Filosofia

Escolástica: o que é, método, pensadores e contexto histórico

Escolástica: o que é, método, pensadores e contexto histórico

A escolástica é uma vertente filosófica (século IX a XVI) situada no período medieval com fortes influências do cristianismo e da filosofia grega, especialmente o aristotelismo. O principal nome desta corrente é São Tomás de Aquino, que buscou conciliar fé e razão, religião e filosofia.

Uma das principais contribuições da filosofia escolástica foi a sistematização do pensamento teológico e o desenvolvimento de um sistema de formação intelectual que se mantém até os dias atuais.



O que foi a escolástica e seu contexto histórico

Filosofia escolástica é uma vertente da filosofia medieval e um método de pensamento que influenciou os modos de ensino nas universidades como conhecemos hoje.

São Tomás de Aquino, conhecido como o “Príncipe da Escolástica”, é o principal nome dessa corrente filosófica e certamente o nome mais importante da filosofia medieval. Contudo, outros estudiosos também foram relevantes para o desenvolvimento deste pensamento.

Contexto histórico

Situada no período medieval (século V ao XV), a escolástica surge em um momento posterior à patrística. O pensamento medieval sofreu grande influência do cristianismo, uma vez que a igreja católica dominava a Europa.

Com isso, o conhecimento desenvolvido na época, num primeiro momento, foi voltado para a disseminação dos dogmas e valores do cristianismo com a patrística; e posteriormente, com a escolástica, buscou-se sistematizar o pensamento cristão unindo fé e razão.

A escolástica surge por volta do século IX e se estende até meados do século XVI, perdendo força com o surgimento do Renascimento.

Após o momento de atuação dos primeiros filósofos patrísticos na divulgação dos valores e dogmas do cristianismo, a Igreja Católica percebeu a necessidade de formação de novos sacerdotes para continuar sendo a autoridade cultural e educacional.

Para isso, foram desenvolvidas as universidades medievais que tinham como principal objetivo formar novos sacerdotes.

Escolástica vem do latim scholasticus que significa “escola”, o que remonta exatamente a este movimento de criação de um ambiente para o desenvolvimento de pensadores capazes de difundir as ideias cristãs.

“A escolástica, justamente por provir da palavra escola, ela tem um efeito sistemático, e a filosofia de São Tomás [de Aquino] é justamente uma das mais sistemáticas e tem uma tradição, criou uma tradição de sistematicidade na filosofia.” Professor Franklin Leopoldo e Silva.

Ainda que a escolástica medieval tenha inaugurado um novo modo de pensar a filosofia, mais voltado para a reflexão teórica e para as ciências naturais do que para descobertas científicas específicas, como ocorreu na filosofia clássica; ela desenvolveu um pensamento crítico e um método sistemático de ensino que resgatou e reinterpretou ideias de Platão e Aristóteles.

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O método escolástico

Mais do que uma filosofia, a escolástica também pode ser entendida como método de pensamento crítico medieval uma vez que buscava conciliar de forma sistemática fé e razão a partir da lógica e da dialética para a interpretação de textos e questões religiosas.

Embora tenha herdado elementos do pensamento clássico e helenístico, em especial da filosofia grega, a escolástica sofreu grande influência da cultura cristã. Isso exigiu um esforço constante de conciliação entre a tradição filosófica racional e os dogmas do cristianismo.

Um exemplo da busca desse equilíbrio é a obra "Suma Teológica", de São Tomás de Aquino.

Nela, ele reinterpreta conceitos de Aristóteles à luz dos valores do cristianismo. Esse movimento dá origem ao tomismo, corrente filosófica que busca conciliar razão e fé sem que uma se sobrepusesse à outra, porém, para Tomás de Aquino a fé era suprema.

“[...] a autoridade da fé e a autoridade da razão dialogam e se comunicam, embora a razão esteja sempre e ainda subordinada à fé.” Oswaldo Giacóia

O propósito do método escolástico era preparar os pensadores para defender os dogmas e valores cristãos por meio de uma argumentação racional e estruturada.

Para isso, eles utilizavam a lógica e a dialética como instrumentos para a interpretação de textos sagrados e para a reflexão sobre questões religiosas.

A sistematização da fé

Os elementos centrais do método escolástico de aprendizagem eram quaestio e disputatio. Esses procedimentos se organizavam em três momentos principais:

  • Lectio (leitura): o mestre apresentava e comentava um texto bíblico ou filosófico.
  • Quaestio (questão): a partir da leitura, era formulado um problema ou pergunta, geralmente de natureza teológica.
  • Disputatio (disputa): um debate estruturado, no qual os alunos argumentavam racionalmente a favor e contra a tese apresentada.

Com isso, os aprendizes participavam de um debate.

