Artes, Literatura e História

O que é belo? Uma investigação filosófica, estética e cultural

O que é belo? Uma investigação filosófica, estética e cultural

Desde a Antiguidade, filósofos buscam definir o que torna algo belo, mas essas tentativas sempre refletem o contexto em que surgem. O conceito de beleza assume formas distintas conforme os valores da época e as concepções de mundo. Isso mostra que a beleza não pode ser entendida isoladamente, mas em conexão com os referenciais que estruturam uma sociedade e um determinado período histórico.

Neste artigo, você verá como o conceito de beleza foi pensado ao longo da história da filosofia, desde a Antiguidade até a contemporaneidade, passando por autores como Platão, Aristóteles e Kant. Serão abordadas as relações entre beleza, cultura e tempo histórico, bem como as transformações do belo na arte e no juízo estético.



O que é beleza?

Não existe consenso para responder à pergunta “o que é beleza?”, visto que aquilo que é considerado belo é constantemente redefinido através da história, das culturas e do ponto de vista subjetivo.

Longe de ser uma ideia uniforme e universal, a percepção de beleza, embora pareça natural, carrega diversas camadas, feitas de visões criadas por artistas, filósofos e uma longa tradição de pensamento que acabou ficando inscrita no inconsciente coletivo.

O escritor Umberto Eco, no seu livro História da Beleza, faz uma reflexão que se relaciona diretamente com o conceito da Grécia Antiga intitulado Kalokagathia, união de kalos (belo/bonito) + agathos (bom/virtuoso). Esse conceito influenciou os filósofos Platão e Aristóteles e, consequentemente todo o pensamento ocidental:

Belo” - junto com “gracioso”, “bonito” ou “sublime”, “maravilhoso”, “soberbo” e expressões similares - é um adjetivo que usamos frequentemente para indicar algo que nos agrada. Parece que, nesse sentido, aquilo que é belo é igual àquilo que é bom e, de fato, em diversas épocas históricas criou-se um laço estreito entre o Belo e o Bom” (Umberto Eco, História da Beleza)

De fato, para os gregos da Antiguidade, a beleza não era apenas estética e o bem não era apenas uma questão moral. Os dois se entrelaçavam.

A beleza humana era vista como expressão da virtude: um corpo belo, harmonioso e proporcional era compreendido como um reflexo de uma alma equilibrada e virtuosa. Portanto, o ideal deste período era alguém ser belo por fora e bom por dentro, como uma harmonia entre ética e estética.

Pintura renascentista com figura feminina sobre uma concha, cercada por personagens mitológicos
O nascimento de Venus (1484-1486), Sandro Botticelli

Existe um padrão universal de beleza?

Não, não existe um padrão universal de beleza. O belo não é fixo nem universal. Como escreveu Umberto Eco,

aquilo que é considerado belo depende da época e da cultura [...] a beleza jamais foi algo de absoluto e imutável, mas assumiu faces diversas segundo o período histórico e o país: e isso não apenas no que diz respeito à beleza física (do homem, da mulher, da paisagem), mas também no que se refere à Beleza de Deus ou dos santos, ou das ideias…

Portanto, é engano pensar que há um padrão de beleza aceitável em todas as culturas, em todas as épocas. Até num mesmo período histórico e numa mesma cultura é possível haver representações distintas do que é considerado belo.

A beleza como problema filosófico

A beleza é um tema estudado pela filosofia porque não é tão simples quanto parece. Existe um campo inteiro chamado Estética, que investiga não só o que achamos bonito, mas como percebemos e julgamos o que é belo.

A questão não pode ser resolvida apenas com opinião ou observação, pois envolve reflexões mais profundas sobre nossa experiência subjetiva e nossos critérios.

Um ponto difícil sobre a beleza é que não sabemos se ela está nos objetos ou em quem os observa. Algo é belo por ter qualidades próprias, como forma, proporção ou simetria? Ou se torna belo porque provoca prazer ou admiração em quem olha? Essa dúvida mostra que entender o que é belo envolve pensar sobre a relação entre o mundo e a nossa percepção.

Outro ponto é que nossos julgamentos sobre beleza não são totalmente aleatórios, mas também não podem ser provados como verdadeiros ou falsos. Quando dizemos que algo é belo, estamos expressando um sentimento, mas também esperando que outros possam compreender ou concordar com ele. A filosofia busca entender como e por que conseguimos julgar algo como bonito.

Além disso, a beleza também carrega regras e ideias sobre o que é correto, harmonioso ou perfeito. Ao longo da história, padrões de beleza serviram para organizar a produção da arte, ditar comportamentos e até dizer quem era valorizado ou ignorado. Por isso, estudar a beleza significa também refletir sobre como essas ideias afetam a cultura e a vida das pessoas.

