Psicanálise

Mulher e Psicanálise: Freud, Feminismo e Feminino

Mulher e Psicanálise: Freud, Feminismo e Feminino

Você já parou para pensar se a psicanálise realmente escutou as mulheres ou se, em muitos momentos, apenas traduziu suas experiências para uma linguagem criada por homens?

Desde o nascimento da teoria freudiana, o feminino ocupa um lugar ao mesmo tempo central e desconfortável dentro da psicanálise.

Foi a partir da fala de pacientes mulheres que esse campo se estruturou, mas também foi sobre seus corpos, desejos e sofrimentos que algumas das formulações mais controversas da teoria foram construídas.

Entre escuta clínica, silenciamentos culturais e revisões feitas por autores e autoras que vieram depois, a relação entre a mulher e a psicanálise revela não apenas a história de uma teoria, mas também a forma como uma época tentou compreender o feminino.

Neste texto, vamos discutir como Freud pensou a mulher, de que maneira mulheres psicanalistas transformaram esse legado e por que o feminino continua sendo uma das questões mais provocativas da psicanálise contemporânea.

Freud e a Escuta das Mulheres em um Mundo Patriarcal

A relação entre mulher e psicanálise começa justamente com uma contradição: foi ouvindo mulheres que Sigmund Freud construiu sua teoria, mas foi também a partir dos valores de uma sociedade patriarcal que ele tentou interpretar aquilo que escutava.

No final do século XIX, em Viena, muitas mulheres que apresentavam sintomas emocionais intensos ainda eram tratadas pela medicina como corpos “desregulados”, frágeis ou excessivamente sensíveis.

Crises de choro, paralisias sem causa orgânica, desmaios e dificuldades na fala eram frequentemente classificados como histeria - um diagnóstico que durante séculos carregou a ideia de que o sofrimento feminino estaria ligado ao próprio corpo da mulher.

Antes de desenvolver a psicanálise, Freud foi influenciado pelo neurologista francês Jean-Martin Charcot, que estudava pacientes diagnosticadas com histeria no hospital Salpêtrière, em Paris.

Charcot já havia mostrado que muitos desses sintomas não podiam ser explicados apenas pela neurologia. Mas foi ao lado do médico vienense Josef Breuer que Freud começou a transformar essa observação em método clínico.

Mulheres que revolucionaram a Psicanálise - com Ingrid Gerolimich

Da histeria às novas formas de sofrimento feminino, este curso investiga como mulheres psicanalistas transformaram a compreensão sobre desejo, amor, culpa e subjetividade. Um percurso entre psicanálise, feminismo e cultura para pensar o feminino para além das estruturas tradicionais.


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O caso mais conhecido desse período foi o de Bertha Pappenheim, registrada sob o pseudônimo de Anna O., paciente atendida inicialmente por Breuer e posteriormente incorporada ao pensamento freudiano.

Anna apresentava sintomas como:

  • paralisias temporárias
  • alterações na linguagem
  • alucinações
  • estados de confusão

Breuer percebeu que, quando a paciente falava livremente sobre memórias dolorosas, alguns sintomas diminuíam. A própria Anna chamou esse processo de “talking cure”, ou “cura pela fala”.

Freud levou essa percepção adiante. Em vez de considerar a histeria como um distúrbio exclusivamente físico, ele passou a entendê-la como uma manifestação do inconsciente. Para ele, o sintoma não era um simples “descontrole emocional” como se entendia na época, mas uma forma indireta de expressão psíquica.

Essa tensão se torna ainda mais evidente quando Freud tenta formular uma teoria da sexualidade feminina.

Em Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905), ele propõe que meninos e meninas atravessam fases semelhantes no desenvolvimento psíquico, mas que o caminho feminino seria marcado pela percepção da diferença anatômica.

A partir daí surge o controverso conceito de inveja do pênis (ou inveja do falo), segundo o qual a menina vivenciaria a ausência do órgão masculino como uma experiência psíquica de falta. De acordo com a teoria, a aceitação da "falta" levaria a menina a desejar um filho (especialmente um menino) como substituto simbólico do pênis.

