Psicanálise

Idealização na psicanálise: por que idealizamos o outro?

Idealização na psicanálise: por que idealizamos o outro?

Por que algumas pessoas parecem perfeitas para uns e totalmente comuns para outros? Situações assim, tão presentes no cotidiano, ajudam a entender a idealização na psicanálise, um processo em que o sujeito passa a enxergar o outro de maneira parcial, supervalorizando qualidades e deixando defeitos em segundo plano.

Neste artigo, vamos entender o que é idealização, como ela se manifesta nas relações e por que a desidealização faz parte desse processo.



O que é idealização para a psicanálise?

Em termos gerais, a idealização na psicanálise pode ser entendida como um processo no qual o sujeito, ao se apaixonar, passa a enxergar certas qualidades do outro de forma exagerada, enquanto falhas e limitações tendem a ser ignoradas ou minimizadas.

Quem nunca passou pela estranha situação de ter uma amiga que vive falando “Ai, meu namorado é lindo” ou “Ui, eu tenho que tomar cuidado porque fica cheio de mulher em volta dele” e, no entanto, quando você conhece o tal namorado, você olha, olha, olha e pensa “Caramba, que cara horrível! Ela tá apaixonada assim por esse troço”?

Ou então estranhar quando uma mãe repete “Minhas crianças são super educadas, super inteligentes... Lindas, quase não me dão trabalho”, mas quando você efetivamente conhece as pestes, imediatamente pensa “Caramba, que crianças insuportáveis”!

E, finalmente, quem nunca estranhou as cenas tão bizarras e tão comuns nos últimos anos de multidões inteiras se aglomerando alvoroçadas ao redor de lideranças políticas, colocando essas figuras num pedestal e defendendo absolutamente tudo o que elas fazem.

Com certeza, todos nós já passamos por situações deste tipo. A gente estranha, pensa, repensa e tenta entender de alguma forma o que está acontecendo... Porém, não consegue! De fato, há muitas pessoas que aos olhos dos outros são extremamente preciosas, mas que, aos nossos olhos, não possuem qualquer valia.

E a psicanálise vai explicar esta diferença de julgamentos através do conceito de idealização.

Idealização e amor

Para entendermos, como se dá a idealização na esfera amorosa, é necessário relembrarmos que, para Freud (1914), nós nos apaixonamos segundo cinco diferentes critérios:

  • Por alguém que nos alimenta;
  • Por alguém que nos protege;
  • Por alguém que é alguma coisa que a gente já foi;
  • Por alguém que é alguma coisa que a gente é;
  • Por alguém que é alguma coisa que a gente gostaria de ser.

Temos, aqui, um quadro esquemático muito interessante e já discutido no post “Freud e o amor”. Para entendermos o que é a idealização na psicanálise, retomaremos o que foi falado a respeito do quinto critério, ou seja, aquele que coloca ser extremamente comum que nos apaixonemos por alguém que é alguma coisa que nós mesmos gostaríamos de ser.

Em linhas gerais, este tipo de paixão diz respeito aos casos nos quais uma pessoa é amada por ter conseguido realizar algo que nós próprios desejamos. Por causa disso, a pessoa amada parece-nos detentora de toda a satisfação narcísica decorrente desta conquista.

Passamos a achá-la a pessoa mais perfeita do mundo, a mais feliz e a mais realizada... E ferrou! Nos apaixonamos perdidamente e, numa boa, fica bem difícil sair dessa...rs.

Idealização e narcisismo

Para entendermos o que ocorre nestes casos, é necessário relembrarmos que, segundo Freud (1914), todos nós, durante a mais tenra infância, desfrutamos de uma condição narcísica bastante forte.

Tal condição narcísica é profundamente estimulada pelos pais que, comumente, situam seus filhos como verdadeiros príncipes ou pequenas majestades. Os pais imaginam seus filhos como sendo o centro do mundo, aquele diante do qual todos os outros devem desdobrar-se e, assim, atender aos seus mais diversos anseios e vontades.

E caso a criança não consiga o que tanto deseja, basta a ela chorar e espernear para que os pais rapidamente atendam às suas vontades. É importante lembrar que tal imagem idealizada que a criança possui de si mesmo foi pro Freud (1914) chamada “eu ideal”.

No entanto, há que se colocar que, cedo ou tarde, os próprios pais começam a perceber a tamanha m**** que fizeram ao não impor limites às suas crianças. Com o passar do tempo, os filhos se tornam criaturas insuportáveis e, assim, os pais começam a frustrá-los em relação às suas aspirações narcísicas.

