A frase “Deus está morto“ é uma das mais famosas de Friedrich Nietzsche. Ela não significa que Deus morreu e muito mesmo uma defesa ateísmo.
O filósofo alemão quis expressar que os valores vigentes da época que eram a base da cultura ocidental estavam perdendo força e estimulando que os próprios indivíduos criassem seus próprios valores.
Contexto histórico da frase
A frase “Deus está morto” está no aforismo “O homem Louco“, da obra A Gaia ciência (1882). A partir dela, Nietzsche faz uma crítica à moral e à filosofia ocidental.
Para o filósofo, pensadores clássicos como Sócrates e Platão trouxeram um pensamento que valorizava o mundo das ideias, fazendo com que a experiência ficasse em segundo plano.
Posteriormente, o cristianismo junto com a filosofia medieval reforçaram essa ideia, uma vez que entendiam que a verdade e o bem estavam diretamente ligados a Deus e a eternidade.
Os valores absolutos que foram construídos eram postos como universais. Entretanto, conceitos como bem, verdade justiça eram vistos como princípios imutáveis e eternos.
Como explica Isadora Petry, para o filósofo, o ser humano é um ser consciente que sempre se depara com a questão do sentido da vida.
Apesar de a tradição ocidental ter criado valores e verdades para sustentar explicar a existência humana, a partir de determinado momento isso já não era mais suficiente.
Dualismo e a morte de Deus
Segundo Nietzsche, a filosofia ocidental construiu um dualismo entre dois mundos, o mundo verdadeiro e o mundo aparente.
Platão, por exemplo, como explica a professora Scarlett Marton, construiu um pensamento em que a ideia de que o bem está no ápice do mundo das ideias, como se o bem fosse essencial, imutável e eterno.
O cristianismo foi influenciado por este pensamento e também colocava a verdade em algo superior, associado a Deus, ao “além”.
Por isso, como coloca o professor Paulo Niccoli Ramirez, Nietzsche vai dizer no prefácio do livro Genealogia da Moral (1887) que o cristianismo é o platonismo para os pobres.
Tanto o cristianismo quanto o platonismo compartilham o entendimento de que existe uma verdade que está acima do mundo concreto.
Desta forma, a morte de Deus de Nietzsche representa o enfraquecimento dessa crença em valores absolutos que eram a base da cultura ocidental.
O que morre quando Deus morre em Nietzsche?
Quando Friedrich Nietzsche afirma que Deus está morto, ele não está dizendo que Deus existiu e morreu e menos ainda que ele não existe.
Ele declara que Deus está morto como uma metáfora para representar a desestabilização dos valores da sociedade ocidental.
Portanto, com a morte de Deus, instala-se uma crise na ideia de que existe uma verdade absoluta e que é estabelecida pelo divino, por algo superior.
Por isso, como explica Petry e Scarllet, a morte de Deus significa também a perda da estrutura que dava ao indivíduo uma orientação para a vida.
Se Deus está morto, então, Deus desaparece como criador e o homem como uma criatura sua.
Porque quando Deus desaparece como criador, o que guiava a existência humana também desaparece.
Relação entre a morte de Deus e niilismo
Niilismo é uma corrente filosófica que diz que a vida não tem propósito ou valores morais universais.
Apesar da a frase “Deus está morto” ser frequentemente relacionada ao niilismo, Nietzsche não era adepto à doutrina.
Na verdade, Nietzsche diagnosticou niilismo como uma doença e a sociedade precisava combater o niilismo passivo, que é marcado pela apatia.
A morte de Deus está diretamente relacionada ao avanço do niilismo na cultura ocidental. Portanto, ela é uma representação da crise dos valores tradicionais que davam sentido à existência humana.
Diz que Deus está morto e nós o matamos. Ou seja, o que se apaga é todo o horizonte, as nossas possibilidades de criar e desejar.
A moral cristã oferecia respostas para questões que incomodavam o ser humano, como o propósito da vida. Petry explica que “a hipótese da moral cristã foi um meio de cura e de proteção diante do primeiro niilismo”.
Quando os valores que sustentavam as respostas entram em crise, o ser humano se depara com a sensação de vazio e a falta de significado para própria existência.
