Em um dia qualquer, dois cientistas sentavam-se à mesa para jogar conversa fora. Papo vai, papo vem, e o rumo da prosa envereda por hipóteses científicas, relatos de pesquisa, viagens de campo e compromissos acadêmicos.
A cena descrita poderia ter acontecido no intervalo de algum congresso ou coisa do tipo, mas tratava-se de apenas um dia como outro qualquer na vida da pequena Ana Carolina, que provavelmente brincava no entorno enquanto a conversa rolava.
Filha de uma antropóloga e um arqueólogo, ambos com carreira consolidada academicamente, acostumou-se cedo a ouvir debates de alto nível intelectual e a desenvolver o pensamento científico. “Quando criança, eu ia pras escavações ajudar a achar pedacinho de osso e construir as histórias”, relembra Ana Carolina Souza.

Ana é carioca da gema, nascida e criada no bairro Méier. Cresceu em meio a encontros e festas de uma família numerosa, sempre cercada de gente. A curiosidade insaciável por entender mais sobre as pessoas, suas relações e comportamento, a motivou a pesquisar a relação entre corpo e mente no âmbito da ciência. Rompeu barreiras e abriu espaços de pesquisa que até então eram pouco explorados.
Hoje, Ana Carolina Souza é sócia-fundadora da Nêmesis, empresa brasileira voltada à aplicação de conhecimentos em neurociência comportamental para o mercado. Doutora em ciências, mestre em química biológica e graduada em ciências biológicas pela UFRJ, com pesquisa de pós-doutorado em colaboração com o Instituto Nacional do Câncer (Inca). É também professora na Casa do Saber.

Além de atuar como professora, pesquisadora, palestrante e empresária, equilibra a atarefada vida corporativa com a agenda escolar da filha Julia - se esforçando para ajudar no dever de casa, estar presente no dia a dia e preparar belíssimas lancheiras.
Nas horas vagas, pinta aquarela, devora séries de suspense (de forma semi-obsessiva, é verdade) e adora dançar - desde que não envolva apresentação em público.
Abaixo, alguns dos cursos da professora Ana Carolina Souza na Casa do Saber
- Introdução à Neurociência
- Saúde Mental e Estresse: Uma Visão das Neurociências
- Amor Como Revolução: Neurociência dos Afetos e Relações Sociais
- Rumo a uma Mente Saudável
- Aprender a Aprender
Confira todos os cursos da professora
O interesse por pessoas, ciências e a escolha acadêmica
A mãe, uma antropóloga renomada, especialista em arqueologia. O pai, arqueólogo, foi um dos fundadores da primeira faculdade de arqueologia no Rio de Janeiro. O caminho da ciência parecia estar desenhado para Ana Carolina.
Apesar disso, quando era adolescente e estava decidindo o que prestar no vestibular, brinca que a mãe tentou dissuadi-la da ideia: “Ela tentou me convencer a seguir História, Arte, Letras… qualquer coisa, menos Ciência. Fizemos um mochilão por Minas Gerais - que foi divertidíssimo - mas no final eu concluí que realmente eu queria trabalhar com pessoas”.
E foi a própria mãe, Sheila, que entendendo o desejo da filha, identificou o curso voltado para a formação de biocientista como uma boa alternativa para o que ela procurava. Não deu outra. Assim iniciou sua carreira acadêmica ingressando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Eu quero entender como esse corpo e essa emoção se relacionam”
Não é que Ana Carolina Souza procure exatamente trilhar caminhos difíceis. Mas, uma vez que decide o que quer, ela certamente não se intimida com os desafios que terá de percorrer para alcançá-los.
Já iniciou o caminho acadêmico em um curso bem específico, que ainda se estruturava, dedicado a formar pessoas para trabalharem em laboratórios e a desenvolverem pesquisas. Sua turma era pequena e o curso tinha acabado de ser aprovado pelo Ministério da Educação (MEC).
Emplacou uma sequência de projetos, trabalhando em diversos laboratórios dedicados à bioquímica e biofísica. Um leque de possibilidades de atuação se apresentava a ela, mas um artigo da professora Vivian Rumjanek, que viria a se tornar sua orientadora mais tarde, chamou sua atenção.
O estudo investigava a quantidade de testosterona em ratos e sua influência no comportamento agressivo do animal. E aí veio o estalo. Ela percebeu que o seu grande interesse era tentar entender melhor o comportamento humano, mais especificamente, como corpo e emoção se relacionavam nos humanos.
Um pouquinho “tinhosa”, dizem alguns amigos
Recorreu à Rumjanek para entender como poderia desenvolver a linha de pesquisa, que mais tarde Ana descobriria se tratar da área de “psicofisiologia”. Embora não existisse algo relacionado ao campo no Rio de Janeiro, insistiu até a professora indicar um grupo de biofísica, conduzido pela pesquisadora Eliane Volchan, que estava iniciando uma pesquisa.
Ana Carolina foi até o laboratório diversas vezes, mas nunca tinha a sorte de encontrar a professora. Ia em intervalos de duas semanas e não desistiu até conseguir alcançar o seu objetivo.
Ao encontrá-la, conversaram e se deparou com uma barreira que ela já vinha se acostumando a enfrentar: ainda não havia ninguém desenvolvendo pesquisa na área. A professora tentou sugerir outras linhas de pesquisa, mas, novamente, não teve jeito. Ela tinha clareza do que queria investigar.
Providenciaram-se os kits bioquímicos que precisava para as análises e assim prosseguiu com sua iniciação científica.
“Acho que eu tive muita sorte e um pouco de insistência de chegar num momento onde tudo se constrói e ter a oportunidade de criar a minha própria linha”, avalia Ana Carolina. A pesquisa avançou, trouxe alunos, parcerias e projetos que foram surgindo a partir dela.

