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O que é feminismo? História, ondas e feminismo interseccional

O que é feminismo? História, ondas e feminismo interseccional

O feminismo é um movimento social, político e cultural que busca compreender e enfrentar as desigualdades de gênero presentes na organização das sociedades.

Neste texto, iremos percorrer a história do feminismo, compreender como se formaram suas principais ondas feministas, refletir sobre as conquistas do movimento feminista e os desafios que persistem, além de analisar como o feminismo contemporâneo se tornou mais plural, interseccional e atento às complexidades do mundo atual.



O que é o feminismo?

Em seu sentido mais amplo, o feminismo propõe uma crítica às estruturas sociais que produzem e naturalizam essas desigualdades, especialmente ao patriarcado, entendido como um sistema histórico de poder que privilegia o masculino e associa às mulheres papéis restritos, subalternos ou invisibilizados.

Ao longo do tempo, o feminismo se desdobrou em diferentes correntes, agendas e formas de ação. Apesar dessa diversidade, há um eixo comum que atravessa suas múltiplas expressões: a defesa da dignidade, da liberdade e da cidadania plena das mulheres.

Embora o termo feminismo seja frequentemente utilizado no singular, é fundamental reconhecer que nunca existiu um feminismo único.

O feminismo é, na verdade, um conjunto diverso de movimentos, ideias e práticas que surgiram em momentos históricos distintos e responderam a realidades sociais profundamente marcadas por diferenças de raça, classe, território e acesso a direitos.

As experiências das mulheres nunca foram homogêneas e, por isso, o feminismo sempre se constituiu no plural: como feminismos.

A história do feminismo e o surgimento das ondas feministas

A história do feminismo não começa de forma linear nem homogênea.

Mulheres questionaram sua condição social muito antes da consolidação do feminismo enquanto movimento organizado, mas é a partir do século XVIII, com o Iluminismo e as revoluções burguesas, que essas críticas ganham maior visibilidade política.

A primeira onda do feminismo, entre o final do século XIX e o início do século XX, esteve profundamente ligada à luta pelo sufrágio feminino. O direito ao voto simbolizava algo maior: o reconhecimento das mulheres como sujeitos políticos e cidadãs plenas.

Reunião histórica do movimento sufragista feminino com ativistas reunidas em assembleia no início do século XX
Reunião das sufragistas com a presença da líder do movimento, Emmeline Pankhurst.
Fonte: Mundo Educação

Além do voto, esse período também reivindicou o acesso à educação, à propriedade e à participação na vida pública. Ainda que essas pautas tenham beneficiado majoritariamente mulheres brancas e de classes mais altas, elas abriram fissuras importantes em um sistema que excluía formalmente as mulheres do espaço político.

No século XX, especialmente a partir da década de 1960, emerge a segunda onda do feminismo, que amplia significativamente o campo de debate.

Se antes a questão central era o acesso a direitos legais, agora o foco se desloca para a vida cotidiana, o corpo e as relações privadas. Autonomia reprodutiva, sexualidade, maternidade, trabalho doméstico e violência de gênero passam a ser entendidos como problemas políticos, e não apenas individuais.

É nesse contexto que Simone de Beauvoir publica O Segundo Sexo, obra fundamental para o pensamento feminista. Ao afirmar que “não se nasce mulher: torna-se”, Beauvoir desmonta a ideia de que a desigualdade de gênero é natural ou biológica, mostrando como ela é construída socialmente.

Essa perspectiva inaugura uma reflexão profunda sobre gênero, identidade e opressão, que influenciaria gerações posteriores.

A partir dos anos 1990, o feminismo entra em uma nova fase, frequentemente chamada de terceira onda, marcada pela crítica à noção de uma experiência feminina universal. Mulheres negras, indígenas, periféricas, lésbicas e trans passaram a questionar a centralidade de um feminismo que não contemplava suas realidades.