A criança é, assim, obrigada a abandonar o narcisismo infantil. Porém, como não consegue abdicar de bom grado de tamanho prazer, ela acaba construindo para si um ideal que, caso alcançado ao longo da vida, possibilitará o resgate de parte da satisfação narcísica perdida.

Este é o “ideal do eu”, espécie de meta que perseguimos ao longo da vida na tentativa de recuperar certo prazer narcísico. Ser um médico de renome, um engenheiro bastante rico, um cantor famoso, um conhecido influencer digital, ser recheado de amigos, vagar pelas mais diversas festas do high society ou então conhecer um príncipe encantado, casar-se com ele antes dos trinta e construir uma família feliz são alguns dos muitos exemplos de “ideais do eu”.

Conceito Definição
Eu ideal Imagem idealizada que o sujeito possui de si. Tal imagem narcísica é sempre construída durante a primeira infância.
Ideal do eu Espécie de meta ou objetivo que o sujeito traça para si, em anos posteriores, visando recuperar parte do seu narcisismo.


Ora, facilmente percebemos que este “ideal do eu” representa, justamente, aquilo que o sujeito gostaria de ser. Partindo deste pressuposto, Freud (1921) estabelece que caso o sujeito cruze seu caminho com o de alguém que concretizou tamanho ideal, instaura-se o fenômeno da idealização amorosa.

A partir daí, o sujeito fica apaixonado e completamente encantado, só lhe restando cantar “Bwana, Bwana, me chama que eu vou, sou sua mulher-robô teleguiada pela paixonite”...

Rita Lee e Roberto de Carvalho tocando violão e baixo em cena do clipe Bwana
Rita Lee e Roberto de Carvalho durante a gravação do clipe da música “Bwana”

A idealização nos relacionamentos

Temos, portanto, na idealização amorosa um sujeito massacrado em seu narcisismo em virtude do fracasso nas sucessivas tentativas de conquista do “ideal do eu”.

Quando ele se depara com alguém que lhe pareça bem sucedido neste propósito, é comum advir um estado de idealização. Com ela, o sujeito apaixonado passa a amar uma pessoa em virtude das perfeições que ele próprio sempre se esforçou em conseguir para si.

É o que ocorre, por exemplo, nas mais diversas relações que envolvem uma supervalorização do objeto amado. Neste caso, também há que se contar o amor dos sujeitos pelos grandes líderes ou ídolos, sejam eles ligados às artes, ao entretenimento, à política ou à religião.

Em quais relações acontecem a idealização?

A idealização costuma acontecer em:

  • Relações amorosas em geral
  • Relações entre fãs e ídolos midiáticos
  • Relações entre eleitores e políticos
  • Relações entre crédulos e líderes religiosos

A idealização é, portanto, a responsável pelos mais estranhos julgamentos que costumamos fazer a respeito de quem amamos. Geralmente, o objeto amado fica supervalorizado, tendo suas qualidades engrandecidas e seus defeitos negados.

Também é comum que o sujeito apaixonado faça o amado passar à margem de quaisquer críticas, como se seus comportamentos e discursos fossem extremamente sublimes.

Desta forma, em tais estados de apaixonamento, temos um sujeito que ama o outro em virtude das excelências que ele mesmo deseja para si. Ora, isto faz com que a idealização amorosa corresponda a um modo indireto de o sujeito amar a si mesmo, porém, deslocando as aspirações idealizadas de si para o objeto amado.

A desidealização

Com o passar do tempo, nada mais óbvio que o sujeito apaixonado se dê conta de um fato indubitável: não era amor, era cilada!

Anderson Leonardo com expressão assustada e a palavra cilada em destaque em meme
Anderson Leonardo, vocalista do Grupo Molejo, que canta a famosa música "Cilada"

Ora, as sucessivas decepções com o objeto amado e os mais variados choques de realidade que advêm sempre o objeto falha levarão o sujeito apaixonado a um lento e progressivo processo de desidealização.

Óbvio que não é qualquer decepção que nos leva a desidealizar alguém... Talvez nem as mais graves. Isto porque a nossa tendência a idealizar quem amamos geralmente é imune aos primeiros choques de realidade.

De fato, quando nos deparamos com as mais diversas falhas que supúnhamos não existir no amado, rapidamente, nos colocamos a ajeitar as coisas para que a idealização permaneça. E assim a história vai correndo: em nossas fantasias, corrigimos o que tem que ser corrigido e, com isto, continuamos a supervalorizar o objeto...

