Filosofia

História da Loucura em Foucault: o que é, conceitos e resumo

História da Loucura em Foucault: o que é, conceitos e resumo

Em 1961, um recém doutor em Filosofia publicou uma das obras que mudaria profundamente os modos como estudiosos e pesquisadores enxergavam a loucura.

História da Loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault, é daquelas obras que nos mostram a complexidade das raízes desse fenômeno que está longe de se limitar a uma questão biomédica.

Mais de seis décadas depois, o livro continua sendo uma das maiores referências mundiais nos estudos sobre exclusão social, direitos humanos, saúde mental, arquitetura manicomial e história das saúde e das doenças.

Para além de se perguntar o que é a loucura, Foucault se empenhou em construir uma jornada arqueológica – a partir de diversas lentes – sobre como determinadas pessoas passaram a ser definidas como “loucas” e porquê que a sociedade decidiu isolá-las.

Essa pergunta foi fundamental para que áreas como a psicologia, filosofia, psicanálise, história e comunicação ampliassem o olhar sobre a forma como enxergamos as discussões sobre saúde mental no presente.

Neste artigo, vamos entender o que Foucault realmente propôs com a obra, por que ela revolucionou a história da psiquiatria e quais críticas ela recebeu ao longo do tempo.

Quem foi Michel Foucault?

Michel Foucault (1926 – 1984) foi um filósofo e historiador francês que buscou compreender como diferentes formas de conhecimento produzem maneiras específicas de governar pessoas.

Mas, como assim?

Retrato de Michel Foucault
Michel Foucault (1926 – 1984). Fonte: Divulgação

Ao longo da sua carreira, Foucault dedicou-se a estudar sobre prisões, manicômios, conventos, hospitais psiquiátricos, quartéis, escolas, clínicas e qualquer outra instituição que tivesse como princípio o isolamento de determinados grupos ou pessoas.

Nesse processo, os hospitais psiquiátricos se destacaram enquanto uma instituição bastante complexa, que revelava as formas de classificação, controle e exclusão dos indivíduos considerados desviantes.

Foi nessa investigação que nasceu A História da Loucura na Idade Clássica, publicada em 1961, como resultado da sua tese de doutoramento em Filosofia na Universidade de Paris.

Na obra, Foucault nos mostra como a loucura foi construída social e politicamente a partir de relações de poder sob aqueles e aquelas que fogem à lógica de produtividade e ordem.

O que Michel Foucault entende por loucura?

Para Foucault, a loucura é uma experiência humana que foi progressivamente silenciada e medicalizada.

Apesar de uma busca intensa por uma definição, Foucault evita apresentar um conceito fechado sobre a loucura na obra.

Em vez disso, mostra que aquilo que cada época denominou por “loucura” dependeu de valores religiosos, políticos, econômicos, morais e científicos.

Isso não significa afirmar que o sofrimento psíquico seja imaginário ou inventado. Significa reconhecer que toda sociedade interpreta esse sofrimento de maneiras diferentes.

Capa do livro História da Loucura, de Michel Foucault
História da Loucura (1961), de Michel Foucault

A depender do contexto, as categorias utilizadas para nomeá-lo, as instituições responsáveis por tratá-lo e os direitos concedidos às pessoas consideradas loucas variaram historicamente.

Essa é uma distinção importante porque uma das críticas mais frequentes, e talvez um dos maiores mal-entendidos sobre a obra, consiste em afirmar que Foucault negava a existência dos transtornos mentais.

O filósofo nunca escreveu isso. Sua preocupação era mostrar que as formas de reconhecer, classificar e administrar a loucura são construções históricas, e não verdades imutáveis.

Infinita loucura, que tem tantas faces quantos são, no mundo, os caracteres, as ambições, as necessárias ilusões. Mesmo em seus pontos extremos, é a menos extremada das loucuras; ela é, no coração de todos os homens, o relacionamento imaginário que ele mantém consigo mesmo. Nela engendram-se os mais quotidianos de seus defeitos. Denunciá-la é o elemento ao mesmo tempo primeiro e último de toda crítica moral

Foucault, 1961, p. 48

Assim, o autor busca uma compreensão mais profunda sobre o fenômeno, a depender da lente que o observa.

Eu encarava este livro como uma espécie de vento verdadeiramente material, e continuo a sonhar com ele assim, uma espécie de vento que arrebata portas e janelas… Meu sonho é que ele fosse um explosivo eficaz como uma bomba, e belo como fogos de artifício” – Michel Foucault, em entrevista a Roger Paul Droit.

Para assistir a entrevista, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=qzoOhhh4aJg.

