O eterno retorno é um dos principais conceitos da filosofia de Nietzsche, abordado pelo filósofo na obra Assim Falava Zaratustra (1885). Este conceito fala exatamente da ideia de que tudo o que se vive, cada escolha, dor, alegria, vai se repetir eternamente da mesma forma.
Se você soubesse que teria que reviver a sua vida, com todos os erros e acertos por infinitas vezes, escolheria agir exatamente como age hoje? Neste artigo, vamos entender o que é o eterno retorno, seus sentidos filosóficos e o que esse conceito realmente propõe.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
O eterno retorno como cosmologia
A cosmologia dentro do campo da filosofia, diz sobre o estudo da origem, da ordem do universo, ou seja, a busca das causas naturais em vez das justificativas sobrenaturais, místicas.
Então por que o eterno retorno pode ser entendido como uma cosmologia?
A professora Scarlett Marton, professora do curso Nietzsche: Vida, Obra e Legado, explica que Nietzsche pretende elaborar uma cosmologia e tem três elementos centrais para sua nova concepção do mundo:
- Conceito Vontade de potência
- Teoria das forças
- Doutrina do eterno retorno do mesmo
Contudo, essa nova perspectiva perpassa pela compreensão de Nietzsche, que rompeu com a ideia kantiana do homem como fim em si mesmo.
Portanto, Nietzsche propõe uma concepção do homem que está sempre em busca de superar a si mesmo. Com isso, rompe com valores do pensamento cristão, como a ideia de apocalipse (um fim), e traz a formulação de que a vida, o homem, tudo é uma transição.
Isadora Petry, professora do curso Nietzsche Fundamental , explica que na hipótese do eterno retorno do mesmo “a vontade não pode querer para trás, não pode quebrantar o tempo e o apetite do tempo”.
Entretanto, Petry explica que o maior sofrimento da vontade é que ela é prisioneira do tempo. Então o indivíduo que é capaz de afirmar o tempo da própria existência com tudo que a compõe também consegue se libertar das amarras da vontade.
“É isso que desencadeia o espírito de vingança. O ressentimento da vontade contra o tempo e aquilo que é a essência do tempo: a impermanência, a passagem, a transitoriedade, o fato de que somos poeirinha cósmica.”
Segundo Marton, Nietzsche acrescenta uma nova dimensão a esta interpretação cosmológica ao colocar que o eterno retorno do mesmo funciona como um chamado para que cada indivíduo reconheça e aceite a existência exatamente como ela se apresenta, assumindo um papel de provocação ética.
Mundo como jogo finito de forças em um tempo infinito
Para Friedrich Nietzsche, o universo não caminha rumo a um fim definitivo nem obedece a um tempo posto. Ele é formado por um conjunto diverso de forças e combinações possíveis.
A professora Scarlett Marton explica que Nietzsche compreende que força não é uma coisa, mas sim agir sobre outras forças. Essas forças são múltiplas, constituem o mundo e resistem umas às outras.
São essas forças que fazem com que o espaço exista, então, assim como as forças criam o espaço, elas também tecem o tempo. É nesse jogo de forças recorrentes que o filósofo traz o pensamento da doutrina do eterno retorno, como explica Marton.

“A força é finita, mas o tempo é eterno. À diferença da religião cristã, o mundo não foi criado em um determinado momento, não é uma criação divina, não teve início e nem terá fim. Todos os dados estão lançados. Temos aí os elementos necessários para formularmos o pensamento do eterno retorno.” — Scarlett Marton.
Sendo assim, se o tempo é infinito e as forças são finitas, os encaixes do mundo inevitavelmente se repetem. Nessa perspectiva, eterno retorno surge como consequência, isto é, tudo o que acontece já aconteceu e tornará a acontecer, incontáveis vezes.
Influência da noção grega de cosmo fechado e finito
Assim como os filósofos pré-socráticos, Nietzsche entendia o universo como um sistema fechado e finito, regido por ciclos repetitivos de geração e destruição. Consequentemente, essas forças necessariamente tinham de ser finitas.
Nietzsche resgata esse entendimento cosmológico, mas o ressignifica ao propor que não há finalidade moral nem progresso linear. O mundo não evolui para melhor, na verdade, ele se reorganiza constantemente dentro de seus próprios limites.
Desta forma, segundo Marton, o que se repete não são os acontecimentos possíveis, mas sim o que ocorreu de fato.
Retorno do mesmo, não do semelhante
Se o que acontece de fato são os acontecimentos reais, o que se repete não é um fato histórico específico, mas sim um ciclo cósmico que se repete inúmeras vezes, segundo Scarlett Marton.
