
“Cigarrô! Fumar é bom! Compre cigarro. Se parou, volte: fumar é bom!”
Se algum fiscal passasse por ali, o vendedor ambulante seria enxotado da praia. Era um vai e vem entoando as mesmas palavras naquela faixa pequena de areia, que pra rodar a denúncia e aparecer alguém era questão de minutos.
Mas a vitrine portátil de cigarro ficava cada vez mais vazia, e o homem vendia sem medo com o marketing mais antigo de que se tem notícia: a inverdade.
Eu estava em Salvador para apresentar um trabalho que me custou os últimos três anos de vida. Um trabalho de pesquisa, escrito nas primeiríssimas horas do dia sem que o pão que me sustenta deixasse de ser priorizado.
Uma dissertação de mestrado da qual me orgulho, que imprime quem sou, mas que sempre é acompanhada da pergunta:
“Quem vai ler?”
Ou melhor:
“Alguém vai ler?”
Tá certo que esse é um problema do conhecimento em geral. Não lemos, ainda mais se for um texto em ABNT, que muitas vezes só produz sentido em quem o escreve. Faltava pouco tempo para a apresentação, e aquela ida à praia era uma brecha de 20 minutos para entrar na água e tomar coragem de enfrentar a exposição e o julgamento, adornos naturais de quem está pra jogo nessa vida.
Eu estava nervosa, em especial porque certos jogos são criados por donos de uma segurança natural, com regras que variam de acordo com o gênero, raça, classe e idade de quem está participando. Desde que escrevi as quase 100 páginas desta pesquisa, falei bem baixinho sobre o que fiz, e aquela era uma das primeiras oportunidades de subir um pouco o tom, embora as vozes mais altas da minha cabeça fossem:
“Ninguém vai te ouvir.”
Com destaque para:
“Ninguém estará lá.”
E menção honrosa para:
“O trabalho tá ruim.”
Pensamentos intrusivos normais antes de se falar em público, tanto quanto cotidianos na experiência laboral feminina, sobretudo naquelas em que a “qualidade” da autoria é reivindicada como termômetro para ser ou não uma boa profissional.
Se os homens têm mais destreza em vender pelo engano, por que ainda não conseguimos gritar a plenos pulmões nem aquilo que fazemos com verdade?
O ponto não sou eu e nem o que escrevi, afinal, eu teria o privilégio de fazer aquela apresentação horas mais tarde. Mas todas as mulheres que não se entregam às suas vocações pela vergonha, pelo medo do silêncio alheio ou das cobranças injustas sobre os seus trabalhos.
Todas as mulheres tolhidas por falarem e quererem e pensarem demais, empobrecidas e desestimuladas de suas próprias ambições. O que ainda precisamos fazer para extinguir as dúvidas que projetam sobre nós?
É verdade que na condição de ambulante, vende-se o que dá, e a forma como se anuncia é o que dá liga para vender bem ou não. Mas daí pra clamar em alto e bom som que fumar é bom, são outros quinhentos.
Então, se uma mentira dita muitas vezes se torna verdade, quem sabe a repetição de uma verdade não se torna fato soberano, e frases como
“Ler mulher é bom! Compre livro de mulher! Se parou, volte: ler mulher é bom!”
se tornem mais ouvidas e acreditadas Brasil afora.