PARA ENTENDER

O que Freud quis dizer com “inveja do pênis”?

Freud descreve um momento na infância (fase fálica, entre 3 e 5 anos) em que a menina percebe a “castração” anatômica e sente inveja do pênis como símbolo de poder completo. Isso redireciona seu desejo: do clítoris (infantil) para o útero/filho. Não é literal, mas simbólica – a “falta” estrutura o superego feminino.

Mais tarde, em Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, Freud reconheceria a complexidade do tema ao admitir que a sexualidade feminina permanecia, para ele, uma questão em aberto.

No Curso Mulheres que Revolucionaram a Psicanálise, a psicanalista e socióloga Ingrid Gerolimich afirma que as mulheres foram internalizando essa ideia de falta, do não ser, do não pertencer:

Se toda a teoria do Freud de formação do sujeito passa por essa questão do falo, como se o falo fosse a completude e o não falo, o não todo, ele é a incompletude por natureza, é como se a mulher precisasse sempre se preencher de significantes, de semblantes, de simbolismo, para que ela pudesse existir, para que ela pudesse formar uma noção de identidade de si.

Mulheres que Revolucionaram a Psicanálise, Ingrid Gerolimich

Freud abriu, então, um campo novo para pensar o feminino, mas também encontrou os limites da própria teoria ao tentar compreendê-lo.

O legado desse momento inicial permanece ambíguo. Freud ajudou a humanizar o sofrimento psíquico das mulheres ao reconhecer que havia sentido onde antes a medicina via apenas desordem.

Mas, ao mesmo tempo, parte de suas formulações reproduziu a visão patriarcal de uma época em que o feminino ainda era frequentemente definido a partir da falta, da passividade ou do mistério.

E é justamente dessa ambiguidade que nasce a longa e complexa história da mulher dentro da psicanálise.

O feminino como construção cultural, não essência biológica

Se Freud tentou compreender o feminino a partir da diferença anatômica, parte da psicanálise posterior deslocou essa discussão para outro terreno: o da cultura.

A pergunta deixou de ser apenas o que distingue biologicamente homens e mulheres, para se tornar algo mais complexo: como alguém se torna mulher dentro de uma determinada organização simbólica?

Para Jacques Lacan, a identidade não se forma apenas no corpo, mas também na linguagem e na maneira como cada sujeito é reconhecido pelo outro. Em outras palavras, ninguém constrói a própria subjetividade sozinho.

A psicóloga e psicanalista Samantha Dubugras Sá no Curso Violência Contra Mulheres: Leituras clínicas e psicanalíticas, diz:

A violência contra as mulheres não pode ser explicada apenas pelo sintoma individual. Ela precisa ser pensada como um fenômeno atravessado pela cultura, pelo patriarcado, pelo gênero enquanto dispositivo de poder e pelas relações de dominação. Lacan diz que a mulher não existe, e com isso ele não está apagando as mulheres, como numa leitura rasa alguns fazem. Pelo contrário, ele está dizendo que não existe essa categoria universal que dê conta do feminino.

Violência Contra Mulheres: Leituras clínicas e psicanalíticas, Samantha Dubugras Sá

Desde cedo, cada pessoa passa a se perceber a partir de expectativas, imagens e discursos que já existiam antes dela. No caso das mulheres, isso significa que a experiência do feminino muitas vezes é atravessada por modelos culturais profundamente enraizados.

Durante séculos, o imaginário social reduziu a mulher a figuras conhecidas:

  • a mãe abnegada
  • a mulher desejável
  • a cuidadora emocional
  • a figura silenciosa
  • ou a mulher vista como excesso

Essas imagens podem ser internalizadas e influenciar a forma como muitas mulheres aprendem a desejar, amar e até sofrer. É por isso que a psicanálise contemporânea passou a olhar para a subjetividade feminina como algo inseparável da cultura.

