Filosofia

Liberdade em Sartre: escolha, responsabilidade e angústia

Liberdade em Sartre: escolha, responsabilidade e angústia

A liberdade em Sartre é uma das principais ideias de sua filosofia. Para o autor, os seres humanos são condenados a ser livres, ou seja, são responsáveis por fazer escolhas e criar o próprio sentido para a vida.

Mas o que significa ser livre quando não se escolhem todas as condições da própria existência?

Neste artigo, você vai entender o que é a liberdade para Sartre e a relação desse conceito com responsabilidade, angústia e outras ideias da filosofia de Sartre.

O que é a liberdade em Sartre?

Para Jean-Paul Sartre, a liberdade está relacionada à indeterminação da existência humana. Isso significa que, se a existência precede a essência, não há uma essência predeterminada que seja capaz de dizer quem ou o que o ser humano é, nem como deve agir.

Retrato de Jean-Paul Sartre, filósofo francês do século XX
Jean-Paul Sartre, filósofo francês do século XX, conhecido como pai do Existencialismo

Sendo assim, o ser humano não recebe uma definição pronta que o oriente sobre como seu futuro será. É nessa ausência de determinação que Sartre enxerga a liberdade. O indivíduo precisa construir a si mesmo por meio de suas escolhas e ações.

Para o professor Mauricio Pagotto Marsola, Sartre propõe uma liberdade radical que supera a mera escolha. Ela constitui nosso ser como um fenômeno lançado ao mundo, uma abertura que se realiza continuamente ao longo da experiência vivida.

Além disso, por mais que o indivíduo nasça em uma realidade que já apresenta situações que não foram escolhidas por ele, o que importa é como ele exerce a liberdade diante das condições que se apresentam.

Por isso, para Sartre, a liberdade está ligada à própria maneira como o ser humano existe.

A diferença entre liberdade e livre-arbítrio para Sartre

A liberdade em Sartre não é a mesma coisa que a ideia tradicional de livre-arbítrio.

No livre-arbítrio, como explica o filósofo Franklin Leopoldo, quando duas ou mais opções se apresentam, o indivíduo escolhe uma delas. Isso é escolher livremente, mas dentro de um conjunto que se apresenta como possibilidade para suas escolhas.

Contudo, ainda de acordo com o professor, a liberdade sartreana é mais do que uma escolha entre alternativas dadas, porque não existe um conjunto de possibilidades que determine as possibilidades de escolha.

Por isso, a liberdade em Sartre também envolve as explicações guiadas pelos critérios analíticos que configuram o pensamento do indivíduo, e essas explicações envolvem sempre uma relação de causa e efeito.

Segundo Franklin Leopoldo, ela é uma espécie de “criação”, na qual o indivíduo inventa tanto a ação que vai realizar quanto o critério que corresponde a ela.

Liberdade total é a criação ou a invenção tanto da ação quanto do critério.

Franklin Leopoldo

Essa diferença ajuda a entender que ser livre não é apenas escolher uma alternativa dentre outras. O ser humano é a sua liberdade, ou seja, aquilo que ele é está indeterminado antes da sua existência, mas se constrói a partir das escolhas que faz, com as quais age e se projeta.

Escolhas e projeto na filosofia de Jean-Paul Sartre

Como dito anteriormente, sem uma essência previamente determinada, aquilo que o indivíduo será não está definido antes de sua existência. Como explica Franklin Leopoldo, essa indeterminação total faz com que “o ser humano seja como um nada de onde tudo deriva”.

Aquilo que eu puder vir a ser será uma espécie de construção de mim mesmo”.

Então, toda essa construção acontece através das escolhas, que, nesse caso, Sartre chama de projetos. Esses projetos guiam sua relação com o mundo.

Uma vez que o ser humano, antes de ser uma projeção, é nada, quer dizer que a consciência é uma intencionalidade, ou seja, uma intenção de se fazer alguma coisa ou de agir.

Portanto, o indivíduo sempre tem um projeto a seguir e, a partir desse projeto, ele se constrói fora de si, fora da consciência. Porque, segundo analisa Franklin Leopoldo, “dentro da consciência não há nenhum tipo de conteúdo”.

O ser humano é um ser das lonjuras.

Jean-Paul Sartre

Na filosofia de Sartre, “ser” não significa descobrir uma essência escondida dentro de si, mas ir se construindo ao longo da própria existência, projetando-se no futuro. Escolher e projetar-se são movimentos dos quais o indivíduo sempre participa e pelos quais é responsável na formação de si mesmo.

