
A filosofia contemporânea começou no século XIX e é um momento da história da filosofia que se estende até os dias atuais.
O que define a filosofia contemporânea é a crítica ao pensamento filosófico moderno. Um dos principais nomes que revolucionou o modelo filosófico moderno foi Nietzsche, ao criticar a racionalidade que coordenava o pensamento até aquele momento.
Contudo, outros filósofos como Kierkegaard, Marx, Foucault , ajudaram a revolucionar o pensamento moderno e analisar criticamente os valores da época e os conceitos anteriores da história da filosofia.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
O que é a filosofia contemporânea?
A filosofia contemporânea nasceu por volta do século XIX e dura até os dias atuais, ela foi uma virada importante em relação à filosofia moderna.
Enquanto a filosofia moderna buscava o cientificismo, o pensamento racional, explicações generalizantes e ideias universais sobre o sujeito, a razão e o mundo; os pensadores contemporâneos desconfiam de verdades absolutas e preferiam se debruçar sobre as a complexidade e subjetividade da experiência humana.
Portanto, alguns dos temas de interesse dos filósofos contemporâneos são linguagem, poder, subjetividade, emoções, cultura, existência e até mesmo a própria ideia de “sentido da vida”.
Para a filosofia contemporânea, o “sentido da vida” é uma construção que se dá na existência, nas escolhas, relações e experiências cotidianas. Diferentemente dos gregos, que entendiam que o sentido da vida já existia e poderia ser descoberto com o viver bem, alcançando a felicidade (eudaimonia) por meio da virtude e da razão.
Ou seja, o foco do pensamento se desloca da compreensão do mundo por meio da razão, para o entendimento subjetivo da realidade e da vida, por exemplo, como vivemos, por que sofremos, o que nos move e como podemos transformar nossas relações sociais.
Alguns dos principais filósofos contemporâneos são:
A filosofia contemporânea é multifacetada, influenciando diretamente diversas áreas da filosofia, das artes, da psicanálise, das linguagens e diversos outros campos.
Cada um desses autores tinham e têm seus próprios interesses, reflexões e problematizações da realidade. Desta forma, tem-se uma diversidade de correntes e pensamentos que fazem da filosofia contemporânea um campo rico e complexo.
As origens da filosofia contemporânea
A filosofia contemporânea surge em um momento de grandes transformações históricas. A partir do século XIX, o mundo passa por mudanças não só significantes, mas também muito rápidas, como Revolução Industrial, urbanização acelerada, transformações políticas, cientificismo, avanço tecnológico, duas guerras mundiais.
Além disso, mudanças não tão palpáveis, mas fundamentais para a organização social também foram ocorrendo, como a perda da força da religião, a metafísica tradicional passando a ser criticada, a razão moderna não sendo mais suficiente para explicar a vida e seus fenômenos.
Então, é nesse cenário que vai se formando o pensamento contemporâneo, como uma sensação inquietante de que certezas que antes eram aceitas já não davam mais conta de explicar a realidade.
Sendo assim, a filosofia precisou mudar o seu campo de visão e passou a repensar suas perguntas, seus questionamentos, seus objetos e até a forma de se relacionar com o cotidiano.

Os precursores do pensamento contemporâneo
Segundo o professor Paulo Niccoli, as ideias de Nietzsche são consideradas um divisor de águas entre pensamento moderno e contemporâneo.
Nietzsche acreditava que a filosofia, até então, havia sido construída pautada na moralidade. Para ele, a filosofia sempre carregou julgamentos morais escondidos como se fossem verdades.
Ou seja, a “verdade” é nada mais do que uma construção baseada em juízo de valor e moral, portanto, não é um fato objetivo.
“[...]segundo Nietzsche, a verdade é sempre uma ilusão, enquanto que os fatos objetivos são os fatos objetivos, simplesmente.” Professor Paulo Niccoli, Curso Guia Essencial da Filosofia: Pensamento Contemporâneo.

