Neurociência, Saúde Mental & Comportamento

Neurocientista: o que faz, onde trabalha e como se tornar um

Neurocientista: o que faz, onde trabalha e como se tornar um

Aprendemos nos filmes e nas séries que o neurocientista é quase sempre aquela figura de jaleco, cercada por equipamentos de laboratório, tentando desvendar os mistérios do cérebro.

Às vezes, aparece como alguém que trabalha sozinho, em experimentos complexos, procurando respostas sobre memória, comportamento ou até sobre a própria mente humana.

Na vida real, porém, a área é bem mais diversa e o caminho para se tornar um neurocientista também.

O neurocientista é quem estuda o sistema nervoso — cérebro, medula espinhal e nervos — para entender como ele funciona e como se relaciona com o que sentimos, pensamos e fazemos.

Não existe uma graduação obrigatória para chegar lá, mas o caminho mais comum começa em uma faculdade de área afim e continua na pós-graduação, sobretudo no mestrado e no doutorado.

Se você já se perguntou por que esquece um nome segundos depois de ouvi-lo, ou por que uma música antiga desperta lembranças tão vivas, já esbarrou nas questões que movem essa carreira.

Neste texto, você vai entender o que faz um neurocientista, onde ele trabalha e que formação faz sentido para cada objetivo.

Neurocientista em resumo

Pergunta Resposta curta
O que faz? Investiga o sistema nervoso e sua relação com comportamento, aprendizagem, emoções e saúde.
Precisa ser médico? Não. Há neurocientistas com formações de origem muito diferentes.
Qual faculdade fazer? Não há uma única. Biologia, Psicologia, Medicina e Computação são alguns pontos de partida.
Precisa de pós-graduação? Para seguir carreira científica, em geral, sim: mestrado e doutorado.
Onde trabalha? Universidades, institutos de pesquisa, hospitais, empresas e escolas, entre outros.

O que é um neurocientista?

Na prática, neurocientista é um cientista dedicado a investigar o sistema nervoso em diferentes escalas: das moléculas e células aos circuitos cerebrais, do comportamento individual às relações sociais.

É um campo interdisciplinar por natureza. Nele, biólogos, psicólogos, médicos, físicos, engenheiros, cientistas da computação e educadores dividem as mesmas perguntas.

Por isso, o que define um neurocientista é aquilo que ele estuda e a formação científica que recebeu, e não um diploma específico.

No Brasil, não há um conselho profissional próprio para a área. Em geral, o termo designa quem produz conhecimento sobre o cérebro, normalmente depois de mestrado e doutorado.

A neurocientista Ana Carolina Souza, no curso Introdução à Neurociência, explica sobre a importância de convocar a área para compreender o comportamento humano.

A interdisciplinaridade da neurociência nos permite transbordar esse conhecimento para outras áreas do saber. Teremos profissionais que estudam a neurociência a partir de uma perspectiva molecular e celular; também podemos ter profissionais que vão se dedicar a entender mais sistemas, ou seja, como funciona a sua visão e como as regiões do cérebro se ativam a partir da visão; e também existem profissionais que vão buscar entender a neurociência a partir do que chamamos de alta ordem, que são os comportamentos mais complexos, como emoção, atenção, empatia, e que vão demandar diferentes regiões do cérebro. Todas são formas de entender a neurociência

Ana Carolina Souza, Introdução à Neurociência

Se você está dando os primeiros passos, vale antes ler o artigo que explica o que é neurociência e entender como ela se organiza em diferentes níveis de análise.

O que faz um neurocientista na prática?

A carreira de um neurocientista vai muito além do jaleco e do microscópio.

Muitos neurocientistas passam boa parte do dia diante do computador, programando análises ou escrevendo. Outros dividem o tempo entre a pesquisa e a sala de aula.