Responsabilidade e liberdade em Sartre

Quando o indivíduo tem que fazer escolhas, é justamente nesse momento que ele exerce sua liberdade, e isso tem consequências porque, segundo o professor Mauricio Pagotto Marsola, é o próprio ser humano que faz a sua existência.

Dessa forma, o ser humano está condenado a ser livre. Essa famosa frase de Sartre coloca o sujeito diante da necessidade de escolher, agir e posicionar-se no mundo.

Somos livres para tudo, só que não somos livres para não sermos livres.

Mauricio Pagotto Marsola

Portanto, a liberdade em Sartre não é uma possibilidade da qual se pode simplesmente abrir mão, porque ela é uma condição da própria existência.

Para Sartre, a existência humana se dá pela união da responsabilidade por suas escolhas e do projeto que se dá a partir delas. O projeto seria a busca do indivíduo em direção a si mesmo, porque o sujeito está sempre projetando-se em alguma coisa, de acordo com Franklin Leopoldo.

Contudo, o ser humano busca critérios para tomar decisões, como religião, família ou outras construções morais que podem oferecer referências para as escolhas e para a ação do indivíduo.

Porém, Sartre recusa que esses critérios estejam dados a priori como fundamentos capazes de determinar as escolhas. Segundo Franklin Leopoldo, o valor e o critério da ação moral são criações do próprio indivíduo.

Sendo assim, a correlação entre liberdade e responsabilidade em Sartre se dá pelo fato de que, não havendo uma essência anterior determinando as escolhas, não se pode justificar as ações a partir dela.

Por que o conceito de liberdade em Sartre provoca a angústia existencial?

Sartre diz que a liberdade é uma condenação e, por isso, ela também tem um lado menos confortável. Como não há um critério que possa garantir que uma escolha é certa ou errada, isso pode levar à angústia.

A angústia é uma consequência da liberdade. Diante da necessidade de escolher, o indivíduo percebe que não existe nada que possa decidir por ele. Então, a responsabilidade por essa escolha não pode ser transferida para algo que esteja fora dele.

Segundo Franklin Leopoldo, Sartre associa a angústia à vertigem, que aparece como a sensação de alguém que se equilibra sobre um fio e percebe a possibilidade da queda. A vertigem surge a partir da própria possibilidade de escolher.

Sartre assinala a angústia como uma espécie de vertigem moral que nós temos quando olhamos para nossa vida e verificamos que temos que reinventá-la a cada momento, porque ela não traz nada em si mesma que possa preservá-la.

Franklin Leopoldo

Por isso, liberdade e angústia estão diretamente relacionadas na filosofia de Sartre. A angústia mostra que o ser humano é livre porque não existe uma determinação prévia capaz de escolher por ele. Dessa forma, a existência precisa ser uma criação do sujeito a partir das escolhas que ele faz.

Má-fé em Sartre: é possível fugir da própria liberdade?

Como explica Mauricio Pagotto Marsola, a má-fé é outra consequência e categoria derivada da necessidade da escolha.

Para Sartre, a má-fé é uma forma de fuga que o indivíduo busca para escapar da angústia e retirar de si a responsabilidade que vem com a liberdade.

A má-fé, segundo Marsola, “significa transferir para outra instância a responsabilidade pela minha escolha”.

Ou seja, a má-fé é um tensionamento entre o indivíduo reconhecer-se como livre e tentar encontrar uma fuga que retire de si mesmo o peso dessa condição.

Portanto, a má-fé é um autoengano porque, diante da angústia provocada pela necessidade de escolher, o indivíduo pode tentar convencer a si mesmo de que não existe escolha, encontrando uma forma de escapar dessa responsabilidade.

O conceito de situação e liberdade em Sartre

Sartre entende que o indivíduo é responsável pelas escolhas e atitudes que toma diante das possibilidades que lhe são apresentadas.

Porém, o indivíduo existe em meio a condições que já estavam presentes antes dele e que colocam diante de sua liberdade aquilo que ele não teve a possibilidade de escolher.

A partir disso, Sartre apresenta o conceito de situação, que seria, de acordo com Franklin Leopoldo, a “configuração da vida em cada momento do tempo”.

A situação é aquilo que traz para se defrontar com a minha liberdade tudo aquilo que eu não escolhi.

