Psicologia Analítica

Livro Vermelho de Jung: o que é e como entender a obra

Livro Vermelho de Jung: o que é e como entender a obra

Então ele pintava, ele fazia rascunhos, e ele começou a trabalhar de uma forma analítica em cima do próprio material, ele colocava aquele material e começava a trabalhar. Não só fez isso, como ele também começou a indicar que os pacientes dele utilizassem esse mesmo processo. Então nessa época algumas pessoas tinham conhecimento desse auto-experimento dele, principalmente as pessoas mais próximas.

É assim que a psicóloga e escritora Tatiana Paranaguá, diretora do Centro Junguiando de Clínica e Estudos em Psicologia Analítica e professora da Casa do Saber, descreve uma etapa da criação do Livro Vermelho no curso Quatro Livros para Entender Jung.

Conhecido também como Liber Novus, o Livro Vermelho de Jung compila textos e imagens com os quais Carl Gustav Jung elaborou experiências de seu “confronto com o inconsciente”.

Parte desse material havia sido registrada nos Livros Negros, cadernos particulares que não devem ser confundidos com o manuscrito ilustrado. Publicada apenas em 2009, a obra permite acompanhar um período importante da vida de Jung.

Neste artigo, você vai descobrir como surgiu o Livro Vermelho e por que a obra é importante para compreender o pensamento de Jung.

O que é o Livro Vermelho de Jung?

O Liber Novus, expressão latina que significa Livro Novo, nasceu da tentativa de Jung de compreender as imagens que surgiam em sua vida interior. Ele começou a registrá-las em 1913 e, por volta de 1914, passou a elaborar parte desse material no manuscrito que ficaria conhecido como Livro Vermelho.

O nome faz referência ao grande volume encadernado em couro vermelho no qual trabalhou. Jung não publicou a obra em vida. Ela só chegou ao público em 2009, quase cinco décadas após sua morte.

Suas páginas lembram antigos manuscritos ilustrados, com caligrafia desenhada à mão e pinturas feitas pelo próprio Jung. Nelas, o leitor vai se deparar com narrativas de fantasias, encontros com personagens e diálogos que dão sequência às experiências descritas.

Jung também comenta o que viveu e tenta compreender as imagens que produziu. A pintura participa dessa investigação, oferecendo outra forma de analisar aquilo que nem sempre cabia nas palavras.

No curso Quatro Livros para Entender Jung, a psicóloga Tatiana Paranaguá descreve a relação entre essas experiências e a criação da obra:

Ele pegou essa crise e transformou em imagens. Aquilo tudo o pressionava de uma forma muito intensa por dentro, e ele sentiu a necessidade de deixar que aqueles pensamentos fluíssem e se transformassem num texto que não era científico, era poético, completamente livre, que lembra muito um outro texto dele que a gente falou, que é os Sete Sermões aos Mortos. Então ele colocou isso no Livro Vermelho e colocou em imagens também.

A fala de Tatiana ajuda a entender por que o Livro Vermelho ocupa um lugar especial na trajetória de Jung. Suas páginas mostram o esforço de transformar experiências difíceis de compreender em algo que ele pudesse examinar.

Capa vermelha de O Livro Vermelho (Liber Novus), de C. G. Jung
O Liber Novus, conhecido como Livro Vermelho, reúne textos e imagens elaborados por Jung a partir de suas experiências com o inconsciente.

Os personagens e as pinturas fazem parte desse processo: cada cena ganha sentido na relação com o que Jung escreve e com as imagens que aparecem ao longo da obra.

Como Jung não preparou o manuscrito para publicação, essa história nem sempre fica clara para quem o lê pela primeira vez. A introdução e as notas do historiador Sonu Shamdasani ajudam a acompanhar as etapas de criação do livro e explicam como ele chegou ao público.

Também permitem reconhecer o que foi escrito por Jung e o que foi acrescentado pelo editor para contextualizar a obra.

