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Feminismos Negros: o que são, história e pensadoras

Feminismos Negros: o que são, história e pensadoras

Falar em feminismos negros, no plural, é um gesto político e conceitual que reconhece a diversidade de experiências, territórios e formas de elaboração teórica e prática das mulheres negras. Ao articular raça, gênero e classe de maneira inseparável, esses feminismos constituem epistemologias plurais e um dos campos mais transformadores do pensamento social contemporâneo.

Neste artigo, você vai entender o que são os feminismos negros, como se estruturam historicamente, quem são algumas de suas principais pensadoras e quais são suas contribuições para a produção de conhecimento e para a transformação social.



Falar em feminismos negros, no plural, é um gesto político e conceitual indispensável. Ele reconhece que não existe uma única experiência de ser mulher e ser mulher negra, tampouco uma única forma de elaborar pensamento, ação ou teoria a partir dessas vivências.

No Brasil, os feminismos negros emergem de múltiplas histórias, territórios, ancestralidades e contextos sociais, atravessados por diferentes combinações de raça, gênero, classe, geração, sexualidade e pertencimento comunitário.

Os feminismos negros constituem hoje um dos campos mais potentes e transformadores do pensamento social contemporâneo. Eles nascem da experiência histórica das mulheres negras, que sempre estiveram no centro da vida social, econômica e cultural do país, mas que foram sistematicamente afastadas do reconhecimento político e intelectual.

Como destaca Mariléa de Almeida em seus cursos e reflexões na Casa do Saber, trata-se de pensamentos que não surgem da abstração teórica, mas da vida concreta, do cotidiano, da memória, da ancestralidade e das estratégias coletivas de sobrevivência e cuidado.

Os feminismos negros constituem epistemologias plurais: formas diversas de produzir conhecimento, interpretar o mundo e imaginar futuros possíveis, que não se limitam a um desdobramento do feminismo hegemônico ou recorte do movimento negro.

Ao articular raça, gênero e classe de maneira inseparável, esses feminismos foram capazes de transformar profundamente todas essas frentes, introduzindo perspectivas interseccionais, comunitárias e radicalmente comprometidas com a justiça social.

Neste texto, te convidamos a ampliar a sua perspectiva sobre feminismos a partir de um olhar que precisa ser interseccional para alcançar seus objetivos.

O que são os feminismos negros?

Os feminismos negros emergem quando mulheres negras passam a lutar por seus direitos e a nomear experiências comuns de exclusão e silenciamento.

Por um lado, suas demandas não eram plenamente acolhidas pelo feminismo hegemônico, historicamente marcado pelas vivências de mulheres brancas de classe média. Por outro, suas experiências também eram frequentemente invisibilizadas no interior do movimento negro, muitas vezes centrado nas trajetórias masculinas.

É por isso que a escolha pelo plural, feminismos negros, reconhece que essas respostas não foram homogêneas. Elas variam conforme o território, o contexto histórico, as tradições culturais, as espiritualidades, as formas de organização política e os desafios cotidianos enfrentados por cada grupo de mulheres negras.

No centro dos feminismos negros está a compreensão de que raça, gênero e classe não operam de forma isolada, mas se articulam continuamente na produção das desigualdades.

Essa percepção, que mais tarde seria sistematizada como interseccionalidade, já fazia parte das práticas políticas e das análises cotidianas das mulheres negras muito antes de ganhar reconhecimento acadêmico.

O conceito de interseccionalidade foi sistematizado por Kimberlé Crenshaw a partir do campo jurídico, em 1989:

A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. (CRENSHAW, 2002, p.177)

É nesse caminho que os feminismos negros propõem projetos de transformação estrutural, baseados em valores como coletividade, solidariedade, ancestralidade, cuidado e bem viver, e não apenas em denunciar opressões.

Mulheres negras no Brasil: histórias plurais de trabalho, cuidado e resistência

Para compreender os feminismos negros no Brasil, é necessário olhar para a história das mulheres negras desde o período colonial, reconhecendo tanto as violências impostas quanto as estratégias de resistência e reinvenção da vida.

