
Como responder à pergunta “Deus existe”? Segundo Aristóteles, a filosofia nasce do assombro e do encanto diante da realidade. E quando o pensamento mitológico já não bastava, o ser humano buscou explicações racionais.
Contudo, algumas coisas ainda não podiam e não podem ser explicadas racionalmente. Com isso, a ideia de Deus, para explicar o que ainda não é explicável e visível, pairou sobre as questões filosóficas. Mas o que seria esse Deus e ele existe?
Neste texto você vai conhecer os argumentos pró e contra a existência de Deus e os principais pensadores do tema.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
A origem da pergunta: por que buscamos Deus
Apesar da existência de Deus ser uma questão filosófica ocidental desde a antiguidade com Platão e Aristóteles, ainda não se conseguiu construir um conhecimento sólido para se confirmar ou não esse fato.
Entretanto, filósofos, teólogos e pensadores desenvolveram diferentes argumentos para tentar se alcançar essa verdade, como:
- argumento cosmológico
- argumento ontológico
- argumento teológico
- argumento moral
Diversos fatores podem explicar isso, como busca por propósito, esperança, conforto emocional, contexto cultural, experiências pessoais, explicação para o que ainda não pode ser explicado.
Contudo, o termo Deus é usado em várias culturas, cada uma à sua maneira. Porém a figura de um criador do mundo é o que há de semelhante na maioria delas.
Fé e razão
A princípio pode parecer que esses dois campos não conseguem caminhar juntos, mas a história da filosofia já provou que diversos pensadores fizeram um esforço intelectual para conciliar as duas formas de pensamento.
Primeiramente, voltemos à antiguidade com Aristóteles que dizia que Deus não sabe que o mundo existe tamanha a sua perfeição, como explica o professor Andrei Venturini, no curso “Deus existe?”, da Casa do Saber.
“Deus é tão perfeito que ele nem sabe que o mundo existe. Porque o mundo é uma expressão da contingência e olhar para o mundo seria uma espécie de fragilidade de Deus. Então, Deus está de costas para o mundo. Ele é totalmente indiferente às coisas do mundo.”
Tempos depois o cristianismo vem com a ideia ocidental do Deus do monoteísmo clássico ou do teísmo, ou seja, um Deus supremo, que opera milagres e é interessado no mundo e na humanidade.
Mais tarde, filosofia e religião se encontram, por exemplo, em Tomás de Aquino que pensa fé e razão, a filosofia e a ciência juntamente.
Na modernidade, a busca por Deus se relaciona ao esforço de conciliar razão, ciência e fé, enquanto o sujeito passa a confiar mais na autonomia do pensamento humano.
Já na contemporaneidade, Deus é buscado menos como explicação racional do mundo e mais como resposta existencial ao vazio, à angústia e à perda de sentido.

As principais tentativas de provar a existência de Deus
Ao longo da história da filosofia, diversos pensadores elaboraram argumentos para sustentar a existência de Deus e compreender o fundamento último da realidade.
Argumento Ontológico
O argumento ontológico parte do princípio que “Deus é o ser do qual não se pode pensar nada de mais perfeito”, de acordo com o professor Andrei Venturini.
Ele foi uma tentativa de conciliação da fé e da razão para privar a existência de Deus realizada por Santo Anselmo.
A filosofia tem como principal instrumento o argumento. Sendo assim, um argumento forma-se ao menos a partir de uma premissa e uma conclusão.
Para isso, Santo Anselmo construiu um argumento composto por 4 premissas para chegar à conclusão de que Deus existe:
- 1ª premissa: Deus é o ser do qual não se pode pensar nada de mais perfeito.
- 2ª premissa: existir na mente com uma simples ideia é diferente de existir na realidade.
- 3ª premissa: existir na mente e na realidade é mais perfeito do que existir somente na mente.
- 4ª premissa: se Deus existisse somente na mente, seria possível pensar em um ser mais perfeito que Deus.
Então, o princípio a priori de Santo Anselmo é: Deus existe necessariamente no intelecto, mas também fora dele.
Argumento cosmológico
O argumento cosmológico forma-se a partir das evidências que se apresentam no mundo sensível e, com isso, torna-se possível inferir a existência de Deus.
