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Desaparecimentos e o lugar da ausência: uma ferida aberta

Desaparecimentos e o lugar da ausência: uma ferida aberta

Quando eu era criança, ouvi muitas vezes uma história familiar, sobre um primo de terceiro grau que vivia com algum transtorno mental e que um dia saiu de casa e nunca mais voltou. Meus tios contam, nessa história, que um dia estavam dirigindo pelo interior do Piauí, e viram na estrada, um homem muito parecido com ele. Pararam e quando o abordaram, não souberam confirmar a sua identidade, pois ele não dizia o nome. O homem, que não parecia atordoado ou em algum grau de sofrimento, disse que era um andarilho e que não precisava de ajuda. Agradeceu e decidiu seguir o seu caminho, sem muitas conversas com aqueles que, em alguma medida, buscavam ou esperavam pelo reaparecimento de alguém.

O que acontece quando alguém sai de casa e simplesmente não volta? Não há despedida, não há preparação emocional e nem há necessariamente um rompimento de um ciclo ou existência que conduza esse sumiço pra algum lugar. Enquanto a morte oferece um ritual para fechar a ferida – atestado de óbito, velório, corpo na cova, data no calendário –, o desaparecimento nega isso tudo, deixando um limbo onde o tempo trava e a dor circula sem saída. 

O desaparecer não é apenas um verbo que indica sumiço; é uma experiência que desorganiza o tempo, a linguagem e a vida cotidiana. Num passe de mágica, puf, a pessoa só deixa de estar ali. O mundo não para, a rotina continua, os compromissos seguem, as notícias se acumulam, e ainda assim tudo passa a girar em torno de uma ausência que não se deixa nomear. Não é morte confirmada, não é presença possível, não é nada. É um intervalo que se prolonga, um estado de suspensão que corrói por dentro.

Do ponto de vista psíquico, o desaparecimento impõe um impasse. A tradição psicanalítica compreende o luto como um trabalho doloroso, mas estruturante: diante da morte, o sujeito é convocado a reconhecer a perda e, gradualmente, a retirar seus investimentos afetivos daquele que partiu. Freud descreveu esse processo como uma travessia necessária para que a vida possa continuar. No desaparecimento, porém, essa travessia não encontra margem. Não há confirmação da morte, não há corpo, não há rito que delimite um antes e um depois. A ausência permanece aberta, como uma ferida que não cicatriza porque nunca é fechada.

A psicóloga norte-americana Pauline Boss, nos estudos sobre estresse familiar, nomeou essa condição de “perda ambígua”: quando alguém está fisicamente ausente, mas psicologicamente intensamente presente. Trata-se de uma das experiências mais desorganizadoras para o psiquismo humano, porque paralisa o luto e instala a espera como modo de existência. Quem fica vive entre dois polos: a esperança de reencontro e o medo da confirmação da morte. 

No Brasil, casos recentes como o desaparecimento dos irmãos Ágatha Isabelly (6 anos) e Allan Michael (4 anos) em uma região de mata na zona rural de Bacabal (MA); de Helber Alves (26), produtor audiovisual desaparecido em Barueri (SP); além do desaparecimento de Daniel Luiz da Silveira (28 anos), Bruno Máximo da Silva (28 anos), Guilherme Macedo de Almeida (20 anos) e Pedro Henrique Prado de Oliveira (19 anos) em Santa Catarina, expôs o quanto redes de amigos e familiares se tornam, muitas vezes, as principais forças de investigação e mobilização. 

Em 2025, o Brasil registrou 84.760 desaparecimentos de pessoas – média de 232 por dia, alta de 4,1% sobre 2024, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, o Sinesp. Desse número, 28,2% têm entre 0 e 17 anos, sendo São Paulo o estado que mais reportou desaparecimentos nessa faixa etária. Esses dados nos revelam que, em média, 66 crianças e adolescentes desaparecem no Brasil por dia.

