Quais livros de filosofia escolher para começar? Não existe uma única resposta ou um percurso obrigatório. Neste artigo, você vai conhecer alguns pontos de partida e caminhos possíveis para se aproximar da filosofia e construir seu próprio percurso de leitura.
Por onde começar a estudar Filosofia?
Essa é uma das perguntas mais comuns quando pensamos em estudar Filosofia. Afinal, são tantos livros, autoras e autores, escolas e ideias que é fácil se perder. E quem escolhe se aventurar por esses caminhos se depara imediatamente com palavras novas. Quer ver?
Epistemologia. Axioma. Metafísica. Gnosiologia. Imperativo categórico. Ceticismo.Empirismo.Idealismo. Dialética. Você não usa essas expressões no cotidiano – exceto, claro, se estuda Filosofia. Para todas as outras pessoas, é como aprender uma língua estrangeira.
Se você já andou pelas proximidades da Filosofia, talvez tenha ultrapassado esse espanto inicial e visto algumas expressões famosas. Pode ser o “Só sei que nada sei”, ligada a Sócrates, “Penso, logo existo”, escrito por Descartes, ou “Deus está morto” , associada a Nietzsche.
Um passo adiante e você pode ter associado seus autores a alguma escola de pensamento. Por exemplo, “Descartes era idealista” ou “Nietzsche era niilista”.
Essas aproximações podem ser o suficiente para um contato inicial. Mas você pode ter sentido a necessidade de ir mais longe no estudo da Filosofia para sair da superfície.
Existe um caminho para responder essa demanda: o contato com as próprias obras. Não existe desvio ou atalho, não tem rota mais curta. E é exatamente nesse momento que, diante da multidão de livros existentes de filosofia e sobre a filosofia que vem a dúvida: “Por onde eu começo?”
Quais são os melhores livros para quem começar a ler Filosofia?
Não existe um único livro ideal para iniciar na Filosofia. A Filosofia, por sua natureza, talvez desconfie de uma lista fechada como “leia estes livros para começar a estudar”.
Por outro lado, não seria legal um texto chamado “Por onde começar a estudar Filosofia?” não responder a essa pergunta, já que você provavelmente chegou aqui procurando justamente essa informação.
Livros de Filosofia para quem quer começar a estudar
Por isso, apesar das ressalvas e outras trilhas que vou propor adiante, compartilho aqui alguns pontos de partida – e, desde já, existem outros.
| Se você procura... | Pode começar por... |
|---|---|
| Uma visão geral | Iniciação à História da Filosofia |
| Um clássico | O Banquete |
| Filosofia moderna | Discurso do Método |
| Compreender melhor o amor | Tudo sobre o Amor |
Iniciação à História da Filosofia, Danilo Marcondes
Uma apresentação completa e sistemática das principais ideias e períodos da Filosofia, é simples sem ser esquemático ou simplista, mostrando as várias portas de entrada para o conhecimento do assunto.
Fédon, Platão
O livro narra a morte de Sócrates, condenado por suas ideias, entrelaçando esse episódio sobre uma discussão sobre esperança, política e o significado da vida.
O Banquete, Platão
Ao redor de uma mesa, personagens discutem a essência do amor. Cada uma delas apresenta sua concepção em um discurso sobre o tema – não há uma conclusão, porque não seria possível fechar uma discussão dessas. Vale mais o caminho do que o resultado.
Discurso do Método, René Descartes
Mostra como a experiência do autor o levou a reformular as bases do conhecimento humano. Descartes escreve em primeira pessoa e traz a ideia da filosofia como parte de uma reflexão bastante pessoal.
Tudo sobre o amor, bell hooks
A experiência das várias formas do amor trabalhadas no livro mostra como esse sentimento, para além de qualquer romantismo, está entrelaçado com nossa biografia – e nossa época – no sentido de aprender o significado de amar.
Dicas para encontrar seu caminho na leitura da Filosofia
- Você não precisa entender tudo na primeira leitura: a busca contemporânea pela perfeição parece tornar qualquer dificuldade em um imenso fracasso – e a pessoa pode rapidamente se sentir uma impostora. Não tenha medo de não entender, buscar leituras e vídeos de apoio. No limite, não tenha medo de desistir da leitura. Talvez não seja o momento.
- A filosofia conversa com a vida: procure livros que lidam com suas buscas no atual momento de vida. Filósofas e filósofos foram pessoas reais e, em muitos casos, enfrentaram problemas como os seus.
