Psicologia

Como funciona a terapia e o que acontece nas sessões?

Como funciona a terapia e o que acontece nas sessões?

Você já pensou em fazer terapia, mas ficou sem saber exatamente o que aconteceria ou como funcionam as sessões?

Talvez tenha imaginado que precisaria chegar ao consultório já sabendo o que dizer, que precisaria contar toda a sua história de uma vez ou que o terapeuta vai te julgar pelo que você disser.

Essas expectativas são mais comuns do que parecem e podem tornar a ideia de começar uma terapia mais assustadora do que ela realmente é.

O ponto mais importante é que não existe uma única forma de fazer terapia.

A psicoterapia é um processo de cuidado que pode assumir diferentes formatos e objetivos de acordo com a abordagem do profissional e as necessidades de cada pessoa.

Ainda assim, há alguns elementos comuns: a construção de um vínculo de confiança, a escuta profissional, a fala sobre experiências e sentimentos e um trabalho contínuo de reflexão e elaboração.

Se você quer entender como funciona a terapia, o que acontece durante uma sessão, o que esperar da primeira conversa e como perceber as mudanças ao longo do processo, esse texto é pra você.

O que é terapia e como ela funciona?

A terapia pode ser entendida como um processo de acompanhamento realizado por um profissional qualificado, no qual questões relacionadas à vida emocional, aos pensamentos, aos comportamentos e aos relacionamentos podem ser exploradas.

O objetivo não é simplesmente eliminar sentimentos considerados negativos, mas compreender o que está acontecendo e construir, ao longo do tempo, possibilidades de lidar com essas experiências.

Por isso, terapia não é uma conversa informal entre duas pessoas. Existe uma relação profissional, com objetivos, limites e responsabilidades.

O terapeuta utiliza conhecimentos e métodos próprios de sua formação para conduzir o processo, enquanto a pessoa atendida participa trazendo suas experiências, percepções, dúvidas e dificuldades.

O que acontece em cada sessão, entretanto, varia.

Algumas terapias podem trabalhar mais diretamente com situações presentes e estratégias para lidar com determinados problemas. Outras podem dedicar mais espaço à história de vida, às relações, aos conflitos e aos significados atribuídos às experiências.

Essas diferenças estão relacionadas às abordagens da psicoterapia.

Cada uma possui conceitos, métodos e formas próprias de compreender o sofrimento e o processo de mudança.

Conheça, de forma resumida, algumas delas:

Abordagem Foco
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Relação entre pensamentos, emoções e comportamentos, com foco em dificuldades do presente.
Psicanálise Inconsciente, conflitos, desejos e experiências que atravessam a história da pessoa.
Gestalt-terapia Experiência no presente, consciência de si e relação com o ambiente e com outras pessoas.
Terapia sistêmica Relações e padrões de interação nos sistemas dos quais a pessoa participa, como família e casal.
Terapia humanista Experiência subjetiva, autonomia, autenticidade e desenvolvimento pessoal.

Há também diferenças na frequência das sessões, na duração do acompanhamento e na maneira como terapeuta e paciente definem os objetivos do trabalho.

Ou seja, isso significa que não existe uma sessão de terapia que sirva como modelo para todas as pessoas.

Mulher fazendo terapia
Existem diferentes abordagens dentro da psicoterapia, e cada uma possui maneiras próprias de compreender as experiências, o sofrimento e os processos de mudança. Foto: Unsplash

O que acontece na primeira sessão de terapia?

A primeira sessão costuma ter um caráter diferente das seguintes. É um momento de apresentação e de construção inicial do vínculo, mas também pode ser importante para que o profissional compreenda por que a pessoa procurou atendimento.

É comum que o terapeuta pergunte o que levou à busca por terapia, quais são as principais dificuldades enfrentadas naquele momento e o que a pessoa espera do processo.

Dependendo do profissional e da abordagem, também podem surgir perguntas sobre história de vida, relacionamentos, rotina, saúde e outros aspectos relevantes.

Não é necessário chegar à primeira sessão com uma história organizada, certo? Muitas pessoas procuram terapia justamente porque não conseguem organizar aquilo que estão sentindo.