A moral cristã, o niilismo e a morte de Deus
Segundo Nietzsche, o ser humano tem a necessidade de encontrar um sentido para vida, o que ele chama de “vontade de verdade”, na qual o niilismo encontra o seu fundamento.
A vontade de verdade não é apenas o que se encontra no fundamento do niilismo, mas ela é o seu estimulante, o primeiro afeto que surge desde que o homem se dá conta da sua condição, isto é, que ele vai morrer um dia.
O filósofo dizia que toda a moral, juízo de valor e os ideais são estruturas niilistas, porque colocam o sentido da vida fora dela.
Então, quando o indivíduo se torna um “animal da consciência”, como explica Scarlett, “ele passa questionar o sentido da vida, do sofrimento e até mesmo da própria existência.”
A moral cristã, para Nietzsche, surgiu como uma tentativa de responder ao vazio existencial do ser humano ao criar um sentido de existência baseado em verdades absolutas.
No entanto, a própria vontade de verdade que o cristianismo alimentava acabou se voltando contra ela mesmo ao questionar seus fundamentos na busca pelo sentido da vida.
Dessa forma, a moral cristã se enfraquece a partir do momento em que o homem se dá conta da sua finitude, instaurando assim a morte de Deus e a crise dos sentidos, o niilismo.
“Nós o matamos“: a responsabilidade humana na morte de Deus
Quando Nietzsche afirma que Deus está morto e que nós o matamos, quis demonstrar que essa crise dos valores foi algo construído pela própria cultura ocidental.
Segundo o filósofo, o desenvolvimento da ciência, da crítica filosófica e da racionalidade foram desestruturando o pensamento religioso e metafísico que antes eram a base do Ocidente. Como aponta Petry, “a hipótese moral perece e com isso se instaura o momento da morte de Deus.”
Com isso, o sujeito moderno, movido pela vontade de verdade, passou a questionar os valores que antes eram considerados como eternos e imutáveis.
Por isso, Nietzsche diz que “nós o matamos”, porque foi o próprio ser humano que, consciente de quem é, colocou em crise os valores da civilização ocidental.
Deus está morto e a transvaloração dos valores
Se a morte de Deus representa a perda de sentido dos valores vigentes, a transvaloração dos valores seria a resposta a essa crise, não com a destruição, mas sim pela criação de novos valores.
Valores como bem e mal, certo e errado são construções do homem, da cultura, e podem variar de acordo com o tempo em que vivemos.
Por isso, para Nietzsche, valores, verdade e culpa são construções do pensamento platônico e cristão. Esses valores passaram a ser encarados como eternos e imutáveis, ainda que sendo criações humanas.
Os valores são humanos, demasiado humanos. Paráfrase do Prólogo “Humano, demasiado humano”, de Nietzsche, feita por Scarlett Marton no curso Nietzsche: Vida, Obra e Legado
Contudo, Nietzsche propõe a transvaloração dos valores como uma forma de subverter e superar os valores ocidentais em decadência.
Destruir antigos valores para criar novos
A morte de Deus seria o ponto de partida para a transvaloração dos valores, porque é a constatação de que eles já não fazem mais sentido.
A transvaloração aparece como um processo de afirmação da vida a partir do momento em que o indivíduo é capaz de criar novos valores.
Então, não é sobre a destruição ou substituição dos valores, mas a capacidade de construir um sentido para a própria vida à medida que a vida acontece.
Por que, como diz Marton, se os valores são humanos, alguém os criou. E eles podem surgir, transformar e desaparecer, mas outros serão criados.
A morte de Deus e os outros conceitos de Nietzsche
“Deus está morto” é o diagnóstico da crise dos valores no Ocidente, os outros conceitos de Nietzsche como além-do-homem e transvaloração dos valores são desdobramentos dessa crise e caminhos para superá-la.
Niilismo e a morte de Deus
Niilismo é entendido como a falta de propósito para a vida. A partir do enfraquecimento das crenças religiosas e metafísicas, o indivíduo perde as respostas “eternas“ que davam um sentido à própria existência.
