Psicanálise

Freud e o amor: por que nos apaixonamos segundo a psicanálise

Freud e o amor: por que nos apaixonamos segundo a psicanálise

Por que nos apaixonamos por certas pessoas e não por outras? A psicanálise oferece algumas pistas importantes, especialmente a partir das reflexões de Freud sobre o amor, tema que ajuda a compreender como o inconsciente, o narcisismo e as experiências da infância influenciam nossas escolhas amorosas.

Neste artigo, vamos explorar o que Freud dizia sobre o amor e por que nos apaixonamos por determinados tipos de pessoas.



Com toda certeza, o amor é o principal tema de qualquer sessão de psicanálise. Não que os nossos analisandos não falem sobre outros assuntos... É óbvio que falam! Falam muito sobre trabalho, dinheiro, sobre as suas tantas raivas e tristezas, etc. Mas falam demais sobre o amor, sobretudo, sobre o sofrimento amoroso.

E em meio a este assunto, desejam arduamente saber o que precisam para serem felizes na esfera amorosa. Almejam também descobrir o grande segredo capaz de tornar harmoniosas todas as relações.

Ou então querem saber por que não conseguem largar seus maridos e esposas de quem sempre reclamam tanto. O casamento é falido, e já deu! Mas eles não sabem porque não conseguem se separar... Alegam que é por causa do plano de saúde, mas sei não...rs

Enfim, estes são apenas alguns dos muitos exemplos de como o tema do amor recorrentemente toma conta da clínica psicanalítica. E isto por si só já justifica que nos voltemos aos principais pontos da teoria freudiana sobre o amor.

O que Freud dizia sobre o amor?

Em relação a este tema, um primeiro ponto a ser esclarecido é que, segundo Freud, o amor pode se apresentar sob diversas modalidades. O quadro a seguir ajudará na compreensão de algumas delas:

TIPOS DE AMOR DEFINIÇÃO
Amor objetal O amor que dirigimos aos mais variados objetos pelos quais nos apaixonamos. Quando Freud escreve sobre este tipo de amor, ele está quase sempre se referindo ao amor sensual propriamente dito.
Amor narcísico O amor que dedicamos a nós mesmos. Para Freud, há sempre um grande investimento de libido em nosso “eu”. Trata-se, aqui, do campo do narcisismo, de origem infantil e acalentado pelo resto das nossas vidas.
Amor de transferência O conjunto de sentimentos ternos e sensuais voltados à figura dos nossos analistas. É muito comum – e mesmo desejável – que haja o amor de transferência.
Eros Aquele responsável pelas mais diversas ligações entre os sujeitos. Tais ligações podem ser de amizade, ternura, laços de família, de trabalho e mesmo o amor propriamente sensual. A dimensão de Eros se opõe a de Thanatos, tida como a força responsável por destruir todos os laços que Eros construiu.


Por que nos apaixonamos segundo Freud?

Trata-se, aqui, de uma questão que desperta as maiores curiosidades.

Assim, é muito comum que pacientes, alunos e mesmo o público em geral, ao saberem que eu sou psicanalista, me perguntem: Por que eu me apaixono? Ou o que me leva a amar alguém? Ou então, por que eu me apaixono apenas por determinado tipo de pessoas, mas por outros não?

Muitas vezes estes questionamentos são até curiosos: Como é que eu pude me apaixonar por aquele pilantra safado? Por que eu sempre me ferro nas minhas relações amorosas? Por que eu não consigo largar dessa mulher? E mais: por que eu sempre termino as minhas relações com um bando de galho enfeitando a minha testa?

Fato é que Freud tem uma resposta para estas perguntas. Em seu famoso texto “Para introduzir o narcisismo”, de 1914, ele dedica parte do segundo capítulo para explicar como se dão as nossas escolhas de objetos amorosos. Este é, inclusive, um dos tópicos da psicanálise que eu mais gosto e que, com certeza, mais desperta a atenção e curiosidade daqueles que me leem.

De forma bastante resumida, podemos dizer que, de acordo com Freud, nós nos apaixonamos segundo cinco diferentes critérios:

De acordo com Freud, nós nos apaixonamos:

  • Por alguém que nos alimenta;
  • Por alguém que nos protege;
  • Por alguém que é alguma coisa que a gente já foi;
  • Por alguém que é alguma coisa que a gente é;
  • Por alguém que é alguma coisa que a gente gostaria de ser.



Porém, antes de analisar este quadro, são necessários dois pequenos adendos.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que não foi intenção de Freud dividir o amor e as escolhas amorosas em cinco grupos estanques. Pelo contrário, estes cinco tipos sempre se encontram mesclados em qualquer escolha que fazemos, podendo um mesmo objeto de amor, por exemplo, nos proteger, nos alimentar e ser alguma coisa que nós gostaríamos de ser.

E em segundo lugar, é necessário frisar que, para Freud, existe um vínculo muito forte entre amor e inconsciente. Deste modo, é impossível para um sujeito ter o exato conhecimento dos motivos que os fazem apaixonar-se por alguém, sendo por isso que volta e meia somos surpreendidos apaixonados por alguém que jamais pensaríamos que fossemos, um dia, nos apaixonar...rs

Dito isso, passemos a uma análise dos dois primeiros tópicos: o sujeito se apaixonar por alguém que lhe dá segurança e/ou por alguém que lhe concede proteção.

