Filosofia

Nietzsche e a Transvaloração dos Valores: entenda o conceito

Nietzsche e a Transvaloração dos Valores: entenda o conceito

Transvaloração dos valores é o processo crítico de reavaliação dos valores tradicionais, no qual se propõe criar novos valores.

Para Friedrich Nietzsche, “Umwertung”, transvaloração, não significa inverter o bem e o mal, mas questionar sua origem, revelando como valores estabelecidos, em especial os da moral cristã, foram historicamente construídos.

Sendo assim, trata-se de criar valores de afirmação da vida, rompendo com padrões já pré-estabelecidos e permitindo novas formas de existência.

Neste artigo, vamos entender o que é a transvaloração dos valores, sua relação com o niilismo, como ela se diferencia da genealogia e de que forma esse conceito pode ser aplicado na atualidade.



O problema que leva à transvaloração: o niilismo

Nietzsche viveu em um contexto de profundas transformações que abalaram os valores do Ocidente, como os primeiros passos do fascismo e do pensamento antissemita, e o declínio da fé religiosa.

Ao mesmo tempo, a ciência positivista ganhava força, mas sem oferecer respostas para o sentido da existência. Portanto, sua filosofia se desenvolve em um contexto de grandes crises: econômica, social, religiosa e humana.

Esse era um momento de autorreflexão, em que se percebia uma ausência de sentidos e valores, característica do niilismo, como explica Scarlett Marton, no curso Nietzsche: Obra, Vida e Legado.

Retrato de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX
Friederich Nietzsche, filósofo alemão conhecido pela famosa frase “Deus está morto”.

Primeiramente, para entender como Nietzsche trouxe o termo niilismo para a sua filosofia, é preciso esclarecer o que é niilismo.

O niilismo é uma corrente filosófica que surgiu no século XVIII. Ela propõe que a vida não tem sentido e valores universais. Portanto, é uma descrença na tradição, que é entendida como uma forma de ilusão para suportar a vida.

Nietzsche trouxe o conceito de niilismo para a sua filosofia de forma mais robusta em seu livro Genealogia da moral. Isadora Petry explica que para Nietzsche “o niilismo diz respeito a uma experiência do nada, a sensação da falta de sentido e vazio, portanto, náusea e angústia.”

Capa do livro Genealogia da moral, de Friedrich Nietzsche, com fundo vermelho e tipografia estilizada
Livro Genealogia da Moral (1887), de Friedrich Nietzsche

Além disso, Nietzsche entendia que o niilismo pode ser ao mesmo tempo uma força destrutiva, ao negar valores estabelecidos; e criadora , ao abrir espaço para a formação de novos valores.

Para o filósofo, o niilismo pode se manifestar de forma passiva ou ativa.

“O niilismo ativo representa tanto as condições de possibilidade de saída do niilismo, dado que o espírito, como diz Nietzsche, se encontraria, nesse caso, forte o suficiente para rejeitar as metas, as respostas, que não se encontram no mesmo grau do seu espírito. […]

O niilismo passivo, por outro lado, a força já é insuficiente sequer para destruir os velhos valores, ou seja, as possibilidades de transformação ficam paralisadas”. - Scarlett Marton

Marton explica que, quando o sujeito reconhece a ausência de propósito e mergulha nesse sentimento, ele reconhece que “Deus está morto”, indicando não a morte literal, mas a perda de crença nos valores tradicionais.“É importante esclarecer que a morte de Deus não é o niilismo, ela é apenas o aprofundamento do niilismo.”

Sendo assim, é nesse momento que surge a necessidade da transvaloração, não como retorno aos antigos fundamentos, mas como uma resposta à crise na capacidade de criar novos valores.

Genealogia e transvaloração: qual a diferença?

De acordo com Friedrich Nietzsche, genealogia e transvaloração são movimentos diferentes, ainda que os dois estejam relacionados.

Isadora Petry explica, no curso Nietzsche Fundamental, que “todo valor possui uma genealogia, portanto uma história […] é a tarefa preparatória para a transvaloração […] ela vai incidir justamente na pergunta sobre o valor dos valores”.

Como Petry esclarece, para Nietzsche os valores são uma perspectiva que o indivíduo tem sobre o mundo e sobre a própria existência. E essa ideia do perspectivismo é fundamental para entender a transvaloração, que vem do alemão, umwertung.

Genealogia x transvaloração: entendendo a diferença

Primeiramente, vamos diferenciar genealogia e transvaloração de Nietzsche.

A genealogia é um método crítico de investigação que rastreia a origem dos valores, evidenciando que eles não são universais e nem eternos, mas produtos históricos.