E ah, também é possível dizer isso ao terapeuta. Frases como “não sei por onde começar”, “não sei exatamente o que estou sentindo” ou “nunca fiz terapia antes e estou nervoso” fazem parte da própria experiência terapêutica e isso nunca deverá ser um problema.

A primeira sessão também é uma oportunidade para entender como aquele profissional trabalha.

Questões práticas, como frequência, duração dos encontros, valores, horários, formato das sessões e regras relacionadas a faltas ou cancelamentos, podem ser conversadas nesse momento.

A psicoterapia acontece na sobreposição de duas áreas do brincar: a do paciente e a do terapeuta.

Donald W. Winnicott, O brincar e a realidade (1971)

Para Winnicott, a psicoterapia não se resume à aplicação de uma técnica. Ela acontece no encontro entre duas pessoas e no espaço de confiança que se constrói entre elas. É nesse espaço que podem surgir espontaneidade, criatividade e novas possibilidades de experimentar a própria vida.

O que falar na terapia quando não sei o que dizer?

Uma das ideias mais comuns sobre terapia é que é preciso chegar a cada sessão com algo importante para contar. Não é assim, fique tranquilo(a).

Pode haver sessões em que a pessoa fala bastante sobre acontecimentos recentes e outras em que não consegue encontrar palavras. O silêncio e até a dificuldade de falar sobre determinado assunto também podem fazer parte do processo.

Se você não sabe o que falar, pode começar exatamente por isso: “não sei o que falar hoje”. A partir daí, o terapeuta pode ajudar a compreender o que está acontecendo.

Também não é necessário contar tudo de uma vez. A confiança é construída progressivamente, e algumas experiências podem levar tempo até que seja possível falar sobre elas.

Isso não significa, porém, que a pessoa precise esconder deliberadamente informações importantes ou seguir um roteiro ideal de comportamento.

A terapia depende de uma participação ativa. Quanto mais possível for falar sobre aquilo que realmente está acontecendo, inclusive sobre dúvidas, desconfortos ou discordâncias em relação ao próprio tratamento, mais material haverá para o trabalho terapêutico.

Lembrete importante: Não há expectativas do terapeuta a serem supridas e isso é muito importante de ser lembrado.

O processo é seu e não deve haver espaços para que você pense ou se comporte em função do que o seu terapeuta espera de você.

Qual é o papel do terapeuta?

O terapeuta não ocupa o lugar de alguém que possui todas as respostas sobre a vida do paciente.

Essa é uma diferença importante entre terapia e a busca por conselhos.

Em vez de simplesmente dizer o que uma pessoa deveria fazer, o profissional ajuda a investigar a situação, identificar padrões, compreender sentimentos e ampliar as possibilidades de reflexão e ação.

O tipo de intervenção varia conforme a abordagem. O profissional pode fazer perguntas, apontar contradições, propor exercícios, apresentar interpretações, ajudar a identificar determinados padrões ou simplesmente acompanhar atentamente aquilo que está sendo dito.

Em todos esses casos, a escuta ocupa um lugar central.

O psicólogo Carl Rogers, um dos principais nomes da psicologia humanista, escreveu:

O curioso paradoxo é que, quando me aceito exatamente como sou, então posso mudar.

Carl Rogers

A frase, publicada em seu livro On Becoming a Person, sintetiza a ideia de que mudança e autoconhecimento não precisam partir de uma rejeição de quem somos.

A relação construída entre terapeuta e paciente também importa.

Sentir-se ouvido, respeitado e seguro para falar de experiências difíceis pode favorecer a possibilidade de explorar aspectos da própria vida que nem sempre encontram espaço no cotidiano.

Mão fazendo anotações durante uma terapia
O vínculo entre paciente e terapeuta faz parte do processo. Por isso, falar sobre desconfortos, dúvidas ou até sobre não estar gostando de alguma coisa nas sessões também pode ser importante. Foto: Unspash

Quanto tempo dura uma sessão de terapia?

Não existe uma duração universal para uma sessão de terapia, pois ela pode variar conforme o profissional, a abordagem e o tipo de atendimento.

Em muitos casos, uma sessão dura cerca de 50 minutos, embora esse tempo possa ser maior ou menor dependendo do formato do acompanhamento.

Também é importante diferenciar a duração de uma sessão da duração de todo o processo terapêutico. Uma sessão pode durar determinado período, enquanto o acompanhamento pode se estender por meses, anos ou terminar antes disso.

