Ressentimento, para Friedrich Nietzsche, é uma força fisiopsicológica na qual indivíduos sem forças para reagir à vida introjetam o sofrimento e transformam frustrações em valores morais, subvertendo os valores nobres.
A sociedade contemporânea enfrenta momentos de tensões e julgamentos morais. Isso se intensifica diante da incapacidade de lidar com frustrações ou com aquilo que não se concorda e alcança.
Neste artigo, você vai entender o conceito de ressentimento, sua relação com a moral e o que isso pode revelar sobre nossos valores.
O que é ressentimento em Nietzsche?
O ressentimento em Nietzsche é entendido como uma força de afeto que o ressentido manifesta frente a sua impotência diante da vida. Com isso, ele não cria valores próprios, mas transforma valores pré-existentes em sentimentos como vingança e ódio.
O ressentimento, nascido da fraqueza, a ninguém é mais nocivo do que ao próprio fraco.
Como este sentimento é reprimido, transforma-se em um julgamento moral que entende que as experiências que não podem ser vividas ou conquistadas devem ser negadas ou entendidas como “mal”, ou seja, algo ruim.
Em sua obra Genealogia da Moral, ele aborda o “bem” e o “mal” não como verdades universais, mas como valores em constante construção que são resultados de diferentes experiências de vida.
Friedrich Nietzsche explica que os ressentidos criam uma moral em que eles invertem os valores vigentes e predominantes.
Então, aquilo que é entendido como força, potência e afirmação da vida passa a ser encarado como algo “mau“. Enquanto a fraqueza, a negação e a submissão passam a ser vistas como algo “bom”.
Portanto, o ressentido não é capaz de criar valores próprios, a partir das próprias experiências. Ele reproduz e transforma valores estabelecidos, ainda que os subverta.
o ressentido é aquele a quem falta a capacidade de ver a si mesmo a partir da perspectiva do outro, [colocando a] própria perspectiva singular como unidade universal de medida das coisas
Por isso ele tende a criar uma prisão psíquica de sofrimento que é alimentada por sentimentos negativos.
Das críticas à moral e ao ressentimento às ideias de niilismo, eterno retorno e transvaloração dos valores, este curso percorre os principais conceitos de Nietzsche e sua influência no pensamento contemporâneo. Um convite para compreender a atualidade e a complexidade de um dos filósofos mais provocativos da modernidade.
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Ressentimento e a moral
Para se chegar a compreensão do que é o ressentimento, Nietzsche trouxe alguns caminhos para isso, como a tipologia do fraco e forte e a comparação da moral do senhor e moral escrava.
Antes de tudo é importante alertar que quando o filósofo usa “senhor” e “escravo” ou forte e fraco, como explica Isadora Petry e Scarlett Marton, não se pode colocar um olhar de categorias morais ou sociais.
Marton esclarece que Nietzsche traz uma perspectiva avaliadora, ou seja, os nobres colocam certos valores sob a sua própria perspectiva, enquanto os ressentidos estabelecerão outros valores a partir da sua ótica.
Então, bem e mal, forte e fraco se colocam como valores construídos a partir de diferentes vivências. E essas estruturas formam padrões morais que coordenam determinados grupos.
Moral do senhor e moral escrava
Nietzsche traz aqui a relação do humano com seus afetos, suas vontades de poder e a sua consciência.
Quando Nietzsche fala da moral escrava, por exemplo, ele está se referindo àquele ou aquela que permanece refém da moral alheia, apenas reproduzindo valores e dogmas que lhe são estrangeiros, sem possibilidade de criar a partir dos seus próprios afetos. Tornando-se, portanto, senhor de si mesmo.
E ao afirmar que “um indivíduo se tornou senhor de si mesmo” isso não quer dizer que seja uma imposição da sua vontade sobre os outros, na verdade, é o contrário, como explica Petry:
o forte, para Nietzsche, é capaz de tornar-se senhor de si mesmo justamente porque é aquele que possui a maior multiplicidade de impulsos e forças contrárias, mas que consegue mantê-la sob um certo jugo, numa certa dança, num jogo de forças, sem que um impulso precise se tornar mais tirano do que os outros.
Então, o tipo forte não quer dizer que é um sujeito equilibrado, mas sim alguém que é movido por muitos impulsos, vontades. Contudo, ele não se deixa dominar por nenhum deles, por isso ele se torna senhor de si mesmo.
O forte tem a força necessária para afastar da consciência a dor vivida, sem repeti-la, mas transformando essa dor em afetos mais potentes que afirmem a vida.