Primeiro formulava-se a questão (quaestio). Em seguida, apresentavam-se os argumentos contrários à tese (oppositiones). Depois vinha a responsio, a resposta que defendia a tese com base em argumentos racionais. Por fim, o mestre encerrava o debate com a solução da questão, sintetizando os argumentos e apresentando uma posição considerada verdadeira.

Diagrama do método escolástico com as etapas quaestio, oppositio, responsio e solutio, representando a progressão do debate filosófico até a resolução final
Método escolástico. Imagem criada pela autora.

Esse exercício dialético era importante para a formação intelectual dos sacerdotes, já que desenvolvia a capacidade de argumentação ao mesmo tempo que buscavam a verdade alinhada à fé cristã.

O método escolástico e a Suma Teológica de São Tomás de Aquino

Um exemplo histórico relevante destes debates é a suma teológica de São Tomás de Aquino.

Ela é dividida em três momentos:

  • Prima Pars: investiga a existência de Deus, apresentando as “Cinco vias” que provaram sua existência.
  • Secunda Pars: aborda questões sobre a felicidade, a moral dentro de uma perspectiva ética cristã.
  • Tertia Pars: analisa a figura de Jesus Cristo, a Encarnação e os sacramentos. Essa parte foi concluída por discípulos de Tomás após sua morte, resultando no chamado Suplemento.

A partir do que foi apresentado é possível compreender o processo de sistematização racional da fé proposto pelo método escolástico.

As universidades medievais criaram um modelo de aprendizagem no qual a razão não se opunha à fé, mas a ajudava a ser compreendida, permitindo que os valores e dogmas do cristianismo fossem ensinados, defendidos e entendidos de maneira clara, lógica e mais simples.

Principais pensadores

Apesar de São Tomás de Aquino provavelmente ser o principal e mais conhecido nome da filosofia escolástica, outros pensadores também foram fundamentais para a formação deste pensamento.

Anselmo de Cantuária

Anselmo de Cantuária foi uma figura importante para a filosofia medieval. Foi um dos primeiros pensadores a formular de forma sistemática a relação entre fé e razão, por isso, também é conhecido como “Pai da Escolástica”.

Para ele, a fé precede o entendimento, essa ideia pode ser resumida na expressão fides quaerens intellectum (fé em busca de entendimento). Anselmo acreditava que a razão humana podia aprofundar racionalmente as verdades reveladas pela fé.

A principal contribuição de Anselmo de Cantuária é o argumento ontológico, no qual buscou demonstrar a existência de Deus apenas a partir do pensamento racional. Além disso, ele teve grande impacto no processo do método escolástico, uma vez que valorizava a argumentação lógica e a clareza conceitual.

Seu pensamento se desenvolveu na transição entre a filosofia patrística e a escolástica, tornando-se referência para debates com temas como metafísica e teologia realizados na filosofia escolástica.

São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino segurando a Suma Teológica, símbolo da escolástica medieval

Provavelmente o mais conhecido pensador da escolástica, São Tomás de Aquino era chamado de “Príncipe da Escolástica” tamanha influência no pensamento cristão e na história da filosofia ocidental.

Como aponta o professor Oswaldo Giacóia no no Curso Trilha da Filosofia | 3ª Temporada, ele foi um filósofo e teólogo que viveu no século XIII e revolucionou a filosofia ao “estabelecer uma síntese nova entre filosofia, a tradição da razão e a experiência da fé”.

Com isso, buscou conciliar a fé cristã e a razão filosófica, principalmente ao trazer a filosofia de Aristóteles para o desenvolvimento de seu pensamento teológico, fundando, assim, o Tomismo.

Para Tomás de Aquino, fé e razão não se opõem, porque as duas se originam em Deus e conduzem à verdade, ainda que por caminhos diferentes.

A razão permite ao indivíduo compreender as ciências naturais, como a existência de Deus, enquanto a fé é a ferramenta para se acessar às verdades que a razão não é capaz de chegar, como a unitrindade de Deus.

“A razão não pode compreender como Deus é, ao mesmo tempo, unitrino, não pode compreender como Deus criou o mundo a partir do nada e não pode compreender como Deus, na pessoa do Cristo, vem ao mundo enquanto Deus e homem, ao mesmo tempo.” - Oswaldo Giacóia

Essa concepção é a base da sua obra mais reconhecida, a Suma Teológica, que foi escrita seguindo o método escolástico da quaestio e da disputatio, isto é, de maneira sistemática e dialética.

Duns Scotus

Duns Scotus ou Beato Duns Scotus foi um dos mais importantes filósofos da escolástica. Suas contribuições à metafísica, à teologia e à teoria do conhecimento foram consideradas originais ao criticar as propostas dos pensamentos da época, o de Santo Agostinho e o de São Tomás de Aquino.

Ele propôs uma uma abordagem mais sutil da relação entre fé e razão, enfatizando os limites da razão humana frente aos mistérios divinos.

