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Entre Freud, vinis e um suco de caju em Paris

Entre Freud, vinis e um suco de caju em Paris

Ricardo Salztrager contava apenas 9 anos quando seus pais o levaram para iniciar sua análise pessoal. Começava cedo sua trajetória com a psicanálise, uma paixão linda que vamos conhecer um pouquinho mais agora.

No seu bom humor usual, o professor prontamente aceitou o convite para uma conversa comigo e a jornalista Isabele Barbosa, também da Casa do Saber, realizada numa descontraída chamada por videoconferência.

O “s” carregado, puxado com o chiado característico do sotaque carioca, não deixa dúvidas sobre sua origem, que ele exibe com orgulho. Além da psicanálise e da música, revela que tem uma outra grande paixão: o Rio de Janeiro.

Foi lá mesmo que se graduou em Psicologia e concluiu mestrado e doutorado em Teoria Psicanalítica (UFRJ). É lá também que reside atualmente, exercendo o cargo de professor associado da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), que ocupa desde 2014.

Ricardo Salztrager em sala de aula durante explicação
Professor Ricardo Salztrager em sala de aula

O professor ministra cursos para a plataforma Casa do Saber +, Programa + Psicanálise e integra o corpo docente da pós-graduação Psicanálise, Cultura e Sociedade, oferecida pela Casa do Saber em parceria com a FESPSP.

É escritor e, recentemente, lançou o livro “Freud e a Psicanálise: uma introdução” (2025).

Também escreve artigos para o blog da Casa do Saber, ajudando a difundir e explicar conceitos da psicanálise para profissionais, estudantes e público em geral.

Além dessas atribuições, acumula o posto de segundo maior fã da Rita Lee no Brasil (o primeiro, segundo ele, é ocupado por um amigo), além de ser músico amador e colecionador de vinis.



Psicanalista desde criancinha

Tem gente que demora anos para descobrir o que deseja estudar na vida. No caso do Ricardo, isso nunca foi uma questão a ser resolvida.

O interesse surgiu precocemente, ainda na análise pessoal, que iniciara aos 9 anos, quando se sentia instigado pela ideia de que sua analista queria descobrir algo sobre ele.

Eu tinha uma paixão louca por livros de detetive e achava que ser psicanalista era tentar descobrir os enigmas do outro. Era algo que sempre quis, nunca tive dúvidas”.

Quando criança, dizia querer ser psicólogo e astronauta. A vocação - para a psicanálise, é claro - era tão evidente que, anos depois, ao reencontrar sua professora da quarta série, ela morreu de rir ao saber que ele havia se tornado psicanalista.

A música também é uma grande paixão em sua vida, sobre a qual comenta que provavelmente seria muito feliz em exercer como profissão.

Porém, garante que realmente nunca chegou a ter dúvidas. “Eu até tentei estudar, me aprofundar no violão, no canto e alguma coisa de teoria musical, mas não fui adiante. Toco e canto legalzinho, como hobby, como paixão. Mas, para estudar mesmo, é Freud”.

Ricardo Salztrager tocando violão em ambiente interno
Uma das grandes paixões de Ricardo Salztrager é o violão.

Psicanálise: hobby, trabalho ou as duas coisas juntas?

A identificação que encontrou na psicanálise é tamanha que a considera o seu grande hobby. “Eu não encaro o trabalho como um trabalho. Eu tive a felicidade de conseguir gostar muito daquilo que eu faço”.

Fato é que o professor consegue entremear a psicanálise em todos os seus hobbies, que incluem a música, a escrita e a leitura. Esse provavelmente é o motivo de estar sempre cantando e utilizando referências musicais entre uma explicação e outra na sala de aula, textos e cursos.

É também pela psicanálise que encontrou vias de se expressar pela escrita, lançando o livro “Freud e a Psicanálise: uma introdução” (2025), onde traz os conceitos de Freud de uma maneira leve e de fácil compreensão.

Começou a escrevê-lo ao iniciar a análise pessoal com sua analista atual. Passou mais de uma década produzindo. Só o capítulo sobre narcisismo, por exemplo, levou 3 anos para ser concluído.

