Newsletters

A gente ainda chama isso de cuidado? Saúde mental e gestão da normalidade*

A gente ainda chama isso de cuidado? Saúde mental e gestão da normalidade*

Houve um tempo, na história da psiquiatria clássica, em que o controle social era uma arquitetura óbvia: muros de pedra, camisas de força e chaves que giravam apenas pelo lado de fora. Hoje, no século XXI, a estrutura do controle tornou-se muito mais sofisticada e diria que até subcutânea. E isso aconteceu porque não precisamos mais de um guarda em uma torre de vigia; nós internalizamos o vigilante de jaleco.

O manicômio é a manifestação psíquica da lógica neoliberal. Nele, a nossa existência deixa de ser uma vivência humana para se tornar uma unidade de performance. O sofrimento, que historicamente era uma resposta legítima a perdas, abusos ou à precariedade da vida, foi sequestrado pela lógica da mercadoria. Fomos forçados a internalizar essa lógica, e então passamos a monitorar cada flutuação de humor como se fosse uma queda nos índices da bolsa de valores.

A patologização do comum é o pilar deste sistema. Estamos criando uma geração que não tem vocabulário para a tristeza, apenas para o diagnóstico. Se você acorda sem energia em um mundo que queima e explora, o sistema rapidamente oferece um CID para isolar o problema nos seus neurotransmissores. Se você não rendeu o suficiente no trabalho, toma aqui também um nootrópico pra te ajudar no foco. Ao fazer isso, o sistema individualiza o que é coletivo, deixando de escanteio todos os fatores de adoecimento psíquico que vivemos diariamente. Se o problema é químico e pessoal, a solução é química e individual. Assim, a realidade social com toda a sua injustiça e ruído permanece intacta, enquanto o indivíduo é silenciado e "recalibrado" para voltar ao posto de trabalho.

A terapia e a medicação, que deveriam servir como auxílio para uma melhora na qualidade de vida em alguns casos, são frequentemente cooptadas para a manutenção das engrenagens de violência. O objetivo deixa de ser a autonomia do sujeito e passa a ser a sua funcionalidade, pois um sujeito funcional é aquele que produz, consome e não questiona. O manicômio hoje é, portanto, a solitária que construímos dentro de nós sempre que sentimos culpa por não estarmos "bem o suficiente" para produzir.

Frantz Fanon

O impacto dessa percepção não se limita aos adultos. Estamos assistindo a uma medicalização infantojuvenil precoce sem precedentes. O comportamento infantil, que é, por natureza, errático e exploratório, passou a ser visto como um transtorno a ser gerenciado. Crianças que não se encaixam no modelo escolar de confinamento e repetição são rapidamente rotuladas. As escolas e estruturas familiares estão adoecidas, mas parece que é mais fácil medicar a criança do que reformular o sistema. Retira-se da infância o direito ao conflito e à frustração, substituindo o amadurecimento psíquico por contenção química. 

Frequentemente falamos de saúde mental como um laboratório asséptico, mas ela tem raça, classe e gênero. Sabemos que o machismo, o racismo e o acesso à recursos de saúde mental não acontecem de modo igualitário para todos. Se para alguns a pauta da qualidade psíquica é um direito, para outros ela não chega nem a ser uma questão por falta de informação. Alguns podem sofrer, outros só precisam executar sem refletir. Portanto, quem tem o direito de sofrer em público sem ser punido? 

(Tornar-se Negro (1983) — obra de Neusa Santos Souza que inaugurou o debate sobre racismo e sofrimento psíquico no Brasil)

O acesso ao tratamento é o primeiro grande divisor. O cuidado psíquico tornou-se um produto de luxo: quem tem recursos acessa a escuta profunda; quem não tem é submetido à gestão química da pobreza. No sistema público, o comprimido muitas vezes substitui a palavra porque não há tempo para ouvir o pobre. Isso está longe de ser saúde mental; é contenção social por via farmacológica. O racismo estrutural patologiza corpos negros, ignorando que o trauma contínuo da exclusão e da violência é a causa real do sofrimento, e não uma falha de caráter ou de personalidade.

