Nós estamos aqui. E aí? Nós existimos e temos que lidar com isso. A busca pelo sentido da vida foi uma das principais questões do existencialismo, e Søren Kierkegaard rompe com esta visão ao dizer que não há um sentido prévio na existência.
Kierkegaard é conhecido como o pai do existencialismo e desenvolveu a teoria dos três estágios da existência. Sua filosofia aborda temas como angústia, liberdade de escolha e a busca de sentido na vida.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
Quem foi Kierkegaard?
Søren Kierkegaard (1813- 1855) nasceu em Copenhague, Dinamarca, em uma família profundamente religiosa, o que influenciou sua forma de pensar e viver.
A morte foi um tema recorrente em sua vida. Sendo o mais novo de sete irmãos, perdeu precocemente cinco, além da mãe e do pai, o que marcou sua experiência desde a infância.

Essas perdas contribuíram para uma angústia existencial desde novo e ele conta que, “desde pequeno, sentiu um mal-estar enorme pelo fato de existir”, como explica o professor Luís Mauro Sá Martino..
Criado em ambiente religioso rigoroso, iniciou os estudos em teologia na Universidade de Copenhague, em 1830, tendo se interessado também por filosofia e literatura.
Kierkegaard ficou noivo de Regine Olsen. Apesar do amor correspondido, por um motivo desconhecido, ele decide desmanchar o noivado e passa a dedicar a sua vida a Deus, o que influenciou diretamente a sua filosofia.

Søren Kierkegaard era cristão, da Igreja Luterana. No entanto, tinha uma postura crítica quanto à Igreja como instituição e ao cristianismo vivido sem um envolvimento emocional.
Ele defendia um cristianismo existencial, ou seja, baseado na relação individual do indivíduo com Deus. Sendo assim, a fé não se trata de compreender racionalmente Deus, mas de assumir e entender que o sentido para a existência adivinha do absoluto.
Após o término do noivado em 1841, ele passou a viver de forma reclusa, dedicando a sua vida à escrita e à espiritualidade até o seu falecimento, em 1855.
Kierkegaard teve forte influência na filosofia contemporânea porque trouxe o indivíduo novamente para o centro da reflexão ao criticar sistemas totalizantes.
Ao abordar temas como a subjetividade, a angústia e a escolha como problemas filosóficos, ele foi fundamental para o desenvolvimento do existencialismo, a fenomenologia e debates éticos nos dias atuais.
O que é o existencialismo de Kierkegaard?
O existencialismo é uma vertente filosófica que surgiu no século XX, com Sartre, que afirma que a essência precede a essência.
Para os existencialistas, a liberdade individual é um elemento fundamental, mas com ela vem a responsabilidade. Essas ideias começaram a germinar nas obras de Kierkegaard.
Apesar de que, como explica o professor Luis Mauro, no curso “Jornada da Filosofia: O que é o Amor?” da Casa do Saber, não é possível um filósofo do século XIX ser um existencialista. Entretanto é possível encontrar as ideias dos precursores deste pensamento.
Então, pode-se dizer que Søren Kierkegaard foi um dos precursores do existencialismo, ainda que não utilizasse este termo. Contudo, é importante dividir o existencialismo em duas versões: o existencialismo cristão e o existencialismo ateu.
Enquanto o existencialismo cristão afirma que o sentido da existência surge da relação subjetiva com Deus; o existencialismo ateu atribui ao próprio indivíduo a criação total do sentido da vida.
O que é o existencialismo cristão?
Søren Kierkegaard é o fundador do existencialismo cristão, vertente marcada pela subjetividade, pela liberdade e pela escolha independente.
A grande questão dessa filosofia é a decisão sobre o sentido da existência.
Para Kierkegaard, o sentido mais radical da existência é o absoluto, isto é, Deus. Assim, ou Deus existe e a vida tem sentido; ou Deus não existe e não há um sentido previamente dado à existência humana.
Diante disso, surge a pergunta: como construir sentido sem um fundamento absoluto?
Segundo Søren Kierkegaard, o sentido da existência é vivido e individual. Portanto, “ou Deus existe ou a vida humana não tem sentido nenhum“, como aponta o professor Maurício Marsola.
Por isso, o existencialismo cristão rejeita sistemas universais e abstratos, colocando o indivíduo singular no centro da reflexão.
Com isso, o sentido ou a busca dele não é dado e nem alcançado através da razão ou de verdades estabelecidas, mas nasce da relação subjetiva do indivíduo com a própria existência e, no existencialismo cristão, com o absoluto.
