Neurociência, Saúde Mental & Comportamento

Loucura: o que é, história, visões e transformações do conceito

Loucura: o que é, história, visões e transformações do conceito

A loucura é um conceito que atravessa a história, a clínica, a arte e a vida em sociedade, assumindo sentidos muito diferentes ao longo do tempo. Neste artigo, vamos compreender como a ideia de loucura foi construída historicamente, como a psicanálise pensa essa experiência, quais relações ela estabelece com a normalidade e a criação artística e de que forma esse conceito se manifesta na contemporaneidade.



Falar sobre loucura é sempre um desafio. Implica considerar que essa matriz pode ser vista a partir de lentes sociais, históricas, culturais, geográficas, econômicas, filosóficas, e implica assumir uma pergunta oculta: de que loucura estamos falando?

Há quem a use para nomear o que não entende, há quem a use para afastar o que teme, e há também quem veja nela uma fresta de liberdade, um espaço onde a vida transborda das formas esperadas.

Nenhuma outra palavra que fala da experiência psíquica reúne tantos sentidos contraditórios, e o enlouquecimento revela as múltiplas camadas de subjetividade e complexidade humana.

A loucura tanto pode ser um diagnóstico clínico quanto um gesto de criação; tanto pode ser percebida e entendida como algo divino quanto como um castigo. E é essa perspectiva dualizada é o que limita a loucura a uma visão fragmentada que ainda precisa ser explorada por nós.

Mas aqui, as discussões sobre sintomas ou quadros clínicos assumirão um espaço secundário. Em um primeiro plano, iremos falar de um modo de existir que acompanha a humanidade desde sempre, cada vez com um nome e um destino diferente.

Por isso, o movimento inicial que iremos considerar neste texto será de assumir que os sujeitos e sujeitas consideradas loucos ao longo da história, não necessariamente possuíam algum tipo de transtorno mental. Muitas vezes, eram pessoas que causavam algum tipo de incômodo na sociedade e, por isso, eram excluídas da sociedade.

Entre elas, pessoas negras, mulheres, transexuais, andarilhos, pedintes, ciganos, pessoas com deficiência física, amantes, entre tantos outros grupos que foram considerados sujeitos desviantes das normas vigentes.

Dito isto, te convido a explorar os modos como o conceito sobre a loucura se transformou ao longo do tempo, para compreendermos o que ele representa hoje, entre a experiência psíquica, o olhar clínico, a criação artística e a vida em sociedade.



O conceito da loucura como construção histórica: a invenção do “outro”

A ideia de loucura nunca foi fixa, ela mudou conforme a lente usada para enxergá-la. Na Grécia Antiga, comportamentos fora do esperado eram atribuídos a forças sobrenaturais, vistos como possessões demoníacas (Stone, 1999). Séculos depois, na Idade Média, essa mesma experiência passa a ser interpretada como falha da razão, pecado ou vício terreno.

O que permanece é a tentativa de compreender o desvio a partir dos referenciais disponíveis em cada época. Mesmo o conceito de “sintoma” revela essa mudança de perspectiva: para a medicina, é aquilo que o sujeito relata; para a psicanálise, é expressão do inconsciente.

A própria etimologia – sympitien, “acontecer” – reforça que os sentidos da loucura surgem a partir de modos de sentir e perceber o mundo. Nesse caminho, não é de se espantar que os dicionários descrevam loucura como extravagância, insensatez ou distúrbio mental grave, enquanto “louco” aparece como imprevisível, furioso ou incapaz de agir racionalmente.

Para Bacegga (1998), é nomeando os fenômenos que se forma a cristalização de um estereótipo que permanece presente no nosso inconsciente coletivo e que nos faz associar o nome da loucura e do sujeito louco a uma ideia de periculosidade, imprevisibilidade.

Como destacam Foucault (2008) e Fanon (1968; 2020), quando um grupo é definido a partir do que “falta” ou do que “excede”, sua subjetividade é apagada. Assim, a loucura revela menos sobre quem é chamado de “louco” e mais sobre a sociedade que escolhe ver e nomear dessa forma.

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A dualidade da loucura: uma perspectiva ambivalente

A loucura sempre ocupou um lugar ambivalente na cultura: ao mesmo tempo em que despertou fascínio por sugerir acessos a outras formas de se perceber o mundo, também foi tratada como aquilo que ameaça a ordem e precisa ser contido.