E o que é a loucura senão o nome que damos ao que foge à norma? A sociedade classifica como "louco" aquele que interrompe o fluxo ou o consenso da normalidade produtiva. Por isso o que vemos hoje é o reflexo de uma manutenção de poder firmada na punição da loucura e na criminalização da pobreza. Se o "normal" hoje é aceitar passivamente a exploração desenfreada, talvez o colapso psíquico seja a única resposta sã.

Sabemos que, historicamente, a psiquiatria serviu para neutralizar dissidentes. Artistas, místicos, bruxas, feiticeiras, pessoas com deficiência, mulheres independentes, foram todos, em algum momento, trancafiados sob o rótulo da loucura. Não precisamos ouvir o que o "louco" tem a dizer sobre o absurdo da nossa cultura porque a sua fala já foi invalidada pelo carimbo do diagnóstico.

Mas, por sorte nossa, pudemos contar com a lucidez desviante dessas pessoas, pois certas formas de insanidade são, na verdade, atos de resistência contra uma domesticação desumana. O "surto" pode ser o grito de alerta de um sistema social que faliu. Se o organismo se recusa a continuar, ele está preservando o que resta de humanidade contra a mecanização da vida. A loucura, sob esta lente, é o desejo que escapou à captura.

É fundamental compreender que a luta antimanicomial não se esgota na necessária Reforma Psiquiátrica Brasileira ou no fechamento físico dos hospitais psiquiátricos. Se limitarmos nossa visão apenas à mudança das leis e das instituições, corremos o risco de permitir que a lógica asilar sobreviva, camuflada em nossos condomínios, empresas, lares e discursos. A reforma institucional foi o primeiro passo, mas a reforma sociocultural é a que exige mais fôlego. Lutar contra o manicômio é uma postura ética, ao recusar o impulso de silenciar quem nos incomoda com sua dor ou sua dificuldade. Quando pensamos que um colega está “sofrendo demais”, ou quando achamos que uma criança está “exagerando”, ou mesmo quando isolamos um vizinho que apresenta um comportamento que não estamos acostumados a conviver, na verdade estamos, na prática, erguendo muros que apenas replicam a exclusão que os velhos hospitais faziam com concreto e eletrochoques.

Essa luta, portanto, é uma responsabilidade compartilhada. Não cabe apenas aos psicólogos, psiquiatras ou gestores públicos; cabe a cada um de nós examinar como as nossas interações cotidianas reforçam ou combatem a lógica da exclusão. Incorporar a luta antimanicomial em nossa subjetividade significa cultivar uma ética do cuidado comunitário, onde o sofrimento psíquico não seja visto como um "defeito" a ser escondido, mas como parte da tapeçaria humana que todos compartilhamos. Ao protegermos o direito do outro de existir em sua singularidade, mesmo quando essa soa ruidosa ou incompreensível, estamos protegendo a nossa própria liberdade. Afinal, a sanidade de uma sociedade não é medida pela ausência de conflitos psíquicos, mas pela sua capacidade de acolher o humano sem precisar trancafiá-lo, seja em uma cela, seja em um diagnóstico.

É inegável que haverá situações em que a medicalização se apresenta como um eixo central de suporte e, para que ela aconteça, o diagnóstico é um passo necessário. O risco emerge quando o nome da patologia não inaugura um campo de escuta, mas o encerra. O diagnóstico deve operar como bússola para o cuidado, jamais como sentença identitária ou mordaça da subjetividade. Cuidar, de fato, exige sustentar a escuta antes de silenciar o sintoma, além de não anestesiar o sofrimento sem antes reconhecer o que ele revela sobre as formas de asfixia — muitas vezes sociais — que o produziram.

Precisamos de uma saúde mental que seja, acima de tudo, libertadora. Isso significa validar a dor como sinal de alerta político, e não apenas como erro biológico. Significa também permitir que crianças sejam crianças antes de serem pacientes, democratizar a escuta para que o cuidado deixe de ser um privilégio e, por fim, acolher a diferença — compreendendo que a nossa incapacidade de nos ajustarmos a uma sociedade doente é, possivelmente, a nossa maior prova de sanidade.

*Este texto é dedicado a todas as pessoas que vivem e convivem com algum tipo de sofrimento ou dificuldade de saúde mental, e àquelas que tiveram suas vidas e psiques ceifadas pelo sistema manicomial no Brasil. Em homenagem ao 18 de maio, ele se soma às vozes que recusam o esquecimento e insistem na continuidade da luta antimanicomial.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.