Franklin Leopoldo

Então, a situação corresponde à configuração da vida em determinado momento e a tudo aquilo que se apresenta diante da liberdade sem ter sido escolhido pelo indivíduo.

Sartre parte do princípio de que o mundo já existia antes do sujeito e, quando ele nasce, encontra uma realidade com determinações sociais e históricas. Essas condições fazem parte da situação na qual cada pessoa precisa existir e agir.

Portanto, o indivíduo não escolhe as circunstâncias de sua existência, mas precisa se posicionar diante delas. Por isso, a liberdade para Sartre não significa estar livre de todas as condições, mas poder agir a partir daquilo que já foi dado.

Capa do livro Crítica da Razão Dialética, de Jean-Paul Sartre
Crítica da Razão Dialética (1960), livro de Jean-Paul Sartre

Sartre mudou de ideia sobre a liberdade?

Sartre publicou O Ser e o Nada em 1943 e, em 1960, Crítica da Razão Dialética. Nesse meio tempo, aproximou-se do marxismo e passou a ampliar a discussão sobre a liberdade para a relação entre indivíduo e história. O indivíduo continua fazendo sua história, ao mesmo tempo em que sua existência está inserida em condições históricas e sociais que não escolheu, ou seja, em uma situação. Assim, o pensamento posterior não nega a liberdade discutida anteriormente, mas a coloca em uma relação mais ampla com a história.

O que fazer diante daquilo que não se escolheu?

A grande pergunta que cerca o conceito de liberdade em Sartre é: o que fazemos com aquilo que fazem de nós?

A existência apresenta ao indivíduo condições que não dependem da sua escolha, mas isso não determina aquilo que ele será.

Não importa o que fizeram de você, o que importa é o que você faz com o que fizeram de você.

Jean-Paul Sartre

Sartre diz que o indivíduo é livre em uma situação. Isso significa que ele precisa criar um sentido para si a partir da realidade que se apresenta e exercer sua liberdade na possibilidade de fazer algo de si a partir daquilo que encontrou.

O que significa ser livre para Sartre?

Ser livre para Sartre não significa ausência de limites nem a capacidade de realizar qualquer desejo. O indivíduo, ainda que não escolha todas as condições da sua existência, continua responsável por aquilo que faz a partir da realidade que se apresenta.

O conceito de liberdade em Sartre não é uma ideia independente. Ela está relacionada a outros conceitos do filósofo, como indeterminação, escolha, responsabilidade e situação.

É importante compreender que escolher também significa assumir a responsabilidade por aquilo que se faz, mesmo diante de situações que já existiam antes da própria existência do ser humano.

A liberdade em Sartre não é sem limites porque o ser humano não escolhe as condições em que existe. Ela acontece exatamente diante da situação, ou seja, entre aquilo que foi dado e aquilo que pode fazer com isso, sem eliminar as determinações da existência.

Sartre diz que as coisas tendem a nos determinar inteiramente, mas ainda temos a liberdade de dar a esses fatos diferentes significações.

Franklin Leopoldo

É exatamente por isso que a liberdade provoca angústia, porque somos livres sem garantias de que determinada escolha será a correta.

Perguntas Frequentes

O que é liberdade para Sartre?

Liberdade é a condição de existir sem uma essência previamente determinada. O indivíduo constrói aquilo que é por meio de suas escolhas e projetos, diante das condições concretas de sua existência.

O que significa ser “condenado a ser livre”?

Significa que, embora não escolhamos começar a existir, uma vez existentes precisamos escolher e nos posicionar. A liberdade não é algo de que possamos simplesmente abrir mão.

Qual a relação entre liberdade e responsabilidade em Sartre?

Se não existe uma essência ou critério absoluto que determine nossas escolhas, somos responsáveis por aquilo que fazemos. Escolher significa assumir a responsabilidade pela construção daquilo que somos.

Por que a liberdade causa angústia para Sartre?

Porque escolher significa agir sem uma garantia absoluta de que determinada decisão é correta. A angústia surge quando percebemos que não existe uma determinação prévia capaz de escolher por nós.

Referências

Curso Casa do Saber | Os Pensadores, com Franklin Leopoldo

Curso Casa do Saber | Os Existencialismos, com Mauricio Marsola

Artigo escrito por
Paula Delgado
Jornalista pela UFJF, mestra e doutoranda em Comunicação pela mesma instituição, integra o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo Audiovisual (NJA).