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A Garota Canhota: Amar e cuidar não são a mesma coisa

A Garota Canhota: Amar e cuidar não são a mesma coisa

Sabe aquele tipo de filme que faz a gente pensar: Qual a relação entre quem eu fui, quem eu sou e quem eu fui ensinada a ser? Pois bem, o longa A Garota Canhota nos coloca diante de personagens que, em suas escolhas e hesitações, refletem algo que para nós, é muito caro: heranças emocionais, internalizações, desejo próprio, culpas, perdas e transformações. O primeiro trabalho solo de direção de Shih-Ching Tsou se apresenta enquanto um espelho que nos permite observar padrões que atravessam a vida de muitas mulheres e meninas, e revela os modos como as culturas e os costumes operam a partir de dinâmicas muito particulares.

A obra conta a história de três gerações de mulheres (avó, mãe e filha) cujas trajetórias se entrelaçam de forma determinante. Cada uma, à sua maneira, carrega marcas do seu tempo, das suas perdas e das formas possíveis de amar e sobreviver. O que o filme revela, com delicadeza, é que essas histórias se atravessam, se repetem e, muitas vezes, se atualizam nas gerações seguintes, como uma herança emocional difícil de ser desprendida. Entre ações, silêncios e pequenas rupturas, acompanhamos como padrões se perpetuam e como, ainda que lentamente, também podem ser transformados.

Sabemos que nossas experiências são atravessadas não apenas pelos eventos que vivemos, mas pelo modo como somos acolhidas ou não. Em outras palavras, a maneira como os outros reagem nos momentos em que precisamos de apoio, determinam diretamente os modos como lidamos com as coisas na nossa vida. Porque é assim, somos um reflexo do outro, sobretudo, das relações que estabelecemos. Assim, se o outro não responde bem às nossas dores e inseguranças, isso irá refletir nos modos como nós vemos a nós mesmas. Nesse caminho, as protagonistas nos lembram que trauma não é só o que aconteceu, mas o que aconteceu quando não houve acolhimento.

Nesse sentido, o filme nos convida a refletir sobre o personagem que aprendemos a ser. Muitas mulheres aprendem a ser alguém diferente de si mesmas para garantir afeto, aprovação ou proteção. Aprendemos a ser “boas”, fortes, responsáveis, perfeitas ou invisíveis, e esses papéis nos acompanham como sombras que não conseguimos abandonar. O vazio que surge quando tentamos romper com eles é familiar para muitas de nós, afinal, quem sou eu quando deixo de desempenhar o papel que me define para os outros? O filme mostra, com sutileza e sensibilidade, que abandonar um papel não é simples, pois exige desconstruir camadas de história emocional, memórias e expectativas que se solidificaram como proteção, mas também como prisão.

cena de filme 'a garota canhota' da netflix
“A Garota Canhota” (2025) – Netflix

Um outro ponto que chama atenção no filme é um questionamento profundo sobre a diferença entre amor e vigilância. A mini-protagonista I-Jing, em suas relações e interações familiares, nos lembra que ser cuidada nem sempre significa ser acolhida. O cuidado pode ser funcional, protetor, mas raramente envolve a liberdade de simplesmente existir sem julgar ou medir-se. Muitas de nós também crescem em contextos onde o amor é condicionado à obediência ou ao desempenho, e o afeto se confunde com a aprovação. Por isso é que a narrativa do filme funciona como um convite para perceber essa distinção: cuidado não é necessariamente presença afetiva; e afeto é aceitar que a outra pessoa possa existir com todos os seus desejos, medos e contradições. Por isso esse texto carrega um título que poderia soar um pouco confuso, mas não é porque alguém cuida de você, que ela te ama. Assim como amar não implica na complexidade que envolve o cuidado.

