Filosofia

Livros de Sartre: 8 obras essenciais para conhecer o autor

Livros de Sartre: 8 obras essenciais para conhecer o autor

Os livros de Sartre representam a variedade e a peculiaridade de seu pensamento, desenvolvido por meio de diferentes gêneros, como filosofia, literatura, teatro e reflexão política.

Embora seja conhecido como um dos principais nomes do existencialismo, sua produção aborda questões como existência, liberdade e responsabilidade sob diferentes perspectivas.

Neste artigo, você vai conhecer algumas das obras mais importantes para apresentar o autor e mostrar como seu pensamento se manifesta em diferentes formatos, desde um livro filosófico até uma peça teatral.

Quais são as principais obras de Sartre?

Sartre desenvolveu sua filosofia em diferentes momentos de sua trajetória, evidenciando também transformações em seu pensamento.

Ao longo de sua vida, escreveu romances, peças de teatro, ensaios e obras filosóficas para explorar questões relacionadas aos anseios de sua época.

Como afirma o professor Franklin Leopoldo no curso Os Pensadores: Sartre, da Casa do Saber, Sartre veio atender às exigências de sua época. Ou seja, de um período marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelo drama da existência.

Por isso, entender os motivos da utilização de diferentes gêneros nos livros de Sartre ajuda a compreender os conceitos e temas trabalhados pelo autor, como existência, liberdade e responsabilidade.

Algumas de suas principais obras e os diferentes momentos de seu percurso intelectual são apresentados a seguir:

  • A Náusea (1938)
  • O Ser e o Nada (1943)
  • Entre quatro paredes (1944)
  • O Existencialismo é um Humanismo (1946)
  • Os Caminhos da Liberdade (1945–1949)
  • O que é a Literatura? (1947)
  • Crítica da Razão Dialética (1960)
  • As Palavras (1964)

Ainda que cada tema tenha maior destaque em determinada obra, algumas perspectivas são retomadas por Sartre, evidenciando as transformações de seu pensamento ao longo de sua trajetória.

Filosofia, literatura e política na obra de Sartre

A filosofia, a literatura e a política são elementos que compõem o pensamento de Sartre e se articulam em suas obras por meio de personagens, situações e conflitos.

A partir desse diálogo entre realidade e literatura, Sartre explora conceitos e problemas relacionados à existência humana que se mostravam necessários à sua época.

Da existência individual à história

Como já foi dito anteriormente, Sartre explorava os mesmos problemas de diferentes formas. Questões como existência e liberdade eram abordadas tanto em textos filosóficos quanto em romances e peças teatrais.

Esses temas apareciam em tratados filosóficos ou eram exemplificados por meio de personagens em romances, que tornavam os problemas e as situações mais palpáveis.

Para Sartre, a realidade contemporânea é dramática e, por isso, exige procedimentos literários para ser representada, como aponta o professor Franklin Leopoldo.

Dessa forma, a literatura seria outra maneira de apresentar questões presentes em seu pensamento, porque, segundo o filósofo, “a realidade contemporânea é dramática”.

Para exemplificar a trajetória filosófica de Sartre, em O Ser e o Nada (1943), o autor reflete sobre temas como a consciência e a liberdade. Anos mais tarde, em Crítica da Razão Dialética (1960), Sartre apresenta uma perspectiva crítica do marxismo, discutindo as relações entre indivíduo, sociedade e história.

Ao abordar a tensão dialética entre a experiência individual e as condições históricas em que ela se desenvolve, Sartre apresenta um desdobramento de seu pensamento.

Os livros de Sartre: entre a filosofia e a literatura

Antes de entender as transformações no pensamento que levaram a uma mudança de escrita nos livros de Sartre, é importante observar como suas primeiras obras dialogam com a filosofia e a literatura, propondo diferentes caminhos para abordar problemas que estavam no centro de suas reflexões.