Por outro lado, a moral escrava pertence à tipologia do fraco, segundo Petry. Porque o fraco, ou o ressentido, tende a suprimir ou negar esses impulsos fazendo com que ele introjete o sofrimento, isso faz com que ele não seja capaz de esquecer da dor.
Sentimentos como raiva, ódio, inveja, são o caldo do ressentimento, de modo que o ressentido até tenta se livrar daquilo que causa dor, mas o ressentimento faz por meio de uma retaliação imaginária, o que apenas aprofunda o sofrimento.
Sendo assim, a diferença entre o forte e fraco está na forma com que os dois lidam com o sofrimento. Enquanto o fraco sente prazer nos sofrimento, o forte tenta se livrar da dor.
Moral do Rebanho
Apesar do ressentimento ser um sentimento do indivíduo ressentido, ele também pode se manifestar de forma coletiva. Nietzsche, no Aforismo XIII da primeira dissertação de Genealogia da Moral, traz a metáfora das ovelhas e aves de rapina.
Nesse aforismo, ele examina as categorias do bem e do mal, que são fundamentais para compreender a formação dos valores.
Nessa representação, as aves de rapina representam os fortes, ou seja, aqueles que afirmam sua potência. Já as ovelhas, seriam fracos, aqueles que são impotentes e incapazes de reagir à vida.

Entretanto, o filósofo afirma que não surpreende que as ovelhas tenham um rancor das aves de rapina, mas também isso não é motivo para que as aves parem de pegar as ovelhas.
Mas por que essa lógica?
Como as ovelhas (fracos) são incapazes de enfrentar as aves rapinas (fortes) no plano de ação, elas invertem a moral.
Então, consideram “mal“ aquilo que é próprio das aves de rapina, por exemplo, a força, o domínio. Enquanto, o “bom” é aquilo que elas manifestam, como a submissão, a fragilidade.
Já que elas se sentem ameaçadas em seu rebanho, o conceito de bom que criam é apenas a derivação do conceito de mal, ou seja, sua criação é uma reação ao rancor que sentem das aves de rapina.
Como elas não conseguem reagir àquela realidade, elas fazem essa inversão moral, que é o fundamento da moral do rebanho. O que as torna alienadas em relação a si mesmas.
Pois o ato de nomear a si mesmas, percebem, como boas, provém do julgamento em relação às aves de rapina. Esse tipo de pensamento próprio do ressentimento é o que está na base da moral de rebanho.
Ou seja, aquilo que é externo tende a assustar, portanto, é constantemente negado, dando origem ao ressentimento.
A relação com o outro, com aquilo que vem de fora, com o estrangeiro, é vivida como ameaça. Ou seja: a negação é o ato criador do ressentimento, o não sempre dirigido para fora, para tudo aquilo que não é o eu, para a alteridade.
Em resumo:
| Característica | Moral do senhor | Moral escrava |
|---|---|---|
| Origem dos valores | Autoafirmação | Negação do outro |
| Ação | Afirmação | Julgamento |
| “Bom” | Força, potência, criação | Resignação, aceitação, sofrimento |
| “mau”/ “ruim” | Resignação, aceitação, sofrimento | Força, potência, criação |
| Afeto | Afirmação da vida | Ressentimento |
| Exemplo | Ave de rapina | Ovelhas |
Trazendo essa metáfora para a realidade, isso nos permite compreender como as sociedades e as culturas lidam com o seus sofrimentos, exaltando a diferença entre elas.
Consciência, culpa e ressentimento
Para este processo do ressentimento de interiorização do sofrimento, Nietzsche deu o nome de má consciência.
Lembrando que, para o filósofo, a consciência é sempre má consciência (a moral), isso significa que é a incapacidade de expressar vontade de potência e desejos, com isso esses impulsos se voltariam contra o próprio indivíduo.
Dessa forma, quando o ressentido não consegue se livrar do seu sofrimento, não permite que o sofrimento se apodere da sua consciência, transformando em uma tirania sobre si mesmo.
Com isso, o ressentido passa pela introdução do sentimento de culpa. A partir do momento que ele tenta se aliviar da dor por meio do afeto da vingança, ele tem um alívio parcial da dor, mas ainda permanece escravo dela ao passo que não é capaz de esquecê-la.
o ressentido é sempre alguém que sofre e que não consegue se livrar do seu sofrimento. Ele busca o entorpecimento da dor, ou seja, a busca por um culpado, o afeto da vingança e a introjeção da culpa são sempre efeitos secundários.
De acordo com Petry, Nietzsche diz que o ressentimento tem um efeito sedativo, porque ele impede a ação direta, ou seja, em vez de descarregar o sofrimento através da agressividade, o indivíduo reprime esse impulso.