Portanto, este argumento diz que que tudo que existe tem uma causa, sendo impossível uma combinação perfeita de causas.
Sendo assim, é necessário admitir uma causa primeira, não causada por outra, responsável por dar origem e sustentação a toda a realidade existente. Essa causa é identificada filosoficamente como Deus necessário e eterno.

O argumento cosmológico pode ser encontrado da Suma Teológica de São Tomás de Aquino e ele apresenta as cinco vias, uma demonstração da existência de Deus.
- via do movimento
- via da primeira causa eficiente
- via do ser necessário e contingente
- via dos graus de perfeição
- via da finalidade
Portanto, através de argumentos lógicos construídos a partir da observação, São Tomás de Aquino concluiu a necessidade da existência de Deus.
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Argumento teleológico
A palavra “telos”, em grego, significa finalidade. Sendo assim, o argumento teleológico coloca Deus como um designer do universo, um ordenador.
São Tomás de Aquino dizia que a causa final do mundo é Deus, como explica o professor Andrei Venturini.
“Deus organizou o mundo para que o mundo possa cumprir a sua finalidade, para que cada coisa possa cumprir o seu objetivo. […] ao afirmar a existência dessa causa final, ao afirmar a existência de uma mente inteligente, ordenadora de tudo aquilo que existe, em seguida, ele associa tal ser a Deus.”
O argumento da causa final é racional, ou seja, para que o mundo se mostre ordenado é necessário um ordenador inteligente, que seria Deus.
Argumento moral
O argumento moral para provar a existência de Deus parte da filosofia kantiana.
Para Kant, a experiência moral revela deveres que se impõem universalmente, independentemente de interesses pessoais, cultura ou circunstâncias históricas humanas.
A existência desses valores morais universais sugere uma ordem ética objetiva, que não pode ser reduzida apenas à razão empírica humana concreta.
Assim, Kant defende que Deus seria a fonte transcendente da moral, garantindo sentido, justiça última e coerência entre virtude e felicidade.
As críticas, negações e experiência sensorial sobre a existência de Deus
Enquanto alguns filósofos buscavam explicar racionalmente a existência de Deus, outros a questionavam, interpretando a fé como uma construção histórica, psicológica e social.
Contudo, também existiam os pensadores que buscavam compreender como o ser humano lida com o sentido da vida, a liberdade e a ausência de certezas absolutas.
David Hume
David Hume critica as tentativas racionais de provar a existência de Deus ao questionar a noção de causalidade. Ou seja, não temos acesso direto a causas necessárias, apenas observamos sucessões de eventos.
“Hume diz que a analogia que nós usamos para apresentar o nosso argumento pode determinar o resultado do argumento” - professor Andrei Venturini
Assim, afirmar que o mundo tem um propósito divino ultrapassa os limites da experiência possível.
Hume também desconfia dos argumentos teleológicos (ou do desígnio) ao dizer que ordem aparente não garante intenção consciente, mas apenas hábito interpretativo humano.
Para Hume, o ser humano não pode provar racionalmente a existência de Deus, porque os argumentos religiosos ultrapassam os limites da experiência e da razão, ficando no campo da crença.
Friedrich Nietzsche
Nietzsche é conhecido pela sua frase “Deus está morto”, mas ao contrário do que muitos pensam, ele não afirmou a morte de Deus.
Na verdade, ele quis expressar a crise dos valores vigentes na modernidade no ocidente, o esvaziamento da metafísica tradicional.
Com o avanço da ciência e da racionalidade, as crenças religiosas tradicionais perderam sua força social e cultural. Isto é, não é apenas o fim da fé, mas um enfraquecimento das bases morais que dependiam de Deus.
Então Nietzsche vê nessa transformação uma possibilidade de criação de novos valores humanos, os quais poderiam superar a moralidade divina.
Ludwig Feuerbach e Karl Marx
Para Feuerbach, não é Deus quem cria o ser humano, mas o ser humano que cria Deus. Ou seja, a ideia de Deus é uma projeção das qualidades humanas idealizadas, como bondade, poder e justiça.
E Marx retoma essa crítica ao afirmar que a religião é uma resposta ao sofrimento social e instrumento de alienação. Portanto, Deus é simbolicamente um conforto diante da exploração material, o que desvia o foco das causas reais da miséria e da desigualdade.