No processo, Ricardo conta ter descoberto uma forma de elaborar as próprias questões. “Eu escrevia sobre os pesadelos e começava a ter pesadelos - e os levava para a minha análise. Escrevendo sobre amor, iniciei um namoro”.

Escreveu o livro em seu terraço, tendo como pano de fundo a belíssima topografia da cidade maravilhosa, à qual se sente extremamente contente em pertencer.

Um suco de caju em Paris?

Como um carioca extremamente apaixonado por sua cidade, talvez não lhe ocorresse com muita frequência a ideia de sair deste lugar tão maravilhoso. Porém, a psicanálise mais uma vez o surpreendia, com planos de o levar para longe.

No ano de 2003, durante o período do doutorado, foi aceito em uma bolsa para estudar na Universidade Paris VII - Denis Diderot. Em um espaço de 3 meses, sem tempo de assimilar tudo o que estava acontecendo, arrumou suas coisas e, pela primeira vez na vida, entrou em um avião. Desembarcou em Paris e foi recebido por uma amiga brasileira que residia na cidade.

Eu estava caminhando por Paris, que é uma cidade pequena, muito menor que Rio e São Paulo, muito fria, bonita e arborizada. Eu pensava que estava em Nova Friburgo, Petrópolis ou Teresópolis, que são cidades serranas daqui do Rio. Não tinha me dado conta que eu estava em Paris.”

A ficha só caiu mesmo quando estava no supermercado, por um motivo totalmente corriqueiro e banal. Ao ser indagado pela amiga sobre qual sabor de suco ele gostaria, oferecendo opções como maçã, abacaxi ou uva, eis que ele responde “o de caju”, ao que a amiga respondeu “Rico (apelido), você está em Paris”.

A indisponibilidade de um mero sabor de suco o despertou para aquela mega decisão que havia tomado ao assinar um contrato para morar um ano em outro país. Tirando o susto inicial, comenta que foi um ano transformador e super positivo para a sua vida.

Questionado se tem vontade de viajar mais vezes, a paixão pela cidade maravilhosa retorna preponderante novamente: “O Rio de Janeiro fica lindo em janeiro, fevereiro, março. Não dá vontade de sair daqui. Às vezes que eu saio daqui, eu fico morrendo de vontade de voltar.

Ricardo Salztrager em Paris apoiado em ponte com rio ao fundo
Registro de Ricardo Salztrager em Paris

O Rio de Janeiro continua sendo

Para Ricardo, o Rio de Janeiro continua lindo. E o Rio de Janeiro continua sendo.

Sendo seu lar, o ambiente de trabalho, o lugar de inspiração para criar, caminhar, ir à praia, passear na Urca, encontrar os amigos, ir aos bares de Santa Tereza e assistir aos grandes artistas da MPB.

O Circo Voador é um de seus lugares favoritos. “É um lugar pequenininho. A gente consegue ver o Caetano e Gil na nossa cara. Eu consigo ouvir a bateria com o pé, o baixo com o coração, a voz com o ouvido, sabe? É um lugar mágico.

Ricardo Salztrager ao lado de Moraes Moreira no Circo Voador
Ricardo Salztrager ao lado do músico Moraes Moreira no Circo Voador.

A arte na vida de Ricardo Salztrager - o que gosta de escutar

Enquanto conversávamos, um violão apresentava-se ao fundo do vídeo, recostado na parede. Ricardo Salztrager revela ser um ouvinte aficionado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Raul Seixas, Novos Baianos, entre tantos outros. Além disso, declara: “toco tudo deles no violão”.

A grande estrela, no entanto, está reservada para Rita Lee. “Fruto proibido (1975)” é destacado como o seu álbum preferido entre todos, sendo classificado por ele como o disco de rock mais bem feito na história do Brasil.

Ricardo Salztrager ao lado de Rita Lee em encontro informal
Ricardo Salztrager ao lado de Rita Lee, sua artista favorita

Não tem coisa mais bonita do que uma mulher fazendo rock'n'roll, que é algo tão masculino. Quando uma mulher chega pra fazer rock'n'roll, ela coloca uma purpurina na coisa, um estilo. Ela suaviza a coisa de uma forma onde é possível você colocar amor, sentimentos e uma série de outras coisas.