Surge, assim, com mais força, o feminismo interseccional – ou como prefiro chamar aqui, a visibilidade de uma luta interseccional dos feminismos –, que reconhece que as opressões se articulam e se intensificam mutuamente.


Conquistas do movimento feminista e os desafios que persistem

As conquistas do movimento feminista transformaram profundamente as sociedades contemporâneas.

Direitos políticos, ampliação do acesso à educação, mudanças nas legislações trabalhistas, reconhecimento da violência doméstica como crime e avanços na saúde reprodutiva são resultados diretos de décadas de mobilização e reflexão feminista.

Um estudo feito pela ONU Mulheres indicou que meninas e mulheres têm hoje maior acesso à educação formal do que em qualquer outro momento da história.

Segundo a Forbes, com dados do IBGE, no Brasil, as mulheres apresentam, em média, maior escolaridade do que os homens, no entanto, recebem 20% a menos do que eles.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, o ritmo atual de redução das desigualdades indica que a paridade de gênero global ainda levará mais de 130 anos para ser alcançada.

As mulheres continuam ganhando menos, ocupando menos cargos de poder e sendo mais responsabilizadas pelo trabalho doméstico e pelo cuidado de crianças, idosos e pessoas doentes.

Esses dados reforçam uma premissa central do feminismo: é necessário transformar estruturas culturais, econômicas e simbólicas que foram profundamente enraizadas.

Mitos sobre o Feminismo:

  • Não é superioridade feminina nem inversão de poder.
  • Não é ódio aos homens.
  • Não é um movimento único ou homogêneo.
  • Não se limita a escolhas individuais sem contexto.
  • Não ignora outras desigualdades sociais.


O feminismo não busca substituir uma desigualdade por outra, mas questionar estruturas históricas de poder. Ele se volta contra sistemas de opressão, e não contra pessoas, com o objetivo de ampliar direitos e promover equidade.


O feminismo interseccional surge como uma das contribuições mais relevantes do pensamento feminista contemporâneo.

O conceito, sistematizado pela jurista Kimberlé Crenshaw, evidencia que gênero não pode ser analisado isoladamente. Raça, classe social, sexualidade e território moldam experiências distintas de opressão e privilégio.

Autoras como Angela Davis demonstram como o racismo, o capitalismo e o sexismo operam de forma articulada, especialmente em contextos como o sistema prisional e o mercado de trabalho.

Retrato de Kimberlé Crenshaw, jurista e intelectual conhecida por formular o conceito de interseccionalidade

Quando o feminismo não se opõe ao racismo de forma explícita, e quando o antirracismo não se incorpora à oposição ao patriarcado, as políticas de raça e gênero frequentemente acabam sendo antagônicas umas às outras e ambas perdem interesse” — Kimberlé Crenshaw.

bell hooks propõe um feminismo que seja, antes de tudo, uma prática ética de libertação coletiva, capaz de transformar relações afetivas, educacionais e sociais.

No Brasil, Lélia Gonzalez ocupa um lugar fundamental ao articular feminismo, cultura e pensamento afro-latino-americano.

Sua crítica ao racismo estrutural e à herança colonial revela como a história da escravidão e da marginalização racial atravessa a experiência das mulheres negras, exigindo um feminismo atento às especificidades locais e históricas.

Para saber mais, recomendamos a leitura das obras:

  • Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo (1949)
    Clássico incontornável do pensamento feminista, o livro analisa a construção social da condição feminina e inaugura uma abordagem existencialista sobre gênero.

  • bell hooks – O feminismo é para todo mundo (2018)
    bell hooks apresenta o feminismo como um projeto político e ético de transformação social. A autora destaca a importância de um feminismo inclusivo, que dialogue com raça, classe e afetos, sem perder de vista a libertação coletiva.

  • Angela Davis – Mulheres, raça e classe (1981)
    O livro analisa como racismo, capitalismo e patriarcado se articulam historicamente. Angela Davis demonstra por que não é possível pensar a luta das mulheres sem considerar desigualdades raciais e econômicas.