Já a transvaloração é uma mudança de valores, “um movimento de transformação da própria estrutura do pensamento e do ato de criar valores”, como explica Isadora Petry.

Sendo assim, a principal diferença está no fato de que a genealogia é um diagnóstico de si mesmo desprovido de qualquer julgamento moral; enquanto a transvaloração seria a resposta a essa crise de valores a partir da criação de novos valores, sendo nomeada por Nietzsche como tarefa central da sua filosofia.

Juntas, elas compõem uma reflexão que parte da crítica à criação própria.

O que significa transvalorar?

Após entender a importante diferença entre genealogia e transvaloração, o que significa, então, transvalorar?

Transvalorar não significa simplesmente inverter hierarquias já existentes, como colocar o corpo acima da razão ou a terra acima de qualquer além. Esse entendimento reduziria este conceito a uma troca de posições dentro de uma mesma estrutura que ele pretende superar.

Sendo assim, transvalorar é algo mais radical: é modificar a si mesmo, questionar os valores e critérios que fazem crer que algo é bom ou mau.

“Transvalorar é, antes de mais nada, destruir ídolos, demolir alicerces, dinamitar fundamentos.” - Scarlett Marton.

A sociedade ocidental é construída a partir de uma moral marcada por dualismos, como verdadeiro e falso; bem e mal; corpo e alma.

Como exemplifica Petry, na tradição dogmática metafísica e na judaica-cristão, hierarquicamente, o corpo iria para cima - onde se encontram a alma, a razão, portanto, numa posição elevada. Mas Nietzsche não fala sobre isso.

Para Nietzsche, o corpo é a grande razão, é sobre não negar a razão ou rebaixá-la em detrimento do corpo, transformando a visão que até então se tinha dessa ordem ocidental.

“Muitos traduzem [umwertung] em Nietzsche erroneamente por hierarquia, pois se trata justamente de um ordenamento de posições, de um escalonamento, em que não há um julgamento moral acerca do que deve estar acima e do que deve estar abaixo, mas sim de relações de força” - Isadora Petry.

Desta forma, a transvaloração rompe com essa maneira de pensar ao recusar oposição e a hierarquização.

Assim, transvalorar é reconfigurar os valores, permitindo que cada sujeito crie suas formas de existência que não são dependentes da negação ou de categorias fixas.

Dimensão histórica e dimensão subjetiva

A transvaloração dos valores atua simultaneamente na dimensão histórica e subjetiva, o que a torna, portanto, um movimento da esfera cultural e da esfera subjetiva, como explica Isadora Petry:

“Nietzsche elabora a transvaloração dos valores a partir de uma dupla perspectiva, tanto do ponto de vista histórico e cultural, quanto do ponto de vista da saúde individual, ou seja, do sujeito.” - Isadora Petry

Quando Nietzsche diz que o problema da sociedade moderna é o problema do sujeito atravessado pelo mal-estar e pelo sofrimento do seu tempo, não é uma crítica apenas ao mundo externo, mas do enfrentamento dos problemas internos que também têm consequências para o sujeito.

Quanto à perspectiva histórica, Nietzsche retoma os gregos, criticando o dogmatismo filosófico. Segundo Petry “a transvaloração, nessa perspectiva, significa o gesto de reposição da primeira transformação efetuada por Platão, que se deu com a negação da perspectiva”.

Então, a proposta de nietzschiana é a transvaloração de todo um processo dogmático do pensamento que entende a vida como um conjunto de leis fixas e universais.

Assim, Nietzsche rompe com a cultura que se desenvolveu a partir deste pensamento grego, inclusive o cristianismo, e propõe a transvaloração como uma tarefa de tornar-se o que se é.

Isso exige um enfrentamento dos ressentimentos que permeiam a moral tradicional ocidental, que é marcada pela negação, culpa e reatividade. Sendo assim, superar o ressentimento seria abandonar os valores impostos e assumir o caráter criador de valores.

Portanto, como explica Isadora Petry, quando Nietzsche diz que “é preciso ser o primeiro psicólogo das profundezas para ser capaz de transvalorar valores em si mesmo”, ele está dizendo que a transvaloração seria uma espécie de cura, o que está relacionado à noção de transformação subjetiva, de acordo com Isadora Petry.

Transvaloração e criação de valores

Como dito anteriormente, a transvaloração dos valores está diretamente ligada à criação de novos valores, a um processo de afirmação da vida.

“A transvaloração, então, não tem nada a ver com substituir valores antigos por novos valores que ainda pretendem se manter como absolutos, ou seja, apenas trocando velhos valores por novos.