Um pequeno episódio na vida de uma menina obstinada
A “teimosia” não era algo novo na vida de Ana Carolina. Ela se recorda de certa ocasião, quando tinha 11 anos, em que a professora da escola católica que estudava organizou uma adaptação teatral de uma história em quadrinhos de Chico Bento.
Tímida para atuar, quase deixou de participar. Porém, procurou a professora e disse que poderia ajudar com o cenário, a fazer fantasias, entre outras atribuições que não envolvessem a apresentação no palco.
Como a professora quebrou a perna e não conseguia subir até o quinto andar da escola onde o teatro estava localizado, passou para Ana Carolina a incumbência de treinar a turma. Ela encarou o desafio de frente. Pediu ajuda do pai para escrever o roteiro e liderou o grupo de alunos da mesma idade que ela.
O público seria formado por pais e alunos do colégio. Ela então teve a ideia de cobrar um valor simbólico, algo como R$1,00 por ingresso. “Eu vou criando coisas, e eu vou encontrando no caminho pessoas que vão me deixando viver aquilo que eu inventava”, relembra a neurocientista. A apresentação foi um sucesso e ainda angariaram cerca de R$600,00. O valor foi destinado ao orfanato localizado próximo à escola.
Entre uma pesquisa e outra, um pouco de dança
No laboratório de onde desenvolvia sua pesquisa, cada aluno trabalhava com uma parte do corpo, focando no estudo da emoção. Ana Carolina conta ter formado um grupo muito unido. “ Foi uma coisa muito excepcional da minha formação, que não só me trouxe muito conhecimento, mas me trouxe essa certeza de que o ambiente de trabalho deveria ser assim”, aponta a neurocientista.
Como bons pesquisadores, o grupo de cientistas logo chegou a uma grande descoberta: a paixão de Ana Carolina pela dança. Nesta época, ela fazia aulas de dança de salão quatro dias por semana.
E foi aí que, além de parceira de pesquisa, ela se tornou professora de dança dos colegas de trabalho, transformando o laboratório localizado no Fundão (UFRJ) também em salão de dança.

“Eu já fiz dança, dei aula e fui monitora de dança. Só não gosto de me apresentar”, brinca Ana Carolina. Atualmente, pratica a dança árabe, mas já dançou de tudo: samba, forró, zouk, dança de salão…
O hobby também trouxe uma nova paixão. Foi num samba, há 16 anos, que conheceu José Augusto, seu marido, com quem veio a, mais tarde, ter a filha Julia.