Porém, a loucura não é algo preto no branco, pois existem vários tons entre esses opostos.

Essa transformação revela que a loucura nunca foi apenas um estado individual, mas um espelho dos limites de cada época.

As diferentes narrativas disputaram o direito de definir o que conta como desvio. Assim, elas não apenas interpretam a loucura, mas a produzem, construindo uma percepção de quem é visto como incapaz, perigoso, sensível demais ou radicalmente criativo.

É por isso que os modos de narrar a loucura não se limitam a descrevê-la, pois eles produzem o fenômeno que desejam explicar. São as narrativas que decidem o que é excesso, o que é transgressão, o que é desvio, e quais vidas serão enquadradas nesses marcadores (Franklin, 2025).

A loucura é menos um dado e mais uma construção, um reflexo das tensões entre liberdade e controle, sem esquecer que ela terá diversas camadas de complexidade e de tons de cinza que serão responsáveis pelos seus desdobramentos e múltiplas possibilidades de compreensão no mundo.

A extração da pedra da loucura, pintura de Hieronymus Bosch que representa visões históricas e simbólicas da loucura na Idade Média
“A extração da pedra da loucura" de Bosch (1475 e 1480)"

O que a psicanálise vê quando olha para a loucura?

Para a psicanálise, a loucura está diretamente relacionada à conflitos psíquicos internos e a relação do indivíduo com o mundo.

No curso Quando ser normal é um sintoma, Lygia Vampré Humberg chama atenção para os modos como Joycle McDougall descreve os chamados “normopatas”: pessoas impecavelmente adaptadas, que funcionam, produzem, entregam, fazem tudo do jeito esperado. Pessoas que parecem ter encontrado o manual da boa convivência e o seguem sem hesitar.

Mas essa normalidade, quando observada de perto, cobra seu preço. Ela exige que o sujeito abdique de partes de si: das dúvidas, do desejo e muitas vezes da espontaneidade. A normopatia é um modo de sobrevivência que, para evitar o caos interno, organiza a vida em excesso e, no processo, paralisa a vitalidade, sabe? É como se fosse aparentemente saudável, mas interiormente empobrecida.

André Martins, no curso Para além da neurose, aponta que Winnicott vira essa discussão de cabeça para baixo ao propor que saúde não é adaptação perfeita, e sim a capacidade de brincar, criar, relacionar-se de forma viva. Ele nos lembra que o sujeito saudável é aquele que consegue sustentar sua própria singularidade e não aquele que cabe perfeitamente no molde.

Nesse sentido, em algumas frentes psicanalíticas, a loucura pode ser muitas vezes o nome que damos à recusa consciente ou não de viver segundo o script apertado das expectativas sociais.

Desde Freud, nunca se pensou a loucura como algo exterior à experiência humana. Ao contrário, o pai da psicanálise a descreve como uma condição subjetiva marcada por um colapso da capacidade simbólica. Já para Lacan, ao discutir sobre a psicose, não a compreende como a ausência de sentido, mas como uma tentativa de reorganizar um mundo que se desfez.

Marcelo Veras, no curso A clínica psicanalítica da loucura, insiste nessa perspectiva: o delírio é esforço de construir uma ordem possível para um sujeito que perdeu as referências habituais. Há uma lógica ali, singular, própria, muitas vezes inacessível aos outros, mas que ainda assim sustenta uma existência no mundo.


Loucura e criação: quando o excesso encontra forma

Mas quem disse que a loucura trata-se apenas de algo mal visto ou danoso ao sujeito?

Se há um território em que a loucura ganha outra luz, é na arte: ela sempre fez convivência com aquilo que escapa. Van Gogh, Artaud, Hölderlin, Bispo do Rosário, são nomes que carregam a marca de um sofrimento intenso, mas também de uma sensibilidade que inventou linguagens e produção de vida.

No livro O Perigo de Estar Lúcida (2023), Rosa Montero sugere que a loucura se aproxima muito mais da genialidade do que de qualquer noção estrita de doença. Para ela, é justamente nesse território instável, intenso e muitas vezes indomável que a criatividade encontra espaço para se expandir, ganhando força e novas possibilidades.