Outro ponto central que dialoga diretamente com nossas reflexões é a crueldade do superego. O filme nos apresenta personagens que internalizam vozes externas e se tornam severas consigo mesmas. I-Jing, em momentos de introspecção, evidencia que ninguém é mais cruel do que aquela voz interna que julga, censura e diminui; e que a violência do outro pode ser determinante para os modos como nos tornamos violentas com nós mesmas, mesmo sem querer. Esse superego – esse monstro de 7 cabeças – é herança de expectativas familiares, sociais e culturais, que não nos deixam esquecer de que precisamos seguir firmes todos os dias para que consigamos viver minimamente bem. Ao longo da narrativa, percebemos que recomeçar é aprender a reconhecer esses impulsos e escolher caminhos diferentes, sem se submeter à lógica de autodesmerecimento.

O filme também dialoga com culpa, repetição e medo de ser feliz. Muitas de nós carregamos a sensação de que para ser feliz, precisamos deixar alguém pra trás: uma mãe, uma irmã, uma ancestral. Romper papéis, frustrar expectativas e assumir desejos próprios pode gerar conflitos internos e externos, e A Garota Canhota nos lembra que, muitas vezes, a repetição não é coincidência, mas um modo de sobrevivência aprendido. Quantas vezes repetimos padrões de autocobrança, de escolhas limitadas ou de relações pautadas pelo dever e não pelo desejo? O filme nos convida a olhar para essas repetições com curiosidade e compaixão, como sinais de trajetórias emocionais complexas.

Em sua dimensão mais transformadora, a obra mostra que recomeçar não é se consertar, mas mudar o prisma. A personagem I-Ann, a filha adolescente que lida com lutos e conflitos diários, não precisa apagar suas sombras para avançar; mas precisa renomeá-las, reconhecê-las como parte de sua história e, sobretudo, se autorizar. O filme se torna, assim, um dispositivo de pensamento sobre os modos como cada mulher pode se aproximar de si mesma, de suas escolhas e de sua liberdade afetiva.

As personagens, de modo geral, nos ensinam que recomeços são fragmentados, muitas vezes acompanhados de perdas e frustrações, e que cada mudança exige coragem para enfrentar expectativas internas e externas. As perdas não são apenas materiais ou relacionais, mas simbólicas: abandonar papéis internalizados, abrir mão de certezas e desafiar tradições emocionais são formas de luto que acompanham qualquer movimento de emancipação. E, ainda assim, o filme demonstra que o recomeço é possível, sobretudo quando nos permitimos reconhecer nossas necessidades, desejos e fragilidades.

A Garota Canhota nos oferece, assim, uma lente para pensar a vida de muitas mulheres hoje: a complexidade do que é ser mulher, atravessada por histórias familiares, sociais e afetivas, mas também dotada de desejo próprio, potência criativa e capacidade de recomeço. Por isso, mapear o caos interno, identificar papéis repetidos, renomear defeitos e reconhecer o caminho podem gerar grandes passos, mesmo que sejam repletos de desafios.

No +Elas, discutimos recentemente sobre a importância de olhar para os nossos pais e, sobretudo, para as nossas mães – enquanto essa figura materna majoritariamente sobrecarregada físico e emocionalmente – como crianças atravessadas por suas próprias faltas, sem desmentir a dor vivida, mas entendendo que muitos dos mecanismos deles nasceram da necessidade de sobreviver. 

“O mundo vira sobrevivência quando ele não é abrigo.” (+Elas).

Por isso, temos um convite para te fazer: E se você pudesse identificar os papéis que você repete nas diferentes áreas da sua vida? Qual o lugar que você ocupa diante as pressões e emoções das suas escolhas? Você se veria enquanto protagonista ou coadjuvante? Te convidamos a pensar junto sobre essas questões e mais tantas outras no +Elas, e claro a assistir o filme.

Boa sessão!

Filme “A Garota Canhota” (2025)

Direção: Tsou Shih-Ching

Gênero: Drama

Duração: 1h48min

Onde assistir: Netflix

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.