O belo na Antiguidade: Platão e Aristóteles

Para Platão, a beleza está profundamente vinculada à verdade e ao bem. Em diálogos como O Banquete e Fedro, ele sustenta que o belo sensível é apenas uma manifestação imperfeita de uma Beleza em si, pertencente ao mundo das formas, que seria eterno, imutável e inteligível.

Objetos artísticos, corpos humanos ou ações só podem ser considerados belos na medida em que participam dessa realidade ideal.

Aristóteles, embora herdeiro de Platão, propõe uma abordagem mais concreta e empírica do belo. Para ele, a beleza está associada à ordem, à proporção, à harmonia e à finalidade.

Um objeto é belo quando suas partes se organizam de modo coerente e quando ele realiza adequadamente sua função. Diferentemente de Platão, o belo não remete a um mundo transcendente, mas se manifesta no próprio objeto e na sua estrutura.

O Belo na Modernidade: Kant e o juízo de gosto

No século XVIII, o filósofo Immanuel Kant trouxe uma ideia nova sobre o que é belo: ele percebeu que a beleza não está só nas coisas em si, mas na experiência de quem observa.

Em sua obra Crítica da Faculdade de Julgar, Kant explica que o juízo de gosto é subjetivo, ou seja, depende do prazer de cada um, mas também universalizável, porque ao achar algo bonito, esperamos que outras pessoas sintam algo parecido.

Isso significa que o belo não depende apenas da função, da proporção ou das características objetivas de uma obra, mas da harmonia entre a obra e a forma como nosso cérebro e sentimentos reagem a ela.

Uma pintura, um prédio ou uma paisagem são belas não só pelo que são, mas pelo efeito que provocam em quem as observa.

Assim, Kant mudou a forma de pensar sobre beleza, mostrando que ela surge na relação entre o objeto e quem o aprecia. Uma ideia que ainda influencia como entendemos arte, cultura e experiências estéticas hoje.

Homem de costas sobre uma rocha observando uma paisagem montanhosa coberta por névoa
O Viajante diante do mar de nuvens, 1818, Caspar David Friedrich.

O Belo e o Sublime para Kant

Na filosofia e na arte, além da beleza, existe outro conceito importante: o sublime. Enquanto o belo geralmente nos atrai e encanta, o sublime nos impressiona e até nos assusta, despertando emoções fortes como admiração, surpresa ou até medo.

Por exemplo, contemplar uma montanha gigantesca ou um céu estrelado pode nos fazer sentir pequenos diante da grandiosidade da natureza e essa experiência é a do sublime.

O filósofo Immanuel Kant distingue o belo do sublime justamente por essa diferença: o belo é agradável e equilibrado, enquanto o sublime nos desafia, nos força a reconhecer limites e poder, seja na natureza ou na arte.

Na arte contemporânea, essa distinção acaba sendo muito usada, porque diversas obras buscam justamente provocar o espectador. Uma instalação abstrata, uma escultura enorme ou uma paisagem fotografada e projetada de forma ampliada pode ser sublime ao criar impacto, tensão ou surpresa, sem necessariamente ser “bonita” no sentido tradicional.

Assim, podemos pensar que na arte de hoje o belo e o sublime se complementam: enquanto o belo nos envolve e nos encanta, o sublime nos sacode e causa grande impacto, tornando a experiência estética mais rica e complexa.

A contemplação de uma obra não é apenas sobre forma ou cor; é sobre sentir, refletir e interagir com aquilo que está diante de nós.

Beleza, cultura e tempo histórico

A beleza não é estática: ela muda com o tempo, os valores e as convenções sociais. O professor de Filosofia Antiga da Universidade de Brasília, Eduardo Wolf, observa que todas as sociedades têm critérios de valorização estética, mas esses critérios variam enormemente. Uma escultura ou edifício considerado belo no século XVI pode parecer estranho ou desproporcional hoje.

Umberto Eco, na já citada obra História da Beleza, reforça essa ideia. Ele percorre séculos de representações do belo, mostrando que o conceito não é universal: o belo pode ser harmonioso, mas também grotesco, chocante ou provocador.

Eco revela que cada época negocia o que é digno de ser chamado de belo, seja no corpo humano, na arquitetura, na pintura ou na paisagem. A beleza, portanto, é histórica, cultural e sensorialmente mediada.