A Náusea

Capa do livro A Náusea (1938), de Jean-Paul Sartre
A Náusea (1938), livro de Jean-Paul Sartre

A Náusea (1938) é um romance que apresenta uma experiência relacionada à existência e à contingência.

Um historiador francês, próximo dos 30 anos, registra em seu diário a perda de sentido da vida. Durante suas pesquisas, ele sente um vazio que lhe causa um mal-estar físico e mental, que chama de náusea.

Ao longo da história, Sartre busca mostrar que a existência não possui um propósito predefinido, colocando o homem como responsável por construir seu próprio destino por meio da liberdade de suas escolhas e ações.

O Ser e o Nada

Capa do livro O Ser e o Nada (1943), de Jean-Paul Sartre
O Ser e o Nada (1943), livro de Jean-Paul Sartre

Publicado em 1943, O Ser e o Nada é um tratado filosófico em que Sartre reúne sistematicamente conceitos de seu pensamento, como consciência, liberdade, projeto e relação com o outro.

Essa é uma das obras mais conhecidas do filósofo e foi escrita e publicada durante a Segunda Guerra Mundial. Nela, Sartre desenvolve questões centrais de sua filosofia, como a afirmação de que a existência precede a essência e a ideia de que estamos condenados a ser livres.

O Ser e o Nada é um dos livros de Sartre mais conhecidos e aborda a liberdade como constitutiva da existência do indivíduo e destaca o peso da responsabilidade que a acompanha.

O existencialismo é um humanismo

Capa do livro O Existencialismo é um Humanismo (1946), de Jean-Paul Sartre
O Existencialismo é um Humanismo (1946), livro de Jean-Paul Sartre

Em O Existencialismo é um Humanismo (1946), Sartre apresenta de maneira mais acessível e direta questões como escolha, liberdade e responsabilidade.

O livro surgiu a partir de uma conferência da qual Sartre participou como convidado em 1945, no Club Maintenant.

Nesse período, o filósofo vinha recebendo críticas de filósofos marxistas e, nesse evento, defendeu seu entendimento sobre o existencialismo, argumentando que essa vertente filosófica envolve ação e responsabilidade humana.

Literatura, o outro e a liberdade

Entre as décadas de 1940 e 1950, o filósofo passou a desenvolver seu pensamento também por meio da literatura. A ficção e o ensaio filosófico não se separam nos livros de Sartre. A literatura seria uma extensão na qual a filosofia pode ser representada.

No pensamento de Sartre, a liberdade, a relação com o outro e a literatura são elementos que se manifestam de diferentes formas ao longo de sua produção intelectual.

Entre quatro paredes

Capa do livro Entre Quatro Paredes (1944), de Jean-Paul Sartre

Na peça Entre Quatro Paredes (1944), Sartre aborda a complexidade das relações interpessoais.

Nessa peça teatral, o filósofo apresenta a história de três personagens falecidas que ficam confinadas juntas em um quarto sem janelas ou espelhos. A partir desse cenário, Sartre trabalha a ideia de que elas perdem a capacidade de enxergar a si mesmas e explora como o olhar do outro objetifica o indivíduo.

Portanto, o confinamento das personagens reflete como o olhar do outro nos avalia e nos define, criando uma tensão entre a percepção que construímos de nós mesmos e o julgamento alheio.

Os caminhos da Liberdade (1945 - 1949)

Capa da trilogia Os Caminhos da Liberdade, de Sartre
Trilogia Os Caminhos da Liberdade, de Sartre

No romance Os Caminhos da Liberdade, Sartre utiliza uma narrativa que acompanha o amadurecimento do protagonista Mathieu, que, diante da Segunda Guerra Mundial, percebe que as escolhas pessoais só fazem sentido quando colocadas em circunstâncias históricas e coletivas.

Nesta trilogia, Sartre revisita a ideia da liberdade abstrata, mas traz para a discussão elementos externos, históricos e sociais que afetam diretamente as ações. A partir deles, as escolhas ganham significado quando são inseridas em determinados contextos.