- Não tenha medo de começar pelo mais simples: várias autoras e autores, na Filosofia, fizeram resumos de suas próprias obras. Nenhum problema em começar por eles ou buscar versões mais simples. O conhecimento pode vir aos poucos.
- Leia textos, não os rótulos: às vezes vamos para a leitura com o espírito preparado, esperando encontrar os rótulos (“esta filósofa é materialista” ou “este autor é existencialista”). Isso às vezes coloca a obra em uma caixa que pode mais atrapalhar do que ajudar a leitura.
- Procure o contato direto com os textos, com autoras e autores: sempre que possível, tente ler o original. Às vezes pode ser mais simples que comentaristas. Vídeos e leituras de apoio ajudam, mas não substituem o contato com os textos em si.
- A leitura filosófica requer tempo: a velocidade contemporânea pode gerar a ansiedade de “terminar logo” uma leitura e passar para outra. Na filosofia, leia no seu tempo, no tempo do livro e da experiência. Não é uma competição.
- Há muitos estilos de escrever filosofia: desde exposições densas até aforismos quase soltos, autoras e autores deram muitas formas ao seu pensamento. Encontre um estilo adequado ao seu gosto.
Tipos de escrita filosófica
| Autoria | Obra | Tipo de escrita | Característica |
|---|---|---|---|
| Platão | O Banquete | Diálogo | Apresenta várias personagens discutindo um assunto, cada uma a partir de seu ponto de vista. |
| Tomás de Aquino | Suma contra os gentios | Exposição | Coloca uma questão, apresenta argumentos prós e contras, termina com uma demonstração. |
| Descartes | Discurso do Método | Percurso intelectual | Percurso intelectual do autor, sua desilusão com saber de sua época e a formulação do princípio “penso, logo existo”. |
| Spinoza | Ética | Demonstração | Proposições curtas, seguidas de comentários e demonstrações do que foi dito. |
| Montaigne | Os Ensaios | Ensaio | Trechos de poucas páginas, cada um deles se aproximando de um tema |
| Marx e Engels | Manifesto Comunista | Manifesto | Argumentação cerrada em torno de um tema central, em uma linguagem direta ao ponto. |
| Nietzsche | A Gaia Ciência | Aforismos | Parágrafos curtos, ou mesmo frases soltas, condensando suas principais ideias. |
| bell hooks | Tudo sobre o amor | Reflexão biográfica | Situações vividas se entrelaçam com a reflexão filosófica. |
Agora que já deixei alguns caminhos possíveis na jornada pelos livros de Filosofia, vou tentar te explicar porque é melhor você não segui-los de forma automática.
Explore as obras e o pensamento de grandes nomes da filosofia com a orientação de referências brasileiras na área. As trilhas da Casa do Saber percorrem autores, correntes filosóficas e diferentes formas de pensar e viver, ampliando o repertório e complementando a leitura dos livros.
Conheça os cursos
📖 Leia mais: Conheça os principais filósofos da história
O problema das listas na Filosofia
A maneira mais fácil seria apresentar uma lista, talvez um breve comentário sobre cada livro e terminaríamos por aí. Mas a Filosofia faz perguntas, e a primeira seria “como organizar essa lista?”.
Em perspectiva histórica, começando pelos Pré-Socráticos e terminando pelos Pós-Modernos? Ou dividindo em temáticas, recomendando uma obra sobre cada tema principal da Filosofia? Digamos, começando com a Teoria do Conhecimento, passando pela Ética e terminando na Estética. Ou, para quem gosta de pratos mais fortes, começar pela Metafísica e chegar até a Desconstrução.
A relação de livros teria muitas vantagens. É rápida de ler, fácil de localizar na própria internet, o algoritmo ajudaria a conhecer, uma inteligência artificial poderia fazer o resumo de cada obra.
Mas há alguns riscos nisso. Primeiro, repetir aqui o que você já conheceria por outros meios. Segundo, engessar o seu caminho pela Filosofia apresentando obras “importantes” ou “obrigatórias”. Finalmente, correr o risco de você ler uma das obras recomendadas, não gostar e desistir das outras.
Por isso, no lugar de uma lista pronta e acabada, sugiro uma espécie de manual, ou melhor, um anti-manual: como escolher seu próprio caminho, assim como escolhi o meu. São dicas para montar seu percurso filosófico pautado pela curiosidade e pela vontade de conhecer.