A filosofia de Nietzsche questiona os valores e dogmas da sociedade na época, além de ser um grande crítico da racionalidade moderna, da religião, dos valores e da moral da época.
Com isso, Nietzsche e outros filósofos antes e depois de suas ideias começaram um pensamento que questionava as brechas deixadas pela filosofia moderna quanto ao entendimento da vida, dos elementos que moldam o sujeito e das transformações que impactam a sociedade.
Apesar da sua relevância para a filosofia contemporânea, outros pensadores que vieram antes dele já questionavam o racionalismo da filosofia moderna.
O primeiro deles a ser abordado é Hegel, que buscou compreender a realidade a partir de uma perspectiva do processo histórico, expondo as contradições do espírito e do mundo social.
Apesar de, cronológica e historicamente, ser considerado um dos principais filósofos da filosofia moderna, Hegel propôs uma mudança na forma de pensar que influenciou filósofos futuros como Marx e Kierkegaard e correntes como existencialismo.

Outro nome relevante é Karl Marx que, por sua vez, radicalizou o pensamento de Hegel ao mostrar que a realidade é formada por relações materiais, econômicas e de poder.
Ele é considerado pai do comunismo e suas principais contribuições são a crítica ao capitalismo e as teorias sobre a luta de classes.
Kierkegaard traz o indivíduo para o centro da questão, porém ele colocava o foco na experiência individual, na responsabilidade pessoal e na liberdade de escolha ao trabalhar temas como a angústia. Ele é considerado o pai do existencialismo.
Cada um dos pensadores contemporâneos revela espaços a serem trabalhados que foram deixados de lado pelos filósofos modernos. Com isso, eles colocaram em crise o idealismo, o racionalismo e os ideais universalistas da modernidade.
Principais correntes da filosofia contemporânea
Como foi possível perceber, a filosofia contemporânea nasce a partir de uma confluência de diferentes ideias que exploram diversos campos, desde a linguagem até a existência humana.
Com isso diversas correntes foram se formando e apresentando diferentes maneiras de compreender a experiência humana e a realidade .
Fenomenologia
A fenomenologia surge com Husserl propondo um retorno “às próprias coisas”, ou seja, à experiência vivida antes de qualquer teoria ou explicação pronta. Ele buscou compreender os fenômenos da consciência sem interferência de teorias externas, portanto, como a experiência se manifesta a consciência.
Merleau-Ponty pensou uma fenomenologia na qual a mente e o corpo eram vistos como uma unidade. Ele entendia o corpo não como objeto, mas como um corpo-sujeito, isto é, um meio para nos relacionarmos com o mundo.

A fenomenologia propõe compreender a experiência cotidiana como a base do conhecimento, apontando que um caminho para o “pensar” pode ser a partir da experiência vivida e do entendimento da forma como os fenômenos se apresentam.
Existencialismo
O existencialismo tem o indivíduo como centro da reflexão.
Os principais temas dessa corrente filosófica são a liberdade individual, a responsabilidade e a angústia como experiências fundamentais.

Para Sartre, estamos condenados a ser livres, ou seja, não podemos escapar de escolher, e cada escolha define quem nos tornamos.
Já Camus explora o absurdo da vida, a sensação de que o mundo não oferece respostas prontas, mas ainda assim exige posicionamento.
Simone de Beauvoir recorre e expande o existencialismo ao mostrar como a opressão limita a liberdade, especialmente no caso das mulheres, e afirma que nos tornamos sujeitos por meio de nossas ações.
Hermenêutica
A hermenêutica contemporânea busca compreender como produzimos sentido ao interpretar textos, ações e acontecimentos.
Ou seja, ela não busca uma objetividade absoluta, mas entende que a compreensão está condicionada ao processo interpretativo do modo que se tem de entender o mundo e a si próprio.

