Filosofia

Moral de rebanho: o que é, origem e significado em Nietzsche

Moral de rebanho: o que é, origem e significado em Nietzsche

A moral de rebanho é um conceito da filosofia de Friedrich Nietzsche baseada no ressentimento, que valoriza a conformidade e a submissão do indivíduo, o que o impede de criar novos e próprios valores.

Neste artigo, você entenderá por que Nietzsche considera essa moral um problema filosófico e cultural, como ela se relaciona à moral escrava, ao niilismo e à transvaloração dos valores, além de compreender sua crítica à universalização da moral e à negação da diferença.

O que é a moral de rebanho?

A moral de rebanho é um conceito desenvolvido por Friedrich Nietzsche para descrever uma forma de compreender os valores que nascem a partir da moral dos ressentidos. Essa moral cria critérios que colocam em oposição o “bom” e o “mau” para depois criarem valores.

Para isso, o filósofo toma como referência a ideia da tipologia do bom e do mau. Por isso, a moral de rebanho está diretamente relacionada ao ressentimento e à moral escrava.

Para entender o conceito de moral de rebanho é importante considerar o procedimento genealógico adotado pelo filósofo.

Em Genealogia da Moral (1888), Nietzsche não entende os valores como eternos ou naturais, mas como criações humanas, que são produzidas em determinados contextos históricos e formas de avaliar o mundo.

Capa do livro Genealogia da Moral, de Friedrich Nietzsche
Livro Genealogia da Moral (1887), de Friedrich Nietzsche

A partir disso é que ele desenvolve dois modos de valoração, a moral dos nobres ou moral dos senhores e a moral dos ressentidos, que também é chamada de moral escrava.

Moral do rebanho e a metáfora das aves de rapina

No Aforismo XIII da primeira dissertação da obra Genealogia da Moral (1888), Nietzsche traz a metáfora das ovelhas e aves de rapina.

Águia observando um rebanho de ovelhas em um vale pastoral, representando a metáfora moral presente em Nietzsche
Representação das aves de rapina e ovelhas. Fonte: imagem gerada por IA pela autora

Mas voltemos atrás: o problema da outra origem do “bom“, do bom como concebido pelo homem do ressentimento, exige sua conclusão.— Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar as aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: ‘essas aves de rapinas são más; e quem for o menos possível ave de rapina, e sim o seu oposto, ovelha — este não deveria ser bom?’”

Nietzsche, Friedrich, p.33–34, 1998

Nesse Aforismo, Nietzsche propõe categorias do bem e do mal, as quais são fundamentais para entender a formação dos valores.

Isto é, as ovelhas se sentindo ameaçadas pelas aves de rapina, as enxergam como más. A partir desse julgamento, elas colocam a si mesmas como boas, exatamente para representar o oposto das aves.

Desta forma, o valor que dão a si mesmas é “bom” e o valor que atribuem às aves é “mau“. Portanto, essa valoração não nasce de uma autoafirmação da própria condição, mas da negação daquilo que percebem como perigo, ameaça.

Resumidamente, a moral de rebanho é uma crítica aos valores ocidentais, que construiu uma moral que organizava seus valores a partir de uma ideia coletiva de obediência e subjugação.

Essa moral impede que os indivíduos desenvolvam a capacidade, e até mesmo coragem, de criar os próprios valores, seguindo dogmas e crenças comuns que impedem que assumam a responsabilidade pela própria existência.

Como destaca Isadora Petry, a relação com o outro passa a ser vivida com medo, como ameaça e a negação passa a ser a principal ação criadora do ressentimento.

“O rebanho precisa sempre se encerrar em dogmas e crenças, ele rejeita toda perspectiva que não seja sua. A relação com o outro, com aquilo que vem de fora, com o estrangeiro é vivida como ameaça, ou seja, a negação é o ato criador do ressentimento.”

Porque, como a moral do rebanho se sustenta na oposição ao que é diferente, produz uma forma de valoração baseada na reação e não na criação dos próprios valores.

O ressentimento e a moral do rebanho

Na filosofia de Friedrich Nietzsche, ressentimento é uma força de afeto que se manifesta no ressentido por meio da incapacidade de superar o sofrimento.

Isto é, em vez de transformar e superar a dor, o ressentido permanece preso e revivendo as experiências por que passou.

Como explica Isadora Petry, é um sofrimento que se volta contra o próprio indivíduo, a partir do momento que a agressividade passa a não ser descarregada para fora e começa a agir sobre o próprio indivíduo, alimentando sentimentos como culpa, vingança e má consciência.

A partir dessa incapacidade de esquecer, o ressentido procura um sentido para sua dor. Como ele busca aliviar o sofrimento por meio da transferência de culpa, seja para um terceiro ou para si mesmo, ele alimenta sentimentos negativos.