Sentir antes de entender - a melhor forma de escolher seu primeiro livro de Filosofia
Comecei a ler Filosofia pelo caminho errado. Mas, um momento, existe um caminho certo? Talvez seja melhor trocar “errado” por “indireto”. Cheguei às leituras filosóficas por conta da astronomia e da música – e conto isso para indicar que não existe uma trilha única para a Filosofia. Podemos chegar nela pelos caminhos mais inesperados.
Quando criança, Astronomia era uma das minhas maiores paixões. Esse encanto só aumentou quando assisti a série “Cosmos”, de Carl Sagan, transmitida pela televisão em 1983. Por conta disso, meus pais me levavam com frequência ao Planetário Municipal de São Paulo.
Uma das músicas da trilha sonora da apresentação era “Assim falou Zaratustra”, do compositor austríaco Richard Strauss. (É também parte da trilha de 2001: Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrik, como vim a saber anos depois).
Consegui o disco com a música e alguns dados sobre o autor, mas nada muito além disso. Naqueles tempos pré-internet, obter essa informação dessas poderia demorar anos. Foi só muito tempo depois, quando já estava com treze anos, que soube da origem da composição de Strauss: era Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche. Nessa época estava começando a frequentar sebos, e, em uma dessas visitas, encontrei o livro.
Dificilmente esse seria o primeiro livro recomendado para começar na Filosofia. Para sorte minha, não sabia disso e mergulhei na leitura apenas com a curiosidade de quem procurava, naquelas ideias, a inspiração de uma música ligada às estrelas.
O livro me atingiu como uma avalanche. Não tinha uma “história” como nas narrativas literárias que gostava de ler. Mas havia algo, força. Mais do que entender, senti as frases. Provavelmente entendi muito pouco do conteúdo profundo do livro, mas algo ficou: é importante sentir o que você está lendo, sem a preocupação inicial em entender tudo. Até porque a gente nunca “entende tudo” sobre um assunto.
O impacto físico e afetivo de Assim falou Zaratustra ensinou algo fundamental para gostar da filosofia: não era um exercício intelectual, era uma aventura afetiva.
Nos anos seguintes a literatura voltou a ocupar o primeiro lugar nas leituras e a Filosofia só voltou algum tempo depois.
📖 Leia mais: Como criar o hábito de leitura de forma prazerosa
A experiência da sistematização
Quando entrei na faculdade de Comunicação Social, em 1995, comecei a sentir falta de um conhecimento mais sistemático. Um estilo livre de aprendizagem pode ser desafiador, mas pode deixar consideráveis lacunas no conhecimento.
Por isso, já em conversas com professoras e professores, com amigas e amigos, comecei a pensar em como ter uma perspectiva mais organizada. Em muitas das matérias, a trilha começava por sua história. Decidi então procurar um livro de história da Filosofia.
“Procurar”, naquele momento, significa ir fisicamente até uma livraria. Nada de aplicativos, nada de algoritmos. Em um sebo no centro de São Paulo, encontrei uma História da Filosofia, do estadunidense Will Durant.
Era de 1935 e estava, literalmente, caindo aos pedaços. Mas atendia duas condições: era uma História da Filosofia e o preço cabia no meu bolso de estudante. (Detalhe: fui o terceiro dono do livro. A página inicial o nome dos donos anteriores, quase ilegíveis, mas as datas, 1935 e 1951, apareciam nítidas. Não resisti e coloquei “Luís Mauro Sá Martino, 1995”).
A explicação direta ao ponto das principias ideias da Filosofia, feitas por Durant, foi uma porta de entrada importante. Aprendi outra lição: não ter medo de começar pelo mais simples.
Os capítulos curtos, acompanhados de dados biográficos de cada filósofo, despertavam a curiosidade – uma obra complicada poderia, naquele momento, tirar o encanto da Filosofia. Complicações desnecessárias podem tirar o encanto de qualquer aprendizado.
📖 Leia mais: Por que (ou para que) aprender filosofia?
A proximidade da filosofia
Por coincidência, e também porque o preço estava bom, pouco tempo depois encontrei Aforismos sobre filosofia de vida, de Arthur Schopenhauer. “Filosofia de Vida”, o que seria isso? O livro era muito diferente daquele de Nietzsche, mas igualmente provocador. E, bom, trazia algo inesperado: conselhos para viver bem (“bem” na perspectiva de Schopenhauer, bem entendido).