Ele viveu nos séculos XIII e XIV, e uma de suas principais contribuições foi a noção de univocidade do ser.

A questão de Duns Scotus é: essa palavra tem o mesmo significado quando falamos de Deus e quando falamos das criaturas? Por exemplo: Deus é. As criaturas são.

A partir deste raciocínio, Duns Scotus entendeu que o verbo “ser” significa existir nos dois casos, ou seja, tem um significado comum quando falamos de Deus e do mundo. Portanto, para Scotus, o ser é unívoco porque pode ser pensado de forma comum tanto em Deus quanto nas criaturas.

O pensamento de Scotus, ou scotista, teve grande impacto na escolástica medieval, porque era uma alternativa ao tomismo, o que ampliou as reflexões e ideais da filosofia medieval.

Guilherme de Ockham

Guilherme de Ockham foi um filósofo e teólogo franciscano da escolástica. Viveu no século XIII e XIV e ficou conhecido por sua postura crítica diante da complexidade desnecessária da metafísica.

Sua principal contribuição foi o princípio filosófico conhecido como navalha de Ockham. Este princípio diz que quando apresentadas várias explicações, não se deve multiplicar entidades sem necessidade, mas, sim, privilegiar explicações mais simples, porque possivelmente são as mais prováveis.

Além disso, separou a fé e a razão ao dizer que muitas verdades teológicas não podem ser demonstradas racionalmente. Seu pensamento influenciou o declínio da escolástica e abriu caminho para novas abordagens filosóficas e científicas na modernidade, contribuindo para debates epistemológicos, políticos e metodológicos.

Ockham tinha alguns pensamentos que incomodavam a Igreja Católica, como defender a pobreza apostólica e questionar a autoridade do Papa. Essa postura fez com que fosse excomungado em 1328, mas o Imperador Luís IV da Baviera o acolheu até a sua morte em 1347.

Frases de filósofos da escolástica

Anselmo de Cantuária, Tomás de Aquino, Duns Scotus e Guilherme de Ockham foram alguns dos principais nomes da escolástica.

Todos contribuíram com a filosofia medieval ao refletirem por diferentes caminhos sobre a relação entre fé, razão, filosofia, religião metafísica e conhecimento na tradição cristã ocidental.

Conheça algumas de suas principais frases:

  • A fé busca compreender.” (Anselmo de Cantuária)
  • A graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.” (Tomás de Aquino)
  • O ato de ser é a perfeição mais formal e mais nobre de todas”. (Duns Scotus)
  • Não se deve multiplicar os entes sem necessidade.” (Guilherme Ockham)

A escolástica foi fundamental na formação do pensamento filosófico ocidental ao desenvolver métodos rigorosos de argumentação, sistematização e diálogo entre fé e razão.

Com o desenvolvimento das universidades medievais, incentivou debates críticos e possibilitou a transição para a filosofia moderna, marcada pela autonomia da razão e pelo questionamento dos saberes tradicionais.

Perguntas frequentes sobre a escolástica

O que foi a escolástica?

A escolástica foi uma vertente e um método filosófico medieval que buscou de forma lógica e dialética conciliar fé e razão ao interpretar textos religiosos para compreender de forma racional principalmente a verdade religiosa.


Qual a relação da escolástica com a filosofia medieval?

A escolástica foi uma vertente da filosofia medieval que buscou equilibrar fé e razão para explicar através de argumentos racionais e sistematizados os dogmas e a doutrina católica.


Quem foram os principais autores da escolástica?

Os principais autores da escolástica são Anselmo de Cantuária, Tomás de Aquino, Duns Scotus e Guilherme de Ockham, responsáveis por apresentar diferentes interpretações da relação entre razão, fé e metafísica.


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Referências:

Curso da Casa do Saber: Trilha da Filosofia | 3ª Temporada

ANSELM OF CANTERBURY. Anselm of Canterbury. Stanford Encyclopedia of Philosophy, edited by Edward N. Zalta. Primeiro publicado em 18 maio 2000; revisão substancial em 16 jul. 2023.

DUNS SCOTUS. John Duns Scotus. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, edited by Edward N. Zalta. Publicado em 31 maio 2001; revisão substancial em 15 dez. 2025.

OCKHAM, William of. William of Ockham. Stanford Encyclopedia of Philosophy, edited by Edward N. Zalta. Primeiro publicado em 16 ago. 2002; revisão substancial em 11 set. 2024.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. Tradução de Álvaro Cunha; revisão de L. Costa e H. Dalbosco. V.1. São Paulo: Paulus, 1991.

Artigo escrito por
Paula Delgado
Jornalista pela UFJF, mestra e doutoranda em Comunicação pela mesma instituição, integra o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo Audiovisual (NJA).