Portanto, o ressentimento não é capaz de produzir novos valores, ele apenas responde ao que percebe, sob uma perspectiva própria, com ameaça ou injustiça.

A moral de rebanho surge dessa incapacidade de criar valores, fazendo com que o indivíduo subverta valores existentes e se sinta acolhido por crenças e dogmas compartilhados.

Segundo Petry, tudo aquilo que vem de fora ou representa uma perspectiva diferente tende a ser percebido como uma ameaça ao grupo. Então o principal mecanismo de preservação dessa moral torna-se a negação.

Como a moral do rebanho surge da reação ao sofrimento, ela depende da oposição para estabelecer seus próprios valores, reforçando a subjugação e a conformidade.

A origem da moral de rebanho

Em sua obra Genealogia da Moral (1888), Nietzsche procura explicar como diferentes formas de valorar deram origem a diferentes ideias de bem e mal.

Para isso, ele explica dois tipos de moral: a moral dos senhores (ou moral dos nobres) e a moral dos ressentidos (ou moral dos escravos). Essa distinção diz sobre perspectivas avaliadoras diferentes, isto é, diferentes maneiras de criar valores.

“Relacionar os valores com as avaliações significa, portanto, relacionar os valores com o ponto de vista daqueles que estabeleceram esses valores.”

Scarlett Marton, Nietzsche: vida, obra e legado.

Enquanto na moral dos senhores os valores surgem de um movimento de autoafirmação, na moral dos escravos, ela nasce do ressentimento, que Nietzsche coloca como uma incapacidade de superar o sofrimento.

Forte e fraco para Nietzsche

Antes de entender o que é a moral dos sem sentidos, é importante conhecer a tipologia do forte e do fraco, por que ela explica o significado que mente deu às expressões senhor e escravo.

“O forte e o fraco, o senhor e o escravo, eles não equivalem a categorias morais, físicas ou mesmo a escravidão histórica, mas sim a relação do humano com seus afetos, suas vontades de poder e a sua consciência, que para Nietzsche é sempre má consciência, moral.”

O forte, para Nietzsche, não é aquele que tenta pôr a sua vontade, mas quem consegue tornar-se senhor de si mesmo.

Já o fraco permanece preso ao ressentimento, sendo incapaz de superar o sofrimento e criar seus próprios valores. Ao contrário, ele reproduz os valores externos, somente reagindo a eles.

A partir da compreensão do que significa forte e fraco para Nietzsche, fica mais fácil compreender a diferença entre moral dos senhores e moral dos escravos.

Moral dos senhores e moral dos ressentidos

A moral dos senhores ou dos nobres nasce da autoafirmação do sujeito. Ou seja, os valores são produzidos a partir da própria força do indivíduo frente à sua experiência, sem depender da negação do outro.

Já a moral dos ressentidos ou dos escravos diz sobre um sujeito incapaz de reagir diretamente àquilo que o causa sofrimento.

Então, os ressentidos passam a entender primeiro aquilo que eles consideram mau e, somente depois, afirmar que o bom é tudo aquilo que se opõe diretamente a esse mau.

Esses termos, diz respeito à classe sociais e nem devem ser confundidos com a escravidão, como reforça Scarlet Marton.

Na verdade, eles diferenciam maneiras de se relacionar com os próprios afetos, com o sofrimento e com a criação dos valores.

“Quando Nietzsche fala da moral escrava, por exemplo, ele está se referindo àquele ou àquela que permanece refém da moral alheia, apenas reproduzindo valores e dogmas que lhe são estrangeiros, sem possibilidade, portanto, de criar a partir dos seus próprios afetos, tornando-se, portanto, senhor de si mesmo.”

Scarlett Marton, Nietzsche: vida, obra e legado.

Segundo Scarlett Marton,como os ressentidos não criam novos valores próprios, eles subvertem os valores anteriormente estabelecidos para criarem outros a partir destes já existentes, são incapazes de tornarem-se senhores de si mesmos.

Isadora Petry explica que tornar-se senhor de si mesmo não significa impor a sua vontade.

“ o forte é capaz de tornar-se senhor de si mesmo justamente porque é aquele que possui a maior multiplicidade de impulsos e forças contrárias, mas que consegue mantê-la sob um certo jugo, numa certa dança, num jogo de forças, sem que um impulso precise se tornar mais tirano do que os outros.”

Nietzsche Fundamental, Isadora Petry

Ou seja, o forte é um indivíduo que é capaz de controlar os próprios impulsos e afetos, sem se tornar refém da multiplicidade de forças que atuam sobre ele.