A Evolução Histórica da Loucura

Três momentos históricos foram determinantes para explicar como essa evolução histórica sobre a loucura foi construída pelo filósofo na obra.

Foucault divide a relação do Ocidente com a loucura em três grandes momentos históricos: Renascimento, Idade Clássica e Modernidade.

A tabela abaixo resume como a percepção e o tratamento mudaram radicalmente conforme a sociedade se transformava economica e culturalmente:

Época Histórica Percepção da Loucura Destino do Louco Função Social

Renascimento

(Séc. XV - XVI)

Experiência ambígua, associada ao mistério, à desrazão, à crítica da racionalidade e, em alguns casos, à revelação de verdades.

Circulavam entre a população ou eram afastadas de forma não sistemática. A loucura aparecia na arte, na literatura e na religião.

A desrazão ainda fazia parte do imaginário social e possuía um lugar simbólico na cultura.

Idade Clássica

(Séc. XVII - XVIII)

Associada à desordem, à preguiça, ao desvio moral, à improdutividade e à ameaça à ordem pública.

Ocorre o chamado Grande Internamento, que reúne loucos, mendigos, prostitutas, pobres e outros grupos marginalizados em instituições de confinamento.

A prioridade deixa de ser compreender a loucura e passa a ser administrar a ordem social.

Modernidade

(Séc. XIX em diante)

Objeto privilegiado da medicina e da psiquiatria, sendo definida como doença mental.

Surgem os hospitais psiquiátricos modernos e a internação passa a ser legitimada pelo saber médico.

A medicina assume autoridade para classificar, diagnosticar e tratar o sofrimento psíquico, consolidando uma nova forma de poder sobre os corpos.

Segundo ele, “a loucura fascina porque é um saber” (Foucault, 1961, p. 26), e isso significa que o que muda de uma época para outra não é apenas o tratamento dispensado às pessoas consideradas loucas, mas a própria maneira de produzir conhecimento sobre elas.

É por isso que História da Loucura não é apenas um relato sobre a história da psiquiatria.

O livro mostra como diferentes sociedades produziram diferentes significados para a loucura e como esses significados determinaram quem poderia falar, quem deveria ser silenciado e quais vidas seriam consideradas dignas de cuidado ou de exclusão (Franklin, 2025).

Durante séculos, o que se compreendia no Oriente por loucura foi regido a partir da ótica de diversas instituições: medicina, igreja, polícia, além dos determinantes morais que ditaram o que se entendia por certo ou errado socialmente.

Nesse sentido, as instituições de poder se apropriaram dos direitos sobre àqueles que não seguiram as normas estabelecidas.

Vamos entender melhor.

Senhoras regentes reunidas no asilo
Senhoras regentes no Asilo. Fonte: Frans Hals, As Regentes, 1664.

Loucura, poder e normalidade: o que a obra ensina

Uma das contribuições mais duradouras de História da Loucura é mostrar que a ideia de normalidade nunca depende exclusivamente da ciência.

Embora hoje seja comum associar a definição do que é ou não um transtorno mental ao conhecimento médico, Foucault argumenta que essa fronteira também é influenciada por valores morais, religiosos, econômicos, jurídicos e culturais.

Isso significa que aquilo que uma sociedade considera “normal” ou “patológico/anormal” não nasce apenas de descobertas científicas.

Essas categorias são construídas em contextos históricos específicos e refletem disputas sobre quais comportamentos devem ser aceitos, corrigidos ou excluídos.

Em outras palavras, definir o que é a loucura também é definir quais formas de viver, pensar e agir serão reconhecidas como legítimas.

Pinel libertando pacientes do Hospital de Salpêtrière
Pinel liberta os “loucos” do Hospital. Fonte: Tony Robert-Fleury, Phillipe Pinel à La Salpêtriere, 1794.

Quando um comportamento passa a ser reconhecido como doença, por exemplo, não muda apenas a linguagem utilizada para descrevê-lo. Mudam também as formas de tratamento, as políticas públicas, os direitos garantidos aos indivíduos e até mesmo a maneira como essas pessoas passam a compreender a si próprias.

As categorias médicas, portanto, não são apenas instrumentos de diagnóstico, pois elas também organizam experiências e orientam práticas sociais.

Um exemplo frequentemente citado é o da homossexualidade. Durante grande parte do século XX, ela foi classificada como um transtorno mental por manuais psiquiátricos e utilizada para justificar tratamentos coercitivos, internações e diferentes formas de discriminação.

A retirada da homossexualidade das classificações psiquiátricas não ocorreu porque a orientação sexual das pessoas mudou, mas porque houve uma profunda transformação científica, política e social sobre a maneira de compreender a diversidade humana.

