bell hooks foi uma das principais intelectuais do feminismo negro, cuja obra articula crítica social, educação, cultura e amor como práticas políticas.
Neste artigo, abordamos os eixos centrais de seu pensamento, suas influências e a atualidade de suas ideias para compreender as desigualdades contemporâneas.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
Se eu puder dar um conselho no início deste texto, eu diria: leia bell hooks. Pode soar um pouco clichê, mas sua escrita tem a rara capacidade de reorganizar aquilo que pensamos sobre nós mesmos, sobre o outro e sobre o mundo.
Ler bell hooks é entrar em contato com uma escrita que recusa a separação entre vida e pensamento. Sua obra se constrói nesse espaço onde teoria e experiência se explicam mutuamente, sendo capaz de produzir uma crítica social que anda de mãos dadas com a busca por práticas humanas mais justas e conscientes.
É difícil classificá-la apenas como teórica, feminista, crítica cultural ou educadora, pois hooks foi tudo isso, mas sobretudo foi uma intelectual comprometida com a transformação das condições concretas da existência, especialmente da população negra.
Nascida em 1952, no Kentucky segregado, sob o nome Gloria Jean Watkins, ela cresceu observando o impacto cotidiano do racismo estrutural e do patriarcado em uma comunidade marcada pela desigualdade.
Essas forças não apareciam apenas como estruturas distantes, mas como reguladoras da vida íntima, das expectativas familiares, do futuro possível. hooks aprendeu cedo que as relações de poder atravessam não apenas as instituições, mas também os afetos e o modo como as pessoas se percebem.
Ao adotar o pseudônimo bell hooks em homenagem à bisavó – conhecida por falar com precisão – e escrevê-lo em letras minúsculas, ela fez um gesto deliberado de deslocamento. A ideia não era desaparecer, mas relativizar a centralidade do “eu”, enfatizando a coletividade da produção intelectual.
Suas palavras apontam para algo maior que a figura da autora; elas buscam o encontro. E é sobre isso que trataremos nesse texto: as influências que moldaram bell hooks, os eixos centrais de seu pensamento, a forma como sua obra articula feminismo negro, educação crítica, antirracismo e amor como prática de liberdade – e por que tudo isso permanece urgente para compreender o presente.
bell hooks faleceu aos 69 anos, em 2021, em sua casa em Berea (Kentucky), devido à insuficiência renal. Autora de mais de 30 livros, bell hooks ajudou a transformar a forma como compreendemos feminismo, educação e amor, articulando pensamento crítico e prática política.

Feminismo negro: a crítica que reorganiza o campo
Muito antes de o termo “interseccionalidade” ganhar espaço na academia, bell hooks já analisava como raça, gênero e classe operam conjuntamente na produção das desigualdades.
No livro E eu não sou uma mulher? (2019), ela revisita a história da escravização e evidencia como mulheres negras foram posicionadas simultaneamente como força de trabalho, objetos sexuais e sujeitos sem direito à feminilidade.
hooks expõe uma ferida histórica: o apagamento das mulheridades negras, suas experiências, seus desejos e seus modos próprios de existir. E, ao fazer isso, reposiciona o feminismo em outro lugar, um lugar que não pode mais tomar a mulher branca de classe média como sujeito universal da luta.

Essa crítica não surge para fragmentar o movimento, mas para torná-lo mais honesto. Ao lado de pensadoras como Angela Davis, Audre Lorde, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, hooks recupera vidas, experiências e epistemologias que o discurso universalizante da categoria “mulher” muitas vezes obscureceu.
hooks, portanto, reorganiza o campo feminista não apenas ao incluir mulheres negras, mas ao mudar a lógica do próprio feminismo:
- desloca o centro de quem fala;amplia o que conta como experiência política;
- desafia a idealização da mulher branca como referência universal
- e convoca práticas éticas que rompam com a condescendência, inclusive dentro do próprio movimento.