O belo na arte

Escultura clássica de atleta lançando disco, representando o ideal de proporção e harmonia na arte grega
Discóbolo (c. 450 a.C.), Míron. Cópia romana em mármore

A compreensão do belo na arte mudou profundamente ao longo do tempo. Na Antiguidade Clássica, especialmente na Grécia, o ideal de beleza estava diretamente ligado à proporção, à harmonia e à fidelidade a uma natureza idealizada e atlética.

Os artistas buscavam representar o corpo humano de forma equilibrada, racional e perfeita, seguindo medidas matemáticas e princípios de simetria. A beleza não era apenas visual, mas refletia uma ordem cósmica, moral e racional.

Esculturas de deuses e atletas, por exemplo, expressavam esse ideal de perfeição física e espiritual, no qual arte, religião, ética e vida cívica estavam profundamente integradas.

Com a Idade Média, muitos desses valores clássicos foram quase perdidos ou deixados em segundo plano. A arte medieval não tinha como objetivo principal a representação fiel da natureza nem o uso rigoroso de proporções harmoniosas. Em vez disso, priorizava o significado simbólico e religioso.

As figuras humanas eram frequentemente estilizadas, hierarquizadas e pouco naturalistas, pois a intenção não era exaltar o corpo ou a beleza física, mas transmitir ensinamentos espirituais e reforçar a fé cristã.

Assim, o fazer artístico afastou-se das técnicas clássicas de medida, perspectiva e anatomia, valorizando mais o conteúdo espiritual do que a forma harmoniosa.

Esse cenário começa a mudar com o Renascimento, período em que artistas como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Rafael retomaram os valores da Antiguidade Clássica.

Inspirados pelas obras greco-romanas, esses artistas voltaram a estudar a anatomia humana, a proporção, a perspectiva e a matemática aplicadas à arte.

O belo renascentista surge novamente como equilíbrio entre razão e sensibilidade, natureza e idealização, corpo e espírito. A arte passa a valorizar o ser humano como medida das coisas, recuperando a noção de harmonia e perfeição formal.

Com o passar do tempo, especialmente na modernidade e na contemporaneidade, essa percepção do belo se amplia. Hoje, entendemos que a beleza na arte não precisa estar ligada apenas à proporção ou à harmonia clássica. Ela pode ser uma experiência ativa do observador, capaz de provocar prazer, reflexão, estranhamento ou até desconforto.

Na arte contemporânea, o belo pode ser crítico, ambíguo ou provocador, questionando normas, valores e expectativas. Assim, a obra de arte deixa de ser apenas algo “bonito” e passa a ser um campo de experiência, em que o belo surge da interação entre forma, contexto e percepção, revelando a arte como uma manifestação sensível, cultural e intelectualmente complexa.

A beleza ao longo do tempo
Período Conceito de Beleza Critérios Papel do Observador
Antiguidade Clássica Beleza como expressão da ordem, harmonia e perfeição ideal Proporção matemática, simetria, equilíbrio, idealização da natureza e do corpo humano Observador contempla a obra como reflexo da ordem cósmica e de valores universais
Idade Média Beleza subordinada ao valor espiritual e religioso Simbolismo, hierarquia das figuras, função pedagógica e religiosa, menor preocupação com naturalismo Observador interpreta a obra como meio de elevação espiritual e aproximação do divino
Renascimento Beleza como harmonia entre natureza, razão e ideal clássico Proporção, perspectiva, estudo da anatomia, equilíbrio formal, retomada dos modelos greco-romanos Observador aprecia a obra pela harmonia racional e pela valorização do humano
Modernidade (séc. XVIII – Kant) Beleza ligada à experiência estética do sujeito Prazer desinteressado, livre jogo das faculdades, universalidade subjetiva Observador é ativo; a beleza surge da relação entre sujeito e objeto


O belo hoje: beleza, desconforto e ambiguidade

Na contemporaneidade, o conceito de beleza não ocupa mais uma posição central e estável no campo da arte.

Como destaca o professor Eduardo Wolf, ao longo do século XX ocorreu um deslocamento profundo no modo como a arte passou a ser compreendida: muitas correntes artísticas, especialmente as ligadas ao modernismo e às vanguardas europeias, promoveram uma separação consciente entre o juízo de beleza e a definição do que pode ser considerado arte.

A partir desse momento, torna-se possível reconhecer uma obra como artística mesmo quando ela não é bela no sentido tradicional.

Esse processo marca uma ruptura com o ideal clássico de beleza, baseado na harmonia, na proporção e na idealização da forma.

Obras modernas e contemporâneas frequentemente abandonam esses critérios e passam a explorar o estranhamento, a deformação, a crítica e a ambiguidade.