E o que seriam esses ciclos cósmicos?
Marton explica que seria estar exatamente no mesmo dia e na mesma hora em determinado lugar falando sobre algo específico. Mas o eterno retorno não é o retorno de algo similar, mas sim eterno retorno do mesmo.
Ou seja, não é uma nova chance ou uma experiência parecida, é literalmente o mesmo, como ele aconteceu. Sendo assim, não se pode esperar uma evolução ou progresso, apenas a repetição do que já aconteceu sem alterações.
Por isso, é importante a compreensão de que o indivíduo deve agir no presente como se aquele exato momento fosse se repetir eternamente, porque ele irá se repetir no próximo ciclo cósmico.
Se o retorno fosse análogo ou similar, a experiência existencial seria enfraquecida, porque o sofrimento ou alegria vivenciados são eternos. Por isso, o conceito de amor fati está ligado ao conceito do eterno retorno, porque é dizer sim a própria existência.
“Aceitar que tudo retorna sem cessar. Aceitar que esta nossa vida, tal como a vivemos aqui e agora, ocorrerá um número infinito de vezes, é a maior afirmação da existência que o ser humano pode fazer.” Scarlett Marton
Essa radicalidade diferencia o eterno retorno de outras ideias que trazem a compreensão cíclica de um “novo começo”, como a da reencarnação. O eterno retorno é a reafirmação absoluta daquilo que já foi vivido.
O eterno retorno como exortação ética
Como apresentado anteriormente, o eterno retorno, que pode ser formulado como hipótese cosmológica, ganha uma perspectiva filosófica,sobretudo, em seu sentido ético.
Primeiramente, exortação significa aconselhar, encorajar e até mesmo advertir alguém a agir, a tomar uma atitude. Portanto, o eterno retorno como exortação ética seria, então, uma medida para avaliar se essa ação é digna de uma vida que merece ser revivida.
Tanto Isadora Petry quanto Marton, explicam que Nietzsche não tenta provar se o universo se repete de fato, mas ele procura compreender o efeito existencial dessa ideia. Sendo assim, o eterno retorno seria uma provocação à maneira como se vive e experiencia a vida.
E quando se aceita o cosmo finito e fechado, e um tempo infinito, a cosmologia se transforma em ética porque, como explica Marton, se o mundo é tudo que existe e ele irá retornar exatamente da mesma forma, cada ação, atitude empreendida ganha um peso imenso.
Por isso, o eterno retorno é o mais pesado dos pesos.
A professora Isadora Petry explica que ele é o peso da resposta à existência de cada indivíduo, portanto, “é o peso e unidade de medida capaz de selecionar e distinguir os homens entre aqueles que afirmam a vida e aqueles que negam a vida”.
Nietzsche apresenta esta ideia no parágrafo 341 de A Gaia Ciência, quando faz a metáfora do demônio que traz a seguinte questão: você viverá esta mesma vida infinitas vezes, você a amaldiçoaria ou a afirmaria com alegria absoluta?
Desta forma, aceitar o retorno significa afirmar a vida sem exceções, isto é, dizer “sim” aos momentos felizes, aos de dor, ao acaso e às limitações. Como explicado pela professora Scarlett Marton, trata-se de uma ética de afirmação.
“Aceitar que esta nossa vida, tal como a vivemos aqui e agora, ocorrerá um número infinito de vezes, é a maior afirmação da existência que o ser humano pode fazer.”
Assim, o eterno retorno como exortação ética não é uma lei moral externa, ele é uma proposta de reflexão sobre o quanto o indivíduo assume a postura de ser afirmar a própria vida.
Amor fati e afirmação da vida
Amor fati, para a filosofia de Nietzsche, atua como a resposta afirmativa ao pensamento do eterno retorno.
Se o eterno retorno apresenta a hipótese de que tudo na vida se repetirá infinitamente, o amor fati trata sobre a postura que o indivíduo deve ter frente à possibilidade do retorno.
“Amar aquilo que é necessário, amor fati, essa é a minha moral, transformar em bom para si tudo que acontece a despeito de sua origem terrível.” - Isadora Petry.
Segundo Petry, o ressentimento é o oposto imediato do amor fati, porque ele é uma aceitação do que a vida oferece, sem extrair o máximo e amá-la de fato. Enquanto o amor fati é compreender que cada experiência é uma parte indispensável da formação de quem se é.

“[...] o eterno retorno do mesmo se torna a profecia pela qual se redime o problema da promessa vinculado ao sentimento de culpa. É uma profecia a qual se quer dizer sim, é uma promessa que queremos cumprir por afirmar a vida e não por negá-la.[...] Então o amor fati e o eterno retorno simbolizam portanto o oposto da doença do ressentimento.[...]” — Isadora Petry.