Durante a escravização, as mulheres negras foram submetidas à exploração extrema do trabalho, à violência sexual e à negação sistemática de sua humanidade. Após a abolição, a ausência de políticas de inclusão manteve a população negra em condições profundas de desigualdade social.

Historicamente, as mulheres negras sempre trabalharam nas lavouras, no trabalho doméstico, nas ruas, no comércio informal, nos serviços de cuidado. Além disso, foram responsáveis pela sustentação material e afetiva de famílias e comunidades inteiras.

Essa centralidade histórica, no entanto, raramente se traduziu em reconhecimento social, econômico ou político.

Como enfatiza Mariléa de Almeida, é justamente dessa experiência histórica marcada pela exclusão, mas também pela construção de redes comunitárias, saberes práticos e formas coletivas de cuidado, que emergem os feminismos negros.

O tornar-se negro diz respeito, de uma certa forma, da tomada de consciência, ao mesmo tempo, do percurso dos processos de opressão, mas também da potência e das suas experiências como negra. E é justamente nesse processo de falar por si, falar das suas histórias, narrar as suas histórias, que as mulheres negras vão se constituindo como um movimento independente, ao mesmo tempo, com relações no movimento feminista e com o movimento negro, mas também se tornando, a partir da década de 70, um movimento independente.” (Mariléa de Almeida, Feminismos Negros).

O movimento de mulheres negras e a construção dos feminismos negros

A partir da segunda metade do século XX, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, o movimento de mulheres negras passa a se organizar de forma mais articulada no Brasil.

Em diálogo crítico tanto com o movimento negro quanto com o feminismo, as mulheres negras criam espaços próprios de formação política, reflexão intelectual e ação coletiva.

Esses movimentos denunciavam simultaneamente:

  • O racismo presente nas pautas feministas tradicionais
  • O machismo presente no interior do movimento negro
  • A precarização histórica da vida das mulheres negras
  • A ausência de políticas públicas voltadas às especificidades raciais e de gênero

Ao mesmo tempo, os feminismos negros brasileiros sempre estiveram voltados à construção de propostas concretas nas áreas de saúde, educação, trabalho, cultura e direitos humanos.

Trata-se de pensamentos e práticas profundamente conectados à formulação de políticas públicas e à transformação institucional, sobretudo a partir da experiência que atravessa diariamente as suas existências.

No curso As Pensadoras: Angela Davis, a psicanalista Jaqueline Conceição, ao abordar a perspectiva teórica de Ângela Davis, chama atenção para a centralidade da experiência como elemento fundamental na construção das narrativas e na análise da realidade social.

A partir de Davis, Jaqueline destaca que não existe uma experiência universal: embora as pessoas compartilhem uma mesma cultura, raça, gênero, classe, território e corpo produzem formas radicalmente distintas de viver, interpretar e responder ao mundo.

Nesse sentido, ela enfatiza a necessidade de reconhecer não apenas a experiência racial negra, mas também a experiência racial branca, historicamente naturalizada como neutra, universal e legítima, enquanto as demais são silenciadas ou desqualificadas.

Pensadoras fundamentais dos feminismos negros no Brasil

Os feminismos negros no Brasil são indissociáveis da contribuição intelectual de mulheres que ampliaram radicalmente os limites do pensamento social brasileiro.

Para isso, é muito importante que você conheça e explore as obras de:

Lélia Gonzalez

Lélia Gonzalez foi uma das intelectuais mais originais do país. Ao articular raça, gênero e cultura, rompeu com o eurocentrismo das ciências sociais e propôs o conceito de amefricanidade, deslocando o olhar para as matrizes africanas e indígenas na formação cultural das Américas.

Sua obra demonstra como o racismo se manifesta na linguagem, no humor, no imaginário social e nas representações da mulher negra, nas figuras como a “mulata”, a “doméstica” e a “mãe preta”. Lélia é central para compreender os feminismos negros como crítica cultural e política.

Capa do livro Por um feminismo afro-latino-americano, de Lélia Gonzalez
“Quando se trata de competir no preenchimento de posições que implicam recompensas materiais ou simbólicas, mesmo que os negros possuam a mesma capacitação, os resultados são sempre favoráveis aos competidores brancos. E isso ocorre em todos os níveis dos diferentes segmentos sociais. O que existe no Brasil, efetivamente, é uma divisão racial do trabalho” (Gonzales, 2020, p. 42).