A morte de Deus seria a constatação do indivíduo sobre a crise de sentido que é caracterizada principalmente pela sensação de vazio e a ideia de que os antigos valores já não respondem às questões da vida.
Além do homem
Em Assim falou Zaratustra (1883), no prólogo,sessão 3, quando Zaratustra chega à praça do mercado na cidade faz o seu primeiro discurso, diz:
Eu vos ensino o além do homem. O homem é algo que deve ser superado.
O além-do-homem é uma representação ideal de um ser humano que foi capaz de superar a moral tradicional e criar sentidos para a própria existência.
Então, se Deus está morto, então o ser humano, enquanto um ser criado por Deus, também desaparece. Se desaparece o criador, necessariamente desaparece a criatura, como explica Scarlett.
O além do homem, agora, vai nos apresentar um ser humano que é criatura e criador de si mesmo, porque ele é um ser humano que cria valores.
Ou seja, o ser humano deixa de ser uma criatura subordinada a algo superior. Ele não se apavora frente ao vazio de sentido, ele assume a responsabilidade, afirma a própria vida e torna-se o criador de seus próprios valores.
Vontade de potência
Uma vez que Deus está morto, não existe mais um sentido universal para vida. Contudo, a vontade de potência é um impulso de expansão e afirmação da vida.
Então ela surge como uma força que faz com que o homem analise, transforme e crie os próprios valores.
Portanto, a vontade de potência é uma ferramenta que auxilia o indivíduo a superar e preencher a lacuna existencial deixada pela perda da crença nos valores tradicionais.
Perspectivismo
O perspectivismo é uma crítica da filosofia nietzschiana sobre a ideia de que existe uma um único ponto de vista sobre o mundo.
Com a morte de Deus, desaparece a ideia de que existe uma verdade absoluta, então, surge a possibilidade de libertação do indivíduo da prisão que é a moralidade, de acordo com o professor Paulo Niccoli Ramirez.
Sendo assim, toda interpretação passa a ser compreendida a partir de uma perspectiva imparcial, invalidando a ideia de que existe um único ponto de vista verdadeiro que seja capaz de afirmar a vida.
Desmistificando erros comuns sobre a morte de Deus
Nietzsche tenta provar que Deus não existe.
Este é um equívoco bem comum. Nietzsche não tenta provar a inexistência de Deus.
Quando ele usa a frase “Deus está morto“, faz um diagnóstico sobre uma transformação no pensamento moderno, já que os valores tradicionais relacionados ao Deus cristão perderam a força.
Nietzsche prega o ateísmo com a frase Deus está morto.
Esta interpretação está equivocada. Esta frase é uma representação da crise metafísica e religiosa que a sociedade ocidental enfrentava.
Nietzsche defendia a destruição de toda moral
Nietzsche criticava a moral tradicional platônica e cristã, uma vez que ambas negavam a experiência humana.
Entretanto, o filósofo defendia que o indivíduo deveria ser capaz de criar os seus próprios valores.
Nietzsche defendia a ausência de sentido
Apesar de Nietzsche estar ligado à corrente filosófica do niilismo, ele não prezava pela destruição dos valores, mas sim a criação de novos.
Após a morte de Deus, o indivíduo passa a criar os seus próprios sentidos e valores sem necessitar de bases externas para fundamentar as suas crenças.
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Perguntas Frequentes
O que Nietzsche quis dizer com Deus está morto?
Em Nietzsche, “Deus está morto” representa a queda da influência da moral e religião cristã, causando uma crise de sentido para vida e a criação de novos valores.
Qual é a frase mais famosa de Nietzsche?
A frase mais famosa de Nietzsche é “Deus está morto”. Ela é um diagnóstico feito pelo filósofo sobre a crise dos valores tradicionais ocidentais na modernidade e a busca da criação de novos valores.
Referências:
Curso da Casa do saber: Guia Essencial da Filosofia: Pensamento Contemporâneo | Com Paulo Niccoli
Curso da Casa do saber: Vida, Obra e Legado | Com Scarlett Marton
Curso da Casa do saber: Nietzsche Fundamental | Com Isadora Petry

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