A era moderna, a partir do Classicismo, estabelece uma escolha diferente: o amor racional e o desatinado. A homossexualidade pertence ao segundo. E assim, aos poucos, ela toma lugar entre as estratificações da loucura. Ela se instala no desatino na idade moderna, colocando no centro de toda sexualidade a exigência de uma escolha na qual nossa época repete incessantemente sua decisão

Foucault, 1961, p. 101

Esse caso ilustra uma das principais contribuições de Foucault: as categorias que utilizamos para explicar o comportamento humano possuem uma história e podem ser modificadas.

Novamente, isso não significa afirmar que todo transtorno mental é uma construção social ou que o sofrimento psíquico não seja real.

O que Foucault propõe é uma reflexão sobre as formas como determinadas experiências passam a ser nomeadas, classificadas e administradas por instituições que detêm autoridade para fazê-lo.

Foucault criticava a psiquiatria?

Sim, mas é importante entender exatamente o que ele criticava.

Foucault não afirmava que psiquiatras fossem inimigos dos pacientes nem que tratamentos médicos fossem desnecessários. Sua crítica dirigia-se principalmente à pretensão de neutralidade.

Ao analisar o surgimento das instituições psiquiátricas, ele argumenta que o conhecimento médico nunca opera isolado. Ele se relaciona com normas sociais, políticas públicas, sistemas jurídicos e formas de controle.

Nessas instituições também vêm-se misturar, muitas vezes não sem conflitos, os velhos privilégios da Igreja na assistência aos pobres e nos ritos da hospitalidade, e a preocupação burguesa de pôr em ordem o mundo da miséria; o desejo de ajudar e a necessidade de reprimir; o dever de caridade e a vontade de punir; toda uma prática equívoca cujo sentido é necessário isolar

Foucault, 1961, p. 60-61

No curso Foucault e as Críticas aos Saberes Psi, a psicóloga Flávia Andrade menciona uma frase do filósofo que nos chama bastante atenção:

Nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura, já que é esta que detém a verdade da psicologia

Foucault, 1975, p. 85

Quando o Foucault faz essa afirmação no livro Doença Mental e Psicologia (1975), ele está falando que os saberes psis como psicologia, psiquiatria e psicanálise também são resultado das formas históricas pelas quais a loucura foi definida, classificada e transformada em objeto de conhecimento.

Eles próprios nasceram em um contexto histórico que definiu o que deveria ser considerado normal, patológico e passível de tratamento.

Por isso, ler Foucault como um autor “antipsiquiatria” é reduzir seu trabalho.

Na realidade, seu objetivo era compreender historicamente como determinados saberes adquiriram autoridade para definir quem é considerado normal, anormal, saudável ou doente.

Portanto, criticar não é se opor, e muito menos desvalorizar os esforços científicos da área.

A influência da obra sobre a Reforma Psiquiátrica

No contexto de profundas transformações sociais e políticas no mundo entre as décadas de 1960 e 1970, as ideias de Foucault dialogaram com movimentos que buscavam transformar o modelo de assistência em saúde mental em diversos países.

Na Itália, seus estudos influenciaram o ambiente intelectual em torno de Franco Basaglia (1924 – 1980), cuja atuação foi decisiva para a reforma psiquiátrica italiana.

Se a loucura é um exemplo no mundo do internamento, se ela é manifestada enquanto se reduz ao silêncio todos os outros signos do desatino, é porque ela atrai sobre si todos os poderes do escândalo. Ela percorre todo o domínio do desatino, reunindo suas duas margens opostas, a da escolha moral, da falta relativa, de todas as fraquezas, e a da raiva animal, da liberdade acorrentada ao furor, da queda inicial e absoluta: a margem da liberdade clara e a margem da liberdade escura. Acumulada num único ponto, a loucura é o todo do desatino: o dia culpado e a noite inocente

Foucault, 1961, p. 180

No Brasil, embora a Reforma Psiquiátrica tenha sido construída por diferentes correntes teóricas e políticas, o pensamento foucaultiano contribuiu para fortalecer críticas às instituições totais e aos processos históricos de exclusão vividos pelas pessoas internadas em hospitais psiquiátricos.

Esse movimento ajudou a consolidar um modelo de atenção psicossocial centrado nos direitos humanos, na reinserção comunitária, na substituição progressiva da lógica manicomial e na liberdade.

Esse grande livro de Foucault foi, há trinta anos, um acontecimento que nem mesmo tento identificar, e muito menos medir, no fundo de mim, a repercussão, tanto ela foi intensa e múltipla em suas figuras.