Sueli Carneiro

Sueli Carneiro é uma das principais referências do pensamento antirracista contemporâneo. Sua reflexão sobre racismo estrutural, branquitude e desigualdade racial influenciou o debate público e a formulação de políticas públicas no Brasil.

Ao fundar o Geledés – Instituto da Mulher Negra, Sueli consolidou uma prática que articula teoria, ativismo e incidência institucional, evidenciando como os feminismos negros operam simultaneamente no campo intelectual e no campo político.

Capa do livro Dispositivo de Racialidade, de Sueli Carneiro, publicado pela Zahar
Assim, sob a égide do biopoder no polo subordinado da racialidade, as desvantagens se manifestam desde a infância, em que se acumulam fatores genéticos com condições desfavoráveis de vida para inscrever a negritude sob o signo da morte. Como contraponto, a branquitude se configura como signo que se consubstancia na maior expectativa de vida, nos menores índices de mortalidade e morbidade como consequência de seu acesso privilegiado aos bens socialmente construídos (Carneiro, 2023, p. 62).

Beatriz Nascimento

Beatriz Nascimento elaborou uma leitura inovadora sobre os quilombos, compreendendo-os como territórios vivos de memória, pertencimento e organização social.

Para ela, o quilombo não é apenas passado, mas uma forma contínua de existência e resistência.

Sua reflexão conecta feminismos negros, ancestralidade, diáspora africana e autonomia, ampliando o entendimento sobre identidade negra no Brasil.

Capa do livro O negro visto por ele mesmo, de Beatriz Nascimento
"O quilombo é um avanço, é produzir ou reproduzir um momento de paz. Quilombo é um guerreiro quando precisa ser um guerreiro. E também é o recuo se a luta não é necessária. É uma sapiência, uma sabedoria. A continuidade de vida, o ato de criar um momento feliz mesmo quando o inimigo é poderoso, e mesmo quando ele quer matar você. A resistência. Uma possibilidade nos dias da destruição" (Nascimento, 2022, p. 130).

Interseccionalidade como prática viva

Os feminismos negros têm como uma de suas principais preocupações a disputa pela representação social das mulheres negras. Esse debate busca questionar estereótipos históricos de raça e gênero, ao mesmo tempo em que propõe a construção de imagens positivas sobre seus corpos, trajetórias e experiências.

Ressignificar essas representações é central para o fortalecimento político e simbólico dos feminismos negros.

No Brasil, essas imagens estereotipadas foram historicamente consolidadas por narrativas como a difundida por Gilberto Freyre, que atribuiu às mulheres negras papéis associados ao trabalho doméstico, à servidão e à hipersexualização.

A figura da “mãe preta” e da empregada doméstica, assim como a representação da mulher negra como objeto sexual, da “mulata” de ontem à “globeleza” e às propagandas atuais, revelam a permanência dessas construções racistas e sexistas.

Diante disso, os feminismos negros enfrentam o que Patricia Hill Collins denomina “imagens de controle”, criando contra-narrativas que valorizam a estética, a escrita e a produção intelectual de mulheres negras.

A internet e o ciberativismo têm sido ferramentas fundamentais nesse processo, ampliando vozes, difundindo conceitos como interseccionalidade e lugar de fala e fortalecendo debates cotidianos sobre a condição da mulher negra.

Feminismos negros como epistemologias plurais

Um outro aspecto transformador dos feminismos negros é sua contribuição para a produção de conhecimento. Eles questionam quem pode produzir saber, quais experiências são consideradas legítimas e quais vozes são sistematicamente silenciadas.

As epistemologias negras valorizam:

  • A oralidade como forma legítima de transmissão de saberes
  • A experiência vivida como fonte de conhecimento
  • A memória ancestral como tecnologia política
  • O corpo como lugar de inscrição da história

Essa perspectiva rompe com a ideia de neutralidade científica e afirma que todo conhecimento é situado. No contexto brasileiro, os feminismos negros reposicionam as mulheres negras como produtoras de teoria, e não apenas como objetos de estudo.

