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Por mais pessoas com cavalos no quintal

Por mais pessoas com cavalos no quintal

No final dos anos 1950, Antônio, um jovem de 18 anos com transtorno afetivo bipolar, foi internado Hospital Psiquiátrico do Jurujuba, em Niterói (RJ). Em uma época marcada por intensa violência manicomial, ele se uniu a outros dois internos e traçou um plano que parecia impossível: subir no caminhão que entregava mantimentos e fugir.

Após algumas tentativas fracassadas, conseguiu.

Saltou na estrada e, entre caronas e caminhadas, reencontrou os pais em Nova Friburgo (RJ). Foi ali que reconstruiu sua vida: conheceu sua esposa, formou uma família, teve quatro filhos e oito netos.

Anos depois, o neto mais velho, Lucas, também aos 18 anos - a mesma idade em que o avô havia sido internado - seguiria para Niterói. Mas, dessa vez, o destino era outro: a faculdade de Psicologia da Universidade Federal de Niterói (UFF).

Graças à fuga de Antônio, Lucas Veiga pôde existir.

E, desde então, vem construindo uma trajetória marcada pelo compromisso com a saúde mental e pela ampliação da presença de pessoas negras nesse campo.

Retrato de Lucas Veiga com camisa preta em fundo neutro
Lucas Veiga, psicólogo, psicanalista e escritor


Lucas Veiga é psicólogo e mestre em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Articula as práxis anticoloniais com a promoção de saúde mental, apostando na criação de saídas e saúdes pela via da descolonização do inconsciente.

Pensa a clínica na sua interface com a arte, a filosofia e a política. No consultório, faz atendimentos individuais e em grupo e oferece supervisão clínico-institucional a outros profissionais.

Nas organizações, trabalha com análise institucional, palestras e consultorias em saúde mental. É professor na Casa do Saber. e autor do livro “Clínica do impossível: linhas de fuga e de cura” (Telha, 2021).

Fora do consultório, é profundamente ligado à família, especialmente aos sobrinhos, que fazem da função de “tio Lucas” uma de suas favoritas. Apaixonado pelo Rio de Janeiro, cidade onde vive, gosta de pedalar pelo Aterro do Flamengo, praticar musculação, além de revelar-se um grande fã de Lady Gaga.



O cavalo no quintal: um gesto de liberdade

Lucas cresceu na casa dos avós, em Nova Friburgo, cercado por uma família numerosa. Foi ali que desenvolveu uma relação muito próxima com o avô Antônio, que alternava entre períodos de estabilidade e fases de profunda depressão.

Nos momentos em que o avô se isolava no quarto, Lucas era um dos poucos que tinham sua presença permitida. Ainda criança, demonstrava uma curiosidade genuína em compreender o que se passava com ele. “Percebi que só estar presente, só o fato de poder estar lá, tinha um efeito importante para ele.”

Essa experiência, vivida muito antes de qualquer formação teórica, atravessaria toda a sua trajetória.

Para além dos desafios, se recorda de momentos divertidos proporcionados pelo avô, como o dia em que, em um período de mania, trocou o aparelho de som por um cavalo. O animal passou a viver no quintal da casa, fazendo a alegria da criançada, e Antônio ensinou os netos a montar. Aquilo se tornou, à sua maneira, uma espécie de terapia ocupacional.

Homem idoso segurando um cavalo em ambiente externo
Antônio, avô de Lucas, ao lado da égua 'Estrela'.

É nesse contexto que nasce o interesse de Lucas pela psicologia.

Hoje, atravessado por temas como o racismo, Lucas aplica na prática clínica e em seus trabalhos teóricos aquilo que aprendeu com o avô: pensar a promoção da saúde mental como um exercício de liberdade. Uma aposta de que, mesmo em contextos de opressão, é possível criar cavalos no quintal.

Lucas Veiga criança montado em um cavalo em rua de paralelepípedo
Lucas Veiga na infância, montado na égua que o avô criava no quintal de casa.


Quando uma pessoa está em sofrimento, às vezes o máximo que você pode fazer é testemunhar aquele sofrimento e oferecer a sua presença.”


A certeza do caminhar

Na faculdade, Lucas iniciou o contato com a prática da psicologia. Eram ainda os primeiros passos de um jovem estudante. Em um dos estágios, atuou com alunos de uma escola pública, com o objetivo de reduzir a evasão escolar.

Como a maioria dos estudantes era negra, rapidamente criou uma conexão com eles, sobretudo por se reconhecerem em um estagiário que compartilhava da mesma identidade. Ainda no início da trajetória, pôde perceber a importância da sua presença e escuta para aqueles jovens.

