
“Quem sabe isso quer dizer amor? Estrada de fazer o sonho acontecer.” Milton Nascimento nos ensina que o amor é uma construção. Mas, o que isso significa em uma relação romântica?
O amor romântico é, no sentido mais amplo, uma construção cultural idealizada que associa atração intensa e paixão à expectativa de um vínculo profundo e exclusivo, capaz de suprir necessidades emocionais e dar sentido à vida.
Neste artigo, vamos entender o que é o amor romântico, como ele se formou historicamente, por que hoje se fala em crise do amor romântico, qual a leitura da psicanálise sobre idealização e desejo, e de que maneira novas formas de se relacionar surgem como tentativa de resposta a esses impasses.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
Aprendemos nos filmes e livros que o amor é sinônimo de “felizes para sempre”, ou seja, relacionado a ideia de encontrar a alma gêmea, viver uma história intensa, exclusiva e eterna.
Mesmo em um cenário de profundas transformações sociais, essa ideia de amor romântico segue organizando expectativas, desejos e frustrações.
Ao mesmo tempo, cresce a sensação de desgaste. Muitas pessoas relatam cansaço emocional, dificuldade de sustentar relações, medo de dependência e uma sequência de frustrações amorosas.
Termos como crise do amor romântico, amor líquido, dependência emocional e capitalismo afetivo deixaram de circular apenas em espaços acadêmicos e passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano.
Mas o que exatamente está em crise? O amor em si ou o ideal que construímos em torno dele?
Para responder a essa pergunta, é preciso olhar para o amor romântico não como algo natural ou óbvio, mas como um modelo histórico e cultural, atravessado por transformações sociais, econômicas e subjetivas.
Só assim é possível compreender por que ele já não se sustenta da mesma forma e quais efeitos isso produz na saúde mental e nos vínculos afetivos contemporâneos.

O que é o amor romântico?
O amor romântico não é uma experiência universal e atemporal, mas uma construção histórica do Ocidente.
No texto O Mito do Amor Romântico (2007), Maria Célia de Menezes aponta que diferentes épocas produziram formas distintas de compreender o amor. Na Grécia Antiga, ele estava ligado à busca pelo Belo e pelo Bem. Já ali aparece a ideia de incompletude, expressa no mito das metades, que mais tarde será incorporada ao imaginário romântico como a busca pela “outra metade”.
Curiosidade:
O mito das metades foi criado pelo dramaturgo Aristófanes (445 a.C.) e foi registrado pelo filósofo grego Platão, por volta de século IV a.C., no livro “O Banquete”. No mito, ele conta que os humanos eram originalmente duplos e completos, mas foram divididos pelos deuses, passando a buscar sua “outra metade” para se sentir completos. É uma metáfora sobre desejo e amor, não uma verdade literal.
Na Idade Média, com o amor cortês e o trovadorismo, o amor passa a ser idealizado e associado ao sofrimento, à renúncia e à devoção. Amar torna-se uma experiência intensa, muitas vezes impossível, que valoriza a paixão e a idealização do ser amado.
Esse imaginário se consolida em narrativas literárias que exaltam o amor exclusivo, absoluto e capaz de superar qualquer obstáculo, inclusive a morte – como bem aprendemos com a lenda medieval Tristão e Isolda (séc. XII) e Romeu e Julieta, de William Shakespeare (1597).