Só que chega uma hora que, realmente, não dá para mantermos tamanha ilusão. Os fatores que contrariam nossas apreciações sobre quem amamos passam a ser tantas que o trabalho de desidealização se torna inevitável.

Com ele, percebemos que quem outrora tanto amamos não passa de uma pessoa comum, um filho de Deus nessa canoa furada remando contra a maré... Com isto, deixamos de amar...

E o que acontece a partir daí?

Ora, arranjamos outro objeto para idealizar! Trocando em miúdos: engana-se completamente aquele que pensa que o processo de idealização tem um fim... Que nada! Apenas trocamos um objeto por outro e assim passamos a idealizar esta nova pessoa amada.

E do mesmíssimo modo, insistimos em tamanha paixão independente dos mais variados choques de realidade. Por anos e anos e anos... Até que esta nova idealização acaba e, assim, partimos pra outra paixão avassaladora!

Transferência e idealização

Freud (1915/1996) também diz ser bastante comum que se estabeleça, entre paciente e analista, uma relação transferencial idealizada deste tipo. Ou seja, em uma relação terapêutica, temos, de um lado, um paciente que sofre demais em virtude de seus tantos conflitos e, de outro, alguém que ele supõe já ter passado por todos estes sofrimentos e efetivamente os resolvido.

Assim, a relação terapeuta e paciente passa a ser marcada por uma idealização tal que o analista passa a assumir uma posição central na vida do paciente.

Nesta medida, há pacientes que, por exemplo, não param de pensar em seus analistas. Tampouco conseguem parar de falar deles para seus parentes e amigos mais próximos... E sempre com um olhar devotado e encantado!

É também comum que alguns pacientes se ponham a stalkear seus analistas visando descobrir se é casado, aonde mora, se tem filhos, em quem votou, etc. E mesmo durante as sessões de análise, é bastante corriqueiro que o paciente fique falando de seu analista como um verdadeiro ídolo, alguém extremamente bem resolvido e capaz de ter a resposta para tudo na ponta da língua!

Ora, tal como acontece nas relações amorosas em geral, também nas relações transferenciais, é comum que ao longo do tempo certa desidealização se faça. É algo até mesmo inevitável e que, assim, conduz o paciente a procurar um novo analista para novamente idealizá-lo, e assim sucessivamente...

Principais textos de Freud que versam sobre a idealização

  • 1907 – Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen
  • 1914 – Sobre o narcisismo: uma introdução
  • 1921 – Psicologia de grupo e análise do eu
  • 1927 – O futuro de uma ilusão

Perguntas frequentes sobre idealização na psicanálise

O que é idealização na psicanálise?

Na psicanálise, a idealização é conceituada como a tendência do sujeito apaixonado em supervalorizar algumas características do objeto amado e, consequentemente, deixar de enxergar os seus inúmeros defeitos.


Por que idealizamos quem amamos?

Para a psicanálise, nós idealizamos quem amamos em virtude das excelências que o objeto amado conquistou. Tais excelências nada mais são do que os próprios ideais que o sujeito apaixonado almeja para si.


Qual a diferença entre idealização e amor?

Para a psicanálise, o amor corresponde ao domínio de Eros como uma esfera mais ampla. Ou seja, ele representa todos os laços que se fazem entre as pessoas, sejam eles de apaixonamento, de ternura, de amizade ou de trabalho. Alguns destes laços, mas não todos, podem se transformar em relações de idealização tão logo uma das partes consiga realizar para si alguns ideais que a outra parte tanto almeja.


Por que a desidealização é importante?

Para a psicanálise, a desidealização é importante na medida em que nos leva a enxergar que o objeto amado não é tão engrandecido ou tão supervalorizado quanto pensávamos.


O que acontece quando idealizamos o analista?

Para a psicanálise, quando um paciente passa a idealizar o analista, ocorre o fenômeno da transferência. Trata-se de algo comum e até mesmo desejado para que se inicie um tratamento, desde que a relação de idealização seja devidamente manejada.



Referências:

Freud, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 75-108.

______. (1915). Observações sobre o amor transferencial. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 173-188.

______. (1921). Psicologia de grupo e análise do eu. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 77-154.

Artigo escrito por
Ricardo Salztrager
Psicanalista e professor associado da UNIRIO e na Casa do Saber. Possui Graduação em Psicologia, mestrado e doutorado em Teoria Psicanalítica pela UFRJ.