A grande família
Ao contar de sua linhagem, é possível enxergar a paixão e a importância da família para a história de vida de Ana Carolina. Desde o cuidado ao contar as histórias dos avós (tem avó professora de artes, avó professora de História, avô ex-combatente de guerra, e muito mais curiosidades), ela demonstra o carinho e importância de cada um em sua formação pessoal.
Perdeu o pai precocemente, aos 16 anos, mas carrega boas recordações, como a importância do hábito da leitura em sua vida. Aos risos, relembra uma memória de infância, onde, de repente, parou um caminhão na porta de casa e ela descobriu que o pai havia praticamente arrendado uma biblioteca que havia fechado.

Cresceu em meio a livros. A mãe, foi sempre uma grande referência, tanto na área de atuação quanto para a própria Ana Carolina. O padrasto, também acadêmico, trabalhou muitos anos com epidemiologia, outra grande inspiração.

Tem um irmão e uma irmã: um trabalha na área da tecnologia e a outra com geoprocessamento. A avó brincava que por lá era “muito cacique pra pouco índio”, pois a família é cercada por debates e muita informação.
Com uma bagagem de gerações, Ana Carolina dá continuidade ao legado da família ao colocar mais um tijolinho na construção desta importante linhagem ao lado do marido e da filha. Será que vem mais uma cientista por aí?

Tem um botão “desligar” na mãe cientista?
Ana Carolina cresceu vendo sua mãe como uma grande referência de vida. Via a sua mãe tendo uma super carreira, fazendo a comida, ajudando no dever de casa… sentia que ela não tinha nem tempo para descansar.
Agora, na condição de mãe da Julia, Ana se inspira na matriarca e tenta encontrar um pouco mais de tempo (ah, esse ativo tão escasso) para conseguir conciliar tantas frentes de trabalho e marcar presença de forma participativa na vida da filha.

A dedicação que tem pela ciência é aplicada em casa em tudo o que vivencia diariamente. “Eu não consigo tirar a roupa da cientista inteiramente, porque o que eu falo não vem de um lugar que é só teórico”.
É de uma forma humana, que tenta encontrar brechas para lidar melhor com as emoções. O dever de casa da filha (ou contrato de casa), ela brinca, é um dos grandes desafios diários. Às vezes é a própria Julia, que ao notar que a mãe está em um dia mais cansativo e perdendo as estribeiras, que diz “Calma, mamãe, respira…”.
Ela menciona não querer estar presente somente nas viagens e aventuras, mas também construir a memória do cotidiano junto da filha. Foi um dos motivos, por exemplo, que optou por fundar a Nemesis, e poder se articular para conseguir participar mais ativamente de momentos como esses. Hoje, tem prazer em colocar a filha para dormir e montar lancheiras com recados carinhosos.

Ana e suas paixões
Conversar com a Ana é um passeio agradável pelo conhecimento. Suas falas são recheadas de referências tão variadas e ricas que dão gosto.
Ao contar de sua paixão por viagens, por exemplo, descobrimos não apenas que ela fez um intercâmbio em Granada, no sul da Espanha, mas também que lá foi o último reduto do Império Árabe no país e, por isso, ela se interessou por aprender a dança árabe.

Também é possível saber que o estreito de Gibraltar é um dos poucos lugares do mundo onde é possível enxergar um outro continente a olho nu. Ela foi atrás dessa experiência, mas foi barrada, pois era residente na Espanha, mas o território é inglês e ela não havia levado o passaporte.

Uma das características marcantes de Ana é a de sempre procurar por novas experiências, como conhecer pessoas, ler livros novos e encontrar restaurantes diferentes. “Não sou a pessoa de ficar trancada em um resort por uma semana”.
Para distrair a cabeça, costuma pintar aquarelas. A avó materna, que era professora de artes, tentou alertar que ela estava começando pelo mais difícil, mas Ana nunca se preocupou. “Eu pinto muito mal. Todas as minhas aquarelas são manchadas, mas é um período que eu não penso em nada e fico concentrada”, comenta.
Outra atividade que mantém para se desligar um pouco do mundo são livros de thriller psicológico, como a série “A Empregada”, de Freida McFadden. Além também de séries televisivas como “Macho Alfa”, “Cem Dias”, “A Invejosa” e “Casamento às Cegas”.
Ela menciona gostar de histórias com sequência, mas comenta sobre o perigo de iniciar uma nova série, pois uma vez que começa, ativa um modo semi-obsessivo e só consegue parar quando zerar.
“Gateira” de nascença
A família por parte do pai tem origem em Manaus (AM), local cheio de boas recordações para Ana Carolina. Segundo conta, a avó, que era professora de História, tinha em casa uma infinidade de cachorros, gatos, patos e até macaco (sim, ela pegou para cuidar de um macaco que fora abandonado em uma feira até ele se recuperar).

