Se você abrir o grupo da família, o feed ou a coluna de domingo, você vai encontrar o diagnóstico pronto: o Brasil estaria vivendo uma "psicose política". Há quem prefira "surto coletivo", expressão que já virou até título de livro. Outros falam em "histeria política" para descrever a gritaria nas redes, as teorias conspiratórias e a sensação de que metade do país habita outra realidade.
Essas expressões pegaram e isso aconteceu porque elas nomeiam algo que muita gente sente na pele: o cansaço, a desconfiança, o estado de alerta e, por vezes, a desesperança.
Mas espera, eu não vim aqui pra te falar que você está errado em usar essa expressão – muito embora, psicanaliticamente, ela nem faça sentido. Na verdade, eu quero te convidar a olhar com mais atenção para as palavras que escolhemos quando o mal-estar chega, e para quem fica do outro lado delas.
A psicanálise ensina que o sofrimento sem nome é o mais difícil de atravessar. Enquanto não encontra palavra, ele fica difuso, sem borda, e tende a retornar como angústia. Freud chamou de mal-estar aquilo que é próprio da vida em comum: a renúncia, o conflito, a impossibilidade de que todos queiram a mesma coisa. Christian Dunker, ao pensar o Brasil, distingue mal-estar, sofrimento e sintoma. O sintoma é justamente uma forma de dizer, torta e cifrada, algo que não encontrou outra via. Por isso, quando uma sociedade procura um nome para o que está vivendo, ela não está errando por errar, mas sim tentando simbolizar.
Dizer "estamos doentes" é, de certa forma, reconhecer que algo não vai bem e precisa de cuidado. Na clínica, aliás, é comum que alguém só consiga começar a falar de verdade depois de encontrar uma palavra para o que sente. O nome não resolve, mas abre caminho. O gesto é legítimo, mas a pergunta que quero fazer é: por que, entre tantas palavras possíveis, recorremos com tanta frequência ao vocabulário da loucura? No campo psi, psicose não é sinônimo de irracionalidade de massa, nem de gente que pensa diferente de nós. É um modo de estruturação subjetiva, que a psicanálise pensa a partir de uma falha na inscrição simbólica e que a psiquiatria associa a quadros como a esquizofrenia. Por trás da palavra há pessoas concretas, que convivem com medo e com o olhar desconfiado da vizinhança.
E aqui está o detalhe que torna a expressão quase um contrassenso. Lacan observa que o que marca a psicose não é a dúvida, mas a certeza: o sujeito psicótico não se pergunta se aquilo é real, ele sabe. Agora pense no que sentimos nesse momento político que estamos passando. Definitivamente não é uma certeza, é o contrário. É a incerteza que nos faz atualizar a pesquisa, refazer as contas, imaginar cenários às três da manhã. Esse ruminar, esse "e se", tem muito mais a ver com a angústia, a de quem espera um veredito que não depende de si.
Até o delírio, que costumamos tomar como o ápice da desordem, Freud leu de outro modo no caso Schreber: como uma tentativa de reconstruir um mundo que tinha desmoronado. Se fosse para levar a metáfora a sério, talvez ela dissesse outra coisa: que estamos, cada um com o celular na mão, tentando remontar um mundo que parece ter perdido o chão. Algo parecido vale para o “surto”. Quem já acompanhou uma crise sabe que ela não tem nada de espetáculo: é dor, desorganização, às vezes risco. A histeria, por sua vez, tem uma história ainda mais carregada. A palavra vem do grego hystera, útero, e durante séculos serviu para dizer que o sofrimento das mulheres era excesso, teatro, descontrole de um corpo feminino.
Quando chamamos o debate público de "histeria política", reativamos sem perceber a ideia de que emoção intensa é coisa desqualificada. Não por acaso, a psicanálise nasceu do gesto contrário: Freud resolveu ouvir as histéricas que a medicina da época apenas observava. Susan Sontag, em A doença como metáfora, mostrou como certas doenças viram figura de linguagem para tudo o que é ruim, e como esse uso acaba pesando sobre quem está doente.
A metáfora não fica restrita à política, ela escorre. A Reforma Psiquiátrica, consolidada na Lei 10.216, de 2001, e a luta antimanicomial disputaram o lugar social de quem sofre psiquicamente. Trocaram o muro pelo território e o isolamento pelo cuidado em liberdade. Mas lei não muda sozinha o imaginário, a gente sabe. A disputa continua no cotidiano, e a linguagem é um dos seus terrenos mais importantes.
Nesse caminho, a "psicose política" não está sozinha. Ela faz parte de um vocabulário que se espalhou nos últimos anos: "meu TOC" para a mania de organizar a gaveta, "ela é bipolar" para uma mudança de humor, "entrei em hiperfoco", “desculpa, foi meu TDAH”. Palavras que vêm da clínica viraram adjetivos do dia a dia.
Em parte, é um bom sinal: falamos mais de saúde mental, e com menos vergonha. Mas o efeito colateral é que o diagnóstico vira gíria, ele perde peso para quem precisa dele para ser levado a sério. A gente escolhe "psicose" porque a palavra soa extrema, o ponto máximo da desorganização, o lugar onde a razão some. A piada só funciona porque a psicose continua imaginada como o oposto de quem somos. Ou seja: banalizamos a palavra sem mexer no estigma que a sustenta. Mas a vida do brasileiro não é um filme do Hitchcock.
Vale perguntar também por que precisamos do diagnóstico para falar do que sentimos. Se eu disser que "estou com medo do que pode acontecer com o país" pode soar ingênuo, quase constrangedor. Mas se eu disser "estou em psicose política", pode soar como algo reconhecível, com nome técnico, que justifica o desespero, a insônia e o cansaço. O vocabulário clínico funciona como uma espécie de autorização: o sofrimento parece mais legítimo quando vem com rótulo.
O diagnóstico virou uma gramática de reconhecimento, e o problema é que, nessa troca, o afeto político, que é medo, raiva, esperança, precisa se disfarçar de transtorno para ser levado a sério.
E veja, se ligar demais para a política é sintoma, o sujeito saudável passa a ser aquele que não liga? A cultura do detox de notícias carrega a ideia de que o engajamento é um excesso a ser tratado, e a indiferença, um sinal de equilíbrio. Num país em que a participação política sempre foi desigual e em que hoje vivemos uma ameaça à democracia e ao Estado de direito, essa ideia serve a alguém. Patologizar o interesse pelo comum é uma forma sofisticada de despolitizar. Deixo claro que não estou propondo um dicionário de palavras corretas. Linguagem viva não obedece a decreto, e o humor tem seu lugar. Inclusive, brincar com a loucura é um dos gestos mais sofisticados para se fazer política sobre ela.
Na verdade, estou propondo um pequeno exercício de precisão: devolver aos afetos políticos o nome deles. Medo, raiva, esperança, cansaço, vigilância. São palavras que não pedem licença à clínica e não emprestam a dor de ninguém. Pode ser difícil reconhecê-las? Sim, mas pode ser que elas tenham mais força justamente porque nos lembram que o que sentimos não é um transtorno a ser curado em silêncio, mas uma resposta ao mundo, que pode ser compartilhada, organizada e transformada com outras pessoas.


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