O que acontecia na vida de Jung quando a obra começou a surgir?

No início da década de 1910, Jung já era um psiquiatra conhecido por suas pesquisas e por seu trabalho clínico. Seus estudos sobre associações de palavras e complexos haviam contribuído para sua projeção. Ao mesmo tempo, a colaboração com Sigmund Freud atravessava divergências cada vez mais profundas.

As diferenças entre Freud e Jung incluíam maneiras distintas de pensar a energia psíquica e o inconsciente. O afastamento teve consequências intelectuais e pessoais. Ainda assim, explicar o Livro Vermelho apenas pelo rompimento entre os dois simplificaria uma história mais longa.

Nesse período, Jung também se sentia inquieto com sonhos e imagens que não compreendia de imediato. Ele passou a prestar atenção a esse material e a registrá-lo. A Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, compõe o contexto histórico em que seu trabalho prosseguiu.

Na aula Uma Introdução Guiada e Descomplicada ao Pensamento de Jung, a psicóloga e pesquisadora Lilian Wurzba explica o que são as revelações no contexto do livro:

As revelações, o que aparece no Liber Novus, são, na verdade, uma tentativa de elaboração daquilo que foi revelado. Revelado: o que é essa revelação? Podemos entender como o aparecimento, na consciência, desses conteúdos que não foram produzidos pela consciência. Então, são revelados, tirado o véu.

Lilian Wurzba, no curso Uma Introdução Guiada e Descomplicada ao Pensamento de Jung.

A professora chama atenção para uma sequência importante. Jung viveu experiências que o inquietaram, registrou parte delas em cadernos particulares e depois retomou esse material. O Livro Vermelho nasceu desse trabalho posterior de seleção e elaboração.

Linha do tempo: dos registros à publicação do Livro Vermelho

PeríodoEtapa
A partir de 1913Jung registra experiências interiores nos cadernos conhecidos como Livros Negros.
A partir de 1914–1915Parte do material passa por novas etapas de redação e elaboração para o Liber Novus.
Décadas de 1910 e 1920Jung trabalha no manuscrito, em sua caligrafia e nas pinturas. O projeto fica inacabado.
2009Sai a edição do Livro Vermelho preparada por Sonu Shamdasani, após autorização dos herdeiros de Jung.
2020Os Livros Negros recebem uma edição em fac-símile, acompanhada de tradução e material editorial.

As datas descrevem etapas diferentes. Não indicam que Jung trabalhou no manuscrito da mesma maneira, sem interrupções, durante todo o período.

O volume encadernado é situado entre 1914 e 1930, já os Livros Negros abrangem registros de 1913 a 1932.

Retrato de Carl Gustav Jung usando óculos e paletó
Carl Gustav Jung (1875-1961) elaborou o Livro Vermelho durante um período decisivo de sua vida.

O que Jung chamou de “confronto com o inconsciente”?

Jung chamou de confronto com o inconsciente o período em que passou a investigar diretamente as imagens que emergiam de sua vida interior.

A palavra “confronto” expressa a dificuldade desse encontro, pois o que aparecia nem sempre correspondia ao que ele pensava sobre si ou conseguia explicar com seus conhecimentos. Suas próprias experiências o colocavam diante dos limites da consciência.

Para compreender essa questão, é importante conhecer uma ideia central de Jung: a psique é mais ampla do que aquilo que sabemos sobre nós mesmos. A consciência permite reconhecer pensamentos e tomar decisões, mas uma parte da atividade psíquica acontece sem nossa intenção.

Um sonho, por exemplo, apresenta situações que não escolhemos enquanto dormimos. Na perspectiva junguiana, essa capacidade de produzir imagens indica que o inconsciente tem uma atividade própria.

Durante esse período, Jung procurou acompanhar tal atividade. Registrou fantasias e estabeleceu diálogos com figuras que apareciam em suas experiências interiores. Essas personificações davam forma a conteúdos que, de outro modo, poderiam permanecer como emoções difíceis de compreender.

