fontes e referências
- Sigmund Freud, O mal-estar na civilização (1930), sobre os paliativos; Conferências introdutórias à psicanálise(1916–17), conferência 18, sobre o trauma
- Karl Marx, Crítica da filosofia do direito de Hegel — Introdução (1844), a passagem do “ópio do povo”
- Jacques Lacan, conferência “Do discurso psicanalítico”, Milão (1972), sobre o discurso do capitalista
- Michel Foucault, História da loucura (1961), o capítulo sobre o grande internamento
- Postura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro sobre o pito do pango (1830)
- Tema do Dia Mundial da Saúde Mental 2026: WFMH
- Lei de Drogas e encarceramento (de 14% para 30% dos presos, 2006–2016): apresentação de Luiz Guilherme Paiva, Fundação FHC
- Comunidades terapêuticas e grupos religiosos: Agência Pública
- Internações na Cracolândia: Metrópoles


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