O que significa, então, desaparecer sem deixar vestígios? Para onde esse luto vai quando não há reconhecimento oficial da perda? Para um lugar de dúvida eterna? Cada pessoa que some deixa um rastro de perguntas que não encontram destino: onde está? Está vivo? Sofreu? Escolheu ir embora? Foi forçado? O que aconteceu? A ausência se transforma em investigação permanente. Nem todos os desaparecimentos recebem a mesma atenção, nem todos mobilizam os mesmos recursos. A visibilidade pública depende de fatores como classe social, cor da pele, território e capacidade de mobilização familiar. Algumas ausências viram manchete; outras se perdem no fluxo cotidiano de ocorrências policiais. O desaparecimento, nesse sentido, também revela desigualdades, uma vez que há vidas cuja falta é amplamente lamentada e outras cuja ausência quase não produz ruído.

Estratégias e iniciativas estão sendo elaboradas para reduzir esses números no país. Em 2019, foi criada a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, que prioriza a busca imediata de desaparecidos, sem prazo de espera (24h) para o registro do Boletim de Ocorrência. Além disso, uma campanha realizada em parceria com a Mães da Sé, estampa fotos de pessoas desaparecidas e suas progressões de idade em milhões de embalagens de leite. A iniciativa permitiu a localização de ao menos 8 pessoas desde outubro de 2024.

Ao mesmo tempo, há formas mais silenciosas de desaparecimento que atravessam o tecido social. Pais que abandonam filhos sem explicação, migrantes que rompem contato ao cruzar fronteiras, idosos esquecidos em instituições, pessoas que cortam laços abruptamente e deixam novas perguntas sem resposta. Embora não envolvam necessariamente crime, esses eventos produzem efeitos psíquicos semelhantes: a ruptura sem elaboração, a lacuna que exige ser preenchida por fantasias. O psiquismo humano tem dificuldade em sustentar o não saber. Diante da ausência de narrativa, inventa explicações, muitas vezes culpabilizadoras. Quem foi deixado tende a perguntar o que fez de errado, que falha teria provocado o sumiço.

Para quem espera, o tempo adquire outra espessura, pois a espera pode se tornar identidade. Mães e pais organizam suas rotinas em função da busca, guardam objetos intactos, mantêm números de telefone ativos, criam páginas em redes sociais para divulgar fotos e informações. A memória passa a ser prática cotidiana. Não deixar que o nome desapareça é uma forma de resistência ao apagamento e, ao mesmo tempo, essa fidelidade pode aprisionar. Seguir adiante pode ser vivido como traição; reorganizar a vida afetiva pode parecer desistência. Até que ponto é possível viver plenamente enquanto alguém amado permanece em suspenso?

Pensar o desaparecimento como fenômeno social, existencial e psíquico é reconhecer que ele expõe a fragilidade das nossas garantias. A crença de que o Estado protege, de que a família é estável, de que o amanhã é previsível. Quando alguém some, percebemos o quanto dependemos de registros, documentos, instituições e rituais para dar contorno à vida e à morte. Sem esses dispositivos simbólicos, ficamos à deriva.

Desaparecer é um ato que rompe vínculos, mas lembrar é um gesto que os reinscreve. Entre a ausência e a memória, há uma disputa permanente. O desaparecimento tenta produzir silêncio, enquanto a lembrança insiste em produzir narrativa. E é nesse esforço de contar, de registrar, de exigir respostas e de sustentar a pergunta que ainda não tem solução, que se desenhe uma tarefa ética coletiva: recusar que o desaparecimento seja apenas um dado estatístico ou uma fatalidade privada, e afirmar que cada ausência diz algo sobre o modo como organizamos nossa convivência, nossa política e nossa capacidade de reconhecer a dor do outro como algo que também nos diz respeito.

Há sempre uma cadeira que ninguém ocupa do mesmo modo, uma data que nunca volta a ser neutra, uma estrada que passa a carregar outra densidade – é um outro caminho acontecendo. Nesse texto, não irei oferecer conclusão, porque essa experiência do desaparecimento raramente concede esse privilégio, ou quando concede é, muitas vezes, fatal. Significa, antes, reconhecer que cada ausência aberta continua a produzir efeitos no mundo e que a forma como respondemos a ela, seja com indiferença ou compromisso, diz muito sobre quem escolhemos ser enquanto sociedade.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.