Sendo assim, a fé é um salto e não uma certeza racional. É uma decisão pessoal intransferível e que não pode ser comprovada pela lógica.
A escolha individual é inevitável e assumir essa responsabilidade é uma condição para uma vida autêntica.
A angústia da decisão é dolorosa, pois toda escolha implica uma renúncia. Ainda assim, somente a vida vivida cria sentido e verdade existencial.
Conceitos centrais de Kierkegaard
Compreender a forma com que o indivíduo se relaciona com a própria existência era uma das principais características da filosofia de Kierkegaard.
Alguns dos principais conceitos do filósofo são a angústia, a escolha, a liberdade e a subjetividade.
Angústia
A angústia, para Søren Kierkegaard, era uma angústia existencial, metafísica. E ela surge a partir da possibilidade, quando o indivíduo se angustia porque ele tem a liberdade de escolher. E essa necessidade da escolha é que, de certo modo, configura a nossa existência.
“[...] escolher, de um lado, é ganhar, mas escolher é sempre perder também. E escolher é optar por uma direção, sabendo que existem tantas outras direções possíveis. [...] Mesmo quando nós escolhemos e estamos satisfeitos naquela escolha, estáveis naquela escolha, sempre existe esse outro universo de possibilidades[...]. Então, angústia é possibilidade de escolha.” - Professor Maurício Marsola
Então, quantas vezes a vida não apresenta situações que são necessárias tomar uma decisão importante, como mudar de emprego, de cidade ou mesmo casar? Não é a decisão em si que gera a angústia, mas a consciência de que somos responsáveis por ela e por suas consequências.
Escolha e liberdade
Escolha é liberdade. As escolhas que ajudam a definir a identidade do indivíduo, quem ele é. Então quando se faz uma escolha se deixa algo para trás, e isso envolve responsabilidade.
Quando Kierkegaard criticava o fato de se viver a fé apenas seguindo as expectativas da sociedade, ele criticava exatamente a não autenticidade do viver.
Isso pode ser aplicado na vida, por exemplo, quando se escolhe viver de modo autêntico, assumindo os próprios valores, gostos, preferências ou rejeições. Isso é viver a sua vida de forma plena e não apenas seguindo as expectativas sociais.
Portanto, a liberdade não é algo fácil, mas é algo necessário para encontrar a si mesmo e o sentido para a vida.
Subjetividade como verdade
Søren Kierkegaard afirma que a subjetividade é a verdade. Diferentemente do que essa frase pode parecer dizer, isso não significa relativizar ou negar a realidade, mas que as verdades mais importantes são aquelas vividas e não apenas conhecidas por meio de teorias.
Assim, a verdade existencial se manifesta na maneira como indivíduos se relacionam com aquilo que acredita. Para Kierkegaard, viver a fé intensamente era encontrar o absoluto, o sentido último da vida, que é Deus.
Então algumas experiências como amar, crer, existir e própria escolha só fazem sentido quando se vive verdadeiramente e de forma singular.
Ironia e rejeição
Em Kierkegaard, a ironia é uma estratégia filosófica baseada na ironia de Sócrates: repete ideias, personagens e temas para provocar o indivíduo.
A repetição é uma retomada reflexiva, pela qual o indivíduo revê a própria vida, tem um confronto consigo mesmo e aprofunda sua relação com a verdade vivida.
Os estágios de existência de Kierkegaard
Ao contrário do que pode parecer, os estágios da existência de Kierkegaard não representam um processo evolutivo. Na verdade, esses estágios da existência são formas de vida, maneiras possíveis de existência.
Søren Kierkegaard dividiu esses modos em estágio estético, ético e religioso.
Estágio estético
O estético é aquele que o indivíduo vive o presente imediato, como se precisasse experienciar de forma mais intensa possível.
“aquele para o qual a vida consiste justamente em extrair o máximo possível de cada instante que lhe é oferecido em termos de sensibilidade.” - Professor Oswaldo Giacóia.
Então, a pessoa que está vivendo o estágio estético tem foco na satisfação imediata. Entretanto, toda esta busca pelo prazer faz com que ela seja dependente de uma repetição constante desses pequenos momentos de sensibilidade extrema.
Kierkegaard traz uma personagem que exemplifica este estágio de existência: o Don Juan.
Don Juan vive uma vida em que está totalmente preso ao imediatismo. Ele busca o amor erótico, ele ama aquilo que o momento é capaz de oferecer a ele, e não o amor real e tudo aquilo que o envolve.