Diferentemente da moral escrava, que o sujeito ressentido permanece preso a valores externos, o senhor de si mesmo é capaz de criar seus próprios valores e afirmar sua existência.

Sendo assim, enquanto um afirma a si mesmo e somente depois estabelece aquilo que considera inferior ou ruim (moral do senhor); o outro reage ao sofrimento transformando essa reação à dor em uma moral.

Por isso, Nietzsche disse que o ressentido coloca primeiro o outro como mal para depois considerar a si mesmo bom.

Características Moral de rebanho
(moral dos escravos)
Moral dos senhores
(moral dos nobres)
Origem Reação ao outro e ao ressentimento. Autoafirmação e criação de valores próprios.
Construção do valor Primeiro define o que é mau. Primeiro define o que considera bom.
Valores Reproduz ou inverte valores já existentes. Cria valores a partir da própria perspectiva avaliadora.
Afeto Ressentimento Autoafirmação

Sendo assim, seus valores não são resultados de uma afirmação da própria existência, mas da inversão dos valores afirmados pelo outro, o que faz com que o identifique como oposto, ou seja, adversário.

Desta forma, a base da moral do rebanho descrita por Nietzsche está no ressentimento e na inversão dos valores.

Moral de rebanho, niilismo e transvaloração dos valores

Na Genealogia da Moral, Nietzsche relaciona a moral de rebanho à busca pelo sentido da vida.

Para o filósofo, a existência da dor não é um problema, mas a necessidade do ser humano de buscar uma explicação e um culpado para ela é a grande questão.

Segundo Isadora Petry, o ressentimento é uma resposta ao niilismo, que, diante da falta de sentido da existência, o indivíduo busca culpar, justificar e alimentar a dor e os sentimentos negativos.

Por exemplo, o ideal ascético e a figura do padre trazem a personificação do ressentido.

“A figura do padre asceta é representante dos ideais em geral. Ele é também representante da necessidade de preencher o absurdo da vida e o sem sentido da existência, ainda que por meio de leis e práticas que neguem a vida.”

Nietzsche Fundamental, Isadora Petry

Uma vez que o indivíduo interioriza a agressividade e a direciona contra si mesmo, a moral do rebanho aparece como uma resposta para a dor por meio de normas, castigos e sentimentos de culpa.

“Um culpado é sempre melhor do que culpado nenhum" Nietzsche Fundamental, Isadora Petry

A transvaloração dos valores surge como uma contraproposta a essa forma de valorar.

Nietzsche defende que a criação de novos valores é o caminho para que o indivíduo supere a moral do rebanho, seja independente e possa criar a própria moral.

O que a moral de rebanho nos ensina?

A crítica de Nietzsche à massificação da sociedade é extremamente atual.

Quando ele mostra que a moral não deve ser compreendida como um conjunto de verdades universais e imutáveis, ele mostra que cada indivíduo é capaz de construir sua moral a partir da criação de valores próprios derivados das experiências individuais.

A moral do rebanho mostra como o ressentimento, a culpa são valores historicamente postos na sociedade ocidental e como eles podem influenciar diretamente na maneira como se interpreta o bem e o mal ou o que é bom e mau.

Nesta crítica, Nietzsche sugere uma reflexão sobre a origem das crenças e valores que moldam a forma como o sujeito enxerga e guia a própria vida, mas ele também oferece uma saída através da transvaloração dos valores, ou seja, que é possível criar formas de existência que não dependam de valores existentes e herdados.

Perguntas Frequentes

O que é moral de rebanho para Nietzsche?

A moral de rebanho é um conceito crítico de Friedrich Nietzsche a uma forma de valorar baseada na conformidade, que ao reproduzir crenças e valores coletivos, torna o indivíduo incapaz de criar novos valores.

O que Nietzsche falava sobre moral?

Nietzsche entendia a moral como uma criação demasiadamente humana e histórica e não como uma verdade universal. Por isso, buscou investigar a origem dos valores e as perspectivas que os produzem.

O que é a moral dos escravos para Nietzsche?

A moral dos escravos nasce do ressentimento. O sujeito em vez de criar seus próprios valores, reage ao que recebe, invertendo valores existentes e definindo o bem a partir da negação do que considera mau.


Referências

Curso da Casa do saber: Vida, Obra e Legado | Com Scarlett Marton

Curso da Casa do saber: Nietzsche Fundamental | Com Isadora Petry

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

Em “O ocidente e a cultura da culpa” → o ressentimento se apresenta como (culpa),

Artigo escrito por
Paula Delgado
Jornalista pela UFJF, mestra e doutoranda em Comunicação pela mesma instituição, integra o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo Audiovisual (NJA).