O amor por segurança e proteção

De acordo com Freud (1914), as raízes deste tipo de escolha objetal encontram-se na infância, mais precisamente, no contexto dos amores edipianos. Ora, sabemos que a psicanálise parte do pressuposto de que os primeiros objetos de amor de uma criança são, justamente, suas figuras parentais, ou seja, aquelas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção.

E, com isto, Freud está assinalando que o amor que a criança, um dia, sentiu pelos pais pode se tornar modelar para suas escolhas amorosas posteriores. Ou seja, ao longo de sua vida, é comum que um sujeito eleja alguns objetos de amor, de certa maneira, semelhantes às suas figuras parentais.

Por exemplo, é extremamente comum nos apaixonarmos por alguém que nos auxilia em nossos desamparos, tal qual, um dia, os nossos pais o fizeram. Também é comum o caso de recorrentemente nos apaixonarmos por pessoas dotadas de certa autoridade. Ou então o caso daqueles que se apaixonam por quem os ama incondicionalmente. E se não tiver um amor deste tipo, para eles, a relação não vai valer de nada.

No entanto, como destacamos que o inconsciente sempre se manifesta no campo das nossas escolhas amorosas, de forma que não temos o menor controle sobre elas, podemos dizer que são bastante comuns os casos nos quais um sujeito se apaixona por pessoas que possuem exatamente o mesmo defeito dos seus pais.

Trata-se, aqui, daqueles que passaram a vida inteira reclamando de determinada característica dos pais e que, assim, tudo o que eles mais desejavam era amar alguém que jamais tivessem um defeito deste tipo... sqn! O inconsciente acaba ferrando a gente de uma maneira tal que nada podemos fazer diante dele.

Eu mesmo conheço o caso de um cara que a mãe era uma chata. Chata no nível insuportável! Aquela mãe completamente dominadora que gostava que tudo corresse conforme as suas vontades... E quando não corriam, sai da frente! Ela gritava demais... e como! E enfim, tudo o que ele mais queria na vida era paz: trabalhar, sair de casa e se casar com alguém completamente diferente. Mas... eis que é justamente aí que interfere o inconsciente, e pronto! Perguntem como é a esposa dele e se, por acaso, ele está feliz do lado dela...rs

Amor e narcisismo

Já os três últimos tipos de escolhas amorosas nos trazem às ligações entre o amor e o narcisismo, já que neles se escolhe amar alguém que seja algo que o próprio sujeito já foi, é ou gostaria de ser.

Em relação ao caso de amar-se alguém que representa alguma coisa que o próprio sujeito já foi, o seguinte exemplo corriqueiro me vem à cabeça: segundo Freud (1914), todos nós, durante as nossas infâncias, desfrutamos de uma dose considerável de narcisismo.

No entanto, tivemos que abandonar estas tantas aspirações ao longo da vida, o que veio a produzir uma bruta diminuição da nossa autoestima. Daí quando nos deparamos com alguém que pareça desfrutar de todo o narcisismo que no passado nós experimentamos, pode ocorrer de nos apaixonarmos loucamente por esta pessoa. Carne e unha, alma gêmea e bate o coração!

Já no caso de amarmos alguém que venha a representar algo que nós mesmos somos, colocamos como precondição para o amor que a pessoa apresente algumas características semelhantes às nossas.

Nestes casos, pode ser um mesmo traço marcante de comportamento, um mesmo defeito que ambos desconhecem em si, uma mesma intransigência, um mesmo desejo, uma mesma tendência à vitimização, dentre tantos outros exemplos que podem ser aqui mencionados.

Esses casos geralmente dão briga, viu? Não recomendo! Sabem aqueles casais que passam a vida inteira discutindo, um acusando o outro de uma série de coisas que, na verdade, eles mesmos são? Tipo: o cara sabe que a mulher é safada, mas de repente não percebe que ele é igualzinho; o rapaz acusa o namorado de intolerante, mas sem saber que ele é o ser menos maleável do Planeta Terra; e a mulher que acusa a esposa de desorganizada e bagunceira crente que é a pessoa mais ordeira que existe... deu ruim nos três!

Por fim, quanto ao caso de amarmos alguém que seja algo que nós próprios gostaríamos de ser, temos os casos nos quais nos apaixonamos por uma pessoa que tenha logrado realizar algo que nós mesmos almejamos.

São muitos os exemplos a serem fornecidos, todos englobando uma grande supervalorização do objeto amado... Afinal, ele efetivamente conseguiu o que a gente tanto deseja. Uma coisa meio Robertocarlística do tipo “Olha, você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim”!

E, de fato, esta modalidade de escolha objetal é muito marcante não apenas nas relações propriamente sensuais, mas também, no domínio das artes, da religião e da política. Assim, se formos analisar as nossas paixões pelos nossos grandes ídolos, veremos que os amamos tanto, justamente, por eles terem consigo ser algo que próprios gostaríamos de ser.

Ficamos apaixonadinhos atrás deles, pensamos neles grande parte do nosso dia, os defendemos arduamente quando alguém ousa criticá-los, nos cegamos diante dos seus defeitos e malandragens e, por muitas vezes, enquanto o fitamos, chegamos ao cúmulo de ficar gritando: ai, mito!




Referências:

Freud, Sigmund. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 75-108.

Artigo escrito por
Ricardo Salztrager
Psicanalista e professor associado da UNIRIO e na Casa do Saber. Possui Graduação em Psicologia, mestrado e doutorado em Teoria Psicanalítica pela UFRJ.