Gadamer afirma que toda compreensão parte de preconceitos no sentido positivo, entendendo que contextos históricos e culturais moldam nosso olhar. Para ele, interpretar é sempre um diálogo entre o passado e o presente, entre o texto e o leitor.
Ricoeur aprofunda essa perspectiva ao mostrar que a interpretação tem camadas de significado, o que revela tensões, símbolos e possibilidades de ação.
Estruturalismo e Pós-estruturalismo
O estruturalismo surge como uma tentativa de explicar fenômenos culturais, sociais e linguísticos a partir das estruturas conectadas e fixas que organizam significados.
Esta corrente filosófica busca entender a totalidade por meio das relações e de confrontos entre os elementos.
Quando se fala de pós-estruturalismo, compreende-se que é uma proposta de superar o estruturalismo ao questionar as suas estruturas estáveis.
Sendo assim, rompe com visões totalizantes e questiona verdades estabelecidas, mostrando que significados são construídos, disputados e constantemente reconfigurados.
Alguns pensadores, como Foucault e Derrida, que hoje associamos ao pós-estruturalismo dialogaram inicialmente com o estruturalismo, mas depois partiram para debates que o superaram.
O existencialismo sofreu influência da linguística de Saussure, que afirmava que não compreendemos o mundo diretamente, mas por meio de sistemas de diferenças e relações.

No entanto, Foucault direciona seus esforços para os discursos que moldam práticas, instituições e subjetividades. Para ele, o saber está ligado ao poder e nossas identidades surgem dentro dessas relações.
Enquanto isso, Derrida propõe um olhar crítico sobre as teorias, conceitos e pensamentos relacionados à linguagem. Ele ficou conhecido por fundar a Desconstrução, um método de análise que rompe com a ideia de significados fixos e as oposições binárias, por exemplo bem e mal.
Já Deleuze aposta na filosofia da diferença, ou seja, defende que a realidade é um movimento criativo contínuo. Sendo assim, ele rejeita identidades fixas e aponta que existem múltiplas possibilidades de existir.
Filosofia Analítica
A filosofia analítica recorre à análise lógica e rigorosa da linguagem para buscar compreender e solucionar problemas filosóficos.
Uma das suas principais características é a clareza conceitual, que pode ser alcançada por meio da lógica formal. Esse percurso filosófico busca resolver problemas específicos, evitando construir teorias generalizantes.
Russell buscou fundamentar o conhecimento por meio da lógica, acreditando que boa parte dos problemas filosóficos nasce de confusões linguísticas.

Wittgenstein inicia propondo uma filosofia da linguagem que busca a linguagem ideal como expressão do mundo. Posteriormente, ele deixa a ideia de uma linguagem única e afirma que o significado está no uso cotidiano das palavras, nos jogos de linguagem que compõem nossas práticas.
Assim, a filosofia analítica investiga como falamos, argumentamos e descrevemos o mundo, evitando ambiguidades e simplificando questões complexas.
Teoria Crítica
A Teoria Crítica foi desenvolvida pela Escola de Frankfurt e buscava analisar a sociedade moderna criticamente para expor os mecanismos que restringem a autonomia e inspirar a transformação social. Para isso, ela examina suas contradições e formas de dominação.

Adorno e Horkheimer trabalham a ideia de razão como um instrumento de controle, moldando comportamentos e reforçando desigualdades por meio da cultura de massa.
Já Habermas trouxe um novo fôlego com a Teoria da Ação ao propor uma ética do discurso, defendendo a importância do diálogo e da esfera pública como espaço fundamental para a democracia.
A Teoria Crítica não tem a intenção de apenas interpretar a sociedade, mas também de questionar aquilo que se apresenta na realidade, como o consumo, tecnologia, política e ideologia, buscando formas mais livres e humanas de convivência.
Pós-modernismo e contemporaneidade
O pós-modernismo surge como resposta às grandes narrativas que prometiam explicar o mundo de maneira universal e totalizante.
Bauman descreve a modernidade líquida, que diz sobre vínculos frágeis, identidades efêmeras e velocidade constante. Vivemos em um cenário em que tudo muda rápido demais, gerando incerteza e busca por pertencimento.