DERRIDA, 1994, p. 52

Curiosidade:

Um aspecto pouco conhecido da obra é que ela passou por mudanças importantes após sua publicação. A primeira edição, lançada em 1961 pela editora Plon, trazia um prefácio que deu origem a um dos debates mais famosos da filosofia contemporânea.

Nele, o filósofo Jacques Derrida criticou a interpretação de Foucault sobre a relação entre razão e loucura na obra de René Descartes, especialmente no célebre trecho do cogito (“Penso, logo existo”).

Foucault respondeu apenas nove anos depois, em 1972, publicando um texto que posteriormente foi ampliado e incorporado à nova edição do livro. Ao enviar um exemplar a Derrida, escreveu uma breve dedicatória: “Desculpe-lhe responder tão tarde!” (Eribon, 1990, p. 129).

Principais conceitos da História da Loucura

A obra de Foucault constrói um percurso teórico bastante profundo sobre a história da loucura a partir de um olhar ocidental.

Nesse caminho, alguns pontos se destacam como centrais nas discussões que ele propõe na obra.

Abaixo, você verá como essas ideias foram articuladas não apenas enquanto conceitos, mas principalmente enquanto chaves de leitura para entender a principal tese da obra: os modos como a loucura pode ser interpretada de maneiras diferentes conforme o tempo, o espaço e o contexto histórico, político e cultural.

Conceito O que significa? Por que é importante? Citação
Loucura

Não é entendida como uma categoria fixa ou exclusivamente médica, mas como uma construção histórica cujos significados mudam ao longo do tempo.

É a ideia central da obra: aquilo que chamamos de "loucura" depende das formas como cada sociedade interpreta e organiza o sofrimento psíquico.

“Loucura é essa encarnação do homem no animal que é, enquanto degrau último da queda, o signo mais manifesto de sua culpa, e, enquanto objeto último da complacência divina, o símbolo do perdão universal e da inocência reencontrada” (Foucault, 1961, p. 176).

Razão

Conceito utilizado por Foucault para o conjunto de valores e discursos que definem o que é verdadeiro, normal e aceitável em cada época.

Para Foucault, a história da loucura é também a história da afirmação da razão ocidental, que se constrói delimitando e excluindo aquilo que considera irracional.

“A loucura torna-se uma forma relativa à razão ou, melhor,

loucura e razão entram numa relação eternamente reversível que faz com que toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória. Cada uma é a medida da outra, e nesse movimento de referência recíproca elas se recusam, mas uma fundamenta a outra” (Foucault, 1961, p. 35).

Desrazão

Experiência que antecede a psiquiatria moderna e representa tudo aquilo que escapa à racionalidade dominante. É percebido pelo autor como O Outro, ou seja, o oposto.

É um dos conceitos mais importantes do livro, pois mostra que a loucura já ocupou um lugar filosófico, artístico e religioso antes de ser medicalizada.

“Se a razão é o conteúdo da percepção do louco, nem por isso deixa de estar afetada por um certo índice negativo. Uma instância está aí em ação, dando a esta não-razão seu estilo singular” (Foucault, 1961, p. 229).

Grande Internamento

Processo ocorrido na Europa, sobretudo a partir do século XVII, em que pessoas consideradas desviantes — como pobres, mendigos, prostitutas e loucos — passaram a ser confinadas em instituições de reclusão.

É um dos principais argumentos do livro, pois revela que o confinamento estava ligado à manutenção da ordem social, e não apenas ao tratamento da loucura.

“(...) essa vizinhança que

parecia atribuir uma mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos correcionários e aos insanos. E entre os muros do internamento

que Pinel e a psiquiatria do século XIX encontrarão os loucos; é lá — não nos esqueçamos — que eles os deixarão, não sem antes se

vangloriarem por terem-nos “libertado” (Foucault, 1961, p. 55)”.

Poder

Não aparece apenas como autoridade do Estado, mas como uma rede de relações presente nas instituições, nos discursos e nas práticas sociais.

Ajuda a compreender como determinados grupos passam a definir quem é considerado normal, saudável ou desviante.

“Devassidão, prodigalidade, ligação inconfessável, casamento vergonhoso: tudo isso está entre os motivos mais numerosos do internamento. Este poder de repressão, que não pertence inteiramente ao domínio da justiça nem exatamente ao da religião,

este poder arrancado diretamente à autoridade real não representa, no fundo, a arbitrariedade do despotismo, mas sim o caráter doravante rigoroso das exigências familiares” (Foucault, 1961, p. 55)”.

