O pragmatismo é uma corrente que aborda o pensamento a partir da sua relação com a experiência, a ação e as consequências que as crenças podem produzir.
Ele surgiu nos Estados Unidos no século XIX e foi desenvolvido principalmente por Charles Sanders Peirce e William James. Posteriormente, outros autores, como John Dewey, também contribuíram com o movimento.
Origem do pragmatismo e seus principais pensadores
O pragmatismo foi fundado nos Estados Unidos no século XIX como uma corrente filosófica que se interessava em estudar a aproximação entre o pensamento e a experiência, junto com a investigação e as consequências das ações.
Ainda que o termo esteja relacionado à ação, o pragmatismo é uma filosofia que busca construir um campo lógico e racional a partir da contingência, entendendo que o mundo é provisório e pode ser diferente do que se apresenta.
Peirce e a sistematização do pragmatismo
Charles Sanders Peirce é um dos nomes mais importantes do pragmatismo.
Em 1878, no artigo Como Tornar Nossas Ideias Claras, o filósofo começa a utilizar o termo e desenvolve uma sistematização do pragmatismo como método, como aponta o professor Rodrigo Petrônio.
“Doutrinas são cristais, métodos são ferramentas”
Dessa forma, sua proposta seria a investigação racional e a análise das consequências concebíveis das ideias.
Peirce também se debruçou sobre outras áreas da filosofia, como a lógica e a semiótica. Todos esses estudos contribuíram para a formulação do pragmatismo.
A partir da sua atuação na ciência, o caminho traçado por ele ajudou a afastar a ideia de que o pragmatismo seria uma corrente contrária à racionalidade ou à própria ciência.
Portanto, sua principal contribuição foi formular o pragmatismo como método de investigação, relacionando as ideias a suas consequências.
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William James e o desenvolvimento do pragmatismo
William James foi um filósofo e psicólogo norte-americano que expandiu algumas questões formuladas por Peirce e fez uma relação mais direta entre pragmatismo, psicologia e experiência.
Para ele, o conceito de crença era fundamental na construção deste percurso filosófico, já que nossas crenças são partes importantes da maneira como nós agimos no mundo.
Como destaca o professor e filósofo Rodrigo Petrônio, no curso “Filosofia e Psicologia: Uma Introdução ao Pragmatismo, “Peirce estabelece um certo limite de ação da crença, e William James começa a flexibilizar isso”.
Além disso, James também desenvolveu uma noção própria de experiência. Em vez de entender a realidade como algo já dado para o indivíduo e separado da experiência, ele compreende que ela é um processo contínuo constituído através de relações.
Sendo assim, ele conduz o pensamento ao pluralismo e à ideia de um pluriverso, no qual não há uma única perspectiva que seja capaz de explicar definitivamente a realidade.
Diferenças do pragmatismo de Peirce e James
Ainda que Peirce e James tenham questões comuns dentro do pragmatismo, seus pensamentos divergem em alguns pontos.
Enquanto Peirce valoriza o método, a investigação, a lógica e a formação das crenças, James traz uma radicalização para a discussão sobre a experiência, o pluralismo e a relação entre a subjetividade e a realidade.
Entender essa diferença é importante para compreender o pragmatismo como uma corrente filosófica com seus desdobramentos.
Aliás, o próprio Peirce posteriormente começou a utilizar o termo “pragmaticismo” para se distanciar das interpretações que outros autores vinham construindo para o pragmatismo.
“O segundo momento de Peirce é uma resposta aos outros pragmatistas, ou seja, aos filósofos que acabaram tomando o conceito para si e levando para outros caminhos [...] Então ele cria um novo conceito, o pragmaticismo.”
Apesar de o pragmatismo ter se desenvolvido em diferentes vertentes, todos compartilhavam um tópico fundamental: a compreensão das ideias relacionadas à experiência, à investigação e às consequências concebíveis que elas podem gerar, sem, contudo, taxá-las como verdades definitivas.
O que é pragmatismo na filosofia?
William James tem a célebre frase:
“Neste mundo real de suor e sujeira, parece-me que quando uma visão das coisas é nobre, isso deveria contar como uma suspeita contra a sua verdade, e como uma desqualificação filosófica.”
O professor Rodrigo Petrônio explica que o pragmatismo “é uma filosofia que desconfia de tudo que é nobre, ou seja, tudo que é elevado. A verdade não é nobre, ela está no chão dos fatos, dos eventos”.
O termo pragmatismo está relacionado à palavra grega pragma, traduzida como ação. Essa origem contribuiu para a interpretação da corrente como filosofia dos homens práticos, associados à ação, à finalidade e à utilidade.