Ao escrever esses diálogos, Jung procurava compreender o que as personagens expressavam. Uma figura podia dizer algo que o surpreendia ou contrariava suas convicções. Ele respondia e refletia sobre essa diferença, buscando perceber o que ela revelava sobre sua própria vida.

A participação da consciência era decisiva. Jung precisava reconhecer o que surgia e refletir sobre aquilo, preservando sua capacidade de avaliar a experiência.

O desafio estava em admitir que uma imagem pudesse expressar algo desconhecido sobre sua vida, sem aceitá-la como uma verdade absoluta ou uma ordem a cumprir. Entrar em relação com o inconsciente exigia sustentar essa diferença entre experimentar um conteúdo e ser governado por ele.

Os sonhos de Jung também participaram dessa investigação. Ao analisar os sonhos, Jung considerava que suas imagens poderiam expressar aspectos da vida psíquica que a pessoa não percebia quando estava acordada.

Essa ideia é importante para compreender sua abordagem da interpretação dos sonhos. Alguém muito identificado com a própria força, por exemplo, poderia encontrar num sonho uma situação de vulnerabilidade.

O sentido dessa experiência dependeria da história da pessoa e do contexto do sonho. A imagem abriria uma pergunta sobre sua maneira de viver, em vez de oferecer uma resposta pronta.

Ao retomar os registros e elaborá-los no Liber Novus, Jung procurava compreender o que havia vivido e quais consequências aquilo teria para sua vida. Esse esforço se relaciona ao desenvolvimento da imaginação ativa, em que a consciência participa do encontro com conteúdos interiores.

O Livro Vermelho permite acompanhar parte desse processo, com suas dificuldades e tentativas de compreensão. Sua leitura exige considerar a experiência particular de Jung e o trabalho prolongado que ele realizou sobre ela.

Livros Negros e Livro Vermelho: qual é a diferença?

Coleção Os Livros Negros de C. G. Jung com sete volumes em estojo preto
Box dos Livros Negros de Jung, cadernos que contêm registros das experiências interiores do psiquiatra e serviram de base para a elaboração do Livro Vermelho.

Os Livros Negros de Jung são cadernos em que ele registrou experiências interiores entre 1913 e 1932. O Livro Vermelho nasceu de uma nova etapa desse trabalho, quando Jung retomou parte dos registros, acrescentou comentários e elaborou o manuscrito com caligrafia e pinturas próprias.

Por isso, os Livros Negros podem ser considerados precursores do Livro Vermelho, mas não são a mesma coisa. Permitem acompanhar registros feitos em momentos distintos e observar o desenvolvimento das experiências e das reflexões de Jung.

O Liber Novus apresenta uma elaboração textual e artística. Uma primeira versão do manuscrito reuniu fantasias transcritas dos Livros Negros, acrescidas de comentários interpretativos e elaboração literária. Houve, portanto, um processo entre o registro e a composição da obra.

ObrasO que o caracterizaO que permite compreender
Livros NegrosCadernos com registros das experiências interiores de Jung.Como parte do material foi registrada e retomada ao longo do tempo.
Livro Vermelho / Liber NovusElaboração textual, caligráfica e visual de parte desse material (dos Livros Negros)Como Jung deu forma artística e reflexiva às suas experiências.
Livros teóricos publicadasTextos dirigidos a leitores e debates intelectuais, produzidos em diferentes fases.Como Jung apresentou, desenvolveu e revisou suas ideias.
Página 50 do Livro Vermelho, com pintura e caligrafia de Carl Gustav Jung
Página 50 do Livro Vermelho, com pintura e caligrafia de Carl Gustav Jung.

O que o leitor encontra nas páginas do Liber Novus?

Nas páginas do Liber Novus, Jung narra encontros com personagens e registra os diálogos que estabelece com eles. Algumas cenas lembram narrativas míticas, mas também expressam perguntas e conflitos que ele procurava compreender.