O sofrimento psíquico nem sempre nasce apenas da história individual. Em muitos casos, ele também surge do conflito entre o desejo próprio e o papel que a sociedade espera que uma mulher desempenhe.

Esse é um debate continua atual, pois basta observar como padrões de beleza, desempenho emocional, casamento e maternidade ainda moldam a vida psíquica feminina.

O que antes era apenas escutado por homens passou, com o tempo, a ser reinterpretado por mulheres que também transformaram a história da psicanálise.

Mulher fazendo anotações durante sessão de atendimento psicológico ou psicanalítico
Foto: Kateryna Hliznitsova/Unsplash

Rupturas: as mulheres que desafiaram Freud por dentro da própria psicanálise

Uma das transformações mais profundas da psicanálise não veio de fora, mas de dentro. À medida que mais mulheres passaram a ocupar espaço como analistas, pesquisadoras e autoras, o feminino deixou de ser apenas objeto de interpretação para se tornar também um lugar de produção teórica.

E, em muitos casos, essas mulheres não apenas complementaram Freud — elas confrontaram diretamente alguns de seus pressupostos centrais.

Entre as primeiras vozes mais contundentes estava Karen Horney. Ao questionar a ideia freudiana de inveja do pênis, Horney propôs uma inversão: talvez o que muitas mulheres invejassem não fosse o corpo masculino, mas a liberdade e o poder historicamente associados a ele.

Para ela, o sofrimento feminino não podia ser explicado apenas pela sexualidade infantil, porque a cultura também participava da formação da neurose. Com isso, Horney ajudou a deslocar a psicanálise da biologia para o campo social.

Pouco depois, Melanie Klein abriu outra ruptura importante: pensar nos primeiros vínculos entre o bebê e a mãe. Klein mostrou que a vida psíquica começa antes da linguagem organizada e que a relação com o cuidado materno deixa marcas profundas na construção emocional.

Outras autoras seguiram tensionando a tradição psicanalítica:

  • Sabina Spielrein explorou a relação entre destruição e transformação psíquica
  • Helene Deutsch investigou maternidade e identidade feminina
  • Luce Irigaray criticou a centralidade do masculino na linguagem psicanalítica

O que une essas autoras é que nenhuma delas aceitou simplesmente herdar a teoria. Elas mostraram que pensar a mulher na psicanálise exigia rever a própria estrutura da psicanálise.

Foi na escuta do que antes era tratado como silêncio que a psicanálise começou a repensar a experiência das mulheres.

Mãos femininas segurando umas às outras em gesto de acolhimento e apoio emocional
Foto: Kateryna Hliznitsova/Unsplash

Freud e as revisões posteriores pelas autoras

Comparação entre Freud e autoras posteriores na psicanálise
Tema Leitura de Freud Leitura das autoras posteriores
Diferença sexual A feminilidade aparece marcada pela ideia de falta em relação ao masculino A diferença passa a ser entendida como construção psíquica e cultural, não como ausência
Sexualidade feminina Vista como enigmática, derivada do modelo masculino de desenvolvimento Compreendida como experiência própria, múltipla e não subordinada ao masculino
Origem do sofrimento Ligada principalmente a conflitos infantis e intrapsíquicos Também relacionada a desigualdades sociais e papéis de gênero internalizados
Lugar da mulher Frequentemente tratada como objeto de investigação clínica Reconhecida como sujeito de desejo e produtora de teoria
Relação com a cultura A cultura aparece como pano de fundo da experiência psíquica A cultura passa a ser vista como parte central da formação da subjetividade

A Mulher Constrói a Psicanálise: De Objeto a Sujeito Ativo

Até aqui, vemos como as mulheres não foram meras pacientes na história da psicanálise; elas se tornaram construtoras ativas, transformando-a de dentro para fora.

No início do século XX, figuras como Anna Freud, filha de Sigmund, expandiram a teoria do ego. Em O Ego e os Mecanismos de Defesa (1936), Anna detalhou defesas como negação e projeção, aplicáveis à subjetividade feminina em contextos de trauma familiar.