No entanto, o pragmatismo não coloca a ação acima da teoria, pois pensamento e ação estão relacionados. Petrônio aponta que “o pragmatismo é um elogio da ação”.
Assim, as ideias são aproximadas da experiência concreta, podendo ser testadas, modificadas e produzir diferentes consequências.
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O que é contingência e por que é importante para o pragmatismo?
Antes de tudo, é importante entender o que é contingência, conceito fundamental do pragmatismo.
Contingência é a ideia de que a realidade, os valores humanos e o conhecimento não são fixos nem garantidos. Isto é, tudo o que existe poderia ser diferente do que é.
O professor Rodrigo Petrônio explica:
“O pragmatismo é uma filosofia que vai tentar construir um campo racional e um sistema de conceitos todo fundado sobre a contingência. Ou seja, sobre a precariedade, a provisoriedade e o fato de que os seres são de uma forma, mas eles poderiam ser de ‘N’ outras formas diferentes daquela forma que nós supomos que eles sejam.”
Portanto, o pragmatismo constrói seu fundamento sobre um mundo imprevisível e mutável, já que considera que as coisas são de determinada maneira, mas poderiam ser de outra.
Está diretamente ligado ao falibilismo, que é o reconhecimento de que as crenças e os conhecimentos podem falhar e ser revistos, e à necessidade, que diz respeito a tudo aquilo que não pode ser diferente do que é.
Segundo Petrônio, se o mundo está sempre inacabado, não podemos considerar que as ideias existentes são definitivas.
Contudo, no pragmatismo, isso não significa abandonar a realidade. Na verdade, significa reconhecer que o conhecimento continua permanentemente aberto à investigação e à experiência.
Por isso, o pragmatismo não pode ser reduzido ao utilitarismo e à ideia de que somente o que funciona é verdadeiro. Ele busca compreender, de forma relacional, como nossas formas de entender o mundo podem ser continuamente revisitadas.
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Peirce e James: dois caminhos do pragmatismo
Como foi dito anteriormente, Peirce e James são dois nomes fundamentais do pragmatismo. Entretanto, os dois filósofos desenvolvem aspectos específicos dessa corrente filosófica.
Pragmatismo como método
Peirce desenvolve o pragmatismo como método de investigação. No artigo “Como tornar nossas ideias claras”, propõe tornar os conceitos mais claros considerando seus efeitos na experiência.
O pragmatismo busca compreender as consequências práticas de um conceito. É nesse contexto que se apresenta a relação entre crença, pensamento e ação no pragmatismo como método.
As crenças orientam a relação com o mundo, mas estão abertas à revisão a partir de novas experiências.
“As crenças são fixações de ideias, ou seja, têm uma potência, porque não se trata simplesmente de acreditar em algo fantasioso, mas, na verdade, todos os dados da realidade e todo o nosso movimento no mundo se dão por meio de crenças.”
Portanto, o método pragmático procura tirar do campo abstrato o debate filosófico e levar para as consequências que as ideias podem produzir na experiência.
A partir desse movimento, Peirce estabelece uma das bases do pragmatismo e de seus desdobramentos.
Pragmatismo, experiência e pluralismo
William James coloca a experiência como eixo fundamental de sua filosofia.
Para ele, a experiência é singular e contínua e não pode ser completamente observada de fora, já que estamos sempre imersos nela.
Dessa forma, a realidade só pode ser pensada como um conjunto de relações e experiências que estão em constante transformação. A experiência não é intranscendível, não é possível sair, olhar a experiência de fora, porque tudo, na verdade, estaria imerso em experiência ao mesmo tempo.
Essa ideia está ligada ao pluralismo. Se a experiência é múltipla e a realidade está sempre em construção, não existe, então, um único método ou perspectiva capaz de explicar tudo.
“James constrói uma cosmologia em torno do que ele chama de pluriverso. Ele quer dizer que não existe o mundo se o mundo é uma ação contínua e ele é contingente. [...] Falar que existe uma unidade do universo, no fundo, é falar de um recorte, e não da totalidade do universo. [...] Se essa totalidade sempre nos escapa, não quer dizer que não haja alguma unidade ou alguma totalidade”.
Sendo assim, James entende que o mundo é um mosaico, composto por diferentes elementos e relações e, a partir da ideia de pluriverso, afasta-se de uma concepção de universo como uma realidade fechada e unificada.
A verdade pragmática ou verdade provisória
A verdade pragmática surge de uma crítica à ideia de que a verdade seria um espelho fiel, independente da experiência, capaz de representar uma realidade já pronta.
Para o pragmatismo, as ideias devem ser compreendidas de maneira relacional, considerando as experiências e suas consequências.