Judith Butler questiona a ideia de identidades fixas, mostrando que gênero é performativo e construído por normas sociais.
Já Byung-Chul Han analisa o cansaço, a hiperprodutividade e o excesso de positividade nas sociedades digitais, revelando como o indivíduo é pressionado em nome da performance contínua.
Os pensadores pós-modernos exploram como se vive um mundo fragmentado, regido por algoritmos e com novos desafios éticos e psicológicos.
Diferentemente das outras filosofias, o pensamento contemporâneo não busca uma resposta única, uma verdade absoluta. Ele aponta possibilidades de se viver as realidades que vão se apresentando com o desenvolvimento dos fatores que compõem a sociedade.
Frases famosas da filosofia contemporânea
Confira abaixo algumas frases célebres de grandes pensadores da filosofia contemporânea:
- “Não existem fatos, apenas interpretações.” (Nietzsche)
- “Retornemos às próprias coisas.” (Husserl)
- “O corpo é o nosso meio geral de ter um mundo.” (Merleau-Ponty)
- “O homem está condenado a ser livre.” (Sartre)
- “O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” (Camus)
- “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” (Simone de Beauvoir)
- “Ser que pode ser compreendido é linguagem.” (Gadamer)
- “O símbolo dá que pensar.” (Ricoeur)
- “Onde há poder, há resistência.” (Foucault)
- “A linguagem é a casa do ser.” (Martin Heidegger)
- “Não há nada fora do texto.” (Derrida)
- “O desejo produz.” (Deleuze)
- “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo.” (Wittgenstein)
- “O problema de toda filosofia é começar sem pressuposições.” (Russell)
“Não há vida verdadeira na falsa.” (Adorno) - “A razão tornou-se instrumento.” (Horkheimer)
- “A comunicação orientada ao entendimento é a base da vida social.” (Habermas)
- “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.” (Bauman)
- “A sociedade do cansaço é dominada pela autoexploração.” (Byung-Chul Han)
- “Nenhuma vida é vivível sem ser reconhecida.” (Judith Butler)
Perguntas frequentes sobre filosofia contemporânea
O que é a filosofia contemporânea?
A filosofia contemporânea reúne diversas correntes surgidas do século XIX em diante, explorando temas como linguagem, subjetividade, poder, tecnologia e existência, sem buscar sistemas fechados, mas interpretações plurais da realidade atual.
Quais são as principais correntes da filosofia contemporânea?
As principais correntes da filosofia contemporânea são fenomenologia, existencialismo, hermenêutica, estruturalismo, pós-estruturalismo, filosofia analítica, teoria crítica e os pensamentos pós-modernos.
Quem são os principais filósofos contemporâneos?
Entre os principais filósofos contemporâneos estão Husserl, Merleau-Ponty, Sartre, Beauvoir, Camus, Gadamer, Ricoeur, Foucault, Derrida, Deleuze, Russell, Wittgenstein, Adorno, Horkheimer, Habermas, Bauman, Butler e Byung-Chul Han.
Qual é a diferença entre filosofia moderna e contemporânea?
A filosofia moderna buscava sistemas racionais e ideias universais; já a filosofia contemporânea rompe com certezas, enfatiza linguagem, poder, subjetividade e historicidade, valorizando múltiplas interpretações em vez de verdades absolutas.
Por que estudar filosofia contemporânea hoje?
Estudar filosofia contemporânea ajuda a compreender desafios atuais, como tecnologia, política, identidade, mídia e ética digital, oferecendo ferramentas críticas para interpretar o mundo e orientar decisões na vida cotidiana.

Referências:
Curso Casa do Saber. Guia Essencial da Filosofia: Pensamento Contemporâneo”
MALPAS, Jeff; ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (eds.). Hermeneutics. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford, CA: The Metaphysics Research Lab, 2025.
SEIBT, Johanna. Process Philosophy. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford, CA: The Metaphysics Research Lab, 2022.



