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Pra todo “Como Parar de Desistir das Coisas”, haverá o seu “Largue a Mão Disso”

Pra todo “Como Parar de Desistir das Coisas”, haverá o seu “Largue a Mão Disso”

A gente passa uma vida inteira tentando agarrar tudo com as mãos e com os pés ao mesmo tempo. Tentando articular, entre presenças e ausências físicas, a manutenção de relações que às vezes a gente já nem sabe mais o porquê e como elas se sustentam. Somos ensinadas a não desistir das coisas e das relações que um dia nos mobilizaram, sobretudo, porque fizeram sentido e algo do apego nos impede de soltar. Talvez seja o desejo da reciprocidade, da legitimação e da troca de uma relação que virou outra com o passar dos dias ou com a distância; talvez a culpa pelas nossas ausências ou apenas os caminhos que foram se tornando diferentes.

Dizem que o mundo está caótico demais e que o tempo das pessoas tem se tornado cada vez mais escasso; que amizade boa é aquela que sempre estará ali independentemente de quanto tempo você está sem falar com ela; e que as relações verdadeiras resistem até mesmo a uma pandemia, uma polaridade política ou a uma ofensa disfarçada de piada. Dizem, ainda, que confiar na relação a impede de estremecer diante das diferenças, e que não devemos abrir mão dessas conexões mas, tudo isso, eu discordo.

Como é possível manter uma relação em que só um lado se movimenta? Que relação sobrevive a uma distância – que não é necessariamente física, mas emocional? Que garantia é essa de que a outra pessoa sempre estará ali pra você? E, porquê essa ingenuidade em acreditar que não devemos desistir das relações que só são cuidadas por nós mesmos?

Se a gente não nutre e não cultiva, ela morre.

A palavra “desistir” carrega um peso do abandono, da renúncia, sendo muitas vezes relacionada a um fracasso. Derivada do latim desistere, o “desistir” significa parar voluntariamente, abster-se ou retroceder. Mas, que retrocesso seria esse quando o que se interrompe já não se sustenta mais? O que exatamente estamos perdendo quando deixamos de insistir em algo que, há muito tempo, já não nos encontra? Nem tudo que termina foi negligenciado; algumas coisas findam porque foram sustentadas sozinhas por tempo demais. E a manutenção unilateral é uma forma lenta de perda. 

Qualquer forma de presença não é suficiente. “Vamos marcar” e “saudades” são palavras vazias diante a urgência do mundo e a nossa necessidade humana de estabelecer e cultivar vínculos. A correria existe para todos nós, sobretudo se considerarmos as jornadas múltiplas de trabalho das mulheres; e mesmo assim, isso não deve ser empecilho para que tenhamos presença na vida. 

Vínculos não se sustentam apenas pela memória do que um dia foram; eles dependem dessa presença, ainda que intermitente, e dependem de algum grau de escolha contínua. A ideia de que certas relações “sempre estarão ali” pode ser reconfortante, mas também pode ser uma forma de negar o fato de que as pessoas – inclusive nós – mudam. E que, às vezes, mudam em direções que já não se cruzam.

É difícil abrir mão de uma relação que fez muito sentido anteriormente, de intimidade que existia, de conversas que fluíam sem esforço e da sensação de reconhecimento e identificação. Desistir, nesse caso, não é apenas abrir mão do presente, é aceitar que o passado não pode ser recuperado pela força da vontade.

E isso implica um tipo específico de luto: o luto pelo que ainda existe nominalmente, mas já não existe de fato, na prática.

Há relações que não terminam com uma ruptura clara, mas ela meio que vão se desfazendo por rarefação, entre intervalos cada vez maiores, com silêncios que deixam de ser exceção e se tornam regra. Uma assimetria se instala e se naturaliza e, muitas vezes, o último gesto de cuidado possível é parar de insistir.

Certamente parar de insistir não como punição ou teste para ver se a relação se sustenta, mas como reconhecimento de um limite. Desistir pode ser o momento em que deixamos de pedir que o outro seja quem ele já demonstrou não ser; ou pode ser o momento em que interrompemos o esforço de manter uma proximidade que só existe do nosso lado e pode ser o momento em que aceitamos que nem toda relação foi feita para atravessar todas as versões de nós.

Isso não invalida o que existiu, a relação que foi construída e mantida por um tempo, e não transforma o vínculo em erro ou equívoco. Algumas relações cumprem sua função em um determinado tempo da nossa vida, nos acompanhando enquanto somos uma certa pessoa. E, quando mudamos, elas deixam de nos acompanhar por conta desse descompasso. Por isso, desistir em alguns momentos pode ser uma benção.

Dá pra desistir de ler aquele livro ruim que você começou, de fazer aquele esporte que você detestou, aquele curso que você se inscreveu porque estava animada quando abriu a chamada ou aquele emprego que tem te adoecido diariamente. Dá pra desistir de fazer aquele bolo, de terminar aquela peça de cerâmica fria que você se inspirou no Pinterest há semanas e dá pra desistir, inclusive, daquela amizade de mais de 20 anos que a última mensagem trocada entre vocês foi no Natal de 2024. Não é porque você investiu, dedicou tempo e energia, que você precisa carregar isso para a eternidade. Você pode soltar e ficar em paz.

Só não dá pra desistir do que faz sentido agora para você. Não dá pra desistir do sentimento de insatisfação e da ansiedade que você sente quando espera aquela resposta da mensagem que você enviou há 3 semanas e que até agora não veio; nem dá pra desistir do desconforto de perceber que você continua deixando um espaço reservado para alguém que já não ocupa esse espaço. Ele permanece ali, como uma cadeira vazia que ninguém teve coragem de retirar da mesa. Não atrapalha completamente, mas também não permite reorganizar o ambiente. Você aprende a contornar, como se fosse um móvel secular da sua avó.

É engraçado pensar que você chegou até aqui, leitora, achando que eu vou dar algum tipo de dica ou solução sobre como desistir sem culpa. Eu poderia, inclusive, criar uma seção denominada “Está pensando em desistir? 5 passos para encontrar paz nessa decisão”, mas eu também não sei. Desistir dói, mas dói mais ainda a sensação de correr sozinho. Por isso, embora eu não dê uma solução agora para você e para mim mesma, de uma coisa eu tenho certeza: desistir de qualquer coisa, pessoa ou situação pode ser libertador quando a nossa consciência está em paz.

Você pode até continuar tentando salvar o inacabado, remendar o que já não se sustenta e colecionar relações por nostalgia, mas, cedo ou tarde, o corpo e a mente começam a cobrar essa teimosia de permanecer onde já acabou. Porque, no fundo, você sabe: insistir demais também é uma forma de se abandonar e desistir de si.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.