Em um mundo acelerado, em que nos acostumamos a consumir áudios e vídeos em velocidade 2x, Pedro de Santi provoca um fenômeno raro: há quem desacelere suas aulas para conseguir acompanhá-las.
Com fala veloz, dispara um verdadeiro arsenal de ideias, recheadas de referências e conceitos de impressionante densidade. Não por acaso, ele mesmo brinca: “A boca não acompanha a mente”.
Pedro Luiz Ribeiro de Santi é psicanalista, supervisor e leciona como professor universitário desde 1989. Na Casa do Saber, dá aulas desde 2006.
Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, mestre em Filosofia pela USP e graduado em Psicologia (PUC-SP), também é autor de livros na área da psicanálise, embora se considere “alguém que tem mais habilidade para falar do que escrever”.
De inquietante curiosidade sobre tudo, encontrou no conhecimento a sua via de acesso ao mundo e às pessoas. Nas horas vagas, gosta de ler, ver filmes e séries, pedalar e tocar piano - ainda que, segundo ele, trave ao se apresentar para alguém.

Abaixo, alguns dos cursos do professor na Casa do Saber
- Freud Fundamental: As Ideias e as Obras
- Psicanálise e Mitologia: Uma Introdução
- Freud e as Relações Humanas: Os indivíduos e a sociedade
- Casos Clínicos Clássicos de Freud
- O Tripé da Formação do Analista
Confira todos os cursos do professor
Introspecção, um grande sintoma
O interesse pela leitura acompanha Pedro de Santi desde criança. Aos 7 anos, já desbravava as aventuras de Monteiro Lobato - “antes de se tornar politicamente incorreto”, brinca o professor.
Guarda na memória a expectativa pela chegada do pai, que trabalhava uma vez por semana em São Paulo e retornava a São José dos Campos trazendo um novo fascículo da enciclopédia Os Bichos, sua coleção preferida.
Era na escola, nos livros e nas músicas de Elton John e Guilherme Arantes - que tocava ao piano - que encontrava seu espaço. O caminho do conhecimento, no entanto, vinha acompanhado de uma inibição e certo isolamento - aquilo que, mais tarde, reconheceria como seu grande sintoma.
Com o tempo, a análise e a experiência de vida trouxeram outra leitura. A intelectualidade, longe de ser um obstáculo, revelou-se justamente sua forma de acessar o mundo. Foi por essa via que passou a fazer amigos, conquistar reconhecimento e se relacionar. E, assim, descobriu um grande prazer: o de ensinar.
“Um bom professor é um bom contador de histórias”
Pedro de Santi começou a lecionar cedo, aos 21 anos. Tudo começou naturalmente, ainda na graduação de psicologia da PUC-SP, quando atuava como monitor. Alguns alunos o incentivaram a criar um grupo de estudos sobre Freud, dando início a uma trajetória que, desde então, nunca mais se interrompeu.
Ao falar sobre sobre o ofício, resgata a admiração por professores que marcaram sua formação, como Renato Mezan e Maria Rita Kehl. “Um bom professor é um bom contador de histórias - um transmissor quase mítico de cultura”, comenta.
Recorda com entusiasmo as aulas de mitologia grega e romana ministradas pelo professor Junito de Souza Brandão, que lotavam o TUCA, teatro da PUC-SP, um sábado por mês, das oito horas até o meio-dia. “As pessoas ficavam ouvindo Homero como se estivessem o ouvindo pessoalmente contando as histórias - e era uma coisa deliciosa”, relembra de Santi.
Quanto ao seu papel como professor, diz sentir-se privilegiado por trabalhar com o que ama. Mesmo após tantos anos lecionando para a graduação, ainda se emociona ao ver o brilho nos olhos dos jovens alunos e ao participar do caminho de expansão da vida das pessoas.
“Eu acho que o que mais gosto é ampliar a perspectiva, não ensinar conceitos. Ampliar ângulos para perceber o mundo. Acho que é o sonho de qualquer professor, né? Abrir um campo novo de possibilidades, de coisas pensáveis para um aluno.”

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“O melhor lugar da psicanálise é ela ser esquisita e estranha”
Na avaliação de Pedro de Santi, o fato de a psicanálise estar “na moda” não é algo necessariamente positivo, pois o movimento costuma vir acompanhado de muita banalização.
Segundo ele, é comum o discurso escorregar para um viés de aconselhamento, como se fossem manuais sobre como lidar com situações específicas, como uma separação, por exemplo.
“Nós não somos gestão de pessoas. Todo discurso da psicanálise é muito crítico a essa ideia de um autocontrole, autodeterminação, do ‘só depende de você ‘. É preciso falar sobre essas questões como convites à reflexão - e não como fazer uma coisa ou outra.”, comenta o psicanalista.
Sem grandes pretensões de se lançar como fenômeno midiático, brinca ao dizer que já se tornou um “subcelebridade” ao constatar que já acumula mais de 18 mil seguidores no Instagram.
Ao visitar seu perfil, o que se vê são postagens simples e diretas: agendas, convites para aulas, seminários e lançamentos de livros. Sem rodeios - e talvez justamente por isso - reúne seguidores interessados em pensar a psicanálise como ele acredita: esquisita, estranha e fora dos holofotes.
Sobre tempo, viagens e sonhos de infância
Com duas filhas, alguns casamentos e muitas experiências, Pedro de Santi avalia que os 60 anos chegaram em um momento particularmente bom: as filhas estão bem, o trabalho está legal e o relacionamento amoroso também. “A gente fica mais velho, o corpo sente um tantinho, mas você se desobriga de muitas coisas que já cumpriu com a humanidade”, comenta.
Na infância, gostava de rodar um “globinho terrestre” - que guarda até hoje - brincando de apontar o dedo e imaginar os lugares que conheceria.
Hoje, tem realizado esse desejo. Se aventurou por lugares variados como Rússia, Islândia, China, Japão, Patagônia e Namíbia. Neste último, viu de perto leões, girafas e rinocerontes, os mesmos animais que sonhava em conhecer quando colecionava os fascículos da enciclopédia.