Outros álbuns preferidos são:

  • Transa (1972) - Caetano Veloso;
  • Bandido (1976) - Ney Matogrosso;
  • À Flor da Pele (1990) - Ney Matogrosso & Raphael Rabello
  • Lança Perfume (1980) - Rita Lee
  • Tropicália (1968) - Vários artistas
  • Quando o Canto É Reza (2010) - Roberta Sá e Trio Madeira


O que gosta de assistir

Salztrager diz não gostar muito de séries, tendo preferência por narrativas mais lentas. “Prefiro ver os cursos da Casa do Saber do que séries. Fico assistindo antes de dormir”.

Em relação à sétima arte, declara-se um fã do cineasta Almodóvar. O posto de filme preferido fica com “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), do qual, inclusive, já produziu um texto excelente para o blog da Casa, onde analisa a obra e os personagens pelas lentes da psicanálise.

O professor também destaca como favoritos “De Volta Para o Futuro” (1985) e "Efeito Borboleta” (2004).

Sobre filmes nacionais, elege “Bacurau” (2019) e “A Dona da História” (2004) como seus prediletos.

O que gosta de ler

Seu livro preferido é “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, o qual relata ter lido diversas vezes. Além dele, também diz ter gostado muito de “1984”, de George Orwell.

No entanto, comenta que não tem dedicado muito tempo a livros de literatura, pois “como a minha profissão é ler, quando paro de trabalhar, a última coisa que eu quero fazer é abrir um livro. Então, fico meio deficitário com romances e coisas desse tipo”.

Sobre sonhos e o ideal do eu

A essa altura, é possível perceber que o Ricardo é uma pessoa realizada, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. O segredo para tal está explicado no conceito de “ideal do eu”, apresentado por Freud.

Segundo Salztrager aponta, normalmente as pessoas têm fantasias muito distantes da realidade e, quando estamos muito distantes daquilo que efetivamente somos, acabamos por nos deprimir.

É o caso de um homem desempregado, falido, que sonha em ser presidente de uma multinacional ou a moça solteira, sem ninguém, que sonha com um príncipe encantado.

Não quero luxo, nem lixo

Ricardo comenta que o maior aprendizado que trouxe de sua análise foi conseguir trazer esses ideais do eu para mais perto de si.

Eu quero ser o que sou hoje em dia, mas mais do que sou. (...) Eu quero ser um professor mais conhecido, de mais renome. E quero ter saúde para beber mais cerveja, ir a mais shows, ter mais dinheiro para comprar mais vinis…”.

Ouvindo uma declaração como essa feita por um fã declarado de Rita Lee, me atrevo a fazer uma analogia musical, como as feitas pelo professor em suas aulas. Nas entrelinhas, me parece que ele está dizendo “Não quero luxo, nem lixo. Quero saúde para gozar no final”. Tô certo, professor?

O sonho de dar aulas na Casa do Saber

O segredo para se sentir feliz e realizado, segundo o psicanalista, é que ele “sonha suficientemente alto”. Um exemplo que trouxe foi o sonho de lecionar na Casa do Saber. Para ele, era algo que parecia distante, mas possível de se concretizar.

Eu via os professores dando aula e gostava muito dos cursos que eu fazia. Eu tinha consciência de que eu era um professor bacana e de que aquilo poderia acontecer comigo daqui a algum tempo.

O convite finalmente chegou e, desde o primeiro curso, seu carisma e didática exemplar conquistaram os assinantes, sendo um dos professores mais assistidos da plataforma.

Ricardo Salztrager gravando curso em estúdio para a Casa do Saber
Ricardo Salztrager durante gravação de aula em estúdio para a plataforma da Casa do Saber.

Ricardo reflete que a Casa do Saber está indissociável do professor que é hoje. Em um país onde a transmissão de conhecimento é muito desigual, ele destaca como é bom fazer parte de uma plataforma séria com conhecimentos acessíveis.

A maior satisfação possível para um professor é receber mensagens de pessoas de vários lugares. Já entraram em contato pessoas do interior do Acre, Roraima e até da Colômbia. Isso tem uma função social incrível.

O professor de psicanálise é aquele que faz os alunos repensarem suas vidas

Para Salztrager, o professor de psicanálise não é aquele professor no molde padrão que chega para apenas transmitir o conhecimento. Para ele, o professor de psicanálise é aquele que faz com que os alunos “repensem suas vidas, suas histórias e, de certo modo, se transformem a partir da aula que fizeram”.