Expressões contemporâneas dos feminismos negros

Hoje, os feminismos negros se expressam de múltiplas formas: no ativismo digital, na produção cultural, na educação, na literatura, no cinema, na música e na disputa por políticas públicas. Essas expressões ampliam o debate sobre representatividade, identidade negra, saúde mental, maternidade, trabalho e direito à cidade.

Os feminismos negros contemporâneos dialogam com conceitos como bem viver, mulherismo africano, justiça racial e justiça social, conectando o pensamento brasileiro a reflexões africanas e diaspóricas.

Contribuições dos feminismos negros

Dimensão Contribuições
Feminismo Inclusão da raça e da pluralidade como categorias centrais
Movimento negro Centralidade do gênero, do cuidado e da vida cotidiana
Políticas públicas Formulação de ações interseccionais e específicas
Produção de conhecimento Epistemologias plurais, situadas e coletivas


Leituras e referências para aprofundar

Para ampliar o repertório sobre os feminismos negros:

  • Lélia Gonzalez – Por um feminismo afro-latino-americano
  • Sueli Carneiro – Escritos de uma vida
  • Beatriz Nascimento – Quilombos: mudança social ou conservadorismo?
  • Angela Davis – Mulheres, raça e classe
  • Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí – Reflexões sobre gênero, colonialidade e epistemologia africana

Por que os feminismos negros importam hoje?

Em um país marcado por profundas desigualdades raciais, de gênero e de classe, os feminismos negros oferecem ferramentas indispensáveis para compreender o presente e imaginar futuros mais justos.

Eles nos convidam a deslocar o olhar, a questionar narrativas universais que ignoram diferenças estruturais e a reconhecer saberes historicamente marginalizados como centrais para a vida social.

Ao partir das experiências concretas das mulheres negras, os feminismos negros ampliam o próprio sentido de democracia, justiça e cidadania, mostrando que não há transformação social possível sem enfrentar o racismo e o sexismo de forma articulada.

Longe de se limitar a um campo teórico, os feminismos negros se afirmam como práticas cotidianas de cuidado, organização coletiva e produção de alternativas. Eles propõem outras formas de viver, de se relacionar e de construir políticas públicas, baseadas na interdependência, na memória ancestral e na responsabilidade comunitária.

Trata-se de um pensamento que não separa reflexão e vida, teoria e prática, mas entende o conhecimento como algo que nasce do chão da experiência e retorna a ele como possibilidade de reinvenção.

Nesse sentido, os feminismos negros não apenas explicam o mundo, eles nos ajudam a transformá-lo!

Perguntas frequentes sobre feminismos negros

O que são os feminismos negros?

Os feminismos negros emergem quando mulheres negras passam a lutar por seus direitos e a nomear experiências comuns de exclusão e silenciamento. No centro dos feminismos negros está a compreensão de que raça, gênero e classe não operam de forma isolada, mas se articulam continuamente na produção das desigualdades, perspectiva que dialoga com o conceito de interseccionalidade.


Por que se fala em feminismos negros no plural?

Falar em feminismos negros, no plural, é um gesto político e conceitual indispensável, pois reconhece que não existe uma única experiência de ser mulher negra, nem uma única forma de elaborar pensamento e ação política. Essas perspectivas variam conforme território, contexto histórico, ancestralidade e formas de organização coletiva, constituindo epistemologias plurais.


Quais são as principais contribuições dos feminismos negros?

Os feminismos negros transformaram o debate público ao articular raça, gênero e classe de maneira inseparável, influenciando o feminismo, o movimento negro e a formulação de políticas públicas. Também reposicionaram mulheres negras como produtoras de conhecimento, valorizando a experiência vivida, a oralidade, a memória ancestral e o questionamento da neutralidade científica como parte de epistemologias situadas.







Referências:

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

CARNEIRO, Sueli. (2023), Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro, Zahar.

NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. Organização: Alex Ratts. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Estudos Feministas. Ano 10 vol. 1, 2002. Disponível em Acesso em: 22 dez. 2025.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.