Ela tem a capacidade de situar-se continuamente no movimento de suspeita de si mesmo, tarefa ao mesmo tempo investigativa e criativa, que tem a ver com tornar a sua própria vida uma obra de arte” - Isadora Petry

Desta forma, esse movimento implica reconhecer que os valores não são dados, mas criados, e que sua legitimidade depende da capacidade do indivíduo de experienciar a vida. Em vez de negar o conflito e a diferença, a criação de valores os coloca como elementos constitutivos.

Na transvaloração não existe um conjunto definitivo de valores, que tenta impor o que é certo, mas ela é um processo contínuo de criação e revisão de valores do indivíduo conforme a vida vai acontecendo.

Isso permite formas de existência mais livres, nas quais o valor não é herdado e nem imposto, mas construído continuamente em relação às forças que constituem cada experiência.

O que a transvaloração não é

A transvaloração é um conceito específico que exige uma compreensão do seu sentido para desmistificar alguns mal-entendidos e não confundir com outras ideias já conhecidas.

Relativismo moral

Para Nietzsche, a transvaloração não é a mesma coisa que relativismo moral, porque ela não nega as verdades absolutas, na verdade, ela exige que o sujeito faça uma avaliação dos valores segundo sua potência de afirmar a vida.

Mera destruição

Também não se trata de mera destruição dos valores existentes, já que ela propõe a criação de valores próprios.

Troca de valores antigos por novos ídolos

A transvaloração não é sobre substituir valores antigos por novos ídolos, porque isso manteria a mesma lógica dogmática. Sendo assim, o objetivo é a transformação da própria engrenagem da estrutura moral.

Ideologia política

Transvaloração não é uma ideologia política, mas sim um processo filosófico que faz parte da cultura e da subjetividade, sem se prender a sistemas políticos.

Atualidade da transvaloração

A força crítica da filosofia nietzschiana é tão grande que ela ainda pode ser aplicada nos dias atuais. Dentro do contexto da transvaloração, quando o filósofo faz uma análise dos valores vigentes e do espírito de rebanho, ele antecipa reflexões sobre a massificação, mostrando como modos de pensar e agir se tornam homogêneos e pouco questionados.

Além disso, ele também traz a questão do ressentimento, que é entendido como a força que move os indivíduos e grupos a agir por negação, medo ou rivalidade, instigando o ódio e o espírito de vingança.

“Ressentimento esse que nós vemos expresso cotidianamente na nossa sociedade por aqueles que, tendo uma determinada posição, receiam outras camadas sociais que podem vir a granjear a mesma posição.” - Scarlett Marton.

Nesse sentido, Nietzsche pode ser encarado como um pensador extemporâneo, palavra que ele mesmo apreciava, como traz Petry. Portanto, alguém capaz de ultrapassar o seu tempo e oferecer possibilidades de interpretações do próprio e do tempo vigente.

Perguntas frequentes sobre transvaloração dos valores

O que significa transvaloração dos valores?

Translação dos valores é um conceito fundamental da filosofia de Nietzsche que propõe o questionamento dos valores tradicionais ocidentais (cristãos) e a criação de novos valores por meio da mudança da estrutura do pensamento.


Transvaloração é o mesmo que inverter valores?

Transvaloração não é apenas inverter valores. Para Nietzsche , transvaloração é inverter a moral tradicional, mas superá-la a partir da criação de novos valores baseados na afirmação da vida.


Qual a diferença entre genealogia e transvaloração?

A genealogia é um método de investigação sobre a origem dos valores. Já a transvaloração é a reavaliação dos valores tradicionais e a criação de novos valores baseados na afirmação da vida.


Nietzsche queria destruir todos os valores?

Não, Nietzsche não queria destruir todos os valores. Na verdade, o seu objetivo era a transvaloração dos valores (umwertung aller werte) tradicionais ocidentais, os quais foram constituídos segundo o cristianismo, e criação de novos valores.


Qual a relação entre transvaloração e niilismo?

Para Nietzsche, a transvaloração seria uma resposta ao niilismo. Enquanto niilismo seria uma negação total do propósito e dos valores tradicionais, a transvaloração seria a criação de novos valores.





Referências:

Curso da Casa do saber: Vida, Obra e Legado | Com Scarlett Marton

Curso da Casa do saber: Nietzsche Fundamental | Com Isadora Petry

Artigo escrito por
Paula Delgado
Jornalista pela UFJF, mestra e doutoranda em Comunicação pela mesma instituição, integra o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo Audiovisual (NJA).