Portanto o Don Juan simboliza a sensualidade que não pode ultrapassar o imediato, ele se realiza sempre naquele instante passageiro de prazer.
Estágio ético
O estágio ético é aquele dos valores morais, das normas da sociedade. Aqui o imediatismo não mais comanda o indivíduo, mas, a partir da submissão às regras e normas universais, ele organiza a sua vida para cumprir seus deveres.
“[...] aqui o indivíduo está como que sempre referido ao universal, ao geral, e se nega nesta relação com o universal.” - Professor Giacóia.
Um exemplo dessa submissão às regras é o imperativo categórico de Kant que diz que o princípio moral é que orienta ações universais.
Neste estágio de existência, o indivíduo não está em busca do prazer, mas, sim, do cumprimento do seu dever, por exemplo, a figura do marido fiel provedor da família.
Estágio religioso
O estágio religioso proposto por Søren Kierkegaard é uma superação tanto do estágio estético quanto do estágio ético. Isto é, uma existência em que nem se entrega ao imediato e nem anula o indivíduo o subjugando à regra universal da moral levam à verdadeira natureza do sujeito.
Como explica o professor Oswaldo Giacóia, tornar-se sujeito “é a tarefa de uma vida, é de novo existencial, não é o resultado de uma doutrina [...]” .
Ou seja, tornar-se si mesmo é uma tarefa da vida na qual realmente o indivíduo encontra a realização.
Para representar este estágio da existência, Kierkegaard fala sobre Abraão que aceita em um salto de fé sacrificar o seu filho para cumprir a promessa feita ao Deus que ele acreditava.
“A questão não é não questionar, a questão é o salto que Abraão dá.” - Professor Maurício Marsola.
Ao invés de questionar, Abraão confia e dá um salto de fé e Deus, que é o Deus da vida e não da morte, apresenta um carneiro para o sacrifício.
Neste caso, Abraão não se submete ao código moral, que ao sacrificar o seu filho seria um assassino; mas também não se entrega ao sentimento imediato de recusa. Desta forma, ele se tornou um homem de sentido.
“[...] é pela transcendência que nós realizamos a síntese entre o finito e o infinito, a alma e o corpo, ou seja, o estágio religioso da existência.” - Professor Giacoia.
Por fim, percebe-se que para Søren Kierkegaard a possibilidade de uma vivência religiosa seria alcançar a maturidade de uma vida autêntica.
Frases de Kierkegaard
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“A maioria dos homens persegue o prazer com tanta impetuosidade que passa por ele sem vê-lo.”
O indivíduo, ao buscar prazer de maneira ansiosa e imediatista, deixa de vivê-lo plenamente e não consegue experienciar o próprio gozo.
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“A esfera ética é uma esfera de transição, que todavia não é atravessada de uma vez por todas...”
A vida ética não é um estágio definitivo, mas um momento que exige constante tomada de decisão e a possibilidade do erro.
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“A história da vida individual se desenrola em um movimento que vai de estádio em estádio e cada um é posto por um salto.”
A existência humana passa por mudanças decisivas, nas quais cada fase da vida é assumida por escolhas do indivíduo.
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“A personalidade de um homem só está madura quando ele encontra sua própria verdade.”
A maturidade surge quando o indivíduo assume conscientemente a verdade que orienta sua própria existência.
Perguntas frequentes sobre Kierkegaard
O que é o existencialismo de Kierkegaard?
O existencialismo cristão de Kierkegaard é voltado para a singularidade do indivíduo, valorizando a escolha, a liberdade e a responsabilidade, além de também trabalhar temas como a angústia. Para ele, o sentido da existência não é dado por sistemas racionais abstratos, mas vivido subjetivamente na relação do indivíduo com o absoluto.
Quais são os três estágios da existência?
Os três estágios da existência de Kierkegaard são o estético, o ético e o religioso. Eles não representam uma evolução linear, mas diferentes modos de vida: o estético busca o prazer imediato, o ético orienta-se por normas e deveres universais, e o religioso realiza-se por meio do salto de fé e da relação individual com Deus.
Kierkegaard acreditava em Deus?
Sim, Søren Kierkegaard acreditava em Deus e era cristão luterano. Entretanto, defendia uma fé individual e existencial. Porém, tecia uma forte crítica ao cristianismo institucional e às certezas racionais sobre Deus, sustentando que a fé é uma decisão pessoal marcada pelo salto de fé e pela subjetividade.
Referências:
Curso da Casa do Saber: Trilha da Filosofia | 5ª Temporada
Curso da Casa do Saber: Jornada da Filosofia: O que é o Amor?