O que é a literatura?

Capa do livro O que é a literatura (1974), de Jean-Paul Sartre
O que é a literatura (1974), livro de Jean-Paul Sartre

No ensaio O que é a literatura? (1974) Sartre reflete sobre o papel do escritor, diferenciando a prosa da poesia.

Para Sartre, escrever é um ato de engajamento, porque a escrita é uma forma de agir no mundo. Então, o escritor não é neutro, uma vez que ao escrever, apresenta uma maneira de compreender a realidade, o que pode provocar reflexões e ações naquele que lê.

Segundo o filósofo, a poesia seria uma maneira de tratar as palavras como objetos de arte em si mesmas, porque ela não tem uma função utilitária de descrever a realidade.

O poeta, ao escrever uma poesia, volta-se para a estética do texto, para a própria matéria da palavra. Isso faz com que esse gênero não seja engajado.

Contudo, a prosa seria um ato de engajamento para Sartre, já que aquele que escreve prosa usa as palavras como ferramentas de comunicação.

A função da prosa, portanto, seria comunicar de forma clara uma realidade. Por isso, a prosa pode e deve ser engajada, já que o escritor pretende revelar uma realidade e provocar uma ação naquele que lê.

Dessa forma, a prosa seria um ato de engajamento porque o escritor expõe uma realidade, e aquele que lê usa a própria liberdade para dar sentido à obra.

Sartre, marxismo e história

Os livros de Jean-Paul Sartre sofreram um impacto direto da transformação de seu pensamento, que evoluiu da liberdade radical e individual para uma compreensão dos aspectos sociais e históricos, o que o aproximou das teorias políticas e coletivas da época.

Crítica da Razão Dialética

Capa do livro Crítica da Razão Dialética (1960), de Jean-Paul Sartre
Crítica da Razão Dialética (1960), livro de Jean-Paul Sartre

Mais um exemplo clássico dos livros de Sartre, em Crítica da Razão Dialética (1960) o filósofo se aproxima do marxismo a partir de um diálogo crítico, como explica o professor Franklin Leopoldo.

Ele buscou conciliar a liberdade existencial com questões socioeconômicas e compreender como as condições que o indivíduo vivencia influenciam diretamente suas escolhas e ações.

É importante reforçar que, de acordo com o filósofo Franklin Leopoldo, o autor permanece preocupado com o indivíduo, mas este passa a ser visto também como história, já que cada pessoa possui uma trajetória única inserida em uma história coletiva.

Portanto, este livro passa a focar na ação humana inserida diretamente nos processos históricos.

A partir dessa tensão dialética, Sartre passa a compreender a liberdade de uma forma em que as condições sociais e históricas condicionam a existência e a possibilidade de ação do sujeito.

A liberdade e o determinismo são dois polos de uma mesma dialética.

Franklin Leopoldo

Assim, o indivíduo é produzido pelas condições históricas, sociais e de classe, mas também participa da construção da história por meio de suas escolhas e ações, mesmo diante de determinações que não escolheu.

As Palavras

Capa do livro As Palavras (1964), de Sartre
As Palavras (1964), de Sartre

Embora a filosofia de Sartre tenha passado por essa transformação, na obra autobiográfica As Palavras, o filósofo faz uma retrospectiva de sua infância e de sua formação intelectual.

Neste livro, ele revisita a própria trajetória e sua relação com a literatura para fazer um autoexame de como foi condicionado pelo ambiente em que nasceu e de como utilizou a escrita como uma ilusão de salvação.

Escrever foi durante muito tempo pedir à Morte, à Religião sob uma máscara, que arrancassem minha vida ao acaso. Fui de Igreja. Militante, quis salvar-me pelas obras; místico, tentei desvelar o silêncio do ser por um sussurrar contrariado de palavras e, sobretudo, confundi as coisas com seus nomes: isso é crer. Eu tinha peneira nos olhos. Enquanto perdurou, considerei-me livre do apuro.