O segundo ponto de virada veio com o início dos atendimentos clínicos.

Foi ali que se evidenciou, de forma ainda mais clara, a potência de testemunhar uma história.

Você escutar uma pessoa verdadeiramente, a pessoa se sentir escutada, construir com ela saídas possíveis para aquilo que causa sofrimento e, ao longo do tempo, acompanhar seus reposicionamentos, vê-la conseguindo viver melhor... isso confirmou para mim, ainda na universidade, que era esse o trabalho que eu queria fazer.



Sobre cabelo, representatividade e o espelho

Após se formar, Lucas iniciou o trabalho na Casa Viva Bangu, um abrigo para adolescentes em situação de rua com histórico de uso abusivo de drogas, localizado na zona oeste do Rio de Janeiro.

Logo ao chegar, algo lhe chamou a atenção: além de a maioria dos jovens ser negra, praticamente todos tinham o cabelo raspado.

Na instituição, promovia rodas de conversa sobre temas como sexualidade, uso de drogas e questões familiares. Na época, usava o cabelo em estilo black power. Com o tempo - e sem qualquer abordagem direta sobre o tema - percebeu uma mudança.

Os jovens começaram a deixar o cabelo crescer.

De forma natural, começaram a perguntar “ô tio, qual shampoo você usa? Quanto tempo levou para o seu cabelo ficar desse tamanho?”.

Muitos deles tiveram o contato com a textura do próprio cabelo pela primeira vez aos 15 anos”, relembra Lucas.

A partir daí, foi possível construir, junto a eles, todo um trabalho sobre autoestima, identidade negra e racismo.

Os adolescentes passaram não apenas a se olhar no espelho, mas a se reconhecer nele. E, de alguma forma, também a encontrar em Lucas um espelho possível.

Quando eu me formei, eu não tinha foto no Whatsapp

Após formado, apesar de confiar na qualidade de sua escuta, Lucas optava por não exibir sua foto no WhatsApp. Havia um receio silencioso: o de que possíveis pacientes desistissem do contato ao perceber que ele era um psicólogo negro.

Um psicólogo negro não está posto no imaginário das pessoas.”

Foi a partir da experiência na Casa Viva que essa questão ganhou contornos mais nítidos. Diante do que vivenciou ali, Lucas passou a se aprofundar nos estudos sobre saúde mental da população negra e entrou em contato com a Black Psychology - um movimento que surgiu nos Estados Unidos, na década de 1970, a partir do trabalho de intelectuais negros do campo da saúde mental.

Esses autores buscavam compreender, por um lado, os efeitos do racismo na saúde mental e, por outro, o que poderia ser entendido como uma subjetividade negra saudável.

Em 2019, Lucas começa a ministrar cursos sobre psicologia preta em diferentes estados do país - um debate que ainda era pouco presente nas universidades.

Ao fomentar o tema ao lado de outros psicólogos e psicólogas negras, foi possível apropriar-se da teoria e trazer ferramentas que os tornaram mais seguros e empoderados no exercício de sua profissão.

Foi uma virada muito grande, não só para mim, mas para vários psicólogos e psicólogas negras. Mais pessoas negras começaram a entender que a terapia também era para elas. Que poderiam escolher fazer terapia com um profissional negro, porque agora temos vários profissionais negros no campo da saúde mental no Brasil.

A transformação também se fez sentir em sua própria trajetória.

Se antes havia o medo de não ser escolhido por ser quem é, passa a experimentar o oposto: ser procurado justamente por este motivo.

Lucas Veiga sentado em ambiente interno com expressão sorridente

Fã de Lady Gaga, musculação e roteirista em formação

Entre os principais hobbies de Lucas, estão pedalar no Aterro do Flamengo, declarando-se um verdadeiro fã da beleza da cidade

Além disso, brinca que tem hiperfoco na musculação.

Eu sinto que a endorfina e todos os hormônios que são liberados enquanto estou malhando me trazem muito bem-estar. Sinto muita falta quando eu não malho.”, comenta.

Quando o assunto é música, elege Lady Gaga como sua diva pop, desbancando até mesmo Beyoncé. Também é fã de MPB, tendo Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa como os artistas que mais escuta.

Já fez aulas de piano e aprendeu a tocar a música “Hero”, de Mariah Carey, mas relata não ter conseguido dar sequências nas aulas, algo que pretende retomar em algum momento.

No cinema, tem como principal referência o diretor Pedro Almodóvar, sendo “Tudo Sobre Minha Mãe” seu filme predileto. A paixão pela sétima arte também o levou a iniciar uma formação em roteiro, que, segundo ele, ajuda a “arejar os caminhos” e a “não só trabalhar com a realidade, mas também com a ficção”.