Declarada amante dos bichos, Ana comenta ter tido dezenas de animais, se auto-declarando, principalmente, como “gateira” desde criança. Hoje, é tutora do Lindo, seu gatinho atual.

“Não quero virar a influência da positividade tóxica”
Ana Carolina Souza lembra que é filha do meio, virginiana e cientista. De forma bem-humorada, comenta que “lidar com a perfeição é inevitável”. Porém, faz questão de frisar que, apesar de se esforçar para dar conta de todas as atribuições, não deseja idealizar a realidade.
Em uma fala super importante e empática, abre detalhes de sua vida pessoal para exemplificar a luta contra a positividade tóxica, como o fato de ter repetido a quinta-série ou mesmo de não ter sido aprovada na primeira prova do mestrado.
“Acho que tem um lugar de a gente reconhecer que nem sempre dá certo, que nem sempre você é bem-sucedida e que você não está fazendo tudo. Estou buscando continuamente ficar em paz com isso, que também é parte da realidade… não se deixar ser muito idealizada - e não quero que as pessoas me idealizem muito também.” , desabafa a neurocientista.
A professora demonstra certa preocupação ao comentar sobre essas questões por medo de julgamento, mas pondera - de forma corretíssima, por sinal - que “se alguém deixar de me seguir ou deixar de me ouvir por eu ter repetido a quinta série, realmente não sabe nada de quem sou.”
Quando o conhecimento encontra o outro

Sua carreira, marcada por grandes conquistas e desafios superados, já confirmam a trajetória de sucesso. Mas, para coroá-la, nada melhor do que trazer o feedback deixados por assinantes da Casa do Saber em seus cursos para atestar o potencial transformador de suas aulas:
“Gostei muito do curso, a professora Carolina é muito objetiva e consegue transmitir de forma simples os conceitos, aprendi coisas que nunca tinha ouvido falar e vou aplicar no meu trabalho e rotina.”
“Tem me ajudado a olhar para dentro do meu ser, nos comportamentos, e desenvolvimento profissional.”
“Ela explica de maneira clara todo o processo do estresse e como lidar com ele de maneira saudável, pois faz parte da vida!”
Ao falar sobre o impacto que pode causar com suas aulas na vida das pessoas, se emociona, deixando rolar algumas lágrimas, e afirma que o conteúdo que oferece é o que busca para si mesma.
Ana Carolina aponta que seu trabalho é entender sobre o comportamento humano e direcionar estratégias que permitam às pessoas terem uma vida mais satisfatória, saudável e feliz com aquilo que elas têm.
“Quando vejo os feedbacks dos alunos do curso, sinto que tudo isso vale a pena. Quanto mais pessoas eu atingir - e quanto mais acessível for a minha linguagem, mais identificação eu conseguir gerar com meus exemplos e mais prático for aquilo que eu trago - mais gente consegue, de fato, transformar a própria rotina a partir disso. Eu realmente acredito que podemos fazer pequenas escolhas dentro do que podemos controlar. Muita coisa não controlamos, mas, sabe, lá no fim da vida, você vai poder olhar para trás e pensar: valeu a pena. Teve muita coisa ruim, mas também teve muita coisa boa.”
Entre ciência e emoção, segue investigando aquilo que a move desde a infância: entender mais sobre as pessoas e as relações humanas.
Com suas contribuições para a ciência e a transmissão do conhecimento, Ana Carolina Souza vem se consolidando como uma das vozes mais relevantes da neurociência comportamental, ajudando a seus mentorados e alunos espalhados no Brasil e no mundo a buscarem uma versão melhor - mas não perfeita - de si mesmos.



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