Imortalidade? Deve ser um saco…
Evocando Freud e o brilhante texto “Sobre a Transitoriedade” (1917), de Santi destaca a importância da passagem do tempo. Para ele, é justamente a consciência da finitude que nos faz aproveitar melhor a vida.
Ele relembra que em determinado debate foi questionado sobre o que achava da imortalidade e a resposta foi categórica: “deve ser um saco!”
A transitoriedade, segundo ele, nos posiciona no presente. É ela que nos leva a valorizar o dia de hoje, pedir desculpas a alguém que ofendemos ou até fazer aquela viagem ao Japão que sempre esteve nos planos.
“Essa consciência faz você ter mais tolerância, entender as limitações humanas, e, de fato, desfrutar. Escolher melhor as batalhas, lidar com o tempo sabendo que ele vai passar, e que, portanto, é preciso viver e desfrutar essa vida. São coisas que a idade vai dando também”, analisa.
Que não seja imortal, posto que é chama
Falando de finitude, quantas contribuições o poetinha não poderia fazer sobre o assunto, hein?
Quando questionado sobre uma figura que gostaria de trocar uma ideia em um bar, foi Vinicius de Moraes o personagem escolhido por de Santi. Segundo ele, Vinícius é alguém que teve muitas vidas, poesias, rumores e músicas.
“Eu considero que compartilho com ele as várias encarnações que temos em uma vida. Ele teve a fase diplomata, a fase Bossa Nova, a fase Baden Powell, a fase Toquinho e Vinícius. E teve os casamentos também, que eu também chamo de encarnações - sobre como é rico poder ter uma mesma vida, várias encarnações.”, comenta ao justificar a escolha.

Passatempos preferidos
Entre suas paixões está a bicicleta: pedala cerca de 150 km por semana. Sair cedo, por volta das 6h, e enxergar a cidade de São Paulo em uma velocidade diferente a do carro é muito importante para seu prazer e saúde.
Também cultiva o gosto pelo cinema, relembrando a época em que frequentava o Cineclube do Bixiga e o Cineclube Cine Oscarito.
Entre seus filmes favoritos estão Asas do Desejo (Wim Wenders), Era uma vez na América (Sergio Leone), E la Nave Va (Fellini) e Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore).
Também indica produções mais recentes como “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)”, “Valor Sentimental (2025)” e a série “Slow Horses (2022)”, estrelando Gary Oldman, seu ator vivo favorito.
O piano, por sua vez, ocupa um lugar mais íntimo. Quando muito, toca para a namorada ou para as filhas, mas entende que é uma prática que cultiva para si.
“Meu grande prazer é esse: acordo com uma música na cabeça e eu preciso me livrar dela. Eu me livro dela sentando ao piano”.
A relação com a Casa do Saber
Sua história com a Casa do Saber já se aproxima de duas décadas. Pedro de Santi brinca que, ao longo desse tempo, acumulou diferentes versões de si, como ele mesmo brinca:“Tem eu mais magro, mais gordo, com barba, sem barba… têm vários Pedros nos cursos”.
A visibilidade da plataforma, segundo ele, aumenta a responsabilidade sobre o que transmite, algo que equilibra com a confiança na equipe de edição.
Entre seus cursos favoritos na Casa do Saber +, estão Nietzsche e Freud: Consciência, Culpa e Moral, com Oswaldo Giacóia Junior, e Cinco Maiores Bandas de Rock Progressivo, com Stela Campos e Luciano Buarque de Holanda.
De forma constante, os cursos de Pedro de Santi estão sempre figurando entre os mais assistidos da plataforma e acumulam elogios dos assinantes:
“Pedro consegue trazer um conteúdo aprofundado com conexões das experiências diárias, o que facilita a compreensão do conteúdo.”
“Incrível a habilidade do professor de sintetizar partes essenciais da obra de Freud com leveza e profundidade”
“O curso foi ministrado num formato inteligente e com uma clareza didática incrível!! Apesar de resumido, expôs as principais ideias a nos Instigou a buscar com afinco cada fundamento da psicanálise. Parabéns ao professor! BRILHANTE!”
Aquela criança introspectiva e intelectualizada cresceu e encontrou o mundo. A alegria e respeito que transmite ao explicar sobre psicanálise só faz aumentar em nós o desejo de continuar aprendendo.
A cada vez que Pedro de Santi fala, o tempo parece desacelerar diante da velocidade de suas palavras. E, por alguns instantes, todos nós voltamos ao 1x, buscando absorver um pouco mais do que ele tem a nos ensinar.




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