O Foucault nos mostra, e isso de novo, principalmente em História da Loucura, que foi um processo de alienação da loucura que deu uma das principais precedentes para a emergência de saberes sobre ela, ou seja, foi justamente a exclusão da loucura do espaço social que começa a abrir a possibilidade de constituir um saber sobre a loucura, constituir um saber sobre o louco

No curso Espinoza, Freud e Foucault – Três Formas de Pensar o Poder, o escritor Júlio Pompeu afirma que para entender a forma como a loucura foi pensada, Foucault exercia uma espécie de arqueologia sobre a ideia da loucura:

Foucault buscava discursos de médicos, relatórios, processos judiciais em que médicos depunham sobre determinados casos e ele procurava olhar nesses discursos, buscar uma ideia, um saber. O que permite que esse discurso tenha naquele momento a lógica que tem? Por que aquele discurso faz sentido daquele jeito naquele momento?

Por que História da Loucura continua atual?

É tentador buscar paralelos diretos entre o século XVII e o mundo contemporâneo, mas Foucault provavelmente desconfiaria de analogias simplistas. Ainda assim, suas perguntas permanecem surpreendentemente atuais.

Vivemos uma época em que transtornos mentais são discutidos diariamente nas redes sociais: aplicativos prometem monitorar emoções, influenciadores produzem conteúdos sobre diagnósticos psiquiátricos, algoritmos são utilizados para prever comportamentos e o mercado do wellness cada vez mais ganha espaço.

Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre medicalização da infância, excesso de diagnósticos, neurodiversidade e saúde mental no ambiente de trabalho.

Embora Foucault não tenha previsto como essas discussões aconteceriam hoje, o movimento feito nessa obra é de se perguntar sempre como determinadas categorias surgiram, quem as definiu, quais instituições lhes conferem autoridade e quais efeitos elas produzem sobre a vida das pessoas.

O livro nos convida a olhar para aquilo que parece natural e perguntar quando, por que e em benefício de quem passou a ser percebido e entendido socialmente como “natural”.

É justamente por isso que sua obra continua despertando tanto interesse. Sempre que uma sociedade decide quem deve ser ouvido, quem precisa de tratamento, quem pode falar por si mesmo e quem será considerado incapaz de fazê-lo, as perguntas formuladas por Foucault voltam a aparecer.

Nesse sentido, discutir sobre as relações de poder e saber em relação à saúde mental tem sido cada vez mais urgente. Por isso, História da Loucura nos lembra dos motivos para que esse debate nunca esteja definitivamente encerrado.

Perguntas frequentes sobre História da Loucura em Foucault

Quem foi Michel Foucault?

Michel Foucault (1926 – 1984) foi um filósofo e historiador francês que buscou compreender como diferentes formas de conhecimento produzem maneiras específicas de governar pessoas.


O que Michel Foucault entende por loucura?

Para Foucault, a loucura é uma experiência humana que foi progressivamente silenciada e medicalizada.

Apesar de uma busca intensa por uma definição, Foucault evita apresentar um conceito fechado sobre a loucura na obra.

Em vez disso, mostra que aquilo que cada época denominou por “loucura” dependeu de valores religiosos, políticos, econômicos, morais e científicos.

Isso não significa afirmar que o sofrimento psíquico seja imaginário ou inventado. Significa reconhecer que toda sociedade interpreta esse sofrimento de maneiras diferentes.


Foucault criticava a psiquiatria?

Sim, mas é importante entender exatamente o que ele criticava.

Foucault não afirmava que psiquiatras fossem inimigos dos pacientes nem que tratamentos médicos fossem desnecessários. Sua crítica dirigia-se principalmente à pretensão de neutralidade.

Ao analisar o surgimento das instituições psiquiátricas, ele argumenta que o conhecimento médico nunca opera isolado. Ele se relaciona com normas sociais, políticas públicas, sistemas jurídicos e formas de controle.



Referências:

DERRIDA, Jacques. Cogito e História da Loucura. In: A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva, 1995.

ERIBON, Didier. Michel Foucault. Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

ERIBON, Didier. Michel Foucault e seus contemporâneos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

FOUCAULT, Michel. Folie et Déraison. Histoire de la folie à l`Âge Classique. Paris: Plon, 1961.

FOUCAULT, Michel. La folie, absence de l’ouvre. La table ronde, nº 196. Situation de la psychiatrie, 1964.

FOUCAULT, Michel. Response a Derrida. Paideia, nº 11, 1972.

FRANKLIN, Camila Fortes Monte. Eco no silêncio e na saúde: a produção de narrativas sobre loucura e gênero nos jornais O Globo e O Dia (PI). 2025. 485 f. Tese (Doutorado Acadêmico em Informação e Comunicação em Saúde) – Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2025.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.