Seu feminismo abraça contradições, reconhece vulnerabilidades e insiste que lutar por transformações estruturais passa por transformar os modos de se relacionar, de desejar e de imaginar o futuro.
Indicação da redatora:
Ouça “Ain't I a Woman?” de Luedji Luna
A música é inspirada no livro de bell hooks e ressoa uma das perguntas centrais da autora: quem tem sua humanidade reconhecida e quem continua sendo vista apenas através das lentes do racismo e do patriarcado?
Luedji recria esse questionamento em forma de canto, trazendo para o presente a força histórica da crítica de hooks e ampliando sua discussão para o contexto brasileiro, onde gênero, raça e classe continuam profundamente entrelaçados.
Teoria como prática de autorecuperação
Uma das ideias mais potentes de bell hooks é que pensar pode ser um ato de cuidado consigo e com os outros. Ela afirma que chegou à teoria para sobreviver, para compreender a dor e localizar suas causas.
Isso não significa reduzir a teoria à autobiografia, mas reconhecer que conceitos só têm força quando iluminam a experiência coletiva.
hooks não intelectualiza para distanciar-se da realidade, mas para torná-la mais legível.
De acordo com Mariléia de Almeida no curso As Pensadoras – bell hooks, seu pensamento opera em três camadas que se sobrepõem:
- crítica estrutural (o que produz a desigualdade)
- análise cultural (como narrativas e imagens reforçam esse sistema)
- reflexão afetiva e ética (como essa estrutura afeta subjetividades e vínculos)
Ao combinar esses três níveis, hooks mostra que as desigualdades não se sustentam apenas em leis ou instituições, mas também em histórias que contamos, em imagens que naturalizam posições sociais, em afetos que aprendemos a sentir e a reprimir.
Suas reflexões revelam como o racismo e o patriarcado se infiltram nas formas de amar, educar, desejar, trabalhar e pertencer, e é justamente por isso que seu pensamento é tão transformador: ele nos obriga a perceber que a luta política não se limita ao campo das reivindicações externas, pois passa também por aquilo que cultivamos em nossas relações e em nossa vida interior.
Esse tripé ajuda a entender por que a escrita de bell hooks permanece tão atual e tão mobilizadora. Ela não separa o mundo das ideias do mundo vivido, ao contrário, cria uma análise capaz de transitar entre as estruturas que organizam a vida social e as experiências íntimas que moldam nossa percepção de nós mesmos.
Obras de hooks que você precisa conhecer:
Abaixo, confira algumas das obras de bell hooks que valem muito a pena conferir:
- E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo (2019)
Um estudo decisivo sobre como racismo e sexismo se entrelaçam na vida de mulheres negras. hooks desmonta mitos históricos e mostra como essas opressões moldam até hoje as estruturas sociais. - Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade (2013)
Ela propõe uma educação que liberta, que acolhe corpo, voz e experiência como parte do processo de aprender. É um convite para transformar a sala de aula em espaço crítico e vivo de resistência. - Tudo sobre o amor: novas perspectivas (2003)
Aqui, hooks redefine o amor como prática ética, não como sentimento romântico idealizado. O livro explica por que aprendemos tão pouco sobre amar e como essa ausência sustenta desigualdades. - A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor (2019)
Uma leitura potente sobre como o patriarcado fere homens e limita suas capacidades afetivas. hooks aponta caminhos para uma masculinidade que não dependa de dominação para existir.
Educação antirracista: o conhecimento como possibilidade de transformação e a interlocução com Paulo Freire
A relação de bell hooks com Paulo Freire está longe de ser apenas teórica, pois há algo existencial nessa conexão. Ela relata que, ao ler Pedagogia do Oprimido, teve a sensação de estar diante de alguém que descrevia sua própria experiência.
A pedagogia freireana ofereceu a ela um vocabulário para pensar a educação como processo que envolve corpo, história, dor e desejo.