É no Romantismo, entre os séculos XVIII e XIX, que esse modelo se cristaliza como ideal dominante.
O amor romântico passa a prometer completude, felicidade e sentido de vida por meio da união entre dois indivíduos considerados únicos um para o outro.
Sustentado por mitos, literatura, religião e, mais tarde, pela cultura de massa, esse ideal se torna referência central para as relações afetivas, e é justamente esse modelo, forjado em outro contexto histórico, que hoje começa a mostrar seus limites.
Segundo Tatiana Amendola, no curso Amor: Uma Visão da Sociologia, o amor romântico se transforma em um verdadeiro “organizador da vida emocional moderna”. É nele que passamos a concentrar expectativas que antes estavam distribuídas entre família ampliada, comunidade, religião e trabalho.
Esse histórico e essa centralidade ajuda a explicar por que o amor romântico é vivido de forma tão intensa e, muitas vezes, tão sofrida.
O que esse ideal romântico promete, afinal?
O amor romântico se sustenta porque promete responder a necessidades humanas profundas: o desejo de pertencimento, de reconhecimento, de cuidado e de sentido. Ele se apresenta como uma estrutura capaz de organizar a vida emocional.
Entre suas principais promessas, estão:
- Exclusividade: a ideia de ser único e insubstituível para alguém, ocupando um lugar central e privilegiado na vida do outro.
- Completude: a sensação de que o encontro amoroso pode preencher uma falta, como se o outro viesse restaurar algo que estava ausente.
- Felicidade: o amor como caminho para uma vida plena, equilibrada e emocionalmente satisfatória.
- Segurança emocional: a expectativa de encontrar no parceiro um porto seguro, alguém que ofereça estabilidade, acolhimento e proteção diante das incertezas da vida.
Essas promessas são constantemente reforçadas por narrativas culturais. A mensagem é clara: se a relação falha, algo deu errado na escolha, na entrega ou no esforço para manter o vínculo. E sabemos muito bem que não é assim, né?
Segundo Alessandra Martins, no curso Relações amorosas e seus contratempos, o problema não está em desejar amor, vínculo ou intimidade, mas em transformar o amor em uma promessa de solução total.
Quando isso acontece, o relacionamento passa a carregar expectativas impossíveis de sustentar.
O parceiro deixa de ser alguém com quem se constrói uma relação possível e passa a ocupar o lugar de garantia de felicidade, identidade e segurança emocional, ou seja, um peso que tende a gerar frustração, dependência emocional e sofrimento psíquico ao longo do tempo.

Idealização e desejo: o que a psicanálise nos diz
A idealização é parte constitutiva do amor. No início de uma relação, é comum enxergar o outro através de projeções, fantasias e expectativas. Isso torna o encontro amoroso intenso, envolvente e transformador, né?
Do ponto de vista da psicanálise, esse movimento faz parte do funcionamento do desejo. Freud já apontava que amar envolve investir no outro algo de si mesmo. Lacan aprofunda essa ideia ao afirmar que o amor se estrutura em torno da falta, ou seja, amamos aquilo que acreditamos que nos falta ou que pode nos completar.
“O amor é muito importante, é decisivo, mas ele não é onipotente, a hora que a gente começa a achar que tudo o que deu errado é porque faltou amor, você está confundindo provavelmente ou substituindo o amor pelo desejo” (Dunker, A Arte de Amar).
O problema começa quando a idealização não pode cair. Em outras palavras, quando o parceiro deixa de ser um sujeito real e passa a ser responsável por sustentar autoestima, sentido e felicidade. Nesse ponto, qualquer falha do outro se transforma em frustração profunda.