Contudo, isso não significa negar a existência da verdade ou afirmar que qualquer ideia se torna verdadeira apenas por ser útil.
Pragmatismo, verdade e crença
A relação entre verdade e crença é importante para compreender a discussão pragmatista sobre a verdade. Por isso, foram apresentadas anteriormente as explicações dos conceitos de crença, experiência e verdade neste artigo.
Para Peirce, as crenças norteiam a relação do sujeito com o mundo, mas são revistas no processo de investigação. Ou seja, elas não são definitivas.
Então, chega-se ao conceito de falibilismo, que reconhece que o conhecimento pode ser falho e está sujeito à revisão.
“O falibilismo está relacionado à falha, à capacidade de falhar. E isso está no coração do pragmatismo.”
Já James coloca a experiência como elemento fundamental para a compreensão da verdade, questionando a ideia de colocá-la separada daquilo que se vivencia.
Portanto, se a experiência é singular, relacional e contínua, isso significa que a realidade e o mundo não estão acabados e que as ideias podem ser revistas.
O que significa dizer que uma ideia tem consequências concebíveis?
Essa é uma das máximas da filosofia pragmatista que propõe colocar um olhar sobre os efeitos concebíveis de uma ideia.
Portanto, uma teoria ou uma crença podem ser analisados pelas consequências que produzem na experiência. Então, não basta uma ideia ser útil ou funcionar, precisa-se questionar qual efeito ela produz.
Por isso, a ideia de que o pragmatismo é uma filosofia prática e que verdadeiro é aquilo que funciona não é suficiente para explicar esta corrente.
Pragmatismo e utilitarismo
Pragmatismo e utilitarismo são correntes filosóficas diferentes. Ainda que o pragmatismo tenha sido associado à utilidade, essa correlação vem de uma interpretação simplificada deste pensamento.
Enquanto o utilitarismo coloca a utilidade em primeiro lugar ao avaliar resultados, o pragmatismo analisa a relação entre pensamento, ação e experiência.
Resumindo, pragmatismo não é utilitarismo. A diferença está em não reduzir uma tomada de decisão àquilo que é mais útil ou vantajoso.
“O pragmatismo é uma filosofia da ciência que está desconstruindo a própria consistência da ciência. Porque ele está dizendo o quê? Por que a teoria da relatividade de Einstein foi adotada pelo meio acadêmico de modo majoritário? Pensando hipoteticamente, por razões contingentes.”
Parte dessa confusão deve-se ao termo pragma, associado à ação. Porém, o pragmatismo não defende uma ação que se contrapõe à teoria.
Na verdade, pensamento e ação estão relacionados, e as ideias devem ser apreendidas considerando seu efeito na experiência.
Portanto, o pragmatismo considera um mundo contingente e inacabado, no qual crenças e ideias podem ser examinadas, revistas e entendidas a partir das consequências concebíveis que produzem.
Como ser pragmático no mundo contemporâneo
Pragmatismo é uma filosofia fundada na contingência, na experiência e nas consequências das ideias e das ações.
A partir da ideia de que nada é absolutamente verdadeiro e inquestionável, o pragmatismo considera que uma ideia ou teoria tem valor quando é capaz de lidar com problemas reais.
Por exemplo, você tem alguma escolha do passado que se arrepende hoje porque já conhece as consequências das suas ações?
No pragmatismo, as falhas do passado são apenas contingências e dados de experiência. Então, em vez de reviver o arrependimento, a postura pragmática diz que isso deve ser revisado. Use o aprendizado prático para orientar novas ações e transformar sua realidade.
Por fim, o pragmatismo ajuda a entender que o mundo pode ser transformado quando volta-se o pensamento para soluções práticas dos desafios reais do dia a dia.
Perguntas Frequentes
O que é pragmatismo: um exemplo?
Um exemplo é avaliar uma ideia considerando suas consequências na experiência, em vez de tratá-la como uma verdade definitiva e independente de seus efeitos.
O que é ser pragmático hoje em dia?
Ser pragmático hoje pode significar considerar diferentes possibilidades e consequências antes de agir, sem transformar a utilidade ou a eficiência em critérios absolutos.
Quem é o pai do pragmatismo?
Charles Sanders Peirce é considerado um dos fundadores do pragmatismo. Foi ele quem formulou inicialmente o pragmatismo como método filosófico no século XIX.
Qual é o oposto de pragmatismo?
O oposto de pragmatismo pode ser considerado filosofias que priorizam princípios abstratos ou crenças rígidas entendidas como verdades absolutas, por exemplo, o idealismo ou o dogmatismo.
Referências
Casa do Saber | Curso “Filosofia e Psicologia: uma introdução ao pragmatismo” - com Rodrigo Petrônio

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