Em Ensinando a Transgredir (2013), hooks critica o ensino tradicional que enxerga estudantes como recipientes vazios e professores como transmissores neutros. Para ela, ensinar é sempre um ato político, porque interfere na maneira como as pessoas compreendem o mundo e a si mesmas. A autora defende que não existe neutralidade em uma sala de aula atravessada por desigualdades raciais e de gênero.
Sua proposta pedagógica reivindica uma educação que acolha vulnerabilidades e que reconheça o impacto do racismo na autoestima de estudantes negros.
A sala de aula, nessa visão compartilhada com Freire, não é um local de adestramento, mas um terreno de autorreconhecimento e de reconstrução coletiva; um lugar onde a aprendizagem se faz com o outro, nunca isoladamente.
Se o sistema tenta fragmentar, a educação proposta por hooks busca recompor. Seu objetivo é formar sujeitos capazes de se relacionar consigo e com a comunidade de modo mais consciente, e não uma excelência individual. Isso implica ensinar a ler estruturas de poder, mas também a cultivar afetos e vínculos que não reproduzam violência.
Nesse caminho, uma educação antirracista, para hooks, é aquela que devolve humanidade a quem foi historicamente desumanizado, e que convida todos a participar da construção de relações mais éticas.
Amor como prática de liberdade: uma escolha ética
Para hooks, falar de educação é também falar de amor. No curso O Que É o Amor?, Luis Mauro Sá Martino retoma essa perspectiva ao mostrar como hooks desmonta a ideia de que falar de amor é “coisa de mulher”.
Desde cedo, meninos são ensinados a conter emoções, evitar vulnerabilidades e acreditar que expressar afeto é sinal de fraqueza. Esse é um aprendizado que, como lembra hooks, sustenta o patriarcado.
Quando homens não conseguem nomear sentimentos, ficam menos aptos a construir vínculos de confiança e mais suscetíveis a agir pela dureza e pela defensividade. Na obra Tudo Sobre o Amor (2003), a autora afirma que isso é um condicionamento social que impede os homens de viverem o amor como ética de vida.
Ao relacionar amor e política, hooks afirma que não existe amor onde há hierarquia ou controle. Amar exige responsabilidade, cuidado e honestidade, e não autoridade. Por isso, transformar relações afetivas também é transformar estruturas sociais.
Ensinar meninos a expressar sentimentos, envolver pais no cuidado e romper com a divisão rígida entre quem cuida e quem provê são gestos fundamentais para desarmar a lógica da violência.
O futuro do amor, como lembra Sá Martino, é político e ético, e não partidário. É imaginar vínculos em que ninguém precise dominar para existir.
A leitura de hooks dialoga com a tradição filosófica, mas também com práticas negras de comunidade e preservação afetiva. hooks percebe que grande parte da violência contemporânea nasce da incapacidade de assumir responsabilidades emocionais. O amor, nesse sentido, não é um “sentir”, mas um fazer.
“Se nos lembrássemos constantemente de que o amor é o que o amor faz, não usaríamos a palavra de um jeito que desvaloriza e degrada o seu significado. Quando amamos, expressamos cuidado, afeição, responsabilidade, respeito, compromisso e confiança.” (hooks, 2003, p. 31).

Crítica cultural: descolonizar o olhar e expandir a imaginação
A obra de bell hooks dedicada à crítica cultural é fundamental para compreender como imagens, narrativas e discursos moldam a subjetividade. Em livros como Olhares Negros (2019), ela analisa representações da negritude no cinema, na publicidade e na cultura pop.
hooks mostra como certas imagens reforçam posições de subordinação, erotização ou caricatura, criando expectativas sociais sobre o que pessoas negras podem ser.
Seu trabalho propõe uma descolonização do olhar: aprender a identificar as estruturas simbólicas que naturalizam desigualdade. Mas não se trata apenas de crítica; hooks também reivindica novas imagens, capazes de oferecer subjetividades negras complexas, múltiplas e não reduzidas a estereótipos.
