
Sobre o que se fala quando se fala de “cultura”? O que essa ideia significa?
Estas duas perguntas são portas de entrada para um território em disputa, sobretudo em relação ao que essa ideia representa. No grande mosaico de interpretações a seu respeito, há recortes que elaboram a ideia de cultura como um processo dinâmico e, por vezes, contraditório. Ela seria um “conjunto complexo de códigos” com características normativas, simbólicas de relações. O que isso quer dizer?
Quer dizer que uma cultura é composta por (ao mesmo tempo em que estabelece) regras de interpretação e atribuição de significados às coisas do nosso contexto, sejam elas naturais ou elaboradas socialmente. Ou seja, há regras (ditas e não ditas) de como os indivíduos se relacionam entre si e com as coisas que os cercam. Esta é a sua dimensão “normativa”.
Ela é, por outro lado, algo a mais do que regras e leis, porque isso significa afirmar que ela é um “todo coerente”. A ideia de “cultura” é também composta por uma dimensão simbólica, expressiva, que vai além do meramente técnico ou pragmático e que, na verdade, precede a validade e o reconhecimento de cada prática. Não se trata de algo inato aos indivíduos de determinado grupo, mas de elementos, práticas e comportamentos que são ensinados, aprendidos e reproduzidos, influenciando de volta as mesmas práticas e comportamentos.
Vamos dar um passo além do verbete. A ideia de “cultura” nos humaniza. “O espelho do Outro assola a consciência do século 20”, escreveram Gilberto Velho e Eduardo Viveiros de Castro, evidenciando o quanto somos constituídos por elementos alheios e estranhos a nós mesmos (e o quanto isso amplia nosso campo de visão no momento em que nos damos conta desse fato). Esse descentramento é fundamental e se mostra cada vez mais urgente em tempos nos quais os discursos e modos de reprodução de vida parecem insistir em sugerir que a experiência da vida e do mundo se realizam a partir e em função de um si-mesmo independente e autossuficiente. Está aí uma das grandes falácias do nosso tempo.
O contato com “a cultura”, pela via de suas manifestações (museus, cinemas, bibliotecas, ambientes de aprendizados, mas também as instituições que questionam e colocam em xeque estes tradicionais “lugares de saber”) têm por “função” nos evidenciar o mundo em que estamos inseridos. Gostemos ou não, a cultura se materializa ao nos (re)apresentar o repertório comum do qual participamos ativa e passivamente, de forma consciente ou involuntária. Buscar cultura como mera forma de uma espécie de “autodesenvolvimento”, de recursos de incremento de um self, parece ser uma forma de inversão que colabora com as diferentes formas de alienação, isolamento e hostilização que pautam um cotidiano adoecedor em diferentes níveis.
Um dos grandes trunfos de uma aproximação com as diferentes culturas que compõem e geram manifestações em uma sociedade tão complexa quanto a nossa parece ser mais fruto de uma consequência do que de uma intenção primeira. Esse contato aguça a sensibilidade de nossos olhares e escutas, permitindo a leitura e a atenção a entrelinhas antes despercebidas. Ele permite um estranhamento do familiar, trazendo outra vez a figura de Gilberto Velho, reduzindo a margem de uma espécie de soberba e de um cinismo em relação ao que por vezes julgamos entender a respeito do mundo e do Outro que assolou para sempre nossa consciência.
Mais que isso, esse contato nos devolve quase que à força algo que aqueles discursos e modos de reprodução de vida adoecedores que mencionei antes nos roubam: tempo, atenção, imaginação, presença e um reconhecimento da complexidade como algo constitutivo da experiência de vida (e, sobretudo, bem-vindo nela, não motivo de recusa).
Cada vez mais parece se concretizar um horizonte no qual a performance vai tomando conta de como nos relacionamos com a cultura (e se tornando um operador e um fator mais decisivo no que a constitui hoje). Quantos livros você leu, a quantas exposições e mostras foi, quantos certificados possui. Torne-se inteligente mais rápido, acelere seus aprendizados, memorize tudo para citar adequadamente depois, tornando-se a pessoa mais interessante da sala. Ao mesmo tempo em que vamos nos distanciando cada vez mais do comum, sentindo que o mundo faz cada vez menos sentido e que o outro é sempre uma ameaça. Um horizonte no qual o Eu vai invariavelmente se dissolver se não for protegido, alheio ao fato de que ele só existe mesmo aberto para fora de si.
Vale lembrar também (e sempre) dos versos de João Cabral de Melo Neto em Fábula de um Arquiteto:
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Pensando alto
Pela segunda vez consecutiva um artista brasileiro foi reconhecido em uma das mais importantes premiações do cinema mundial. Depois de Fernanda Torres, o ator Wagner Moura recebeu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama por sua atuação no filme “O Agente Secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, que venceu também a categoria Melhor Filme em Língua Não Inglesa. A premiação também se tornou parte de uma divisão de ânimos no país que, de um lado, reconheceu o valor da produção ao tratar de temas caros à memória coletiva do país e, de outro, reduziu os méritos a uma politização excessiva que motiva uma série de facilitações e preferências frente a outras pautas alegadamente mais relevantes.
Fato é que ela cumpre um papel importante dentro do território de disputa da nossa cultura: o fomento do debate. E nos aproxima também de um espaço de crítica. Por exemplo, o valor de um reconhecimento estrangeiro, que dentro desse debate crítico ora é exaltado, ora é desmerecido. Em tempos de flutuação do sentido de certo patriotismo, quando precisamos e reverenciamos a validação estrangeira sobre nossas manifestações culturais?
Mais que isso, esse tipo de debate nos chama a atenção para os elementos que nos constituem enquanto coletivo, aquele repertório comum que faz parte da arquitetura da nossa existência neste tempo e espaço específicos. Daí, um breve parênteses, a importância de um trabalho sobre uma perspectiva da memória. Esse resgate, ainda que sob uma lente muito específica, nos ajuda a identificar as marcas que sustentam nossa história.
E ainda mais interessante é o quanto essa situação nos revela que este processo não precisa acontecer pela via de um filme premiado internacionalmente. Pode acontecer pontual e constantemente no nosso dia a dia, pela janela ou pela rua. Não pela via do consumo, não pela busca desenfreada de compreender tudo, mas pela abertura para o atravessamento pelo Outro e pelo que nos é, num primeiro momento, estranho, diferente. Inaugura-se, aí, a possibilidade de entender o lugar de cada coisa e a relação que elas estabelecem entre si neste grande mosaico que nos constitui enquanto uma cultura que é, em si mesma, contraditória, dinâmica, complexa, avessa a definições estanques (assim como nós, que a elaboramos e somos por ela elaborados).
Indicações e referências:
- Antonio Candido. “O Direito à Literatura”. Em: Vários Escritos. Todavia, 2023.
- Eduardo Viveiros de Castro e Gilberto Velho. “O conceito de cultura e o estudo das sociedades complexas”. Artefato, Jornal de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, 1:4-9.
- Gilberto Velho. “Observando o Familiar”. Em: Individualismo e Cultura: Notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Zahar, 1981.
- João Cabral de Melo Neto. Poesia Completa. Alfaguara, 2020.

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