As pinturas acompanham essa investigação e dão forma a experiências que nem sempre podiam ser explicadas diretamente.

Na aula Uma Introdução Guiada e Descomplicada ao Pensamento de Jung, a psicóloga Lilian Wurzba explica como esse trabalho com imagens permitia a Jung examinar suas experiências:

Quando eu consigo personificar, colocar uma imagem que representa esta emoção, eu consigo dialogar com ela, porque eu consigo vê-la. Então, eu consigo dialogar e tentar compreender o que ela significa. É exatamente o que está relatado no Liber Novus.

Lilian Wurzba, no curso Uma Introdução Guiada e Descomplicada ao Pensamento de Jung.

A explicação ajuda a compreender a presença das personagens no livro. Uma emoção difícil de reconhecer podia ganhar forma através de um desenho.

Ao dialogar com ela, Jung procurava perceber o que aquela experiência expressava e como se relacionava com sua vida. O registro desses encontros permitia retomar o que havia surgido e refletir sobre seu significado.

O estudo dos arquétipos de Jung pode ampliar essa análise, desde que os conceitos sejam usados com atenção ao contexto. Reconhecer uma referência mítica, por exemplo, abre possibilidades de interpretação, mas não determina sozinho o sentido da cena.

Os símbolos de Jung precisam ser examinados na relação com o texto e com as questões que o autor investigava.

Essa relação também orienta a leitura das pinturas. A imagem pode destacar algo que a narrativa sugere ou acrescentar uma perspectiva que as palavras deixam em aberto.

Numa edição que reproduz o manuscrito, o leitor acompanha esse diálogo entre escrita e pintura, além de perceber o cuidado de Jung com a composição das páginas. A apresentação visual da obra permite observar como ele deu forma ao material que procurava compreender.

Quatro Livros para Entender Jung - com Tatiana Paranaguá

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Qual é a relação entre o Livro Vermelho e a imaginação ativa?

A imaginação ativa é um método desenvolvido por Jung em que a pessoa acompanha imagens que surgem de sua vida interior e participa conscientemente dessa experiência, procurando compreender o que elas expressam.

No Livro Vermelho, esse trabalho aparece nos diálogos que Jung estabelece com as personagens de suas fantasias e na elaboração das imagens por meio da escrita e da pintura.

A consciência permanece envolvida: responde ao que surge e reflete sobre a experiência, sem determinar antecipadamente seu significado.

A professora Lilian Wurzba aproxima as experiências registradas no livro de um texto teórico escrito por Jung no mesmo período:

Neste texto de 1916, A Função Transcendente, ele mostra quais são as formas de lidar com isso. Ele está relatando o que fez com as suas imagens, que hoje lemos no Liber Novus, certo? E o que é isso? É personificar, é dar uma imagem àquela emoção experimentada.

Lilian Wurzba, no curso Uma Introdução Guiada e Descomplicada ao Pensamento de Jung.

Ao falar em “dar uma imagem àquela emoção”, Lilian descreve como um sentimento difícil de compreender pode ganhar uma forma que permita examiná-lo. Uma emoção antes percebida apenas como mal-estar pode aparecer como uma personagem.

Ao dialogar com essa figura, a pessoa procura reconhecer o que ela expressa e como isso se relaciona com sua vida. A consciência participa desse encontro, inclusive quando o que surge contraria suas convicções.

Essa relação ajuda a compreender a função transcendente. Jung usou o termo para descrever o processo pelo qual o encontro entre a posição consciente e os conteúdos inconscientes pode produzir uma nova maneira de compreender um conflito.

A transformação acontece quando a pessoa consegue considerar algo que antes desconhecia ou rejeitava, ampliando sua perspectiva.

No Livro Vermelho, esse trabalho ganha forma nos diálogos de Jung com as personagens de suas fantasias. Ele registra o que elas dizem e reflete sobre as reações que despertam nele.