Um papo divertido com Foucault

Lucas é apaixonado pela obra de Foucault. Não à toa, mantém uma foto impressa do pensador em frente ao computador, que marca presença constante em seu cotidiano de trabalho.

A admiração não é só teórica, mas se abre para questões pessoais de sua biografia. Por isso, ao ser indagado sobre qual personagem histórico gostaria de bater um papo informal, Lucas não titubeou em escolhê-lo.

Ilustração de Lucas Veiga conversando com Michel Foucault em mesa de café ao ar livre
Ilustração de um bate-papo entre Lucas Veiga e Michel Foucault

Queria conversar sobre os amores, sobre a relação dele com o Daniel, que foi seu companheiro durante toda a vida. Perguntar o que ele pensaria sobre não-monogamia, sobre sua família, sobre a relação com a mãe, sobre como foi se descobrir homossexual em uma época em que isso ainda era um grande tabu… e que conselhos ele me daria, enquanto também pesquisador gay.

Entre as muitas ideias que o marcaram, há uma frase dita pelo pensador em uma entrevista que ele reflete com frequência : “Não me peçam para ser o mesmo.”

Foucault me inspira nesse lugar de alguém que, mesmo com todas as restrições da sua época, pôde exercer a liberdade e construir uma relação com a própria vida, com a sexualidade e com o amor na relação com o Daniel.

Uma referência aos 36 anos

Lucas se recorda de uma conversa com um amigo, ainda no início da faculdade, em que projetava o futuro profissional. Seu desejo era claro: tornar-se uma referência na área e alcançar pessoas dentro e fora da academia.

Hoje, ao revisitar sua trajetória, se emociona ao reconhecer que esse caminho começa a se concretizar.

Meu livro já foi referência em concursos para professor universitário mais de uma vez, assim como outros artigos .” , comenta.

Hoje, consegue utilizar uma linguagem que pode ser acessada tanto pelo público universitário, como também por pessoas como sua mãe, tias, as vizinhas da avó, e diversas outras que não puderam estar em uma universidade.

É muito forte para mim me ver tendo sido o neto do meu avô, tendo essa história, vindo desse lugar, ter podido construir um trabalho que mexe e toca as pessoas.”, avalia.

Lucas Veiga palestrando com microfone em evento

Um fã assíduo da Casa do Saber

Lucas declara-se um verdadeiro entusiasta da Casa do Saber - e conta, com humor, que foi ele quem bateu à porta da instituição, oferecendo-se para dar aulas.

Entre seus cursos preferidos, estão os do professor Pedro de Santi, Christian Dunker e Tatiana Paranaguá.

Também menciona os cursos Egos Alterados, com André Alves e Lucas Liedke, e Para entender Winnicott, com Lucas Charafeddine Bulamah, como um de seus preferidos.

Com a palavra, seus alunos

Em relação aos cursos de Lucas na plataforma da Casa do Saber, ninguém melhor do que os assinantes para dizerem:

Um dos melhores cursos que já assisti na vida! Parabéns Lucas Veiga, que transmissão incrível e potente! Bravo!

Excelente exposição. Conteúdos que abarcam uma realidade e que temos com a nossa escuta clínica promover mudanças. A fala de Lucas Veiga nos dá ferramentas para a compreensão da complexidade do problema e saídas para enfrentamento na nossa atuação enquanto psicólogas. Muito bom!

Com o decorrer da minha graduação, notei que os debates presentes em sala de aula pouco abarcavam as dimensões acerca da negritude e os impactos do racismo na construção da subjetividade do indivíduo negro. Nesse sentido, passei a buscar por conteúdos para além da minha formação e cheguei até aqui. Definitivamente, será um curso que recomendarei para meus colegas, o conteúdo é riquíssimo e extremamente necessário!”

Da fuga de Antônio à consolidação de uma trajetória própria, Lucas Veiga constrói um caminho que articula escuta, presença e transformação.

Hoje, mais do que um nome em ascensão, torna-se referência e, sobretudo, espelho para profissionais da saúde mental, estudantes e para tantos brasileiros que, ao se reconhecerem em sua história, passam também a imaginar outras possibilidades de existência.

Artigo escrito por
Rodrigo Gomes
Jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), participou como escritor do livro "Outras Memórias Possíveis" (2016), organizado por Toninho Dutra. Sempre interessado em conhecer (e contar) boas histórias. Atualmente é analista de conteúdo na Casa do Saber.