“(...) talvez a diferença entre a criatividade e o que chamamos de loucura seja apenas quantitativa” (Montero, 2023, p. 72).

Nesse mesmo caminho, Tania Rivera fala do gesto artístico como borda psíquica: um modo de dar forma ao que, de outro jeito, se tornaria destrutivo. Criar é encontrar um lugar possível para o excesso, para o desamparo, para o que não cabe na vida comum.

No texto O devir negro da luta antimanicomial, Paula (2024) nos lembra como enlouquecer sempre foi uma tecnologia ancestral para não enlouquecer. Em outras palavras, foram criadas ao longo do tempo mecanismos sofisticados de manutenção da vida e estratégias para não sucumbir ao trauma que uma compreensão de loucura eurocentrada e colonial insiste em produzir.

Longe de romantizar qualquer sofrimento psíquico, essa perspectiva aponta para algo mais complexo: a criação não nasce por causa da dor, mas a partir de um encontro possível entre sentido, linguagem e forma.

Embora o gesto artístico não salve por milagre, ele organiza, ancora, traduz, e impede que o excesso transborde sem direção, oferecendo ao sujeito uma via de circulação, um lugar possível de existência.

📚 Sugestões de Leitura:

Capa do livro O perigo de estar lúcida, de Rosa Montero, que reflete sobre loucura, criatividade e experiência subjetiva
“O perigo de estar lúcida” (2023), de Rosa Montero


Capa do livro Saúde mental e relações raciais, de Emiliano de Camargo David, que aborda sofrimento psíquico, racialização e perspectivas antimanicomiais
“Saúde mental e relações raciais: desnorteamento, aquilombação e antimanicolonialidade"(2024), de Emiliano de Camargo David


A loucura de hoje: exaustão, performance e a nova forma de colapso

E como essa discussão sobre o conceito de loucura nos alcança hoje?

A loucura continua sendo nomeada através desse grande prisma, mas os caminhos que produzem essa percepção são outros. Estamos em um processo de patologização no qual o olhar do outro permanece central, porém, não é mais o olhar institucional, e sim um olhar distribuído, pulverizado, feito de seguidores e algoritmos.

Hoje, ela é atravessada pela automedicalização, pelo autodiagnóstico e pelos filtros das redes sociais, que transformam os sofrimentos em etiqueta, categoria ou conteúdo.

Atualizado no feed, tem sido cada vez mais comum vermos um check list de sintomas e um resumo de 30 segundos sobre diagnósticos psiquiátricos que podem fazer com que qualquer um de nós automaticamente se identifique.

Certamente isso se dá na medida em que estamos inseridos em uma lógica capitalista que individualiza o sofrimento e patologiza as diferenças através da punição da loucura e da criminalização da pobreza.

É por isso que encerramos esse texto (e não a discussão) afirmando que a ideia de loucura se constrói menos a partir da convivência direta com o sofrimento e mais a partir das narrativas que circulam sobre ela (Franklin, 2025). O excesso, a exaustão e o colapso emocional se tornam quase identidades, reforçadas por uma lógica de visibilidade que premia quem nomeia sua dor de modo reconhecível.

Ao mesmo tempo, cria-se um padrão do que é “sofrer corretamente”, do que se encaixa no discurso aceito. Assim, o olhar que patologiza segue ativo, mas agora ele opera por meio de telas e autoclasses diagnósticas.

Falar sobre loucura hoje, portanto, é discutir essa trama em que o sofrimento é ao mesmo tempo compartilhado, exposto, comparado e enquadrado, em um movimento que redefine quem pode ser considerado “desviante” e como esse desvio é percebido na era da superexposição.

O que o conceito de loucura revela sobre nós

Em cada tentativa de definir o que é normal ou aceitável, estamos também desenhando fronteiras que revelam nossos medos, nossas certezas, fragilidades e a necessidade urgente de controle.

Quando chamamos de loucura aquilo que não compreendemos, deixamos à mostra a pobreza das nossas linguagens e a impaciência diante da complexidade. Ao classificar rapidamente experiências que exigiriam escuta, cuidado e suporte, mostramos o quanto tememos o que nos desestabiliza e como preferimos afastar, silenciar ou patologizar aquilo que perturba nossa ordem imaginada.