Essa defesa de uma imaginação comunitária aparece nas aulas Casa do Saber, como parte essencial da luta antirracista: disputar narrativas é disputar futuro.
Se interesseou pelo tema?
Vale a pena conferir os cursos "As pensadoras: bell hooks" e "As pensadoras: Angela Davis"
O país que naturaliza desigualdades raciais em suas estruturas mais básicas precisa do tipo de crítica que hooks formula: uma crítica que não perde de vista o humano.
A centralidade que ela dá à educação, à cultura e ao amor como práticas políticas ressoa com desafios brasileiros contemporâneos: formação de professores, combate à violência racial, saúde mental, representatividade na mídia, políticas de cuidado e construção de redes comunitárias.
hooks nos oferece um vocabulário para pensar tudo isso de maneira integrada, sem dissociar subjetividade de estrutura, nem ética de política.
Por que ler bell hooks hoje?
Ler bell hooks hoje é importante porque ela nos dá linguagem para enxergar o que muitas vezes sentimos, mas não sabemos nomear. Ela fala de poder, desigualdade, desejo, afeto, violência, autonomia, comunidade, tudo aquilo que estrutura a vida social, sem separar teoria de experiência.
Em um mundo que ainda normaliza relações desiguais, suas obras nos oferecem um jeito mais honesto de pensar como essas desigualdades se produzem, mas também como podem ser desfeitas.
Para hooks, pensar é construir ferramentas de liberdade. Quando ela discute educação, ela está falando sobre formas de criar consciência e ampliar a capacidade de imaginar futuros. Quando fala de amor, ela fala sobre ética, escolha, prática política.
E quando aborda violência, mídia, masculinidades, arte, cuidado, espiritualidade, trabalho doméstico, maternidade, amizade, ela mostra como cada uma dessas esferas pode reproduzir opressões ou abrir espaço para relações mais dignas.
Num tempo em que discursos rápidos tentam simplificar tudo, ler hooks é reaprender a complexidade sem perder o compromisso com a transformação.
Perguntas frequentes sobre bell hooks
Quem foi bell hooks?
bell hooks foi uma intelectual do feminismo negro cuja obra articula crítica social, educação, cultura e amor como práticas políticas, com foco na transformação das condições concretas da existência, especialmente da população negra.
Qual é a relação entre bell hooks e Paulo Freire?
bell hooks encontrou na obra de Paulo Freire, especialmente em Pedagogia do Oprimido, um vocabulário para pensar a educação como processo que envolve corpo, história, dor e desejo, entendendo o ensino como um ato político.
O que significa educação antirracista para bell hooks?
Para bell hooks, a educação antirracista é aquela que devolve humanidade a quem foi historicamente desumanizado, reconhecendo vulnerabilidades e formando sujeitos capazes de se relacionar de modo mais consciente consigo e com a comunidade.
Como bell hooks define o amor em sua obra?
bell hooks define o amor como uma prática ética e política, que envolve cuidado, responsabilidade, respeito, compromisso e confiança, afirmando que não existe amor onde há hierarquia ou controle.
Por que ler bell hooks hoje?
Ler bell hooks hoje é importante porque sua obra oferece linguagem para compreender desigualdades contemporâneas e pensar educação, amor e cultura como ferramentas éticas e políticas de transformação social.
Referências:
hooks, bell. E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo. Tradução de Cecília MacDowell Santos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.
hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade / bell hooks; tradução de Marcelo Brandão Cipolla. Editora WMF Martins Fontes, 2013.
hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Editora Elefante. 2021. JOTA QUEST. Amor Maior. Belo Horizonte: Sony. 2003.
hooks, bell. Olhares negros: raça e representação / bell hooks; tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019.
hooks, bell. A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. São Paulo: Elefante, 2019.
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https://curadoria.casadosaber.com.br/cursos/646/feminismos-negros
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