Depois dela, outras mulheres continuaram ampliando esse movimento. Melanie Klein reformulou a compreensão da infância ao mostrar a importância dos vínculos precoces com a mãe na constituição psíquica.

Karen Horney introduziu uma leitura cultural do sofrimento feminino, questionando a ideia de que a feminilidade pudesse ser explicada apenas pela anatomia.

Luce Irigaray tensionou a própria linguagem psicanalítica ao argumentar que o feminino não poderia continuar sendo pensado apenas a partir de referências masculinas.

Com essas e outras autoras, a presença feminina no campo psicanalítico deixou de ser periférica. As mulheres não apenas passaram a interpretar o feminino mas, sobretudo, a redefinir a própria linguagem usada para compreendê-lo.

A Psicanálise Contemporânea: Novos Olhares sobre o Feminino

Em vez de pensar o feminino como uma experiência única, autoras mais recentes mostraram que a subjetividade feminina é atravessada por diferentes condições históricas, sociais e culturais.

Para muitas delas, nenhuma escuta clínica pode ignorar essas camadas sem correr o risco de repetir antigos apagamentos.

Entre essas vozes, Jessica Benjamin ajudou a repensar os vínculos afetivos ao propor que muitas relações marcadas pela dependência feminina não podem ser compreendidas apenas como conflito individual, mas também como formas aprendidas de reconhecimento.

Julia Kristeva aproximou a psicanálise da linguagem e da maternidade para pensar como o corpo feminino também se torna um lugar de construção simbólica.

Luce Irigaray questionou uma tradição inteira por insistir em definir o feminino sempre em relação ao masculino, como se a mulher pudesse existir apenas como diferença.

No Brasil, Neusa Santos Souza nos ensinou que o sofrimento psíquico também pode nascer da violência de ocupar um lugar social imposto, revelando que o inconsciente não se forma separado da experiência racial e de gênero.

A psicanálise contemporânea vem reconhecendo algo que durante muito tempo permaneceu à margem da própria história da teoria: mulheres sempre produziram pensamento crítico sobre psicanálise, gênero e subjetividade.

Até mesmo quando seus trabalhos circularam com menos legitimidade, menos espaço institucional e menos reconhecimento do que os de seus colegas homens.

Não se trata de dizer que essas vozes não existiam antes, mas de admitir que, por muito tempo, a autoridade para interpretar o feminino foi concentrada em uma tradição que tornou muitas dessas contribuições menos visíveis.

Recuperar essas autoras hoje não é apenas uma revisão histórica; é também um gesto necessário para que uma parte fundamental da construção da psicanálise não continue sendo silenciosamente esquecida.

FAQ: Dúvidas Comuns sobre a Mulher e a Psicanálise

O que a psicanálise diz sobre a mulher?

A psicanálise entende a mulher como um sujeito cuja vida psíquica é atravessada por desejo, linguagem e história. Hoje, essa compreensão também considera que a experiência feminina é moldada por relações culturais e sociais, e não apenas pela biologia.

Freud era machista?

Freud escreveu dentro de uma sociedade profundamente patriarcal, e parte de suas formulações reflete esse contexto. Ao mesmo tempo, foi um dos primeiros a levar a sério a escuta do sofrimento feminino em uma época em que ele era frequentemente desqualificado.

O que é inveja do pênis?

É um conceito freudiano que descreve a percepção da menina diante da diferença sexual como uma experiência de falta simbólica. Autoras posteriores reinterpretaram essa ideia como uma leitura influenciada pela desigualdade de poder entre homens e mulheres.

Quais mulheres foram importantes para a psicanálise?

Autoras como Karen Horney e Melanie Klein ampliaram a teoria ao questionar seus limites. Elas ajudaram a pensar o feminino para além das interpretações clássicas centradas no olhar masculino.


Referências:

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. (Obras completas, v. 6).

FREUD, A. (1936). O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.