Nesses casos, a arte deixa de buscar a agradabilidade sensorial e passa a provocar o observador, exigindo dele uma postura mais ativa, reflexiva e interpretativa.

Como observa Wolf, esse movimento não representa apenas uma mudança de estilo, mas uma transformação radical no próprio vocabulário com o qual a arte foi historicamente pensada.

No entanto, retirar a beleza do centro das considerações artísticas não significa eliminá-la completamente. Ainda segundo Wolf, reduzir a beleza à mera aparência agradável ou à atração sensorial é um erro herdado do sistema moderno das belas-artes.

A beleza pode assumir uma dimensão mais ampla, que não se confunde com simetria ou conforto visual. Mesmo em obras que não são imediatamente atraentes, pode haver uma experiência estética intensa, capaz de envolver, concentrar e transformar o observador.

Nesse sentido, a reflexão contemporânea permite reaproximar a beleza de uma dimensão existencial e ética, retomando, de forma renovada, elementos da tradição filosófica grega.

Inspirada em Platão, a filósofa Iris Murdoch entende a beleza como aquilo que orienta a atenção e o olhar para além do imediato, funcionando como uma via de acesso ao bem.

Cursos para aprofundar sobre o belo

    Confira abaixo uma seleção de cursos que ampliam e aprofundam as reflexões sobre o conceito do que é belo, oferecendo diferentes perspectivas teóricas e históricas para quem deseja continuar explorando o tema.

  • Grandes Questões da Humanidade: Beleza, com Clóvis de Barros Filho :

    Inserido em um conjunto mais amplo de problemas filosóficos, o curso discute o que entendemos por belo, quais critérios mobilizamos para julgar algo como belo e como esses critérios se transformaram ao longo do tempo. Em diálogo com pensadores como Platão, Aristóteles, Hobbes, Maquiavel, Nietzsche e Foucault, propõe uma reflexão acessível e rigorosa sobre os fundamentos éticos e culturais da experiência estética.

  • Jornada da Filosofia: O que é Beleza?, com Eduardo Wolf :

    O curso oferece um panorama histórico-conceitual da ideia de beleza no Ocidente, desde sua origem na Grécia até sua incorporação pela crítica de arte. Ao demonstrar que a beleza ultrapassa o mero gosto pessoal, explicita suas implicações nos juízos de valor, nos costumes e nas formas de organização social, revelando sua força estruturante na experiência humana.
  • O Que é Arte?, com Felipe Martinez :

    O curso enfrenta diretamente a pergunta “o que é arte?”, desdobrando-a em diferentes dimensões conceituais e históricas. A partir do diálogo com obras clássicas, modernas e contemporâneas, analisa as relações entre criação, instituições, público e mercado, evidenciando como os sentidos da arte se constroem em disputas simbólicas e contextos culturais específicos.

  • Introdução à História da Arte, com Felipe Martinez :

    Percorrendo do Renascimento à arte moderna e contemporânea, o curso apresenta artistas, obras e transformações estéticas fundamentais, articulando aspectos formais - como composição, cor e perspectiva - a dimensões sociais, institucionais e econômicas. O recorte evidencia como nossas ideias de beleza e arte são historicamente construídas e atravessadas por valores que extrapolam o campo artístico.


Todos esses cursos estão disponíveis por uma única assinatura na Casa do Saber, plataforma de streaming dedicada ao conhecimento.



Perguntas frequentes sobre o belo

O que é belo?

O belo é aquilo que provoca uma experiência estética significativa, seja pela forma, proporção, harmonia, estranhamento ou efeito sensorial, cultural e histórico. Trata-se de um conceito central na reflexão sobre estética e na filosofia da arte.


Toda obra de arte deve ser bela?

Não. A arte pode ser crítica, chocante ou feia. O belo não é critério exclusivo de valor artístico, especialmente nas discussões contemporâneas sobre arte moderna e estética.


A beleza é objetiva ou subjetiva?

A beleza não é puramente objetiva nem totalmente subjetiva: ela depende da experiência individual do observador e também é construída por valores culturais e históricos, conforme discutido na tradição da filosofia estética.


É possível definir o que é belo hoje?

Sim, mas apenas de maneira plural e contextual: o belo é histórico, sensorial e cultural, não é universal nem fixo. O conceito de belo varia conforme época, sociedade e perspectiva teórica.


Artigo escrito por
Xavana Celesnah
Xavana Celesnah é jornalista e mestre em Artes Visuais. Apaixonada pelas expressões artísticas em todas as suas manifestações, viu no jornalismo cultural uma maneira de aprofundar o conhecimento nos temas que ama.