Freud
Freud interpreta Deus a partir da psicanálise, ou seja, como expressão do inconsciente humano.
Para ele, Deus é uma projeção da figura paterna, uma resposta do inconsciente ao desejo infantil de proteção, ordem e conforto.
Então Deus assume o papel do pai idealizado, aquele que oferece amparo emocional e segurança. Assim, a religião não é prova de uma realidade transcendente, mas um mecanismo psíquico de enfrentamento da angústia.
Kierkegaard
Kierkegaard defendia que a fé não é resultado de provas racionais, mas de uma decisão existencial. E essa decisão seria o “salto da fé”, no qual o indivíduo se entrega à fé ainda que ela rompa com a moral e a ética vigente naquela sociedade.
A partir dessa relação direta com Deus, o indivíduo assume o risco, a responsabilidade, o que pode causar angústia mediante as consequências dessa decisão.
Portanto, a fé surge onde a razão encontra seus limites, transformando a relação com Deus em uma experiência solitária e não mediada por instituições ou teorias demonstráveis.
Camus e Sartre
Camus e Sartre partem da constatação do absurdo, ou seja, a falta de um sentido dado previamente ao mundo.
Enquanto Camus entende que o ser humano enfrenta a não resposta do universo e precisa aprender a viver sem busca pela transcendência; Sartre afirma que a ausência de Deus leva à liberdade radical, fazendo com que o indivíduo seja totalmente responsável por seus atos e escolhas.
Sendo assim, ambos rejeitam certezas absolutas, mas veem na liberdade e na ação ética possibilidades de afirmação da existência.
A visão contemporânea: ciência, razão e transcendência
Na filosofia contemporânea, ciência e fé existem em um tensionamento de ideias.
Enquanto a cosmologia moderna apresenta e discute ideias e descobertas como Big Bang, a radiação cósmica; a fé ocupa o espaço dos limites do conhecimento, ou seja, aquilo que a ciência (ainda) não explicou.
O compromisso com o religioso tradicional não se faz tão presente nos debates atuais, mas alguns pensadores trabalham a ideia da busca pelo significado e propósito da vida, mas sem necessariamente está vinculado a dogmas ou instituições religiosas.
A ciência investiga a evolução do universo, como a vida se organizou para que o mundo existisse. Porém ela não encontrou a resposta para o porquê do mundo existir, é esse espaço metafísico que a fé ocupa.
Frases famosas sobre a existência de Deus
- "Será o Homem um erro de Deus, ou Deus um erro dos Homens?" (Nietzsche)
- “A religião é uma tentativa de superar a dor da impotência humana.” (Freud)
- "O homem nada é além do que ele se faz." (Sartre)
- “O segredo do meu universo: imaginar Deus sem a imortalidade humana." (Camus)
Perguntar se Deus existe é também investigar quem somos, quais valores nos orientam e como buscamos sentido diante da finitude e do mistério da existência.
Não há respostas definitivas, apenas caminhos possíveis de reflexão, experiência e diálogo entre razão, fé e vida.
Perguntas frequentes sobre Deus e filosofia
Quais são os principais argumentos filosóficos sobre a existência de Deus?
Os argumentos sobre a existência de Deus são o cosmológico, o ontológico, o teleológico e o moral.
O que significa o “Deus está morto”, de Nietzsche?
A frase “Deus está morto” significa a perda de força das crenças religiosas tradicionais na modernidade, o que gerou uma crise dos valores da época e fez com que o ser humano buscasse um novo sentido superando a moralidade divina.
Como a ciência trata a questão da existência de Deus?
A ciência não afirma e nem nega Deus, já que trabalha com fenômenos passíveis de verificação. Ela se concentra em explicar racionalmente como o universo funciona, não em responder questões metafísicas.
A filosofia pode provar que Deus existe?
Não, a filosofia não oferece provas concretas da existência de Deus. Entretanto é uma ferramenta para construção de argumentos racionais que nos ajudam a refletir sobre os limites do conhecimento diante do mistério.
Por que a dúvida é importante para o pensamento filosófico?
A dúvida é o principal elemento do pensamento crítico, porque evita a concordância sem reflexão e estimula a investigação constante, permitindo que se questione certezas e busque a compreensão da realidade.

Referências:



