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Uma mulher pode romper um relacionamento e continuar viva?

Uma mulher pode romper um relacionamento e continuar viva?

Pode parecer uma pergunta meio óbvia e retórica, mas leia o título de novo. Não estou falando de uma potencial “sensação de morte” que um término de relacionamento pode gerar – aquela dor emocional que parece sufocar o peito e drenar a vitalidade, sabe? Estou me referindo à sobrevivência no sentido literal: é possível uma mulher terminar um relacionamento e permanecer viva, de corpo inteiro, respirando o ar livre que conquistou com sua decisão? 

Não é isso que os números, os casos recentes e a realidade cotidiana no Brasil vêm nos mostrando. Em um país onde a violência contra a mulher é endêmica, romper laços afetivos tem se tornado um ato de força e coragem extremas.

Nos primeiros meses de 2026, diferentes histórias voltaram a ocupar o noticiário com um roteiro que já não é desconhecido: mulheres assassinadas por ex-companheiros inconformados com o fim de uma relação. Crimes cometidos dentro de casa, muitas vezes na frente de filhos, quase sempre precedidos por ameaças, controle obsessivo e um histórico de episódios de violência física e/ou psicológica. 

Em um caso em São Paulo, uma jovem de 24 anos foi esfaqueada até a morte após insistir na separação; o ex-parceiro invadiu o apartamento dela e a atacou enquanto ela protegia o filho pequeno. Em outro, no Rio de Janeiro, a vítima já havia registrado ocorrência policial e solicitado medida protetiva, mas o agressor burlou a ordem judicial e a matou a tiros na porta de casa. Em comum, está a recusa da masculinidade em aceitar a autonomia das mulheres como algo legítimo. Em todos esses episódios, havia um limite colocado por elas e que foi recusado por eles, que interpretam o fim do relacionamento como uma afronta pessoal à sua autoridade.

Esses casos refletem um padrão alarmante. De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2025, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, um aumento de 0,7% em relação ao ano anterior. 

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência doméstica. A Lei 11.340/2006 conhecida como Lei Maria da Penha é referência internacional, com mecanismos como afastamento do agressor, monitoramento eletrônico e penas agravadas para feminicídio. No entanto, quando se observam as tentativas de homicídio – que muitas vezes precedem o assassinato consumado –, os números crescem de forma ainda mais expressiva. 

Foram registradas 3.870 tentativas de feminicídio no país em 2024, ou seja, há uma tentativa de feminicídio a cada 2 horas e 15 minutos no Brasil. O Rio de Janeiro em particular, no ano de 2025, apresentou uma taxa de 1,8 feminicídios por 100 mil mulheres, superando a média nacional. A maior parcela desses números ocorreu após separações ou tentativas de término, com ex-parceiros. 

Ainda assim, a violência de gênero também não se limita às mulheres adultas. Em março deste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, divulgou a 5ª edição da PeNSE 2024 – Pesquisa Nacional de Saúde Escolar. Após entrevistar mais de 100 mil estudantes de 13 a 17 anos das redes pública e privada, a pesquisa traçou um panorama detalhado do bem-estar adolescente no Brasil. 

O resultado? As meninas são as maiores vítimas de violência sexual e bullying: 26% relataram sofrer violência sexual, contra 10,9% dos meninos. Esses números representam um aumento de quase 6% em relação à edição de 2019, apesar de todos os avanços discursivos sobre igualdade de gênero. A PeNSE revela que 15% das meninas já sofreram agressões físicas de namorados, e 20% relataram controle comportamental, como proibições de sair ou usar redes sociais. 

A violência não surge do nada na idade adulta; ela é semeada muitas vezes ainda na adolescência, em relacionamentos que espelham padrões machistas, mas também, no que a juventude consome no dia a dia, seja em casa, na presença de seus cuidadores e/ou familiares que reproduzem uma lógica da violência; na escola ou com amigos, quando piadas sexistas viram norma; ou nos jogos online, onde meninos se unem em squads para hostilizar garotas com assédio virtual; além das redes sociais e mídias, onde influencers glorificam o controle de gênero.

Os debates de raça, classe e território também não podem ficar de fora. O nordeste é a região do país que concentra o maior número de homicídios de mulheres, sendo o estado da Bahia o líder. Entre os 3.858 homicídios de mulheres no Brasil em 2021, 2.601 eram mulheres negras, conforme o Atlas da Violência 2025. É um padrão histórico de violência de gênero, letal e não letal, que incide de forma desproporcional sobre corpos negros.

Dito isso, o que pode ser feito?

Precisamos agir em frentes concretas. Individualmente, denunciar sinais de violência, acolher vítimas sem julgamento e educar meninos contra controle e ódio desde cedo. Comunidades devem criar redes de apoio reais, com abrigos acessíveis. Na educação, envolver psicólogos no acolhimento de crianças, adolescentes e suas famílias; e caminhar em um rumo de diálogo e escuta ativa em relação às meninas e mulheres.

De modo coletivo, políticas públicas exigem urgência: dobrar fiscalização de medidas protetivas com monitoramento eletrônico efetivo, varas especializadas 24h e campanhas em periferias e territórios vulneráveis, além de programas regionais anti-feminicídio. 

Mas nada disso se sustenta sem responsabilização real. Agressores que descumprem medidas protetivas precisam ser monitorados e punidos com rapidez. Plataformas que lucram com conteúdo violento precisam ser pressionadas a agir, e instituições que falham de forma recorrente precisam ser cobradas. 

Não podemos apenas criar novas soluções, mas fazer funcionar o que já existe. Então sim, uma mulher pode romper um relacionamento e continuar viva depois disso, mas hoje, no Brasil, isso ainda não depende só dela – e esse é o problema.

Enquanto sair de uma relação continuar sendo um dos momentos de maior risco, não estamos falando de liberdade plena. Estamos falando de um direito condicionado. E direitos condicionados não são direitos.

Referências:

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9134-pesquisa-nacional-de-saude-do-escolar.html

https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/07/anuario-2025.pdf

https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/3299-dashpessoas-negrasfinalconferido.pdf

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.