Naquele momento, a leitura parecia falar diretamente comigo. E tive um novo aprendizado sobre leituras filosóficas: a filosofia conversa com a vida. O filósofo francês Michel de Montaigne, por exemplo, fala de algumas de suas preferências culinárias em seu livro Os Ensaios.
Assim como no caso de Assim falou Zaratustra, o encanto com a Filosofia nasceu da maneira como encontrei com ela. No lugar de uma apresentação solene (“esta é uma obra fundamental da filosofia”), tive contato com ideias.
Em vez de ler a partir de rótulos (“Leibniz é otimista”, “Schopenhauer é pessimista”; “Nietzsche é trágico”), veio o contato direto com as propostas.
Essa perspectiva mostrou outros pontos importantes: procurar os textos, com autoras e autores. E um complemento: tentar ler os textos, não os rótulos. Às vezes, saber que um livro é “clássico” cria uma aura solene de medo e distância.
📖 Leia mais: Conheça as principais correntes filosóficas
Ler, entender, reler as obras filosóficas
Entendi tudo que li? Não, certamente não. Não naquela época. Talvez nem hoje em dia. Provavelmente nunca haverá um entendimento definitivo de nenhum desses textos.
E isso é bom.
Primeiro, tira a obrigação de entender tudo de uma vez e resgata o encanto da descoberta, do ato de desvelar um texto aos poucos, elaborando a reflexão. O que aprendi? O texto filosófico requer tempo e, além disso, você não precisa entender tudo na primeira leitura. Não há necessidade de fazer disso uma competição em redes sociais sobre o número de livros lidos.
Segundo: uma obra filosófica costuma ter várias camadas de sentido, reveladas ao longo do tempo. Voltei a ler Assim falou Zaratustra, de Nietzche, bem depois dos trinta anos. O livro não tinha mudado, mas meus olhos de adulto, casado e com um filho pequeno eram diferentes do olhar aos treze anos interessado em uma obra ligada à música.
As várias escritas filosóficas
Outro aprendizado sobre a leitura de textos filosóficos também aconteceu por conta da música. Em uma biografia do compositor Gustav Mahler, o autor Michael Kennedy citava um trecho de O Banquete, de Platão, sobre o amor.
Eram poucas frases, mas traziam uma afirmação consteladora: “o amor é um desejo de procriação no Belo”. Bem diferente das definições da literatura ou da poesia. E, espere um minuto, filosofia podia falar de amor? Parecia muito bom para deixar passar e, novamente em uma busca em sebos, encontrei uma edição do livro.
Precipitado, folheei na loja mesmo as páginas buscando essa definição até encontra-la no discurso de Diotima, professora de Sócrates. Outra surpresa: personagens? Em um livro de filosofia? E então foi possível notar um outro ponto: há muitos estilos de escrita na filosofia.
Encontre o seu caminho
Este é um caminho em curso. Até hoje a sequência nunca parou. E esses critérios, encontrados de maneira quase acidental, continuam fazendo da leitura filosófica uma aventura.
A perspectiva de ler filosofia e construir um olhar sempre renovado para a realidade segue intensa e desafiadora como sempre. O conhecimento não é apenas algo que se sabe, é algo que se vive, e o contato, quase um confronto, com a leitura filosófica torna essas vivências mais interessantes.
Perguntas Frequentes
Por onde começar a ler filosofia?
Não existe um único caminho. O ponto de partida pode surgir de um tema, autor ou questão que desperte sua curiosidade.
Quais livros de filosofia são indicados para começar?
Alguns pontos de partida possíveis são Iniciação à História da Filosofia, Fédon, O Banquete, Discurso do Método e Tudo sobre o amor.
Preciso entender tudo na primeira leitura?
Não. A leitura filosófica requer tempo, e uma mesma obra pode revelar novas camadas a cada releitura.
É melhor começar por livros mais simples de filosofia?
Pode ser um bom caminho. Começar por uma obra mais acessível pode despertar a curiosidade e facilitar o contato com ideias mais complexas posteriormente.
Existe uma ordem certa para ler filosofia?
Não. É possível construir um percurso próprio a partir dos seus interesses, em vez de seguir uma sequência preestabelecida.
Vale a pena ler diretamente as obras dos filósofos?
Sim. Leituras e vídeos de apoio podem ajudar, mas não substituem o contato direto com os textos sempre que ele for possível.

Verifique sua conexão e tente novamente.

.webp)