A frequência também pode variar. Sessões semanais são bastante comuns, mas a periodicidade pode ser definida de acordo com as necessidades da pessoa, os objetivos do tratamento e o planejamento do profissional.

Por isso, não existe uma quantidade de sessões que determine quando alguém “terminou” a terapia. O tempo do processo depende de cada pessoa e pode ser revisto ao longo do acompanhamento.

Durante quanto tempo é necessário fazer terapia?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis de responder porque não existe um prazo fixo.

A duração depende de fatores como o motivo que levou à terapia, os objetivos estabelecidos, a abordagem utilizada, as características da pessoa e o desenvolvimento do próprio processo.

Há acompanhamentos relativamente breves e outros que se estendem por períodos mais longos.

Também pode haver mudanças nos objetivos ao longo do caminho. Uma pessoa pode inicialmente procurar ajuda por causa de uma dificuldade específica e, depois de algum tempo, perceber outras questões que gostaria de compreender.

Por isso, terapia não deve ser encarada como uma corrida com um número predeterminado de sessões.

O encerramento pode ser discutido quando os objetivos do acompanhamento foram alcançados, quando a pessoa entende que não deseja continuar ou quando terapeuta e paciente avaliam juntos que é o momento adequado para finalizar aquele processo.

Como saber se a terapia está funcionando?

Nem sempre os resultados aparecem como uma transformação repentina. Muitas vezes, as mudanças são graduais e podem ser percebidas em situações do cotidiano.

Alguns sinais possíveis são:

  • Perceber melhor aquilo que sente;
  • Identificar padrões que antes pareciam invisíveis;
  • Conseguir falar sobre assuntos que eram muito difíceis;
  • Compreender melhor as próprias necessidades e limites;
  • Lidar de outra maneira com determinadas situações;
  • Perceber mudanças na forma de se relacionar;
  • Desenvolver novas estratégias para enfrentar dificuldades;
  • Sentir maior autonomia para tomar decisões.

Isso não significa que a terapia precise produzir uma sensação constante de bem-estar. Algumas sessões podem ser difíceis, desconfortáveis ou até frustrantes. Entrar em contato com questões dolorosas faz parte de muitos processos terapêuticos.

O mais importante é observar se existe algum movimento no processo e se aquilo que está sendo construído faz sentido para você.

Também é possível conversar diretamente com o terapeuta sobre essa avaliação: “não sei se estou melhorando”, “sinto que estamos falando sempre das mesmas coisas” ou “não entendo para onde estamos indo”.

Esse tipo de conversa não é um fracasso da terapia. Pode ser parte dela.

E se eu não gostar do terapeuta?

É, nem sempre existe identificação imediata entre paciente e profissional. E isso não significa necessariamente que a terapia não funcionará.

Ao mesmo tempo, sentir desconforto constante, ter medo de ser julgado, não se sentir respeitado ou perceber que não existe confiança suficiente são sinais que merecem atenção.

O vínculo terapêutico não precisa significar que o terapeuta será uma pessoa de quem você gostaria de ser amigo. Trata-se de uma relação profissional.

Ainda assim, é importante que exista um nível suficiente de confiança e segurança para que o processo possa acontecer.

Se algo incomodar, é possível falar sobre isso durante a terapia. Em alguns casos, a conversa pode melhorar a relação e ajudar o processo a avançar. Em outros, pode ficar claro que outro profissional seria mais adequado.

Trocar de terapeuta não significa fracassar. Encontrar um profissional com quem seja possível construir uma relação de trabalho adequada pode fazer parte do início do tratamento.

Terapia presencial e terapia online são iguais?

A terapia online acontece por meio remoto e pode oferecer uma alternativa para pessoas que têm dificuldade de comparecer presencialmente, moram longe do profissional ou preferem esse formato.

No Brasil, o atendimento psicológico mediado por tecnologias digitais é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia e deve seguir as mesmas exigências éticas e técnicas aplicáveis ao exercício profissional da Psicologia.

Isso não significa que presencial e online sejam experiências idênticas. O ambiente, a privacidade disponível, a qualidade da conexão e a possibilidade de estabelecer um espaço reservado para a sessão podem influenciar a experiência.