A loucura, nesse sentido, funciona como um espelho. Ela reflete ansiedades coletivas, impasses sociais e o desconforto diante de tudo que não cabe nas normas que criamos.

É por isso que pensar o conceito de loucura é, sobretudo, pensar sobre nós: sobre como convivemos, como cuidamos e como lidamos com a diferença, reconhecendo que o “desvio” não é defeito, mas parte da pluralidade que sustenta qualquer vida em relação.

Por isso, é fundamental que saibamos repensar nossas formas de pertencimento e acolhimento, lembrando que, no fundo, todos habitamos zonas de incerteza que nos tornam profundamente humanos.

Cursos para aprofundar no tema da loucura

Se você se interessou pelas discussões sobre loucura, normalidade, delírio e suas interfaces com a clínica, a arte e a vida em sociedade, estes cursos permitem um aprofundamento consistente e plural sobre o tema:

  • Somos Todos Loucos? De Perto, Ninguém é Normal, com Marcelo Veras
    O curso problematiza a ideia de “normalidade” a partir da psicanálise, mostrando como essa noção está longe de ser um dado natural. Marcelo Veras apresenta uma leitura da loucura que se distancia da abordagem psiquiátrica clássica, enfatizando sua dimensão subjetiva e histórica.

  • Quando Ser Normal É um Sintoma, com Lygia Vampré Humberg
    A partir do conceito de normopatia, formulado por Joyce McDougall, o curso investiga situações em que a normalidade excessiva se transforma em um sintoma. A proposta é compreender sujeitos altamente adaptados, eficientes e “bem-comportados”, mas com pouca espontaneidade, oferecendo ferramentas clínicas para pensar essa forma específica de sofrimento psíquico.

  • A Clínica Psicanalítica da Loucura, com Marcelo Veras
    Uma introdução à topologia lacaniana das psicoses, explorando as contribuições de Jacques Lacan para a compreensão das estruturas clínicas. O curso discute como o delírio pode ser entendido como uma tentativa de reorganização subjetiva, diferenciando a psicose da neurose e da perversão.

  • Lugares do Delírio: Arte e Loucura, com Tania Rivera
    O curso propõe uma leitura do delírio em chave estética e política, recusando sua compreensão exclusivamente patológica. A partir do diálogo entre clínica e arte, Tania Rivera explora como o delírio pode abrir fissuras na realidade compartilhada e produzir novos modos de existência e criação.

  • A Loucura Entre Nós
    O documentário investiga os limites da sanidade e os critérios que sustentam a ideia de normalidade a partir do cotidiano de um hospital psiquiátrico. Ao acompanhar personagens e histórias, sobretudo de mulheres, o documentário expõe as contradições da razão e convida o espectador a refletir sobre seus próprios conflitos, desejos e erros. Livremente inspirado no livro homônimo do psicanalista Marcelo Veras, o filme realiza um mergulho sensível nos paradoxos da reinserção da loucura no mundo social, recusando qualquer leitura redutora que transforme seus personagens em meros objetos de um diagnóstico psiquiátrico.





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Referências:

BACCEGA, Maria Aparecida. O estereótipo e as diversidades. Comunicação & Educação,(13), 7-14, 1998.

FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

FRANKLIN, Camila Fortes Monte. Eco no silêncio e na saúde: a produção de narrativas sobre loucura e gênero nos jornais O Globo e O Dia (PI). 2025. 485 f. Tese (Doutorado Acadêmico em Informação e Comunicação em Saúde) – Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2025.

FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. 9ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.

MONTERO, Rosa. O Perigo de Estar Lúcida. / Rosa Montero; tradução Mariana Sanchez. – 1. Ed. – São Paulo: Todavia, 2023.

STONE, Michael H. A cura da mente: a história da psiquiatria da Antiguidade até o presente.Porto Alegre: Artmed, 1999.

PAULA, Tadeu de. O devir negro da luta antimanicomial: sobre Pombagira e as tecnologias ancestrais do Povo da Rua. In: Comunidades Terapêuticas no Brasil: entraves e desafios para a atenção psicossocial / organização: Rachel Gouveia Passos ... [et al.]. 1ª ed. - São Paulo:Hucitec, 2024. - 202 p.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.