Jean-Paul Sartre -- As palavras, 1967, p.160.

Qual livro de Sartre ler primeiro?

Não é possível dizer que existe uma única porta de entrada para os livros de Sartre. A escolha depende do tema pelo qual você tem mais interesse e do tipo de texto que prefere ler primeiro.

Sartre oferece uma diversidade de abordagens e gêneros textuais para você conhecer seu pensamento e entender um pouco mais sobre liberdade, existência e responsabilidade.

Existência, liberdade e o outro

Se você quer conhecer o existencialismo, a dica é O Existencialismo é um Humanismo, que oferece uma apresentação direta e didática de temas como liberdade, escolha e responsabilidade.

Caso queira se aprofundar na filosofia do autor, a dica é O Ser e o Nada, tratado que permite conhecer conceitos como consciência, liberdade e relação com o outro.

Se prefere a literatura, A Náusea é um romance que ilustra a angústia existencial, apresentando questões relacionadas à existência e à contingência por meio das experiências de um personagem. Entre Quatro Paredes é uma peça teatral e um caminho para entender a relação com o outro.

Obra Gênero Por que ler?
O Existencialismo é um Humanismo Ensaio filosófico Introdução acessível ao existencialismo, com foco em liberdade, escolha e responsabilidade.
O Ser e o Nada Tratado filosófico Aprofundamento em conceitos como consciência, liberdade e relação com o outro.
A Náusea Romance Explora a angústia existencial e a contingência da existência.
Entre Quatro Paredes Peça teatral Aborda as relações humanas e a relação com o outro.

Literatura, história e sociedade

Ainda dentro da literatura, Os Caminhos da Liberdade é uma trilogia de romances que aborda temas como indivíduo, moral e liberdade durante a Segunda Guerra Mundial, colocando em tensão a liberdade individual e as circunstâncias históricas.

Para compreender por que Sartre usa a ficção para abordar sua filosofia, o ensaio O que é Literatura? trata da relação entre a escrita e a realidade. Nele, o filósofo defende a literatura engajada, apresentando a prosa como ferramenta de ação e transformação.

Por fim, As Palavras apresenta a perspectiva de Sartre sobre sua relação com a literatura e seu pensamento, desde a liberdade radical até a aproximação com o marxismo.

Não existe uma ordem para a leitura dos livros de Sartre. Ao longo de sua trajetória intelectual, Sartre explorou questões como liberdade, existência, responsabilidade e relação com o outro por meio de diferentes gêneros textuais.

Conhecer essas obras permite compreender como esses temas atravessam seu pensamento e assumem diferentes formas na filosofia e na literatura.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais livros de Sartre?

Entre os principais livros de Sartre estão A Náusea, O Ser e o Nada, O Existencialismo é um Humanismo, Entre Quatro Paredes, Os Caminhos da Liberdade, O Que É a Literatura?, As Palavras e Crítica da Razão Dialética.

Qual livro de Sartre ler primeiro?

Não existe uma ordem obrigatória e correta. O Existencialismo é um Humanismo pode ser uma boa porta de entrada para conhecer liberdade, escolha e responsabilidade. Quem prefere literatura pode começar por A Náusea.

Por onde começar a estudar Sartre?

O caminho depende do interesse do leitor. O Existencialismo é um Humanismo que oferece uma introdução mais direta ao existencialismo, enquanto O Ser e o Nada aprofunda conceitos filosóficos centrais. A Náusea apresenta essas questões pela literatura.

Referências

Curso Casa do Saber | Os Pensadores, com Franklin Leopoldo

Curso Casa do Saber | Os Existencialismos, com Mauricio Marsola

SARTRE, Jean-Paul. As palavras. Tradução de J. Guinsburg. 3. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1967].

Artigo escrito por
Paula Delgado
Jornalista pela UFJF, mestra e doutoranda em Comunicação pela mesma instituição, integra o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo Audiovisual (NJA).