Para algumas pessoas, a modalidade online funciona muito bem. Para outras, o atendimento presencial pode fazer mais sentido.

A escolha depende das necessidades e condições de cada pessoa, além da avaliação do profissional.

Psicoterapia, psicólogo e psiquiatra: qual é a diferença?

Os termos podem causar confusão, mas a gente explica:

Psicoterapia é o processo de tratamento psicológico realizado por um profissional habilitado. O psicólogo é um profissional formado em Psicologia e pode atuar em diferentes áreas, incluindo a clínica.

Já o psiquiatra é um médico especializado em Psiquiatria. Por ter formação médica, pode realizar avaliação médica e prescrever medicamentos quando isso for indicado.

Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico não são necessariamente alternativas. Em determinadas situações, os dois tipos de cuidado podem fazer parte de um mesmo tratamento, cada um com sua função.

A palavra “terapia” também é usada de maneira ampla no cotidiano. Por isso, ao procurar atendimento, é importante entender a formação do profissional, quais serviços ele oferece e qual é a sua qualificação para realizar aquele tipo de acompanhamento.

É preciso estar em crise para fazer terapia?

Não. A terapia pode ser procurada diante de um sofrimento intenso, mas não é necessário esperar que uma situação chegue ao limite para buscar ajuda.

Algumas pessoas procuram psicoterapia depois de uma mudança importante, diante de dificuldades nos relacionamentos, no emprego, por causa de sentimentos persistentes ou para compreender melhor determinadas questões pessoais.

Outras chegam sem saber exatamente qual é o problema, apenas percebendo que alguma coisa não está bem.

Também é possível procurar terapia sem estar passando por uma crise específica. O processo pode envolver autoconhecimento, reflexão sobre escolhas, relações e maneiras de lidar com diferentes situações da vida.

O que esperar e o que não esperar da terapia

Você pode esperar: Você não deve esperar:
Um espaço profissional de escuta; Respostas prontas para todos os problemas;
Perguntas e intervenções que ajudem a refletir sobre suas experiências; Que o terapeuta decida questões da sua vida por você;
Construção gradual de confiança;
Um processo que pode mudar conforme suas necessidades;
Uma transformação instantânea ou um prazo universal para “ficar bem”;
Participação ativa na construção dos objetivos do acompanhamento. Que todas as sessões sejam agradáveis;

Terapia é um processo, não uma receita

Talvez a melhor maneira de entender como funciona a terapia seja abandonar a expectativa de que existe uma fórmula pronta sobre ela.

Cada pessoa chega ao consultório com uma história, uma maneira de compreender o mundo e necessidades bastante diferentes.

O terapeuta está ali para participar e ajudar em um processo no qual aquilo que a pessoa vive pode ser observado, questionado e elaborado.

Por isso, a terapia não acontece apenas quando alguém fala. Ela também envolve escuta, vínculo, tempo, silêncio, dúvidas, mudanças de perspectiva e a possibilidade de perceber aquilo que antes parecia difícil de nomear.

Se eu puder dar uma dica, é lembrar que uma parte importante do trabalho está justamente em construir, aos poucos, condições para que esse processo possa ser compreendido de outras maneiras.

E claro, o processo de mudança não precisa começar pela tentativa de se tornar outra pessoa. Pode começar pela possibilidade de olhar para quem se é, naquele momento, com mais compreensão.

Dúvidas comuns sobre terapia

O que acontece na primeira sessão?

O profissional costuma se apresentar, conhecer a pessoa, entender o motivo da busca por atendimento e conversar sobre expectativas, contexto e objetivos. Também é um momento para esclarecer questões práticas sobre o acompanhamento.

Quanto tempo dura uma sessão?

Não existe uma duração única para todas as terapias. O tempo pode variar de acordo com o profissional, a abordagem e o tipo de atendimento, porém, geralmente, há uma média de 50 minutos de sessão.

É normal não me identificar com o terapeuta?

Sim. A identificação pode levar tempo, e nem toda relação profissional funciona para todas as pessoas. Se houver desconforto persistente ou falta de confiança, conversar sobre isso ou buscar outro profissional pode ser adequado.

Referências

ROGERS, Carl R. On becoming a person: a therapist's view of psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin, 1961.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.