
Que ironia que é iniciar esse texto tendo começado e recomeçado essa escrita, no mínimo, duas vezes. Me peguei mudando os parágrafos de lugar e percebendo que, por mais que eles fizessem sentido separados, é um fio invisível que faz com que eles sejam costurados entre si, e que deslocá-los tiraria tudo de ordem a ponto de romper com um raciocínio. Por isso, a escolha de reiniciar essa escrita será o meu primeiro exercício de recomeço nesse texto.
Engana-se quem pensa que esse texto irá partir da ideia de um recomeço apenas como um gesto típico de janeiro, associado a listas de metas, resoluções grandiosas e promessas de produtividade emocional. Aqui, eu quero pensar sobre como recomeçar não é só iniciar um novo ciclo cronológico, mas é, sobretudo, reconhecer que algo dentro de nós RE-inicia o tempo todo, inclusive quando vamos ao encontro daquilo que supostamente já conhecemos. Recomeçamos em relações antigas, em trabalhos que continuam, em cidades que não mudaram. Recomeçamos porque nós mudamos.
Grande parte dos recomeços não anunciam chegada nem produzem sensação de novidade imediata. Muitas vezes acontecem em silêncio, no ajuste das escolhas diárias, na maneira como passamos a sustentar o que já existe. São movimentos internos que não rendem especificamente uma comemoração, mas que alteram profundamente a forma como habitamos a vida.
Recomeçar, nesse sentido, não se alinha à ideia de romper com tudo, mas de reorganizar o que permanece. Continuar no mesmo trabalho, mas com outro limite, também é recomeçar. Manter a mesma relação, mas reposicionar expectativas, também é recomeçar. Permanecer na mesma cidade, mas ocupar o tempo e o espaço de outra forma, também é recomeçar. O recomeço não está necessariamente no cenário, mas no modo como nos colocamos nele, por isso ele pode ser tão difícil de reconhecer e tão fácil de desqualificar.
Para as mulheres, esse processo costuma ser mais custoso porque recomeçar envolve cálculo: tempo, dinheiro, rede de apoio, impacto sobre outras pessoas. Recomeçar uma carreira depois da maternidade, recomeçar financeiramente após um divórcio, recomeçar emocionalmente depois de anos investidos em relações assimétricas na família, no trabalho, entre amigos. É um tipo de recomeço que já é por si só agarrado, difícil de se desprender, pois parece que cada decisão carrega consequências que extrapolam o próprio corpo.
Espera-se ainda que esse movimento seja feito por nós com eficiência e discrição. Recomece, mas sem barulho, ok? Recomece sem ressentimento, sem interromper o cuidado e, principalmente, sem falhar. Deseja-se que a reorganização aconteça sem abalar a renda, sem desestabilizar a rede ao redor, sem gerar incômodo – ou pelo menos, não no outro.
É por isso que o recomeço para nós nem sempre é fruto de uma escolha consciente. Perdemos expectativas que não se sustentaram, projetos que se esvaziaram, versões de nós que funcionaram por um tempo, mas que já não dão conta da vida atual. O discurso do “aprendizado” costuma suavizar essas perdas, mas elas continuam sendo perdas e continuam, muitas vezes, nos machucando. Nem todo recomeço vem acompanhado de entusiasmo ou crescimento, até porque alguns vêm apenas com a constatação de limite.
Ainda assim, espera-se que a gente siga. Que reorganize tudo sem parar, sem cair, sem demonstrar cansaço. Para muitas mulheres, recomeçar significa fazer caber o impossível em arranjos cada vez mais estreitos, estando cada vez mais distantes do desejo e mais próximas da administração de danos. Isso ajuda a entender por que tantos recomeços vêm acompanhados de ambivalência.
Não há celebração plena de um recomeço porque não há escolha plena mesmo. O que existe é alívio misturado com luto, movimento misturado com exaustão. Recomeçar, nesses termos, não inaugura algo novo, na verdade, apenas permite continuar. E talvez isso já seja muito, ainda que raramente seja reconhecido como tal.
Mas ainda assim, há maneiras de se abrir para o recomeço sem repeti-lo como imposição. Reiniciar a engrenagem não é só cortar o cabelo, se demitir de um emprego ruim, comprar uma passagem só de ida ou pintar uma parede de casa, mas também pode ser deslocar o olhar: parar de perguntar o que ainda falta conquistar e começar a observar o que já foi conquistado. E digo isso porque nem todo recomeço pede acréscimo; alguns pedem retirada do combate. Menos carga, menos expectativa, menos autocobrança travestida de ambição. Calma.
Pode ser também mudar o ritmo, rever um acordo, encerrar uma conversa que se arrasta há tempo demais. Pequenos deslocamentos que não prometem futuro grandioso, mas aliviam o presente e tiram das costas um peso gigante. Não é necessariamente a magnitude do passo, mas a possibilidade dele gerar movimento e vida. Nem toda guerra precisa ser vencida, porque soltar a corda também é força.
Se Nego Bispo nos ensina que tudo nosso é circular, que tudo é começo, meio e começo, então o recomeçar é um gesto político que não precisa de uma segunda-feira ou de uma virada de ano para existir. Ele não aponta necessariamente pro que está fora, mas reorganiza o que está dentro como modo de habitar o mundo. Por isso, a ideia de um recomeço pode ser positiva não apenas para nos dar um novo fôlego para as coisas que queremos, mas também para que a gente dê outros significados para as coisas que já são vida e que já estão presentes no nosso cotidiano.
Nós somos as maiores protagonistas dos nossos passos e ter consciência de que o recomeço não precisa de data ou prazo para acontecer é uma das formas mais gentis de nos presentear. Viver no agora e saber calcular e recalcular o passo é um gesto de sabedoria, sem esquecer que o caminho se faz andando. Aprendemos tanto umas com as outras sobre como recomeçar que esquecemos que já estamos caminhando diariamente em direção ao novo.
Recomeçar está mais ligado à ideia de um deslocamento no modo como nos compreendemos e damos os nossos passos, mas não como quem corrige uma rota errada, e sim como quem amplia a leitura do próprio percurso. Especialmente se considerarmos que existe uma diferença fundamental entre recomeçar para consertar e recomeçar para compreender. O primeiro parte da suposição de falha; o segundo, da aceitação de que a vida se organiza por camadas, desvios e acomodações sucessivas. Nesse sentido, o recomeço não inaugura algo externo, mas reorganiza o modo como nos situamos no que já foi vivido.
Olhar para o próprio caminho como resultado de condições históricas, afetivas e materiais específicas desloca a ideia de erro individual e a recoloca no campo da experiência. Recomeçar passa a ser um gesto de leitura: reler a própria história sem a urgência de julgá-la, reconhecendo que toda trajetória é feita de escolhas possíveis, e não ideais. E essa é uma perspectiva política, sobretudo para nós, mulheres, que fomos historicamente ensinadas a nos responsabilizar pelo que não controlamos.
Nesse ponto, por mais interno, pessoal e subjetivo que seja o recomeço, ele deixa de ser um ato solitário na medida em que a compreensão de si se adensa quando é atravessada pela compreensão de que podemos reconhecer trajetórias semelhantes entre nós, que são capazes de nos mostrar que não estamos sozinhas. Jamais nos sentiremos só enquanto pudermos recomeçar tendo umas às outras do lado. E ainda bem que nós temos nós para fazer isso ser possível e para não nos deixar esquecer que cada recomeço pode ser lindo de ser vivido juntas!



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