Porém, de modo geral, a rotina de um neurocientista pode incluir:

  • Planejar e conduzir pesquisas, com experimentos em laboratório ou estudos com voluntários;
  • Analisar dados, de exames de imagem a registros da atividade elétrica do cérebro;
  • Ler e revisar estudos de outros grupos;
  • Escrever artigos, apresentar resultados em congressos e buscar financiamento;
  • Dar aulas, cursos e orientar estudantes;
  • Desenvolver tecnologias, como modelos computacionais e interfaces cérebro-máquina;
  • Aplicar o conhecimento em escolas, empresas, serviços de saúde e políticas públicas.

Um exemplo próximo do dia a dia: quem pesquisa memória e aprendizagem pode investigar por que revisar o conteúdo em dias espaçados costuma funcionar melhor do que virar a noite estudando antes da prova.

Outro exemplo: quem pesquisa sono pode investigar como a privação de sono afeta a atenção, a memória e a tomada de decisões e o que pode ajudar a reduzir esses efeitos.

Muito legal, né?

Neurocientistas observando o cérebro em um computador
Por trás de uma pergunta sobre o cérebro, existe alguém disposto a testar hipóteses, lidar com o que não sabe e descobrir que algumas respostas levam a perguntas ainda melhores. Fonte: Unsplash

Neurocientista é médico?

Não necessariamente. Médicos podem se tornar neurocientistas, mas não é preciso cursar Medicina para seguir a carreira.

A confusão tem uma origem curiosa. No Brasil, chamamos médicos de “doutor” por costume. No meio acadêmico, porém, doutor é quem concluiu um doutorado — e essa pessoa pode vir da Biologia, da Psicologia, da Física ou de outra área.

Um neurocientista com doutorado é doutor nesse sentido, sem ser médico.

Aspecto Neurocientista Neurologista ou psiquiatra
Formação Graduação em diferentes áreas e, em geral, mestrado e doutorado Medicina, seguida de especialização médica
Foco principal Produzir conhecimento sobre o sistema nervoso Diagnosticar e tratar pacientes
Pode atender pacientes? Só se a graduação de origem e o registro profissional permitirem Sim

Atender pacientes, fazer diagnósticos clínicos e indicar tratamentos são atividades regulamentadas. Elas dependem da graduação de origem e do registro no conselho profissional correspondente.

O exercício da Medicina, por exemplo, é regido por lei própria. Já a Psicologia exige inscrição no Conselho Regional de Psicologia.

Na prática, médicos e neurocientistas de outras formações costumam trabalhar lado a lado, sobretudo na pesquisa clínica.

Onde trabalha um neurocientista?

O campo de trabalho é amplo e varia conforme a formação e os interesses de cada pessoa.

Entre os principais espaços estão:

  • Universidades e institutos de pesquisa – o destino mais tradicional, que une investigação e ensino;
  • Hospitais e centros de pesquisa clínica, em estudos sobre doenças neurológicas e transtornos mentais;
  • Indústria farmacêutica e de biotecnologia, no desenvolvimento e no teste de novos tratamentos;
  • Empresas de tecnologia, em frentes como inteligência artificial e neurotecnologia;
  • Escolas e redes de ensino, na aplicação de pesquisas sobre aprendizagem;
  • Organizações em geral, em projetos sobre tomada de decisão, liderança e bem-estar no trabalho;
  • Divulgação científica, em livros, cursos, podcasts e na imprensa;
  • Gestão pública e terceiro setor, apoiando políticas de saúde e educação baseadas em evidências.

Boa parte da pesquisa científica do país acontece em universidades públicas.

Por isso, é comum que o neurocientista no Brasil combine a carreira acadêmica com ensino, consultoria ou divulgação.

Principais áreas de atuação da neurociência

A neurociência reúne diferentes campos de investigação, que vão dos processos microscópicos dentro dos neurônios às relações entre cérebro, comportamento e ambiente.

Algumas áreas se concentram no funcionamento do sistema nervoso; outras, em suas relações com a cognição, as emoções, a saúde ou a aprendizagem.

