
Que o nosso corpo e cérebro precisam de estímulos para sentir prazer e se regular emocionalmente, não é nenhuma novidade. No entanto, as vias para alcançar esse lugar de satisfação têm se tornado cada vez mais complexas. Fazer atividade física, dormir mais de 6 horas seguidas e pegar sol da manhã deixaram de ser suficientes quando vivemos em um cenário de hiperprodutividade e adoecimento psíquico em decorrência da hiperestimulação.
Consumir cafeína em excesso para estudar para aquela prova, abusar de bebidas alcoólicas e outras substâncias, virar noites seguidas acreditando que produtividade é resistência, treinar até a exaustão, trocar descanso por estímulo – pois acredita que relaxar é "perder tempo" –, buscar validação constante nas redes sociais ou recorrer a apostas, pornografia e compras impulsivas são exemplos de tentativas contemporâneas de produzir dopamina de forma rápida e muitas vezes disfuncional.
Esse tipo de estratégia, no entanto, é ineficaz na medida em que essa hiperatividade dopaminérgica pode gerar um estado de busca constante por estímulo, no qual nada parece suficiente por muito tempo, resultando em comportamentos impulsivos ou vícios.
A cena de um influenciador sorridente dizendo que “essa é a hora da virada” tem sido mais comum do que sair para comprar pão na padaria. Já não é mais um passatempo, uma questão de lazer ou apenas de dinheiro, pois as apostas online – as chamadas bets – se tornaram, no Brasil, uma linguagem cotidiana de esperança e sobrevivência em um mundo marcado pela instabilidade e pela incerteza do amanhã.
Nos últimos anos, as bets deixaram de ocupar a periferia do entretenimento e passaram ao centro da vida social: estão nos intervalos dos jogos, nos stories do seu influenciador favorito, nos patrocínios de times, nas conversas de bar, nas brigas de casal, no orçamento doméstico. Elas se infiltram no cotidiano como promessa de reparo, de um salário que não cobre o mês e da dívida que tira o sono. Apostar passou a funcionar como estratégia improvisada de enfrentamento da precariedade, oferecendo não só a ilusão do ganho financeiro, mas também um breve alívio emocional, um pico de expectativa, uma sensação momentânea de controle em meio ao caos.
Segundo dados do Banco Central e análises econômicas recentes, entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros apostaram online, movimentando aproximadamente R$ 20 bilhões. Mas, apostar, hoje, não é só tentar ganhar em um jogo recreativo, é tentar existir de outro modo.
Em um país marcado por desigualdades históricas, precarização do trabalho, informalidade e um horizonte de mobilidade social cada vez mais estreito, a aposta pode parecer, paradoxalmente, uma escolha lógica. Como não considerar um “ganho rápido” quando eu não sei como irei pagar o aluguel no final do mês?
E é justamente nessa possibilidade que as bets se tornam um monstro repleto de tentáculos sedentos por agarrar qualquer esperança alheia. A aposta oferece três coisas ao mesmo tempo: promessa de mobilidade, emoção imediata e sensação de controle. Elas se apresentam como racionais, estratégicas, quase meritocráticas. A narrativa de “quem entende de futebol ganha mais”, “não é sorte, é análise”, “você decide quanto arriscar”, denuncia um cálculo perfeito. Porém, essa conta precisa ser analisada: a chance de você ganhar no jogo é inversamente proporcional à chance de você se viciar na aposta.
Do ponto de vista psicanalítico, não é irrelevante que essa lógica floresça em tempos de ansiedade generalizada. Essa ativação excessiva de dopamina acontece de modo a substituir a elaboração pela excitação: não é apenas a busca pelo prazer que a aposta gera, mas evitar o contato com a angústia produzida por um mundo que oferece poucas garantias e que cobra um desempenho constante. A aposta surge, então, como uma defesa psíquica: algo acontece, algo pode mudar, ainda que por um curtíssimo espaço de tempo. É por isso que a dopamina responde mais à promessa, do que ao ganho em si.
As plataformas de apostas se aproveitam disso, e por essa razão constroem narrativas emocionais através de termos e expressões como “resgate”, “virada”, “chance”, “última oportunidade”, na qual perder nunca é simplesmente perder, mas é quase ganhar. E aí é que tá: essa linguagem dialoga diretamente com o que a economia política chama de economia da esperança: em contextos de insegurança estrutural, o risco se torna regra e apostar passa a ser uma forma de projetar futuro quando o futuro não é garantido por políticas públicas, trabalho estável ou redes de proteção social.