Esse percurso contribuiu para o desenvolvimento da imaginação ativa e para sua compreensão da relação entre consciência e inconsciente.

Na Psicologia Analítica, ajudou a fundamentar uma forma de trabalhar clinicamente com imagens, buscando compreender o que elas expressam e como podem participar da transformação de um conflito psíquico.

O que o Livro Vermelho ajuda a entender sobre a Psicologia Junguiana?

O Livro Vermelho ajuda a compreender por que Jung investigou imagens que, em sua interpretação, não podiam ser explicadas apenas pela história pessoal do indivíduo.

Algumas figuras de suas fantasias apresentavam semelhanças com personagens de mitos e tradições religiosas. Essas relações alimentaram sua investigação sobre o inconsciente coletivo, uma dimensão da psique que ele considerava compartilhada pelos seres humanos.

Para Jung, as estruturas desse inconsciente coletivo poderiam se manifestar em imagens capazes de influenciar nossos sentimentos e nossa maneira de compreender a vida, mesmo sem reconhecermos essa influência.

Jung chamou essas estruturas de arquétipos. Em sua teoria, eles não são personagens prontos que todos carregam na mente, mas possibilidades de organização da experiência humana.

Ganham expressão em imagens diferentes conforme a história da pessoa e sua cultura. Assim, encontrar semelhanças entre uma fantasia e um mito abre uma investigação sobre seu significado, sem oferecer uma interpretação definitiva.

O manuscrito permite acompanhar como Jung procurava compreender a influência dessas imagens em sua própria vida. Uma personagem podia dizer algo que contrariava suas convicções ou provocar uma emoção inesperada.

Ao registrar o diálogo e refletir sobre ele, Jung examinava o que aquela experiência revelava sobre si.

É nesse trabalho que o leitor percebe a importância dos símbolos para a Psicologia Junguiana: uma imagem pode expressar algo que já nos afeta, embora ainda não consigamos compreendê-lo claramente.

Esse esforço também ajuda a entender o processo de individuação. Para Jung, conhecer a si mesmo exige considerar aspectos da vida psíquica que escapam à consciência ou entram em conflito com a imagem que temos de nós.

No Livro Vermelho, ele se ocupa dessas diferenças e procura compreender o lugar delas em sua vida. A individuação envolve desenvolver essa relação mais consciente com aquilo que antes permanecia desconhecido ou era rejeitado.

Por isso, o Liber Novus é relevante para estudar a Psicologia Junguiana. Ele permite observar Jung trabalhando com experiências que contribuíram para o desenvolvimento de suas ideias.

Sua pesquisa clínica e seus outros escritos ampliam esse percurso, mas o manuscrito oferece uma proximidade particular com a experiência de vida do próprio psiquiatra.

Por que Jung não publicou o Livro Vermelho em vida?

Jung chegou a considerar a publicação do Livro Vermelho, mas reconhecia que sua linguagem era muito diferente da de seus trabalhos científicos. O manuscrito apresentava experiências pessoais em forma poética e simbólica, enquanto seus estudos teóricos procuravam explicar conceitos e discutir suas implicações psicológicas.

Por esse motivo, ele decidiu não incluí-lo na edição de suas obras completas. Isso ajuda a compreender sua hesitação diante da publicação, embora não explique sozinho por que o livro permaneceu inédito.

O projeto também ficou inacabado. Por volta de 1930, Jung interrompeu o trabalho no manuscrito, enquanto suas pesquisas sobre alquimia ganhavam importância.

Em 1959, voltou ao livro e tentou concluí-lo, mas deixou um epílogo que termina no meio de uma frase. Assim, o Liber Novus permaneceu uma obra cuja elaboração ele não chegou a encerrar.

Isso não significa que Jung pretendesse manter todo o conteúdo permanentemente secreto. Ele mostrou partes do material a pessoas próximas e chegou a cogitar sua publicação.