Área O que investiga Exemplo de pergunta
Molecular e celular Genes, proteínas e o funcionamento dos neurônios Como os neurônios se comunicam?
De sistemas Circuitos e redes cerebrais Como o cérebro coordena visão e movimento?
Cognitiva Atenção, memória, linguagem e decisão Por que nos distraímos com tanta facilidade?
Afetiva e comportamental Emoções, motivação e hábitos Como o estresse afeta nossas escolhas?
Clínica e translacional Doenças neurológicas e transtornos mentais Como detectar o Alzheimer mais cedo?
Computacional Modelos matemáticos do cérebro É possível simular um circuito de neurônios?
Educacional Ensino e aprendizagem Que estratégias de estudo favorecem a memória?

Um conceito atravessa quase todas essas áreas: a neuroplasticidade, isto é, a capacidade do cérebro de se modificar com a experiência.

Curiosidade:

No fim do século 19, o espanhol Santiago Ramón y Cajal, que receberia o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1906, já intuía essa ideia: “Todo homem pode ser, se assim se propuser, escultor de seu próprio cérebro”. Décadas depois, a ciência atual confirma que o cérebro muda de fato ao longo da vida. Essas mudanças, porém, têm limites e dependem de tempo, repetição e contexto.

Neurocientista olhando para um computador
O trabalho de um neurocientista não começa necessariamente com uma resposta. Muitas vezes, começa com uma boa pergunta — e com a disposição para persegui-la por anos. Fonte: Unsplash

Como ser neurocientista?

Não existe um caminho único para construir uma carreira em neurociência, mas a trajetória mais comum combina graduação, experiência em pesquisa e pós-graduação.

De forma geral, as etapas são:

  1. Escolher uma graduação que te permita se aprofundar nos seus principais questionamentos.
  2. Buscar iniciação científica ainda na faculdade, em um laboratório ou grupo de pesquisa.
  3. Fazer mestrado e doutorado em neurociência ou em uma área afim.
  4. Considerar o pós-doutorado, um estágio de pesquisa comum para quem segue a carreira acadêmica.
  5. Ampliar o repertório com estatística, programação, inglês e congressos, como os da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC).

Vê só: a trajetória de Ana Carolina Souza, professora da Casa do Saber, mostra que esse percurso nem sempre é linear.

Ela se graduou em Ciências Biológicas, fez mestrado em Química e doutorado em Ciências, todos na UFRJ. Depois, desenvolveu pesquisa de pós-doutorado em colaboração com o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Hoje, é sócia-fundadora da Nêmesis, empresa que aplica a neurociência comportamental ao mercado, e professora na ESPM, na FGV e na Fundação Dom Cabral.

Percebe? É um caminho possível entre muitos, e não um modelo obrigatório.

Qual faculdade fazer para ser neurocientista?

A melhor escolha depende do que você quer investigar e do tipo de trabalho que pretende exercer.

Algumas universidades já oferecem cursos específicos, como o Bacharelado em Neurociência da UFABC. Ainda assim, o caminho mais frequente passa por outras formações:

Graduação Como se aproxima da neurociência O que a graduação permite exercer
Ciências Biológicas Células, genética e fisiologia Atuação como biólogo, com registro no CRBio
Psicologia Comportamento, cognição e emoções Atuação como psicólogo, com registro no CRP
Medicina Neurologia, psiquiatria e pesquisa clínica Atendimento médico, com registro no CRM
Biomedicina Pesquisa e análises biomédicas Atuação como biomédico, com registro no CRBM
Farmácia Ação de medicamentos no sistema nervoso Atuação como farmacêutico, com registro no CRF
Pedagogia e licenciaturas Processos de aprendizagem Docência e coordenação pedagógica
Engenharias Sinais, equipamentos e neurotecnologia Atuação na engenharia de origem, com registro no Crea
Ciência da Computação Modelos, análise de dados e inteligência artificial Desenvolvimento de sistemas e análise de dados

Em resumo, a neurociência amplia o conhecimento, mas não muda a habilitação profissional.