A crise do amor romântico: o que mudou?
A chamada crise do amor romântico não significa que as pessoas deixaram de amar ou de desejar vínculos. E ainda bem! Ela está relacionada a transformações profundas na forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.
Entre os principais fatores dessa crise, podemos destacar:
- Valorização crescente da autonomia individual
- Mudanças nos papéis de gênero
- Maior independência econômica
- Fragilização das instituições tradicionais
- Aceleração do tempo e das relações
- Entrada da lógica do consumo na vida afetiva
Segundo Tatiana Amendola, amar hoje implica lidar com uma tensão constante entre duas demandas que nem sempre se conciliam: o desejo de vínculo e o imperativo de autonomia. Queremos intimidade, mas tememos dependência; buscamos conexão, mas protegemos a liberdade individual. Complexo, né?
O psicanalista Christian Dunker no curso A Arte de Amar, nos lembra sobre como o amor é um processo de descoberta não apenas do universo do outro, mas do próprio universo, na medida em que nos obriga a encarar a nossa complexidade, nossos defeitos, incoerências e dores.
“Falar de amor é falar de si, falar de si em relação a um outro, falar de si fora de si, falar de si para aquela pessoa. Em geral, imaginando que será uma outra pessoa, melhor. Pode acontecer o contrário, mas o risco amoroso e a cobiça que a gente tem nessa experiência é que ela vai nos levar a um outro estado de ser, e um outro estado também de compartilhar o mundo” (Dunker, A Arte de Amar).
Capitalismo afetivo: amar entrou na lógica do mercado
Amar, hoje, acontece em um cenário em que o vínculo afetivo passou a carregar expectativas que antes não lhe pertenciam.
Como propõe Ana Suy, no curso Amor e Solidão, o amor frequentemente é convocado a responder à solidão, ao desamparo e à busca por sentido típicos da experiência contemporânea.
Em um mundo marcado pela instabilidade, o relacionamento amoroso tende a ser investido como promessa de completude e segurança.
Nesse contexto, o amor deixa de ser apenas encontro e passa a funcionar como projeto de reparação emocional. Espera-se que o outro sustente a felicidade, organize a identidade e ofereça proteção contra o vazio.
Como lembra a psicanalista, o amor não elimina a solidão, que é estrutural. Quando isso é ignorado, qualquer falha do outro é vivida como ameaça ou abandono.
A cultura contemporânea reforça esse ideal ao exibir relações aparentemente perfeitas, sem conflito ou desgaste. As redes sociais, por exemplo, alimentam a fantasia de que amar deveria ser fácil, leve, constante e plenamente satisfatório.
No entanto, vínculos reais incluem dúvida, frustração e desencontro. A tentativa de eliminar o mal-estar empobrece a experiência amorosa e intensifica a angústia quando a realidade não corresponde à promessa.
Se relacionar é difícil mesmo, gente. Mas faz parte da vida. E é assim, a crise do amor romântico emerge justamente desse descompasso. Amar, hoje, exige sustentar limites, aceitar a falta e abandonar a expectativa de que o outro possa resolver o mal-estar de existir sem, com isso, abrir mão do desejo de vínculo.
Isso não significa que amar romanticamente precisa ser um sacrifício, mas diz que precisamos sair da nossa zona de conforto para viver algo bonito e saudável de verdade.
Se Zygmunt Bauman descreve esse fenômeno como amor líquido – essas relações mais frágeis, flexíveis e facilmente dissolúveis – é porque assumimos um medo de uma proximidade que pode nos revelar vulnerabilidades, dependência e atravessamento pela falta.
Aproximar-se do outro implica risco, exposição e a possibilidade de frustração, e isso dói, né?
Esse peso ajuda a entender por que a proximidade assusta. Relações formalizadas ainda operam como organizadoras da vida adulta: definem pertencimento, status, planejamento financeiro e até identidade. É o que nos mostra os dados abaixo:
Índices de casamento e divórcio no Brasil (IBGE)
Casamentos 2024
- Total de casamentos civis: 948.925 (+0,9% em relação a 2023)
- Casamentos entre pessoas do mesmo sexo: 12.187 (+8,8%, novo recorde)
- Número ainda abaixo do período pré-pandemia
Divórcios 2024
- Total de divórcios: 428.301 (-2,8% em relação a 2023)
- Última queda registrada antes de 2024: entre 2019 e 2020 (-13,6%)