  • Lélia Gonzalez – Por um feminismo afro-latino-americano (2020)
    Lélia Gonzalez articula gênero, raça e cultura, evidenciando como o racismo estrutural molda a experiência das mulheres negras. Sua obra é fundamental para deslocar o eixo eurocêntrico do feminismo.

  • Silvia Federici – Calibã e a bruxa (2019)
    A autora propõe uma leitura histórica que conecta o surgimento do capitalismo à exploração do corpo feminino e ao controle da reprodução. É uma obra importante para quem deseja entender o vínculo entre economia, trabalho doméstico e desigualdade de gênero.

Feminismo contemporâneo, cultura e subjetividade

Questões como representatividade, identidade de gênero, trabalho emocional, maternidade, saúde mental e relações afetivas tornaram-se parte central do debate feminista atual.

Diversas pensadoras contribuíram para questionar concepções fixas de gênero, mostrando como normas sociais produzem identidades e exclusões. Nesse caminho, Butler (2018) discute sobre a relação entre identidade e normatividade, e afirma que é preciso “desfazer” a norma e “desfazer” o gênero.

Isso significa compreender que gênero não é uma essência natural ou uma verdade imutável, mas um conjunto de expectativas, repetições e performances socialmente reguladas.

No campo do feminismo contemporâneo, essa reflexão amplia o debate para além das mulheres cisgênero e conecta o feminismo a lutas mais amplas por dignidade, autonomia e pertencimento.

Ao mesmo tempo, o feminismo também propõe uma reflexão sobre subjetividade. Ele convida homens e mulheres a repensarem expectativas, papéis sociais e formas de se relacionar.

Conceitos como sororidade, cuidado, empoderamento e equidade deixam de ser apenas slogans e passam a operar como práticas políticas no cotidiano.

O legado do feminismo e seus caminhos futuros

O fato é que o legado do feminismo vai muito além das leis conquistadas ou das políticas públicas implementadas. Ele está presente na ampliação do que entendemos por cidadania, liberdade e justiça social.

O feminismo nos oferece uma lente crítica para compreender como o poder opera e como ele pode ser redistribuído de maneira mais equitativa.

Pensar o futuro do feminismo implica reconhecer sua pluralidade, seus conflitos internos e sua capacidade constante de reinvenção.

O feminismo segue sendo um campo fundamental de reflexão ética e política que não se limita a um movimento militante, mas que nos convida diariamente à escuta, ao questionamento e à transformação.

Enquanto houver desigualdade de gênero, racial ou social, o feminismo continuará sendo indispensável para pensar sociedades mais livres, humanas e justas.

Perguntas frequentes sobre o feminismo

O que é feminismo?

O feminismo é um movimento social, político e cultural que busca compreender e enfrentar as desigualdades de gênero presentes na organização das sociedades, especialmente aquelas produzidas e naturalizadas pelo patriarcado.


Existe apenas um tipo de feminismo?

Não. Nunca existiu um feminismo único. O feminismo sempre se constituiu no plural, como feminismos, pois as experiências das mulheres são atravessadas por diferenças de raça, classe, território e acesso a direitos.


O que foram as ondas feministas?

As ondas feministas correspondem a diferentes momentos históricos do feminismo. A primeira esteve ligada à luta pelo sufrágio feminino; a segunda ampliou o debate para o corpo, o cotidiano e as relações privadas; e a terceira questionou a ideia de uma experiência feminina universal.


O que é feminismo interseccional?

O feminismo interseccional evidencia que gênero não pode ser analisado isoladamente, pois raça, classe social, sexualidade e território moldam experiências distintas de opressão e privilégio, intensificando ou atenuando desigualdades.


O feminismo busca a superioridade feminina?

Não. O feminismo não busca substituir uma desigualdade por outra, nem se volta contra pessoas, mas questiona estruturas históricas de poder com o objetivo de ampliar direitos e promover equidade.


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Referências:

https://plan-international.org/publications/a-new-era-for-girls/

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2018.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.