Apesar desse comportamento trazer um alívio parcial, esses impulsos não desaparecem. Portanto, um desejo inconsciente de agir permanece, mas, como esse impulso é reprimido, o sujeito passa a se sentir culpado por esse sentimento.
O ressentimento se faz importante porque ele impede que o indivíduo descarregue a vingança, o ódio no mundo, fazendo com que se transforme em culpa. Contudo, essa consciência de culpa está ligada à ideia de “cumprir a palavra“.
Historicamente foi construída a noção de que a dor era uma forma do indivíduo não esquecer as promessas que fez. Porque quando uma promessa não era cumprida, era paga por meio da dor física.
o ressentimento representa justamente a passagem de uma dívida material, com as práticas físicas de castigo, para uma dívida simbólica, introjetada pelo sentimento de culpa.
O ressentimento é exatamente o processo de interiorização dessa lógica moral.
Isadora Petry traz a imagem construída por Nietzsche por meio da figura dos padres e pastores de ovelhas. A figura do padre e do pastor de ovelhas representa o modelo histórico que fundamenta o ressentimento.
Diante da falta de sentido da existência, o niilismo, o ressentimento se apresenta como, preenchendo essa lacuna existencial. Porque traz sentido ao sofrimento ao transformá-lo em culpa e, com isso, responsabilizando o sujeito pela própria dor.
Por meio de práticas religiosas de castigos e punições, o padre volta a sua agressividade não para o outro, mas para si mesmo, incidindo o sofrimento no próprio corpo e na própria consciência como culpa.
O ressentimento como resposta ao niilismo
Para contextualizar, o niilismo é uma corrente filosófica que defende que a ausência de sentido, portanto, que a vida não tem um propósito.
Nesse vazio existencial, segundo Petry, o ressentimento se mostra como uma resposta ao niilismo. Isso acontece porque ele traz sentido à dor.
Porém, ao invés da criação de novos valores no lugar daqueles que não são mais suficientes, o niilismo ativo, o ressentido alimenta o sofrimento, o niilismo passivo.
Ou seja, ele cria caminhos e leis que suprem a necessidade de entorpecimento da dor por meio do afeto do ressentimento.
O ressentimento é um afeto decorrente do niilismo, ao mesmo tempo que uma tentativa de saída dele.
Sendo assim, o ressentimento se manifesta como uma saída do niilismo não como uma tentativa de afirmação da vida (amor fati), mas como um processo de culpa e julgamento da vida.
Desta forma, o ressentimento traz um sentido para a dor, porque como o próprio Nietzsche dizia: é melhor um culpado do que culpado nenhum.
Como o ressentimento se manifesta hoje?
Scarlett Marton afirma que o ressentimento foi uma das principais descobertas do século XX e ela se faz atual até os dias de hoje.
Desde os cancelamentos até às guerras, o ressentimento se manisfesta na sociedade contemporânea. Conseguir fazer esse diagnóstico é fundamental para que não se alimente o sofrimento e nem se entregue à resignação.
A verdade é que compreender os valores, de onde eles vêm, como a sociedade vive com as dores e sofrimentos ajuda a compreender como avaliar o que é “bom” e “mau”.
“Mas de que bom você está falando?”
De acordo com Marton, os valores são formados a partir de determinadas perspectivas avaliadoras e elas não podem ser base para essa avaliação.
Ou seja, isso significa que o valor de algo deve ser medido por seu impacto sobre a vida.
Marton traz a máxima de genealogia da moral de Nietzsche deixando uma reflexão:
esses valores que você carrega contribuem para a expansão da vida ou para a sua degeneração?
Perguntas frequentes
Qual é a frase de Nietzsche sobre ressentimento?
A frase mais famosa de Nietzsche sobre ressentimento é “O ressentimento, a ninguém é mais prejudicial que ao próprio ressentido” (Nietzsche, Ecce Homo, §6).
O que é o sentimento de ressentimento?
Para Friedrich Nietzsche, o ressentimento é um sentimento de impotência do indivíduo frente à vida, transformando a frustração em julgamento moral, invertendo valores.
Conceito de ressentimento para Nietzsche?
Segundo Nietzsche, ressentimento é um fenômeno fisiopsicológico no qual os indivíduos não conseguem lidar com suas frustrações e invertem valores morais, alimentando sentimentos negativos.
Referências:
Curso da Casa do saber: Vida, Obra e Legado | Com Scarlett Marton
Curso da Casa do saber: Nietzsche Fundamental | Com Isadora Petry
Curso da Casa do saber: Trilha da Filosofia - 5ª Temporada
Friedrich Nietzsche: Ecce Homo: de como a gente se torna o que se é. (Arthur Mourão, Trad.). Porto: Lello & Irmão, 2008.