Uma bióloga com doutorado em neurociência, por exemplo, não passa a atender pacientes como psicóloga ou médica.

É necessário fazer mestrado ou doutorado?

Para quem quer atuar como pesquisador, em geral, sim. A diferença entre os tipos de pós-graduação ajuda a entender o porquê.

Segundo a CAPES, a pós-graduação stricto sensu reúne mestrado e doutorado. Ela é voltada à pesquisa e à formação científica, e confere diploma e título de mestre ou doutor. O doutorado, em especial, atesta a capacidade de desenvolver pesquisas em uma área da ciência.

Já a pós lato sensu, que inclui especializações e MBAs, tem orientação mais prática e profissional.

Um bom exemplo de formação em neurociência nesse nível é o curso Neurociência Aplicada à Saúde Mental e Bem-Estar.

O curso apresenta fundamentos da neurociência e suas aplicações nessas áreas, aproximando conhecimentos científicos de questões presentes na prática profissional. É uma formação voltada a quem deseja ampliar seu repertório na área sem necessariamente ter como objetivo se tornar pesquisador.

Se o objetivo é aplicar esse conhecimento na profissão que você já exerce, uma especialização pode ser suficiente.

Que cursos ajudam a estudar neurociência?

Se você procura um curso para ser neurocientista ou quer saber como estudar neurociência, o primeiro passo é definir o objetivo.

Cada formato atende a uma necessidade diferente:

Cursos livres:

Indicados para quem quer ter um primeiro contato com a área ou aprofundar um tema específico.

Não exigem graduação e podem abordar assuntos como memória, aprendizagem, emoções e funcionamento do cérebro. Para uma primeira aproximação, os cursos de neurociência da Casa do Saber oferecem diferentes possibilidades.

Entre eles estão Introdução à Neurociência, Aprender a Aprender, Rumo a uma Mente Saudável e O Livre-Arbítrio Existe?.

Especialização (lato sensu):

Voltada para quem já tem uma graduação e quer incorporar conhecimentos de neurociência à própria atuação profissional.

Um exemplo é a Pós-graduação em Neurociência Aplicada à Saúde Mental e Bem-Estar, da Casa do Saber, coordenada por Ana Carolina Souza.

A formação aborda conceitos e aplicações da neurociência relacionados à saúde mental e ao bem-estar.

É importante lembrar que uma especialização em neurociência, por si só, não habilita ninguém a exercer Medicina, Psicologia ou qualquer outra profissão regulamentada.

Mestrado e doutorado (stricto sensu):

Indicados para quem pretende seguir uma trajetória de pesquisa e produzir conhecimento científico.

Essas formações envolvem investigação, orientação acadêmica e desenvolvimento de uma pesquisa própria, além de conferirem os títulos de mestre ou doutor.

Perguntas frequentes

Neurocientista precisa ser médico?

Não. Médicos podem seguir essa carreira, mas profissionais de Biologia, Psicologia, Computação e outras áreas também se tornam neurocientistas, em geral depois de mestrado e doutorado.

Qual faculdade devo fazer para me tornar neurocientista?

Não existe uma resposta única. Escolha a graduação mais próxima das perguntas que você quer investigar. E lembre-se: é ela que define quais atividades regulamentadas você poderá exercer.

Neurocientista pode atender pacientes?

Só se a graduação de origem permitir. Uma psicóloga neurocientista pode atender como psicóloga, e um médico, como médico. O título acadêmico, sozinho, não autoriza atendimento clínico.

Quanto tempo leva para se tornar neurocientista?

Depende do percurso. A graduação dura de quatro a seis anos. Depois, o mestrado costuma levar cerca de dois anos, e o doutorado, cerca de quatro. Somando tudo, o caminho costuma levar dez anos ou mais.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.