Não por acaso, uma outra pesquisa realizada pelo Banco Central indica que famílias de menor renda gastam proporcionalmente mais com apostas, sendo elas as mais prejudicadas. E o que isso nos diz, se não é uma busca pela sobrevivência, tendo o jogo como tentativa de saída de uma baixa condição socioeconômica? Ainda assim, reduzir o fenômeno apenas à pobreza seria insuficiente.
Há também aqueles que possuem alguma reserva financeira e acabam perdendo suas economias em ciclos sucessivos de aposta, assim como pessoas que enfrentam rupturas importantes como o desemprego, a aposentadoria, a perda de um papel social estruturante, e se vêem subitamente sem rotina, sem reconhecimento e sem horizonte. Nesses contextos, o jogo surge como uma forma de se manter ativo, estimulado e pertencente, ainda que a um custo psíquico e material elevado. O mecanismo se repete: o jogo aparece menos como lazer e mais como resposta disfuncional a perdas materiais, simbólicas e afetivas.
A frustração se torna o combustível dessa dinâmica, pois quanto mais você joga e, consequentemente, perde, maior será a necessidade simbólica e econômica de tentar recuperar o valor perdido. A recompensa se materializa nessa esperança e no desejo desesperado de ser recompensado.
Não podemos ignorar a presença massiva de influenciadores na promoção das bets, que traduz uma convergência entre cultura da imagem e monetização do desejo. Para alguns criadores de conteúdo, as bets podem ser uma das principais fontes de renda em um mercado instável que não o assegura financeiramente, mas para outros, é apenas mais um rendimento em meio a um patrimônio bilionário. Já para o público, o influenciador funciona como garantia simbólica: “se ele usa, deve funcionar”.
Entre 2024 e 2025, a CPI das Bets, no Senado, investigou justamente essa dinâmica: o impacto das apostas no orçamento das famílias, possíveis vínculos com organizações criminosas e o papel dos influenciadores na normalização dessa prática. Embora o relatório final tenha sido rejeitado em junho de 2025, o debate público escancarou uma tensão central que, para nós, é muito cara: Não é só “vício em aposta”, é uma questão de saúde pública e de saúde mental.
Reduzir o fenômeno à ideia de “vício” é insuficiente e, muitas vezes, injusto. Há quadros de dependência que geram impactos e prejuízos significativos na vida das pessoas – causando ansiedade, depressão, crises de pânico e por vezes ideação suicida –, e elas precisam de cuidado clínico e políticas públicas direcionadas e eficientes que compreendam, sobretudo, que essa condição transborda para além do simples desejo de jogar, na medida em que pode ser comparado com os efeitos de uma dependência química.
Enquanto esse mercado cresce, o país e o sistema de saúde ainda não elaboraram estratégias de redução de danos, campanhas de prevenção e ações de cuidado direcionadas em saúde mental. Nesse caminho, integrar esses elementos é fundamental para garantir que o futuro da população brasileira não esteja em jogo, especialmente se considerarmos que os mais prejudicados e afetados por esse mercado são os jovens que possuem entre 18 e 24 anos, das classes C e D.
Se a pressa já marca o nosso tempo enquanto um sintoma psíquico, em que não há tempo para esperar, elaborar, sustentar a falta ou tolerar a frustração, a aposta oferece um atalho em um contexto onde o caminho parece longo demais ou simplesmente inacessível. E se podemos nos agarrar a algo que nos gere um outro tipo de satisfação, ainda que momentânea, talvez seja porque o presente tem sido vivido como um campo de sobrevivência contínua.
Nesse sentido, a verdadeira “virada” não está na aposta que promete tudo de uma vez, mas na construção lenta e compartilhada de condições de vida mais sustentáveis. Onde o prazer não precise vir do excesso, da urgência ou do risco constante, assim como um lugar em que o futuro não seja um jogo de sorte, mas um direito possível de ser vivido.
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Se você sentir que precisa de ajuda em relação a comportamentos impulsivos e vícios em jogos, saiba que não está sozinho(a) e que existem caminhos de cuidado. Conversar com alguém de confiança, buscar um profissional de saúde mental ou procurar os serviços públicos de saúde pode ser um primeiro passo importante. No Brasil, o CVV (188) oferece escuta gratuita 24 horas por dia, e as Unidades Básicas de Saúde e os CAPS são portas de entrada no SUS para acompanhamento e tratamento contínuos.


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