Sendo assim, afirmar a vida é amar de fato o seu destino a ponto de que não se tenha receio do eterno retorno do mesmo.
Crítica à culpa, à imputação e ao livre-arbítrio
Nietzsche faz uma crítica à culpa e ao livre-arbítrio trazidos pelos valores e moral cristã que construíram a base da cultura ocidental. Para o filósofo, a tradição moral ocidental se sustenta na ideia de um indivíduo livre e plenamente responsável pelos seus atos.
Entretanto, essa compreensão, para ele, como explica Scarlett Marton, transfere uma culpa para o sujeito, como se cada ação fosse resultado de uma vontade própria que não sofre interferência do contexto da vida.
“[...] Nietzsche dirá que não é porque a interpretação cristã do mundo entrava em decadência, que não era possível criar uma outra interpretação do mundo, e esta outra sem dúvida, mais saudável do que a interpretação cristã.” - Scarlett Marton
Nietzsche, então, entende que a culpa está diretamente ligada ao ressentimento, Petry explica que “o tema do ressentimento é vinculado de modo estreito à formação da má consciência e aos temas de culpa e castigo, memória e promessa.”
Isto é, sujeitos que se veem impotentes frente os acontecimentos da vida criam organizações morais que julgam e responsabilizam o outro. Portanto, a imputação moral é uma construção social que transforma as frustrações em julgamento.
“amor fati e eterno retorno do mesmo se ligam ao problema da imputação. Portanto, também da culpa e do castigo, que Nietzsche desenvolve de modo muito profundo em genealogia da moral. Ou seja, em que medida eu sou de fato responsável pelas minhas ações e o que significa o livre-arbítrio?” - Isadora Petry
Contudo, o eterno retorno traz uma perspectiva diferente ao afirmar que a repetição do mesmo desloca a ideia de culpa do indivíduo.
“Não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo, mas não existe nada fora do todo. O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa-prima, a uma causa-primeira, de que o mundo não é uma unidade, nem como sensório, nem como espírito. Apenas isto é a grande libertação.” - Isadora Petry
Sendo assim, como explica Petry, o eterno retorno seria uma redenção do sentimento de culpa e do próprio ressentimento. O eterno retorno seria, então, uma ferramenta para dissolver os nós da culpa, porque a existência é um processo contínuo de transformação que deve ser afirmado (amor fati) e não julgado.
O que o eterno retorno NÃO é:
O conceito de eterno retorno muitas vezes é interpretado de forma equivocada, e entender o que ele não é também é uma forma de compreendê-lo.
Resumidamente, o eterno retorno não é:
- uma crença religiosa: não propõe fé em uma unidade sobrenatural;
- uma promessa de redenção: ele não aponta para uma salvação futura, mas é uma caminho para encontrar uma remissão da culpa e do sofrimento
- uma ideia de progresso histórico: ele não propõe uma evolução linear da humanidade, por que não existe um sentido final da história. Mas sim um movimento de repetição;
- um consolo existencial: uma vez que propõe o indivíduo a ideia da repetição total e cíclica dos eventos da vida;
- uma ideia motivacional: o eterno retorno não busca inspirar otimismo raso, mas a busca de um novo sentido para existência humana.
Por fim, o eterno retorno é um convite para reflexão sobre: você toparia viver momentos da sua vida repetidamente? Ao dizer “sim”, você estaria afirmando desde os fatos luminosos aos mais dolorosos. Mas a verdadeira afirmação é quando se aceita, com amor, tudo aquilo que existir significa.
Perguntas frequentes sobre o eterno retorno de Nietzsche
O que é o eterno retorno de Nietzsche?
O eterno retorno de Nietzsche é a ideia de que tudo na vida se repete infinitamente. Funciona como provocação ética para se viver de modo que se deseje essa mesma existência repetidas vezes.
O eterno retorno é uma teoria científica?
Não. O eterno retorno é uma hipótese cosmológica e, sobretudo, um experimento filosófico. O objetivo principal não é provar cientificamente a repetição do universo, mas provocar reflexão sobre como vivemos e se repetiremos a maneira como vivemos.
Qual a relação entre eterno retorno e amor fati?
Amor fati é a resposta afirmativa ao eterno retorno. Isso significa amar o destino e desejar que tudo se repita exatamente como ocorreu, afirmando a vida sem rejeitar dor, erro ou sofrimento.
Referências:
Curso Casa do Saber: Nietzsche: Vida, Obra e Legado | Com Scarlett Marton
Curso da Casa do saber: Nietzsche Fundamental | Com Isadora Petry