Em outras palavras, o casamento e o amor hoje funcionam também como mercadoria, porque passaram a carregar expectativas que antes não eram responsabilidade do outro: segurança emocional, completude, organização da vida e até status social.
Ou seja, relacionar-se virou um “investimento”, um “business”, e que se espera um retorno, seja em felicidade, estabilidade ou reconhecimento social.
Novos modelos de relacionamento: ruptura ou continuidade?
Diante do desgaste do modelo tradicional, ganham visibilidade outros modelos de relacionamento, como o relacionamento aberto, o poliamor e arranjos não monogâmicos. Muitas vezes, essas formas aparecem como tentativa de responder às contradições do amor romântico, especialmente à exclusividade e à ideia de posse.
Segundo Tatiana Amendola, ainda no curso Jornada do Amor Saudável, nenhum modelo relacional elimina o conflito. Não existe formato capaz de dispensar diálogo, elaboração emocional e responsabilidade afetiva.
Quando essas formas são idealizadas como solução definitiva, correm o risco de repetir o mesmo mecanismo do amor romântico: a crença de que um arranjo externo resolverá impasses subjetivos internos.

Complementando essa perspectiva, Ana Carolina Souza, no curso Amor como Revolução – Neurociência dos Afetos e Relações Sociais, lembra que o amor é, antes de tudo, uma resposta emocional complexa e motivacional, que mobiliza o corpo e o comportamento de forma fisiológica, inconsciente e automática.
Cada vínculo ativa sistemas motivacionais que orientam aproximação, cuidado ou defesa, e essas respostas não desaparecem por mudança de modelo relacional.
Em outras palavras, nenhum formato de amor elimina a necessidade de lidar com emoções intensas, como atração, ciúmes, raiva ou frustração, nem dispensam o trabalho de atenção, empatia e diálogo genuíno.
A prática do amor envolve investimento, dedicação e conexão social significativa. Desenvolver vínculos requer empatia ativa: nutrir relações, colocar atenção na outra pessoa, frear julgamentos, buscar pontos de convergência e agir de forma conciliativa – tudo isso é o que constrói um relacionamento saudável.
Gilberto Gil, em Drão, não nos deixa esquecer que o amor da gente é vão e que se estende no infinito, não para durar pra sempre, de modo objetivo, mas para se disseminar e se transformar todos os dias! Já ouviu essa música? Se ainda não, segue a sugestão: ouça aqui.
Perguntas frequentes sobre amor romântico
O que é amor romântico?
O amor romântico é uma construção histórica e cultural que associa atração intensa e paixão à expectativa de um vínculo profundo, exclusivo e capaz de oferecer sentido, felicidade e segurança emocional. Ele não é universal nem atemporal, mas resultado de transformações sociais e simbólicas ao longo do tempo.
Por que se fala em crise do amor romântico?
A crise do amor romântico está relacionada às mudanças na vida contemporânea, como maior valorização da autonomia individual, transformações nos papéis de gênero e aceleração das relações. O ideal romântico segue existindo, mas já não se sustenta da mesma forma diante dessas novas exigências.
O que a psicanálise diz sobre o amor romântico?
Para a psicanálise, o amor envolve idealização, projeções e fantasias, especialmente no início das relações. Autores como Freud e Lacan mostram que o amor se estrutura em torno da falta e do desejo, e que o sofrimento surge quando o outro é colocado no lugar de garantia de felicidade e completude.
Novos modelos de relacionamento substituem o amor romântico?
Novos modelos de relacionamento, como relações abertas ou não monogâmicas, não eliminam conflitos ou sofrimento. Segundo o artigo, nenhum formato dispensa diálogo, responsabilidade afetiva e elaboração emocional, e idealizar esses modelos como solução pode repetir impasses do próprio amor romântico.

Referências:
MENEZES, Maria Célia de. O Mito do Amor Romântico. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 5/6, p. 539-572, maio/jun. 2007.
https://curadoria.casadosaber.com.br/cursos/395/amor-uma-visao-da-sociologia
https://curadoria.casadosaber.com.br/cursos/199/a-arte-de-amar
https://curadoria.casadosaber.com.br/cursos/287/amor-e-solidao-uma-psicanalise-das-conexes-humanas