Ricardo Salztrager em sala de aula com alunos na UNIRIO
Ricardo Salztrager em sala de aula ao lado de alunos na UNIRIO

Sem dúvidas, é o que vem fazendo. Em uma rápida análise das avaliações deixadas pelos assinantes em seus cursos, se acumulam aos montes os comentários efusivos exaltando a didática clara, linguagem simples e explicações detalhadas do professor.

Abaixo, seguem alguns dos muitos comentários recebidos em seus cursos na Casa do Saber:

A destreza em tratar do tema, simplicidade e o conhecimento do professor prende a nossa atenção. Fantástico! Parabéns.

Adoro a clareza com que o professor Ricardo traz os temas fundamentais da obra freudiana.

Que maravilha uma aula dessa (com esse conteúdo e essa didática) ilustrada com músicas e poesias. Nota dez!

Lecionar é certamente uma vocação do professor Ricardo Salztrager. Quando cheguei para trabalhar na Casa do Saber, desde a primeira aula ao vivo que acompanhei com ele, me senti verdadeiramente impressionado com sua forma de explicar, além de notar uma educação sem tamanho.

Sortudos somos nós, por podermos absorver um pouco do seu conhecimento.

A força da psicanálise na atualidade

Salztrager avalia que a psicanálise encontra-se “muito mais bem das pernas do que poderia imaginar”. Segundo aponta, de 1990 até 2010, via-se uma psicanálise completamente desacreditada pelo público em geral.

As pessoas não tinham interesse e achavam Freud algo ultrapassado. Hoje, analisa que os consultórios estão cheios e o interesse por conhecer mais sobre a psicanálise está aumentando, sobretudo por consequência direta da pandemia. “As pessoas ficaram traumatizadas durante a pandemia e não tinham muito o que fazer diante daquilo tudo”.

O professor ressalta a importância do trabalho de figuras como Christian Dunker e Contardo Calligaris na divulgação da psicanálise. Além disso, reconhece o alcance de plataformas como a Casa do Saber, que entregam um conteúdo sério para pessoas que talvez não tivessem acesso anteriormente.

Alguns dos cursos da plataforma que assistiu e recomenda são:



Uma conversa com Freud, deitado em uma toalha de praia

Um tanto inusitado, mas é assim que Ricardo Salztrager imagina uma conversa com Freud, se pudesse realizá-la. O motivo eu já explico.

Segundo ele conta, um de seus professores mencionou que em certo dia, nos anos 70, encontrou o Foucault deitado numa toalha de praia em Copacabana, e aproveitou para bater um papo com o filósofo.

Caricatura de Ricardo Salztrager e Sigmund Freud conversando na praia do Rio de Janeiro com cerveja
Caricatura de Ricardo Salztrager e Sigmund Freud conversando na praia do Rio de Janeiro

E essa foi a imagem que Salztrager evocou quando o questionei sobre o que ele achava que Freud diria sobre o mundo em que vivemos atualmente, caso ele o encontrasse.

Eu fico imaginando assim, eu conversando com o Freud, tomando uma cerveja. Acho que eu sairia desse papo com um ponto de interrogação no meio da testa.”

Ele lembra de um famoso texto de Freud, “Sobre a transitoriedade ” (1916 [1915]), onde o psicanalista austríaco narra um encontro com dois amigos nos Alpes, onde discutem sobre a beleza da primavera e sua efemeridade.

Segundo reflete Salztrager, os amigos provavelmente saíram com o tal grande ponto de interrogação daquela conversa, tal qual estaria sujeita toda a humanidade atual frente a genialidade de Freud.

Interpretar a obra e grandiosidade de Freud não é mole mesmo… Mas, ao menos, podemos contar com o privilégio de ter grandes mestres, como o professor Ricardo Salztrager, para nos guiar neste caminho.

Artigo escrito por
Rodrigo Gomes
Jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), participou como escritor do livro "Outras Memórias Possíveis" (2016), organizado por Toninho Dutra. Sempre interessado em conhecer (e contar) boas histórias. Atualmente é analista de conteúdo na Casa do Saber.