O que não fez foi preparar e autorizar uma edição integral como a que conhecemos hoje. Há, portanto, uma diferença entre reconhecer o valor da experiência, compartilhá-la com alguns leitores e decidir apresentá-la ao público.

Após sua morte, em 1961, o manuscrito ficou sob os cuidados da família. Seus herdeiros inicialmente hesitaram em publicá-lo e só autorizaram a edição em 2000. O trabalho editorial conduzido por Sonu Shamdasani chegou ao público em 2009, permitindo que leitores conhecessem o manuscrito acompanhado de explicações sobre sua criação.

O Livro Vermelho é uma boa primeira leitura de Jung?

O livro pode fascinar quem está começando, especialmente pelas imagens. Para conhecer os conceitos de Jung de maneira gradual, porém, ele costuma ser uma leitura exigente.

Sua linguagem é poética e as cenas nem sempre oferecem explicações. Para quem deseja conhecer Jung antes de enfrentar essa leitura, a psicóloga Tatiana Paranaguá indica Memórias, Sonhos e Reflexões. No curso Quatro Livros para Entender Jung, ela explica:

Eu costumo dizer que vamos começar pelo fim. Por quê? Porque eu gosto de indicar Memórias, Sonhos e Reflexões como uma entrada no universo junguiano.

“Começar do fim” significa conhecer as lembranças e reflexões que Jung retomou na velhice. O livro permite acompanhar episódios de sua vida e entender por que certas experiências se tornaram importantes para seu pensamento.

Para quem se interessa pelo Livro Vermelho, essa leitura oferece contexto sobre o período que ele chamou de confronto com o inconsciente.

Outra possibilidade é O Homem e Seus Símbolos, também indicado por Tatiana. A obra foi concebida para apresentar o pensamento junguiano a leitores sem formação especializada. Ela ajuda a compreender a importância dos sonhos e dos símbolos, temas que o leitor encontrará no Liber Novus.

Quem já conhece essas ideias pode consultar os Seminários sobre Psicologia Analítica de 1925. Neles, Jung discute aspectos de seu pensamento numa linguagem mais próxima da conversa. Tatiana destaca que esse material ajuda a compreender experiências relacionadas ao Livro Vermelho.

A escolha depende do que você procura:

  • Para conhecer a trajetória pessoal de Jung: Memórias, Sonhos e Reflexões.
  • Para começar a estudar seus conceitos: O Homem e Seus Símbolos.
  • Para contextualizar experiências presentes no Livro Vermelho: Seminários sobre Psicologia Analítica de 1925.

Perguntas frequentes sobre o Livro Vermelho de Jung

Qual é a diferença entre o Livro Vermelho e os Livros Negros de Jung?

Os Livros Negros são cadernos de registros das experiências interiores de Jung. O Livro Vermelho, ou Liber Novus, é uma elaboração posterior de parte desse material, com comentários, composição textual, caligrafia e pinturas. São fontes relacionadas, mas não são o mesmo livro.

Por que o Livro Vermelho foi publicado somente depois da morte de Jung?

Jung chegou a considerar a publicação, mas o manuscrito permaneceu inacabado e ele decidiu não incluí-lo em suas obras completas por seu caráter não científico. Após sua morte, a família preservou o livro e inicialmente hesitou em torná-lo público. A autorização veio em 2000, e a edição preparada por Sonu Shamdasani foi publicada em 2009.

O Livro Vermelho é indicado para quem está começando a estudar Jung?

Não é a leitura mais indicada para começar. Sua linguagem poética e suas imagens exigem familiaridade com o pensamento de Jung. O Homem e Seus Símbolos e Memórias, Sonhos e Reflexões oferecem caminhos mais acessíveis.

Artigo escrito por
Xavana Celesnah
Xavana Celesnah é jornalista e mestre em Artes Visuais. Apaixonada pelas expressões artísticas em todas as suas manifestações, viu no jornalismo cultural uma maneira de aprofundar o conhecimento nos temas que ama.